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Parece
ser de uma ironia atroz o fato irrecusável de que eu esteja aqui
diante de vocês para celebrar a imortalidade saudando cinco
mortos, o primeiro dos quais o poeta por excelência da morte. Há
nesta festa, contudo, meus queridos amigos, mais que ironia,
sabedoria. A lição foi ministrada antes de tudo pelos antigos
gregos e romanos e recentemente trazida a este mesmo convívio –
e muitos de nós somos testemunhas disso – pelo acadêmico Manuel
Batista de Medeiros ao saudar outro confrade, Guilherme Silveira
d’Ávila Lins, na última posse celebrada na Casa de Coriolano de
Medeiros. Trouxe-nos o professor de Latim as mais sábias e mais
profundas reflexões produzidas pelas mentes privilegiadas de
outros mortais como nós, que viveram e morreram numa época
distante já soterrada pela poeira do tempo. Nada teria este
imodesto ex-seminarista menor nenhuma meditação tão arguta e tão
profunda a lhes trazer para acrescer-se a elas.
A primeira faceta que me ocorre
para abordar a imortalidade, queridos convidados nossos, é
aquele antigo dito popular repetido quando encontramos outrem a
respeito de quem falávamos ou pensávamos no momento. “Você não
morre mais”, dizemos, não é mesmo? Pois. Trata-se da vitória da
esperança sobre o medo, uma aposta na continuidade, que,
contudo, não interrompe a inexorável extinção futura de quem
diz, de quem ouve e das outras testemunhas, certo?
Há,
ainda outro aspecto contido no verso célebre do soneto de
Vinicius de Moraes, “e que seja infinito enquanto dure”. Este
conceito está contido no poema que nosso amigo e agora também
confrade Damião Cavalcanti resumiu num verso muito feliz com o
qual abre o poema que dedicou a este noviço da imortalidade e
está obtendo grande êxito entre nós e no exterior pela internet.
No poema curto, que lhes peço licença para ler aqui, permito-me
destacar os dois versos iniciais e o fecho. Ei-lo:
*IMORTAL
Ao poeta Neumanne
Se os momentos são bem vividos,
Viverei eternidades.
Cada um em cada uma
Com início, mas sem fim.
Se a morte ameaçar a vida,
Chame-me até de imortal.
Esses momentos de ida
Confundem-se com os da vinda.
E o chorar parecerá sorrir,
A matemática a mãe da música,
O preferível a sabedoria,
Almas gêmeas dos antigos.
Ao pensar assim também,
A montanha será topo
E seu caminho a planície,
Espaço e tempo um só ente.
Não importam distantes astros
E viagens transcendentes,
Nem tampouco as idades.
Nas circunstâncias de eclipse,
Viverei eternidades.
Gostaria
de lhes chamar a atenção para duas reflexões preciosas que
afloram do poema. A primeira delas é aquela sensação que muitas
vezes nos assola de estarmos vivendo algo que não termina. É o
que ocorre normalmente quando chegamos ao ápice no ato sexual,
ao orgasmo, que, significativemente, os franceses chamam de
“petit mort”, pequena morte. No caso do sexo, agradabilíssima
forma de reprodução da vida, a expressão francesa é
particularmente feliz, porque associa a morte ä renovação da
vida, conceito posto a circular por dois judeus que viveram há
dois milênios: o profeta Jesus Cristo e seu apóstolo Saulo de
Tarso. A morte, para os cristãos, e aprendi isso desde cedo,
nada mais é que o começo da vida eterna. Cristão como eu e como
a maioria dos aqui presentes, também Damião subverte o conceito
de eternidade, substituindo-o pelo de infinito: não se trata de
algo que não começa nem termina, mas sim de algo que tem começo,
mas não tem fim. Para os cristãos, a morte não é o fim, mas o
começo do sem fim, o princípio do que não acaba.
Nesta época em que a tecnologia
prolonga, mas não espanta a morte, recebi uma mensagem por
e-mail de um amigo, profissional de Direito como Manuel Batista,
o representante da Academia Pernambucana de Letras nesta
assembléia, Dr. José Paulo Cavalcanti, em que esta situação
aparentemente paradoxal de herdar a imortalidade de quem já
morreu. “Agora”, escreveu Zé Paulinho, “você já pode morrer”. A
sentença serve ao mesmo tempo de consolo e de condenação: lembra
a finitude, que não é só minha nem de Zé Paulinho, mas de todos
nós aqui, ao mesmo tempo que nos afaga com a perspectiva de não
ser aquela que Manuel Bandeira chamou de a Indesejada das Gentes
a coveira dos pensamentos e obras que produzimos nesta terra.
