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A boa literatura seduz, a ótima literatura
surpreende. A literatura excelente encanta,
a literatura genial espanta. O que
faz
de Dalton Trevisan o mito que representa não
é sua ojeriza à exibição pública, mas seu
estilo fulminante, que expõe as misérias
humanas com frieza cruel. Sua postura
esquiva contraria a caça aflita por fama ou
êxito comercial no mercado dos livros.
Devassar a intimidade da alma de um gênio
misterioso como ele é o paraíso dos
aspirantes à fortuna crítica. E conviver com
ele, a excelsa glória.
Miguel Sanches Neto, paranaense de Bela
Vista do Paraíso, penetrou no Éden do
Vampiro de Curitiba graças ao talento inato
para manejar palavras e à capacidade de
fazer amigos e influenciar pessoas. Depois,
se viu expelido do jardim das delícias do
convívio com o ídolo, a exemplo do que
houvera ocorrido antes com outros. Nada
demais! A exclusão compulsória da revelação
dos mistérios do gênio esquivo já tinha sido
amargada até por um parceiro de juventude:
Wilson Martins. Do céu dos eleitos ao limbo
dos rejeitados a caminhada é dolorosa e o
trajeto, árduo. O celebrado crítico,
batizado no roman à clef de Sanches
de Valter Marcondes, desceria do pedestal de
historiador da inteligência nacional para
cutucar o gênio da prosa breve com a vara
curta da irreverência, atingindo-o no ponto
nevrálgico da auto-estima: o contista
inovador de outrora passou a ser hoje um
mestre do passado.
Quem negará, pois, a Sanches, ficcionista de
obra pregressa aclamada, o direito de expor
pecados e mazelas do esquisitão da narrativa
curta? Será acusado de cuspir no prato em
que comeu a coalhada da Confeitaria Shaffer?
Dir-se-á que se serviu do sangue vertido nos
textos do Vampiro para dele extrair a verve,
numa versão paranaense contemporânea da
antropofagia dos indígenas comedores de
gente, celebrada na metáfora de Oswald de
Andrade? E daí?
Veneno nunca fez mal à boa literatura. Nem
piora a melhor. Quem condenará a intenção de
engolir e vomitar a glória do ídolo em
queda? A questão que fica no ar é: o que há
de verdadeiro na realidade que o autor de
Chá das cinco com o vampiro anunciou
entregar ao leitor ávido para invadir a
reclusão a que Dalton se condenou (ou em que
se salvou da mesmice)? Ela chega
enfraquecida pela inverossimilhança, inimiga
figadal de ficcionistas: “Esconder a
intimidade mais ou menos medíocre fez com
que sua biografia crescesse.” Que história é
essa? Retire-se o gênio literário de Dalton
Trevisan, chamado de Geraldo Trentini no
romance de Sanches, e o que restará de suas
rabugices? Nada!
Outro problema da tentativa de reduzir ao
mínimo divisor comum o medíocre
provincianismo do Olimpo em que intelectuais
pensam viver encarapitados é encontrar para
tanto uma causa útil. Que proveito terá o
leitor arguto do melhor da obra do
misterioso minimalista ao saber que ele
assedia moçoilas incautas? Ou que o contista
paga a observadores que podem gozar do
anonimato que lhe é negado para injetarem
sangue fresco de vida real na obra do
Vampiro e, assim, a livrarem do perigo da
anemia letal?
Mais que o ranço do ressentimento instilado
ao longo de uma narrativa conduzida de forma
competente por um artesão consciente de seus
dotes e caprichos, ressalta do acerto de
contas do discípulo com o mestre o prazer
sentido por Eva ao ver Adão morder a maçã
oferecida pela serpente: o gosto do furto da
glória exclusiva. “Todo leitor é um ladrão”,
justifica Sanches. Isso o inocentará da
tentativa de roubar do outro não o deleite
do texto de bom feitio, mas o sabor do fruto
da fortuna crítica? E de sua fama?
Ao convencer um ficcionista célebre como
Dalton Trevisan, José Rubem Fonseca, a
participar do lançamento exibicionista de
seu romance Gonzos e parafusos na
Livraria da Vila, em São Paulo, a carioca
Paula Parisot tentou alcançar a própria
excelência literária apropriando-se da
competência do padrinho. A empreitada
assemelha-se à de Sanches, mas com uma
diferença abissal: o que nele é texto de
qualidade nela é patética pretensão.
Ao
se propor a viver uma semana numa livraria
fantasiada de Baronesa Elisabeth
Bachofen-Echt, personagem de um quadro de
Klimt e um dos alter egos da romancista no
livro, contando com a cumplicidade de um
mestre das letras, ela tentou iluminar seu
texto fraco com o brilho autoral dele. Sem
levar em conta o ônus da responsabilidade
que sua habilidade de literato cobra em seu
comportamento em público, o criador de
Mandrake se deixou levar pelo devaneio
inviável de transferir o próprio valor para
algo sem valia.
Trata-se de um delírio de vaidade extremada,
que, se nada retira dos méritos do prosador,
nada também acrescenta aos escassos
merecimentos da prosa de sua prosélita. Se a
moça houvesse ficado em casa exercitando a
escrita, talvez se habilitasse a produzir
algo de melhor qualidade na próxima vez.
Recolhido às páginas de sua obra celebrada
com justiça, Fonseca daria aos fãs leais a
chance de relevar a revelação recente de que
ele tentou apagar da própria biografia sua
participação no Ipes, instituto financiado
por empresários para combater o governo João
Goulart, depois do golpe militar de 1964.

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