- Por que o senhor resolveu
escrever um livro desmistificando o
ex-presidente Lula?
- O Lula é a maior prova da força, da
pujança e da sobrevivência do
capitalismo, porque nenhum outro regime
teria como presidente um retirante,
miserável, do interior do sertão
semi-árido de Pernambuco, que
transformasse o país em uma das maiores
economias políticas do mundo, e também o
maior líder político do mundo, o que
mais atrai a atenção dos outros países,
e um presidente que terminou o seu
segundo mandato com 80% de aprovação!...
- O Lula é um líder, ou chegou
na hora certa?
- É inexistente, em qualquer outro tipo
de regime, uma pessoa como ele - apenas
no capitalismo. Lula foi o mais
importante político do Brasil de todos
os tempos, porque conseguiu algumas
coisas impossíveis, como por exemplo,
unir a esquerda em torno dele, que
sempre foi conservador, com a proeza de
unir em torno de um programa de governo
de esquerda, em troca de verbas
orçamentárias, a escória da política
brasileira... Tornou assim possível,
viável, um governo de esquerda, que em
condições anteriores, sempre faliu
diante da resistência da direita
conservadora.
- Afinal, é líder ou um fenômeno
político?
- O Lula é um fenômeno político e,
também, é um fenômeno pessoal. Isso é
que deve explicar o seu sucesso, o fato
de ele ser o líder político mais
importante do Brasil. Afirmo isso até
como elogio, porque eu não considero ser
um bom político, um elogio no Brasil,
porque, geralmente, são pessoas que não
têm nenhum escrúpulo para atingir o seu
objetivo - que é estar no poder,
conquistar e ficar nele. Essa condição
do Lula depende, basicamente, da sua
humanidade e não da sua mitologia.
- Consta em Brasília que ele
ficou deslumbrado com o poder. O senhor
concorda?
- Todos ficam deslumbrados com o poder.
Ninguém está preparado para o poder e
nem para a fama!... O Lula é um fenômeno
muito interessante exatamente por ter
vindo de tão baixo, e ter ido tão alto,
e agir sempre com muita naturalidade com
esse poder que ele conquistou ao longo
dos anos. O Lula deve esse poder a
virtudes fundamentais nele. Uma delas é
a capacidade de comunicação. Nunca antes
na história desse país o povo conduziu
ao cargo máximo de poder um
representante autêntico, que sempre foi
um intermediário, um bacharel, de
preferência. O líder político mais
importante do Brasil, sem dúvida
nenhuma, foi Fernando Henrique Cardoso,
porque fez uma revolução social com o
Plano Real. Mas, para fazer justiça, ele
e os seus companheiros deixaram o plano
de estabilidade da economia na gaveta, e
o Lula se aproveitou do seu plano
econômico.
- O que aconteceu?
- Lula conquistou uma popularidade - e
não apenas isso - e com isso execrou e
demonizou FHC, pela obra que ele
considerou herança maldita, que, na
verdade, foi o verdadeiro sucesso dele.
Mas, sem muita culpa do Lula, porque os
principais responsáveis pelo isolamento
e o ostracismo do Fernando Henrique
foram os seus próprios companheiros
tucanos - sem falar nele mesmo - porque
nenhum deles tem a noção do que fizeram
para o povo, e não tem como comunicar
isso ao povo, por falta do mínimo de
talento de comunicação.
- Ele perdeu ou não o capital
ético que tinha no passado, antes do
poder?
- Não é novidade no Brasil que se roube
no governo, e também não é novidade que
se use o moralismo como forma de se
chegar ao poder. Antes do PT, Fernando
Collor já fez isso, Jânio Quadros
também, mas todos deram com os burros
n’água. A diferença do PT é que ele
permaneceu, então, com o capital ético
do PT. A verdadeira conquista do Lula,
que é a conquista do poder em si, foi a
possibilidade de nomear uma sucessora,
sem a menor condição de ganhar a
eleição. Tudo isso supera qualquer
capital ético que eles possam ter. Na
verdade, o capital ético, seja do PT,
seja do Jânio Quadros, ou do Collor, é
uma tentativa hipócrita de enganar
trouxa. Não há capital ético, e sempre
que se apelou para o moralismo, com
raras exceções, o povo não entrou nessa,
porque o próprio povo não é ético.
- Como explicar o surgimento
desse fenômeno político?
