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É difícil editar poesia no Brasil, com
muitos analfabetos funcionais, raros
leitores e população de renda baixa. A
reedição de Que País É Este?, de
Affonso Romano de Sant’Anna escapa a esta
lógica do mercado editorial talvez por
resultar de uma moda gerada por interesses
do consumidor em potencial por algo que tem
conexão com seu cotidiano. Entre a primeira
edição e esta muita água passou por baixo da
ponte e, ao contrário do que constatou
Heráclito de Éfeso, parece continuar sendo o
mesmo rio a transportar matérias idênticas
às de 30 anos atrás.
O
poema que dá título ao livro e justifica sua
republicação foi escrito num contexto e sua
republicação agora se dá em outro, oposto só
na aparência. Em 1980, quando ele surgiu
numa página inteira do Jornal do Brasil, o
País vivia o refluxo da distensão
democrática lenta e gradual da ditadura
militar, bandeira da eminência parda do
ex-presidente Geisel, Golbery do Couto e
Silva. Sob Figueiredo, o regime parecia não
perceber, mas seus dias estavam contados
pela ação política dos exilados que voltaram
com a anistia ampla, geral e irrestrita do
ano anterior e com a descoberta da força
política dos trabalhadores manuais liderados
por um metalúrgico que adotou como sobrenome
o apelido Lula. A direita, inquieta com a
possibilidade de a esquerda tomar o poder,
matava inocentes em atentados e a
autoridade, perplexa, preferia pôr luvas em
suas mãos assassinas a ter de investigar e
punir seus delitos. Agora, não! Lula não é
mais um dirigente sindical, mas o político
mais habilidoso e o presidente mais poderoso
que o Brasil já teve desde o desembarque do
governador Tomé de Souza numa praia baiana.
E a volta por cima dos esquerdistas
extremistas derrotados na guerra suja contra
as Forças Armadas ameaça ocorrer sob a égide
de uma ex-guerrilheira tarefeira,
praticamente sem passado, com as bênçãos do
padrinho, um dos heróis da reconstrução da
democracia naquele tempo de trevas.
Para voltar a lume, o poema do erudito
mestre-escola fez uma caminhada árdua e
cheia de rampas de subida e descida e curvas
para ambas as direções. O hino da Nação
torturada virou melô da parcela da sociedade
civil emparedada pelos índices monumentais
de aceitação da nova democracia de massas,
em que o povão pôs as mãos no bastão e
resolveu não largá-lo, ainda que expondo a
velha democracia liberal aos riscos do
populismo sem freios e sem pejo. O texto
percorreu os meandros da rede mundial de
computadores e foi sucesso de leitura por se
queixar do “eterno retorno”, ou melhor, do
bis da velha história – a tragédia tornada
farsa – na leitura de Hegel, inspiração de
Marx. E se investiu de tons de protesto
contra a permanência do que só não volta
porque nunca foi.
A oportuna reedição do poema em voga e dos
outros que compõem a coletânea com que ele
galgou prateleiras põe definitivamente em
xeque essa lorota boa de “nunca antes na
História deste país”, refrão favorito do
líder grevista de 1980, que se tornou
padroeiro protetor da escória política que
sempre se beneficiou individualmente do
sacrifício da maioria. O sucesso merecido e
repetido dessa ode à permanência do Brasil
eterno e profundo por baixo da superfície
dos movimentos sociais, das ambições
políticas, das convicções ideológicas e das
conveniências partidárias deixa claro que o
verdadeiro lema deste Brasil não é o mote
lulista, mas o ancestral provérbio popular
que sempre rezou: “tudo como dantes no
quartel de Abrantes”. Culto exegeta das
formas poéticas e hábil manipulador de
mistérios e misérias da palavra, o poeta e
professor universitário mineiro transita
tanto no poema quanto no livro todo pelo
território ocupado pelo romântico Antônio
Frederico de Castro Alves no século 19. E
vai além, por ter aprendido com as próprias
desilusões que nem a praça pertence ao povo
nem há condores em nosso céu.
Não que Sant’Anna tenha abdicado da
ingenuidade, sem a qual a poesia fenece em
mesmice tola. Da geração que velou,
bestificada, a morte das ilusões depois do
golpe de 1964, ele mantém a dicção engajada
e, portanto, eivada de esperanças nos versos
que compõem uma obra indispensável para quem
quiser saber que País é este: não é o Brasil
de Figueiredo ou o de Lula, mas a Nação
geral de Minas e do Grão Pará, dos pampas e
das caatingas. A poesia de mestre não se
permite enganar por ideias nem se deixa
errar pelos desvios desvairados do lirismo
alienado. O livro fez sucesso no fim da
ditadura e hoje anima a esperança de quem
não quer entregar de graça o País à vingança
de ex-guerrilheiros derrotados manu militari
ou à cobiça sem limites de politiqueiros de
todos os partidos, todas as correntes e
todas as regiões por estar plantado em chão
seco, áspero e rochoso. Com cheiro de sol,
suor e cachaça, a poesia de que é feito traz
a permanência desta terra, na qual em se
plantando nem tudo dá, ao contrário do que
previu nosso primeiro redator e cartomante,
Pero Vaz. E a traduz na forma com que a
palavra a eterniza.
Esta eternidade não se conserva em gelo
estéril, mas na paixão ardente cuja chama
ilumina a compreensão do que se passa atrás
da cortina e além dos fatos. O poeta narra
recorrências, não ocorrências. Seu
protagonista não é o rebelde que ascendeu ao
topo do pódio, mas o estofo de que se fazem
frustrações, motivações e crenças da boa ou
má gente que forma o conjunto que chamamos
de pátria. O fogo fátuo da palavra reduz
casos e feitos ao mínimo denominador comum
da arte de decompor fatos e tratos, despidos
de conveniências e referências usadas
somente para disfarçar. Aqui o estro supera
o conhecimento e o talento do autor se
manifesta na descoberta da matéria que
resiste ao tempo, não por se ter
estratificado, mas por haver rasgado todas
as máscaras que precisou arrancar para se
manter intacta e nua. Este País de novo de
Sant’Anna é o de sempre. Por isso,
surpreende, comove e encanta.
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