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Só pode ser mesmo o princípio de uma grande
fabulação nascer num lugar que se diz ser
rio, mas não tem água, e do peixe, num leito
seco de areia fofa com algumas cacimbas de
exceção. Foi dali que vim vindo: o rio é um
riacho seco e peixe havia, sim, mas, além de
não ser abundante, só dava nos açudes: o
Açudinho perto da casa de minha bisavó, Mãe
Inda, ou o Açude das Areias, mais areia que
açudes.
Ali perto, no arruado, o povoado, distrito
de Antenor Navarro, quando nasci (1951),
dois anos depois (1953) sede de município.
Belém do Arrojado virou Canaã e finalmente
Uiraúna, berço de padres e músicos. Entre os
sacerdotes destacaram-se Padre França, o
fundador; monsenhor Manoel Vieira, o orador,
o gestor, o político, o magnífico orador
sacro; cônego Oriel, o pároco de Pombal,
terra do grande economista Celso Furtado;
cônego Luiz Gualberto, o educador; cônego
Anacleto, o pastor do rebanho local; padre
Gervásio, o catequizador; e padre Domingos
Cleide Galiza, o profeta heroico que
enfrenta as obviedades ululantes
transformadas em falsas promessas para
enganar o pobre sertanejo, caso da
transposição fantasiosa das águas do São
Francisco. Rio do Peixe: sem água e sem
peixe. Rio São Francisco: a miragem
desértica da água de beber na saliva
gananciosa dos políticos oportunistas.
Ah, terra também de músicos! Todos os filhos
do Capitão Israel Silveira – Manuel Israel,
César, Expedito, Elzinho e Dedé, o maestro
que ficou para garantir a tradição do sangue
harmônico regendo a banda de Jesus, Maria e
José nas marchas de alvorada e retretas –
tocavam e tocam praticamente todos os
instrumentos à mão. Uma das cenas mais
impressionantes de toda a minha vida foi ver
o notável notário Manuel Israel copiar as
pautas musicais dos sucessos carnavalescos
para mandar para seu irmão Dedé, que, além
de mestre da banda, era regente da orquestra
carnavalesca que fazia furor nos bailes de
Momo no sertão. Aquilo para mim era um
enigma. Pois eu mesmo não seria capaz de
copiar o texto de um discurso enquanto o
orador falava, pois não dominava os
mistérios da taquigrafia.
E eles não foram os únicos. Ariosvaldo
Fernandes notabilizou-se como profícuo
professor de uma geração de instrumentistas
de talento, caso de meu colega de classe
Eudinho de Amâncio, que seria, depois,
harpista da celebrada Banda do Corpo de
Bombeiros do Rio de Janeiro e autor da
canção Lágrimas de um jumento apaixonado.
E também de Raimundo de Maria Alice,
baterista dos melhores grupos de cover
de rock do interior paraibano. Antes deles
ainda brilhou Zé de Milta ao saxofone. Até
hoje me lembro de sua execução magnífica de
Saxofone, por que choras?, de Ratinho,
paraibano de Pilar e membro da dupla de
impagáveis humoristas da Rádio Nacional do
Rio de Janeiro junto com Jararaca. E, da
mesma forma, o talentoso trompetista
Constantino de Acácio. Meu pai, Anchieta
Pinto, foi pistonista à mesma época e se
destacava pela potência e pelo fôlego, mas
nem tanto pela musicalidade do sopro.
Hoje, alguns anos depois de a praga do
bicudo haver dizimado os algodoais de que se
sustentava, Uiraúna se dá ao luxo de
produzir na escassez empreendedores. Alguns
dos maiores e mais respeitáveis comerciantes
do Brasil nasceram em meu pequeno e ermo
burgo sertanejo. Foi-se o tempo em que Camau
estendia a rede no meio de sua bodega e
berrava a qualquer freguês ousado que
insistisse em lhe interromper a sesta:
- Se quiser açúcar, vá procurar em Chico
Queiroga. Minha bodega não é a única da
cidade que tem açúcar, ora!
A geração de Antônio Queiroga e seus filhos,
entre os quais o citado Chico, seu Neném
Barbosa, Chico Euclides, Zé de Ló, Raimundo
Daniel, Manoel Molico e outros pioneiros foi
sucedida pelos descendentes de um de seus
mais bem-sucedidos membros, Joca Claudino.
Lembro-me do sucesso que fazia seu Armazém
do Povo. Esse êxito viria a ser multiplicado
pela filha Nicéa, proprietária dos Armazéns
Parahyba e maior contribuinte de nosso
Estado. E, sobretudo, por seus irmãos João e
Valdecir, donos de uma plêiade de empresas
nos Estados de Maranhão, Piauí, Pará e São
Paulo. Nas pegadas dessa família de
comerciantes prósperos também levanta a
poeira um empresário que começou como guia
de cego em Uiraúna, vindo da Santarém do
deputado Wilson Santiago (PMDB), e que
passou por Cajazeiras (como os Claudino)
para fazer de seu Atacadão do Rio do Peixe
outra potência comercial do sertão para o
mundo.
Ao lado do clã dos Claudino, José Gonzaga
Sobrinho é um exemplo da Uiraúna berço de
brasileiros excepcionais como a deputada
federal (PSB-SP) Luiza Erundina, ex-prefeita
de São Paulo e orgulho de todos os
uiraunenses por ser um raro exemplo de
político profissional que não se serve do
público, mas ao público serve. Ao dar lições
de honestidade patrimonial e intelectual,
Erundina, assim como os Claudino e Deca,
prova que a escassez de bens e as
intempéries da natureza não limitam a
capacidade de idealizar, planejar e executar
do ser humano. Eles realizam o milagre da
multiplicação dos peixes sem rio,
que
vivem no território imaginário sem limites
do sonho, da tenacidade e da capacidade
humanas.
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