- Eu demonstro no meu livro que o Lula é
a expressão exata do cidadão brasileiro
comum, ignorante, arrogante, e que gosta
muito de ser ignorante, de levar
vantagem em tudo, para se dar bem. O
Lula, na verdade, é um Macunaíma, um
herói sem nenhum caráter, e acrescento
um pejorativo à palavra “sem nenhum
caráter”, no sentido que o Mário de
Andrade quis dar ao seu herói. Um herói
que não tem uma convicção firme de nada,
aquilo que ele se chama mesmo, o próprio
Lula se denomina uma metamorfose
ambulante. Talvez essa seja a melhor
definição antropológica do herói
Macunaíma e dos seus representantes
vivos, entre os quais, o Lula.
- Voltando ao capital ético...
- (antes de completar a
pergunta, Nêumanne vai logo
respondendo).
- O capital ético que o PT teve é uma
farsa, é um engodo, que vários partidos
políticos já tiveram antes e, o
principal deles, a UDN, que deu com os
burros n’água. Essa história de capital
ético não tem nenhum sucesso eleitoral.
Sempre alertei para o que circula na
internet, notícias que os filhos do Lula
estão ficando ricos, mas o eleitor comum
acha uma grande virtude dele, porque ele
é um excelente pai... (risos).
- Quais foram os erros dele
durante o primeiro governo e o segundo?
- A biografia do Lula é uma sucessão de
erros que deram certo. Eu conto, para a
grande surpresa de alguns leitores, que
o Lula era visceralmente contra um apoio
à volta dos exilados aqui. Um general
cobrou apoio, mandou Claudio Lemos
procurá-lo, para conseguir o apoio dele,
e ele não deu. Mas 27, 28 anos depois,
colocou esses exilados todos no governo,
ao lado dele. Também afirmava que
Tancredo Neves e Paulo Maluf eram
farinha do mesmo saco, o que é um
absurdo sob qualquer ponto de vista.
Puniu os seus colegas petistas, que
votaram no colégio eleitoral do
Tancredo, em uma decisão absurda, mas,
no entanto, o Lula superou o Tancredo em
matéria de conciliação, porque o
Tancredo fez uma ampla conciliação
quando venceu a eleição e se deixou
fotografar ao lado da escória da
política brasileira...
- Quais?
- O Severino Cavalcante, o Jader
Barbalho, abençoando-os. Inclusive criei
uma expressão que o nomeou como
“Perdoador Geral da República”. Agora,
essa condição o Lula já tinha utilizado
antes, quando ele uniu as facções
sindicais com seu enorme poder de
conciliação no Bar da Tia Rosa, lá em
São Bernardo do Campo. Foi essa mesma
saliva do bar, misturada sempre com um
pouco de álcool, que ele utilizou para
conciliar a esquerda, quando fundou o
PT. Ninguém deve se esquecer de que
quando Lula fundou o PT, a esquerda
brasileira só conseguia se juntar nas
celas das cadeias. Mas o Lula conseguiu
juntá-los fora das celas e usá-los,
quando a esquerda achasse necessário. O
José Dirceu não confessa isso, mas
achava que o Lula seria o instrumento de
sua chegada ao poder. Mas, na verdade, o
Zé Dirceu é que foi o instrumento de
organização que o Lula utilizou,
primeiro para controlar o partido e,
depois governar o país com uma qualidade
absurda, que reúne hoje, de uma ponta a
outra, da extrema esquerda até o
Fernando Collor de Mello, que execrava o
Lula e o Lula o execrava...
- Por que não voltar aos erros
do Lula...
- Bom, voltando ao relatório dos erros
do Lula, o maior deles foi quando o
Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano
Real e ele e o PT foram contra. Oito
anos depois, não teve nenhum pudor ao
usar as conquistas decorrentes do Plano.
O que caracteriza o Lula não é o erro,
errar, todos erram, os romanos já
diziam, ‘errar é humano’. O que
diferencia o Lula de nós, pobres
mortais, é que ele tem uma enorme
capacidade de capitalizar, utilizar, e
usufruir dos erros que cometeu. O Lula é
uma sucessão permanente de erros que
sempre terminam dando certo para ele.
- Por exemplo.
- A Dilma Rousseff pode ter sido o
grande erro, mas está começando a dar
certo para ele, e não verei nenhuma
surpresa se ele for carregado nos braços
do povo em 2014 para assumir o lugar
dela...
- No começo do primeiro governo
o presidente Lula afirmou que levaria a
elite a abaixar a cabeça. Isso foi uma
demonstração de prepotência dele?
- Tem que ver como o Lula usa essa
palavra. O que ela significa no
dicionário, o que significa na cabeça
dele... Na verdade, não existe nem a
palavra elite, porque a palavra que
existe na cabeça dele é “zelites”.