Não nos reunimos aqui para cortejar a morte, mas para celebrar a
vida que fica, mesmo de quem já não está mais conosco – a
escrita da construção da obra humana, pois, como diziam os
mesmos antigos que inventaram esta celebração, a vida é curta,
mas a arte é longa e, assim sendo, o que é humano é breve, mas o
que diz respeito à humanidade se prolonga pelo tempo afora, de
tal maneira e a um tal ponto que se eterniza.
O tema, então, não é a morte, mas
a ressurreição. Cada vez que um ocupante desta cadeira 01 da
Academia Paraibana de Letras saudar seus antecessores – e isso
voltará a ocorrer quando eu não estiver mais entre vocês –
Augusto dos Anjos ressuscitará. E sua obra acenderá dentro de
nós a chama da vida, o lampejo da existência curta, mas
profícua. Não será uma ruína, como a do faraó Ramsés 2º, que o
poeta inglês Percy Bysche Shelley descreveu num dos mais
célebres sonetos da literatura universal em todos os tempos.
Peço-lhes vênia para lhes dizer em inglês e depois traduzir esta
peça magnífica para que vocês compartilhem comigo o prazer do
ritmo e a bênção da compreensão da inutilidade do poder efêmero
e das obras de pedra que viram pó.
Ozymandias
I met a traveller
from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.
Ozymandias
Encontrei um viajante
de uma terra antiga
Que disse:—Duas imensas pernas de pedra sem tronco
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado e em sua fronte
De lábio enrugado e em seu sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor leu bem suas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal estão escritas estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Apreciem minha obra, poderosos, e se desesperem!"
Nada mais resta: em redor da decadência
Daquela ruína colossal, sem limite e vazia
As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.
Este soneto foi
escrito em 1818, portanto há 190 anos, meus amigos, e cada dia
que passa ele fica mais atual, tornando-se a prova viva, embora
imaterial, de que a obra de Ramsés foi meio enterrada pela
areia, mas nos traz lições para viver ainda hoje, graças ao
olhar de lince do poeta. E é de um poeta assim que me cabe
falar: um artista da palavra que usou as imagens da degeneração,
da finitude, da putrefação para nos falar da permanente vida que
surge dos escombros. Todos se lembram do Augusto dos Anjos do
“Tome, Dr., esta tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa”
do soneto “Budismo moderno”. Mas é preciso ter presente que o
patrono desta cadeira 01 também escreveu num poema longo, forma
na qual, segundo o colega e exegeta Ferreira Gullar, fala melhor
o artífice da palavra que nos sonetos, embora estes sejam sempre
de magnífica artesania, o “Poema negro”, um verso que bem
poderia servir de epígrafe a estas palavras que vocês ouvem com
paciência e esperança: “Não! Jesus não morreu! Vive na serra /
Da Borborema, no ar de minha terra!” Meus amigos, não consigo
ler ou dizer este verso sem emoção, pois ele fala do que há de
mais transcendente, de mais relevante numa simplicidade e num
bom gosto que desautoriza os críticos da complexidade e do mau
gosto de nosso poeta maior.
Estou aqui diante de
ilustríssimos exegetas de nosso patrono comum, particularmente o
acadêmico que me saudará com o talento e a verve de sempre, meu
querido amigo Ronaldo Cunha Lima, e será muito arriscado meu
próximo passo. Mas minha pretensão de menino sertanejo que
conseguiu sobreviver, passando incólume pelo primeiro ano de
vida e chegar à imortalidade aos 57, este tipo de ousadia não é
de assombrar e espero que nem os choque. Há algum tempo venho
buscando desafiar o conceito comum de que Augusto dos Anjos é o
poeta da tristeza, do pessimismo, o cantor dos vermes, o bardo
da dissecação cadavérica. Desde os idos de 60, quando o lia
sofregamente no quarto dos fundos da casa dos meus pais na rua
Ruy Barbosa, atrás do Colégio dos Damas, em Campina Grande, esta
identificação do maior poeta paraibano de todos os tempos – e um
dos três maiores de meu panteão poético, ao lado de Castro Alves
e Manuel Bandeira – com o fúnebre e o atro me parece mais uma
destas confusões que se costuma fazer entre o autor e sua obra.
