Um decreto, uma justiça:
“A Câmara Municipal de
São Paulo decreta:
‘Dispõe sobre a outorga
de título de cidadão
paulistano’ ao
jornalista, poeta e
escritor José Nêumanne
Pinto, e dá outras
providências. Art. 1º
Fica concedido o “Título
de Cidadão Paulistano”
ao jornalista, poeta e
escritor José Nêumanne
Pinto. Art. 2º A
honraria será conferida
em Sessão Solene, a ser
convocada pelo
Presidente da Câmara
Municipal de São Paulo,
especialmente para esse
fim. Art. 3º As despesas
decorrentes da execução
deste decreto
legislativo correrão por
conta das dotações
orçamentárias próprias,
suplementadas se
necessário. Art. 4º Este
decreto legislativo
entra em vigor na data
de sua publicação,
revogadas as disposições
em contrário.”
O legislativo da capital paulista não tem se notabilizado, em especial nos últimos tempos, por iniciativas que lhe carreiem respeito e admiração. Mas vez ou outra ele se redime e atribui a quem de direito o título maior da cidadania. É o caso de José Nêumanne Pinto. A primeira faceta daquele homem público é sua coragem para enfrentar poderosos de todos os quilates e de todas as cores políticas ou ideológicas. Nos dois mandatos que agora se finalizam (será otimismo em demasia? Vejamos as falas do presidente sinalizando intervenções que poderão quebrar a unidade de comando no país) uma voz de perene crítica, em estilo contundente e justo, era a do premiado agora pela Câmara de Vereadores. Ao contrário de muitos colegas seus, travestidos sob o manto da “objetividade”, mas partidários dos palácios, Nêumanne disse clara e distintamente, sem mascar as palavras, tudo o que era preciso enunciar sobre os delírios de grandeza, os desrespeitos à lei, a demagogia sem freios do mais popular dentre os Chefes de Estado dos últimos tempos. Com desassombro que vem de suas origens, o jornalista não teve receio algum de suscitar os ódios dos fanáticos, a hipocrisia dos bajuladores, a leniência dos covardes. Exerceu o papel de vigilância ética como poucos.
Além do traço assinalado, sua pena (desde longa data) inventa belezas e pensamentos e os coloca ao dispor de uma gente que se desacostumou aos exercícios de estilo e imaginação, para não dizer fantasia. Seu trabalho poético é feito segundo os preceitos mais sólidos da cultura ocidental. Nele, vemos o quanto é estratégico o mandamento de um escritor, marco de nosso tempo: “A poesia é exigência; o resto, palavrório”. (Saint-John Perse: “La poésie est exigence; le reste, verbiage”). Nos escritos jornalísticos de Nêumanne Pinto encontramos o estilo exigido pelo grande prêmio Nobel de literatura: frase sem penduricalhos que vai, direto, à inteligência do leitor. Nas poesias, ele exibe, de modo soberbo “que a linguagem é um ente sagrado, um caminho melódico” (Pierre Bertaux, em belíssima biografia de Hölderlin). Às vezes o poeta encanta, em outras ocasiões apunhalha (ou lanceta) as almas embrutecidas. Nêumanne, na prosa e nos versos cumpre um papel único no Brasil de hoje: com muita crueza, espanca a hipocrisia e o bom-mocismo do nosso homem “comum” e das elites, sejam elas intelectuais ou econômicas, para não falar das políticas. Estas, mesmo com muita caridade, dificilmente merecem o nome de “elite”.
Todos os pontos
relacionados, que marcam
a “persona” de José
Nêumanne Pinto, recordam
que, em tempos obscuros,
o brilho da escrita
(quando o nome é
merecido, como no caso)
irrita a massa dos que
preferem seguir o
andamento dos rebanhos.
Polêmico, o nosso
jornalista/poeta/romancista
levanta ódios e apoios.
Sempre que o leio,
recordo o dito de
Diógenes: “quando a
multidão me aplaude com
unanimidade, alguma
bobagem eu falei”. E
ficamos assim: a Câmara
dos Vereadores, com seu
gesto altaneiro, ao
conceder o título de
Cidadão ao grande homem,
perde algum peso na
balança de seus
malefícios. Parabéns,
Nêumanne, parabéns povo
de São Paulo!




