|
Como você recebe este título de Cidadão
Paulistano? O que São Paulo representa
sentimentalmente para você?
Desde que eu morava no Rio de Janeiro e
vinha passar fins de semana em São Paulo, há
mais de 40 anos, curto a cidade. Depois, ela
se impregnou em meu organismo como parte
dele. Primeiro, aqui aprendi a profissão de
jornalista e desde 1º de junho de 1970
nela tenho trabalhado ininterruptamente:
Folha de S.Paulo, assessoria de
imprensa do prefeito José Carlos de
Figueiredo Ferraz, Sucursal do Jornal do
Brasil em São Paulo, Cineclick,
Somtrês, O Estado de S. Paulo,
TV Manchete, Rádio Jovem Pan,
Jornal da Tarde, SBT.
Nunca passei um dia desocupado nesta
Pauliceia Desfigurada da obra-prima do
poeta Mário Chamie, “comoção da vida” no
verso de outro Mário, o de Andrade. Sempre
me orgulhei de minha condição de sertanejo,
de uiraunense (que já contribuiu para São
Paulo com Luiza Erundina, ex-prefeita e
atual deputada federal pelo PSB) e de
campinense (sou também cidadão de Campina
Grande, com muito orgulho e alegria). Também
me orgulho muito de ser paulistano, porque
aqui nasceram meus filhos Vladimir, Clarice
e Cecília e meu neto Pedro. Aliás, sou
também um pouco lombardo, de vez que minhas
netas Stella e Anna nasceram e vivem em
Milão. O título concedido por unanimidade
pela Câmara Municipal, por propositura de
Quito Formiga (PR), é um honroso
reconhecimento do orgulho que sinto de
pertencer a esta cidade acolhedora e
hospitaleira.

Como São Paulo surgiu em sua vida?
Saí da Paraíba em 1969, aos 17 anos, e fui
morar no Rio de Janeiro para torcer pelo
Flamengo no Maracanã, ver a Mangueira
desfilar na avenida e cursar comunicação.
Mas um amigo de adolescência em Campina
Grande, o poeta e militante negro Arnaldo
França Xavier, me atraiu a viajar
constantemente para São Paulo, onde passou a
morar, depois de uma passagem por Brasília.
Em Brasília, ele tinha conhecido o poeta
Ézio Pires, que o recomendou a um amigo
chamado Eurícledes Formiga. Este era de São
João do Rio do Peixe, sede do município do
qual Uiraúna era distrito quando nasci, em
1951. Formiga chefiava o cartório da Justiça
Federal em São Paulo e me levou a Claudio
Abramo, diretor de redação da Folha. Claudio
me contratou na hora em que me recebeu no
dia 1º de junho de 1970. Tenho, portanto, 40
anos de São Paulo dos 59 de vida. A
metrópole me adotou e nunca mais me
abandonou.
Perante os resultados das eleições,
muitas mensagens de discriminação contra os
nordestinos foram postadas no twitter,
criticando a quantidade de votos na
candidata Dilma nesta região do país. Como
paraibano, qual sua visão deste fato?
Lamento muito que em pleno século 21 ainda
haja gente tão estúpida e preconceituosa.
Mas não vejo nisso grande importância.
Confesso que não dou muito grande
importância a este fato, apesar de
condená-lo com veemência. Essa gentalha não
é representativa da maioria do povo
brasileiro.
Você é a favor da punição criminal,
inclusive com prisão, das pessoas envolvidas
neste caso de preconceito pela internet?
Sim. Disse que não dou maior importância a
isso, mas acho que o melhor meio de combater
esse tipo de truculência é a punição na
Justiça. Todas as vítimas têm de recorrer
aos direitos constitucionais de exercer
livremente a cidadania com liberdade de
expressão, informação, opinião e culto. No
caso específico, o sagrado direito de ir e
vir. Essa canalha que se pronuncia de forma
preconceituosa tem de ser identificada pela
polícia e julgada pela justiça na forma da
lei. É para isso que existe o Estado de
Direito.
O brasileiro é preconceituoso?
A São Paulo que me adotou elegeu minha
conterrânea e amiga Luiza Erundina prefeita:
mesmo sendo nordestina, pobre e mulher,
ela derrotou nas urnas um paulistano
milionário, Paulo Maluf. O Brasil acaba de
eleger uma mulher de esquerda,
ex-guerrilheira, presidente da República.
Acho que não esses fatos não podem ser
relegados a segundo plano, pois são
verdadeiramente relevantes, já que põem em
destaque a fúria de uma minoria fascistoide.
Voltando a falar em Dilma. Qual a sua
percepção das eleições deste ano?