Esta experiência vivo-a eu mesmo e, sendo esta a noite de minha
imodéstia, peço-lhes vênia para lhes contar que não sou tão
religioso nem tão triste nem tão ético nem tão desapegado dos
bens materiais como minha poesia revela. Meu amado amigo e
crítico Álvaro de Sá, que foi chamado para o andar de cima
quando preparava um ensaio sobre minha poesia, é que me chamou a
atenção para o fato de uma pessoa pândega ser um poeta grave e
um cristão rebelde aos cânones e rituais da Igreja ser tão
canônico e pouco rebelde ao tratar da fé em seus versos. Antes
que torne este discurso enfadonho pela autocomiseração e levando
em conta que jamais conseguirei falar tão bem de mim como
Ronaldo o fará, retomo a questão de Augusto a partir da
definição magnífica da colega mineira Adélia Prado, segundo quem
da poesia que escreve dela só é a letra. Ninguém precisa ter a
fé dela nem a minha para entender que a poesia, mais que
qualquer outro gênero literário, mais até que qualquer arte, é a
expressão de uma voz interior, de uma alma independente que pode
habitar o coração, mas não o corpo efêmero de quem cria. Agora
não estou sozinho nesta tarefa aparentemente inglória. Ana
Isabel, aqui presente, e Socorro Aragão, representada por
Afrânio, meu ex-vizinho na Rua Ruy Barbosa, me revelaram que em
suas pesquisas sobre nosso patrono descobriram ser ele também um
satírico colaborador dos jornais da festa das Neves. Os
estudiosos sérios de sua vida já descobriram há muito mais tempo
que tísico não era o poeta, mas seu alter-ego confessado nos
versos. Considerar Augusto apenas um pálido reflexo magro e
encurvado desta sua persona é desmerecer sua artesania verbal, é
não lhe dar o devido valor.
É de todo conveniente lembrar
aqui que o Augusto que ficou não foi o analisado pela crítica
nem sempre brilhante como
a de Gullar, mas o popular, recitado pelos corais de colégios e
pelos declamadores amadores e amorosos. Isso foi possível graças
a sua técnica apurada, capaz de alcançar em sua obra momentos à
altura dos maiores “ritmistas” da poesia em língua portuguesa,
de Joaquim du Bocage a Antônio Frederico de Castro Alves. Em “O
artesanato em Augusto dos Anjos”, estudo clássico a respeito, o
clebrado crítico Manuel Cavalcanti Proença fez uma decupagem de
seus poemas mostrando como ele dominava com maestria o
decassílabo, verso fundador da língua, usado por Camões nos
Lusíadas, manejado com destreza por nossos repentistas
populares e considerado um desafio por poetas com menos
capacidade de superar suas dificuldades. A preferência pelo
decassílabo deve-se, segundo o crítico ao fato de este permitir
mais que todos a variedade de ritmo baseada na distribuição das
tônicas. É este o segredo da fácil memorização da obra poética
de Augusto – e aqui está Ronaldo que não me deixa mentir. É a
natureza mnemônica do decassílabo que o torna favorito dos
violeiros. E foi ela também que me permitiu decorar meu soneto
favorito, “Vandalismo”, um dos raros exemplares simbolistas de
sua obra inteira e um primor de artesanato. Nélida já me ouviu
recitá-lo na solenidade de recebimento do prêmio Senador José
Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, para meu
romance O silêncio do delator, e tenho certeza de que ela
não se aborrecerá de ouvi-lo novamente. Chamo a atenção para o
fato de eu não ser capaz de decorar nem mesmo os poemas que
faço: |
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Vandalismo, de Augusto dos Anjos
Meu coração tem catedrais
imensas,
Templos de priscas e longínquas
datas,
Onde o nume de amor em serenatas
Canta a aleluia virginal das
crenças.
Da olgiva fúlgida e das colunatas
Vertem lustrais irradiações
intensas,
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas, os florões, as
pratas.
Como os velhos templários
medievais,
Entrei um dia nestas catedrais
E nestes templos claros e
risonhos.