“Zelites” é uma coisa claramente
definida como qualquer adversário dele e
de seus cúmplices que estão no poder. O
Lula submeteu as elites, as fez
abaixarem a cabeça, e não é prepotência,
mas verdade mesmo. Nunca, nem na
ditadura militar, nem na época do
Milagre Brasileiro, a oposição foi tão
ruim, tão impotente e tão incompetente
quanto nos dois governos Lula, e nos
primeiros oito meses do governo Dilma.
Ou seja, ele conseguiu realmente fazer
com que as “zelites”, os inimigos dele,
abaixassem a cabeça. Conseguiu que o Mão
Santa não se reelegesse, assim como
Marco Maciel. Pode ser que a qualidade
da política brasileira tenha perdido
bastante, mas ele marcou no seu revólver
de pistoleiro todas essas baixas como
conquistas.
- Nunca no Brasil os bancos
tiveram tanto lucro quanto no governo
dele. Como o senhor vê isso?
- Essa é a prova da genialidade do Lula
como estrategista!
- O que ele fez, então?
- Encheu o cofre dos bancos de dinheiro
e colocou proteína na mesa do
trabalhador. Liberando dinheiro aos
banqueiros, como nem Fernando Henrique,
que sempre foi um puxa-saco de
banqueiros, fez, o Lula impediu que os
principais capitalistas do Brasil
financiassem as campanhas de seus
inimigos. Colocando proteína na mesa do
trabalhador, ele conseguiu a sua eleição
e de quem ele quis, como demonstrou no
caso de Dilma Rousseff. Ele fez uma
espécie de sanduíche, no qual a classe
média se sentiu oprimida, diminuída,
perdendo completamente o seu poder, e
também a sua capacidade de competir no
Brasil. Hoje, o Brasil é um país
controlado pelos plutocratas e pelos
líderes populares, principalmente
líderes sindicais, todos eles em torno
do padrinho Lula...
- O mensalão passou, mas uma
pergunta que não quer calar: o
presidente deixou rolar... Ou não?
- Claro que deixou rolar! Eu falei outro
dia que ele é o “Perdoador Geral da
República”, simplesmente porque utilizou
velhos bordões latinos para justificar a
completa desfaçatez. Na dúvida, a favor
do réu, desde que o réu seja meu. O réu
inimigo passou a ser perseguido pelos
aparelhos policiais do Estado. Não foi
mentira a tentativa de transformar a
Polícia Federal em uma polícia
republicana, um órgão de perseguição de
adversários políticos manobrados por
grupos que a controlam, entre os quais o
grupo do Lula, mas não apenas ele...
- Ele usou a PF como braço do
poder?
- Sim, o Lula no poder estabeleceu um
pacto com a Polícia Federal para que ela
se transformasse em um braço de poder,
mas um braço de poder através da
intimidação, através da gravação de
telefonemas bloqueados, com ou sem a
autorização de um juiz, o verdadeiro
estabelecimento de um Estado de força e
de uma política mafiosa, aos quais
sucumbiram, inclusive, companheiros
recalcitrantes.
- Como?
- É o caso de Antonio da Costa Santos,
que ficou conhecido como “Toninho do
PT”, de Celso Daniel e do único
sobrevivente, Paulo de Tasso Venceslau,
que foi expulso do PT porque denunciou
falcatruas em prefeituras petistas.
Acrescento que o Paulo de Tasso não foi
premiado com a vida. O PT, ou seja, quem
for, mandou matá-lo duas vezes, mas ele
sobreviveu a dois atentados na Rodovia
do Trabalhador, depois de ter denunciado
mal feitos do PT, confirmados por uma
comissão formada pelo atual ministro da
Justiça, José Eduardo Cardozo, e também
pelo professor Paulo Singer e o promotor
Hélio Bicudo.
- O que fez o Hélio Bicudo?
- O promotor Hélio Bicudo brigou com o
PT por ter batido com a língua nos
dentes, revelando também que essa
comissão aprovou as denúncias de Paulo
de Tasso. Mas o Lula jogou as denúncias
no lixo, o José Eduardo Martins Cardozo
preferiu prosseguir com a nomenclatura
petista, Paulo Singer se escondeu e a
palavra do Hélio Bicudo foi
desconsiderada, porque ficou inimigo do
PT...
- O senhor que conhece bem o
presidente Lula pode responder ou não.
Afinal, ele ficou arrogante ao
conquistar o poder?
- Eu me espantaria se ele não ficasse,
até eu ficaria, com o poder que ele
teve. Mas isso acontece com grandes
jogadores de futebol, com os astros do
rock, e, sobretudo, com os poderosos da
política, que controlam muitas verbas,
enriquecem com muita facilidade, alteram
o seu patrimônio rapidamente, exercendo
o poder de vida ou de morte sobre outras
pessoas. Veja bem, estamos falando de
sangue correndo, de dinheiro passando de
bolsa em bolsa. Assim, é muito
improvável que um homem, por mais
estrutura psicológica e estrutura
educacional que tenha não se deixe
embriagar por esse tipo de poder. O
poder absoluto corrompe absolutamente e
o poder consensual mais ainda. O Lula
hoje é um poder consensual no Brasil.