A eleição presidencial deste ano foi vencida
pela candidatura apresentada pelo presidente
Lula antes mesmo de a campanha começar. Ele
teve a percepção genial (é o mais hábil
político brasileiro desde que Tomé de Souza
desembarcou na Bahia) de que ninguém chega à
Presidência sozinho e construiu um complexo
e amplo arco de alianças. Vendeu o governo
de sua sucessora a todo tipo de canalha da
rafameia da política brasileira, mas
garantiu o comando da máquina pública à
“companheirada” do PT. Enquanto isso, a
oposição alienada e de sapato alto imaginou
equivocadamente que poderia ganhar a disputa
no debate e na propaganda politica. Lula
tinha um cacife de popularidade inusitado na
história do País e só comparável a momentos
históricos mundiais como o da Alemanha
nazista e da Itália fascista. É preciso
reconhecer que ele soube muito bem se
aproveitar disso para manter sua turma no
poder. Para tanto, passou por cima da lei
eleitoral, cuspiu no direito à igualdade de
oportunidades e desprezou sem cerimônia
alguma os benefícios do rodízio no poder
numa democracia de verdade. Além disso, a
campanha do PT no horário gratuito do rádio
e da televisão foi muito melhor do que a dos
oponentes, principalmente José Serra, que
perdeu porque pensou que poderia chegar
sozinho à Presidência, sem dever favores a
ninguém. Alienados e pretensiosos, os
tucanos pensaram que Serra massacraria Dilma
nos debates e o candidato passou longe
disso. Diante de tudo isso, foi um milagre
que este tenha sido votado por 44 milhões de
brasileiros, um sinal de que, apesar da
enorme popularidade de Lula, que não será
transferida para Dilma no governo, a não ser
que ela supere todas as expectativas,
inclusive as minhas, o Brasil continua
irremediavelmente dividido. Divisão, aliás,
que Lula explorou para derrotar os
adversários.
Está otimista com o futuro do país?
Não, de jeito nenhum. O Estado brasileiro
continua estroina e truculento, cada vez
mais. E a sociedade está dividida. O Brasil
melhorou muito de Fernando Henrique para cá
e Lula também contribuiu para isso. Mas o
desempenho brasileiro continua bem distante
do obtido pelo resto do mundo. A desvantagem
só será superada quando esta divisão acabar
e não vejo no horizonte nada que indique a
perspectiva desta boa notícia. Lula dividiu
para ganhar. O País continuará pagando esta
conta pesada por causa disso. Eu só espero
que Dilma cumpra o que prometeu em seu
discurso de agradecimento da vitória.
Imprimi o texto, o carrego no bolso e
cobrarei cada item que for desmentido pela
prática do governo.
E em sua vida de escritor? Quais os
lançamentos que estão sendo preparados?
Nesta semana pós-eleitoral, entreguei a meu
editor, José Mário Pereira, da Topbooks, do
Rio, os originais do livro O que sei de
Lula. Espero que ele cumpra a promessa
de lançá-lo com Lula ainda presidente por
dois motivos. Um é que não quero que digam
por aí que só escrevi o que escrevi porque o
protagonista do livro não tinha mais poder
para retrucar. O segundo é que acredito que
dificilmente Dilma negará o traço
fundamental do gênero humano pelo qual a
criatura sempre trai o criador e, portanto,
é provável que em 2 de janeiro de 2011 Lula
já não venha mais a despertar a atenção e o
interesse que desperta agora.
Como poeta, você acredita que o
brasileiro é um bom produtor e consumidor
deste gênero literário?
Poesia é um gênero marginal e quase
clandestino no mercado literário brasileiro.
Nem tinha como ser diferente. Afinal, de
contas, este ainda é um país de muitos
analfabetos e muitos mais ainda analfabetos
funcionais.
Você conhece o Interior paulista?
Viajei muito pelo interior paulista nos 30
anos finais do século 20. Banhei-me nas
águas que murmuram na lagoa de Cravinhos;
tomei chope no Pinguim em Ribeirão Preto;
visitei os canaviais de Barão Geraldo antes
de meu amigo Zeferino Vaz lá construir o
campus da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp); vi o Partido dos
Trabalhadores (PT) ser gerado em Lins;
acompanhei meu professor de jornalismo JB
Lemos comprando passarinhos em Boituva;
rezei na basílica em Aparecida do Norte; fiz
refeições em churrascarias à margem da Via
Dutra viajando para São José dos Campos;
frequentei a casa do publicitário Francesc
Petit (o P da DPZ) em Santana do Paranaíba;
comi peixe à beira do rio em Piracicaba;
visitei (na companhia de Jimmy Carter,
imagine) o cemitério dos confederados em
Santa Bárbara do Oeste; deliciei-me com o
pudim de clara da fazenda de café de meu
amigo Zuza Homem de Melo em Avaré; fiz
palestra em São Pedro; tomei Brahma de
Agudos em Bauru; visitei usinas de álcool em
Sertãozinho; cobri reuniões de bispos em
Itaici. E sempre adorei transitar pelas
ótimas estradas do interior paulista.
Ultimamente tenho ficado preso em São Paulo,
mas tenho saudade dessas andanças.
Que visão tem da vida nas pequenas e
médias cidades do Estado?
O interior de São Paulo é o melhor exemplo
de primeiro mundo que há no Brasil. Quem
fala isso é um sertanejo nordestino que veio
do semi-árido. O Brasil é meu sertão e o
interior de vocês, tudo junto. Sem
preconceito.
A Folha da Região tem sua sede em Araçatuba
e circula em 42 cidades da região. Vai até a
divisa com o Mato Grosso do Sul, tendo a
Marechal Rondon (e todos aos seus pedágios)
como eixo. Faz parte da APJ (Associação
Paulista de Jornais) e para ela Jean
Oliveira desenvolve o projeto Bate-papo
Cultural, com entrevistas especiais, como
esta.
.
|