E erguendo os gládios e brandindo
as hastas
Com o desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus
próprios sonhos.
É provável que provenha do ritmo
o prestígio da obra de Augusto mesmo entre pessoas simples que
não tenham o hábito da leitura. Acrescento-lhe também a
predilação popular pelo linguajar indecifrável. Parte do segredo
da popularidade de Jânio Quadros, por exemplo, deve-se às
palavras que pronunciava e poucos entendiam, mas achavam bonito
aquele discurso. O mesmo vale para nosso patrono. E para nós,
seus leitores e admiradores devotos. Ocorreu-me hoje escrevendo
este discurso que nunca me havia interessado para buscar no
dicionário o sentido da palavra “moneras”. Apesar de citar e
recitar sempre aqueles versos magníficos do “Monólogo de uma
sombra”. E cito de cor, sem saltear: “Sou uma sombra, venho de
outras eras, / Do cosmopolitismo das moneras / pólipo de
recônditas reentrâncias”. Bonito, hein? Pois é. Só esta minha
obrigação de lhes falar aqui me fez recorrer ao dicionário,
hábito freqüente de minha lida de profissional da palavra. E aí
fiquei sabendo que monera quer dizer bactéria. Vivendo e
aprendendo. Mesmo na imortalidade.
Antes de encerrar este breve
introdução ao patrono da cadeira 01 desta egrégia Academia,
gostaria de abordar a releitura crítica sobre ele empreendida
por um dos maiores poetas, críticos literários e intelectuais do
Brasil hoje, Mário Chamie. O moço de Cajobi, São Paulo, com sua
irreverência habitual, contestou, num estudo reproduzido em seu
livro A palavra inscrita, a crença comum de que Augusto
seria um pregador evolucionista pelo fato de citar
freqüentemente em seus versos o pensamento científico de Ernst
Haeckel e Herbert Spencer, teóricos do “evolucionismo”, leitura
filosófica da obra do biólogo Charles Darwin. O instaurador da
Práxis, habituado a recursos lingüísticos como a ironia e a
carnavalização, vê no autor de Eu um “involucionista”,
alguém que prega a volta ao estado original da matéria como
contrapartida à decomposição, à degeneração e à putrefação da
matéria extinta. Para ele, em Augusto “o triunfo da crença ergue
a hipótese da esperança que nos livra da impotência absoluta e
abjeta, salvando-nos da condição de ‘cósmico zero’ ou da ‘mônada
vil’. Essa crença, com efeito, impede-nos a queda no vazio do
nada e, em contrapartida, nos ergue ao vazio pleno do Nirvana”.
Tomo a liberdade de, mesmo sem a licença do autor, assegurar que
mais que Haeckel, que tanto citou nos versos, Augusto foi mais
fiel a Georg Friederich Hegel, o pai da dialética, ao narrar em
seu ritmo alucinante de violeiro a tese e a antítese se
encontrando no infinito da síntese.
Antes de incorrer na ira dos
cultores do poeta triste, prefiro avançar no discurso rumo ao
primeiro ocupante desta cadeira, o filósofo do direito José
Flóscolo da Nóbrega. Este e eu compartilhamos a sina do
proparoxítono. Meu segundo prenome, Nêumanne, resultado de um
erro da tabeliã encarregada de meu registro, incapaz de
reproduzir a vontade de minha mãe de me batizar de Newman como o
orador John Henry Newman, cardeal inglês e santo católico,
permite-me, depois de tantos anos de soletrá-lo, a oportunidade
de me aproximar de meu antecessor e xará, José como eu e
proparoxítono como eu, embora ele duplamente, também Nóbrega, e
eu, apenas Pinto, um reles, simplíssimo paroxítono desacentuado.
Gostaria de ter herdado do lente
de Direito, hoje injustamente, se não esquecido, pouco
celebrado, como me lembrou seu colega e leitor Rodrigo Toscano,
o saber filosófico e a capacidade de manejar as palavras como
Didi fazia com a bola de futebol. Seu discurso de posse nesta
Casa de Coriolano de Medeiros é uma das mais perfeitas e bem
acabadas peças retóricas – e até literárias – que já li na vida.