- Como assim?
- Ninguém imagina nenhuma estrutura
política no Brasil sem o Lula. Esses
dias, por exemplo, saiu nos jornais, que
o José Dirceu, acusado de formação de
quadrilha e por furto de dinheiro
público,estava no Supremo Tribunal
Federal, recebendo em seu
quartel-general ministros de Estado,
líderes de bancadas partidárias e
dirigentes de estatais, com o topete de
soltar declarações, depois disso, de que
ele é um dirigente político importante -
como se isso não fosse uma denúncia
contra o sistema partidário no Brasil.
Como pode ser um dirigente político
importante, um réu, em um caso de furto
de dinheiro público, que está sendo
julgado e não foi ainda sentenciado no
STF? Como é que pode Ministros de Estado
frequentarem o quartel-general, como
comprovam os relatos da revista,
impunemente, sem que a chefe de governo
tenha sequer conhecimento disso. Eu nem
levo em conta a afirmação da revista
Veja de que ele está trabalhando contra
a Dilma, não me importa isso.
- Qual é a explicação?
- Um ministro de Estado não pode ser
recebido por um réu do STF, acusado de
formação de quadrilha, em uma democracia
que tenha vergonha. E a presidente Dilma
demonstrou não ter autoridade nenhuma ao
não punir nenhum dos seus ministros que
foram ao encontro de Zé Dirceu. Mas não
pelo fato de Zé Dirceu querer combatê-la
-não interessa se o Zé Dirceu está
trabalhando a favor dela ou contra. O
que interessa é que ele é réu e deve se
comportar como tal. A grande pergunta
que não quer calar - e que a Veja errou
quando mudou o foco, ao só provar que
todo mundo foi lá conversar com ele -
mas faltou o seguinte: o que é que faz o
presidente da Petrobras, o líder do
governo e o ministro dos projetos
sociais, no quartel-general de um
sujeito acusado de formação de quadrilha
e em crime de furto de dinheiro público?
- No poder, o Lula criticava a
imprensa, mas ele chegaria a tanto se
não fosse o apoio dos jornalistas? Ou a
imprensa é uma “Geni” para ele?
- O Lula critica a imprensa por alguns
motivos: por comodismo, reação ao fato
de a imprensa vigiá-lo, por ignorância
e, também, um pouco por ingratidão.
Acontece o seguinte, uma das
circunstâncias que legitimam o meu
trabalho sobre ele é que eu participei
de uma grande revolução da imprensa
brasileira. Quando o conheci, em 1975,
tinha assumido a presidência do
Sindicato dos Metalúrgicos em São
Bernardo do Campo e Diadema, hoje o ABC.
O sindicalismo era assunto de jornal
popular de polícia, aquele que você
aperta e sai sangue. O colunista de
imprensa que o Lula mais bajulava era um
cara chamado Zé Nunes, que fazia a
coluna de um jornal chamado “Notícias
Populares”, um jornal policial editado
na época, pela Folha de S. Paulo,
dirigido pelo francês Jean Mellé, que
conquistou muita fama pelos títulos que
criava, como “Violada no Auditório”,
quando o Sérgio Ricardo jogou o seu
violão no auditório do Festival da
Record, ou o “Cachorro fez mal a moça”,
quando a moça comeu um cachorro quente e
passou mal. Eu sou de uma geração de
jornalistas - eu, Ricardo Kotsho, na
Folha, Mino Carta, na Isto é, Clovis
Rossi, na Folha, Evaldo Dantas Ferreira,
no jornal O Estado de S. Paulo - nós
somos de uma geração de jornalistas que
tirou o sindicato das páginas dos
jornais popularescos - esses que se
espremer, sai sangue - para as páginas
nobres da economia e da política dos
grandes jornais.
- Afinal, o ex-presidente Lula
tem passado, presente ou futuro?
- O Lula nada de braçada, porque além de
ser absolutamente fora de série, não tem
escrúpulo nenhum, o que o faz ser maior
ainda. A maior definição do Lula foi
cunhada pelo companheiro de chapa dele,
o Leonel Brizola, em uma eleição,
afirmando que ele era capaz de pisar no
pescoço da mãe para subir. Estava certo,
até porque o Lula usou a mãe, inclusive,
como objeto de culto, para subir na vida
e na política!...