E me deu o tema de que precisava para não deixar esta oração
limitada a uma espécie de confeito de bolo sem bolo. Flóscolo se
queixou de um fato que hoje se pereniza, é até o caso de dizer
que parece se eternizar e que merece nosso repúdio e nossa luta
para impedir que ele se afirme. Disse o mestre: “A tremenda
desordem moral que lavra no mundo bem evidencia a fase de
degradação que ora vivemos. Assistimos àquela invasão vertical
de bárbaros, de que falava Rathenau”. Aqui, mais uma vez, sem
querer furtar um pouco do brilho dele para a opaca condição
deste meu discurso, mas já o fazendo, quero lembrar que A
invasão dos bárbaros, continuação de A queda do império
americano, ambos filmes do canadense Denys Arcand, inspirou
meu romance O silêncio do delator, aqui já citado.
Coincidências à parte, voltarei
ao tema no final desta fala, pois antes ainda terei o prazer de
me referir aos imortais que me antecederam nesta cadeira, o
primeiro deles, Flóscolo, nascido em 1898 em Santa Luzia do
Sabugi e falecido em 1969, nesta capital paraibana. O pessoense
Humberto Carneiro da Cunha Nóbrega sucedeu-o fazendo um discurso
de pesquisador, que era, no qual recompôs as raízes genealógicas
do patrono, aparentado com o mais importante político do Estado,
Epitácio Pessoa, como ele fez questão de lembrar. Cronista de
fatos curiosos protagonizados pelo antecessor, o ex-reitor da
Universidade Federal da Paraíba, nascido em 1912 e falecido em
1988, deixou a marca de uma obra capaz de justificar os
acadêmicos que o elegeram para esta cadeira em 1971, aos 59 anos
de idade.
Substituiu-o o bibliófilo
Waldemar Duarte. Bem biografado pelo promotor Antônio Batista
Neto na revista de Uiraúna, nossa cidade comum, editada por
minha prima Terezinha Vieira, sobrinha do grande orador sacro e
educador monsenhor Manuel Vieira, este imortal era um homem
dedicado ao serviço público e à organização bibliográfica. Em
comum com ele temos o sertão do Rio do Peixe de onde emigramos –
ele para cá e eu para Campina Grande. Não tive o prazer de
conhecê-lo pessoalmente. Além de ter nascido em Uiraúna como eu,
ele em 1923, eu em 1951, temos em comum a amizade com o poeta e
funcionário público Eurícledes Formiga, da mesma patota boêmia a
que pertencia, entre outros, Osíris de Belli, Filho de São João
do Rio do Peixe, a cujo município nossa Uiraúna pertencia quando
Waldemar e eu nascemos, antes da emancipação conseguida pelo
médico e político Oswaldo Cascudo, obstetra que me puxou a
fórceps do ventre da minha mãe, Formiga conheceu meu pai,
Anchieta Pinto, adolescente aprendendo pistom na casa de sua
irmã, minha tia Floripes, em sua cidade natal. Ganhou a vida
pela memória espantosa que o permitiria, por exemplo, dizer
novamente este discurso, palavra por palavra, e repeti-lo ao
contrário, se é que vocês ainda teriam paciência para isso.
Waldemar, o amigo de Formiga, entrou nesta Academia em 1991, aos
68 anos, e aqui foi recebido pelo poeta Jansen Filho, cuja obra,
como a de Castro Alves, minha mãe costumava dizer de cor nas
noites de breu da calçada quente e sem brisa do sertão, antes de
a luz de Paulo Afonso chegar a Uiraúna. Minha mãe gostava
particularmente de seu poema “Renata”.
A morte de Waldemar, há três
anos, levou Ronaldo Cunha Lima a me sugerir disputar-lhe a vaga
pelas condições de uiraunense, admirador de Augusto dos Anjos e
amigo comum de Formiga, estas duas condições compartilhadas com
o poeta de Guarabira, campinense por adoção e devoção que nem o
orador que vos fala. Cheguei a me inscrever, mas desisti de
participar da disputa, vencida com todos os méritos pelo
dramaturgo e folclorista Altimar de Alencar Pimentel, Nascido em
1936, em Maceió, Alagoas, mas morador havia muito tempo nesta
cidade, meu antecessor fez carreira brilhante, ultrapassando,
como fiz questão de registrar no telegrama passado a nosso
presidente Juarez Farias por ocasião da sessão de homenagem
póstuma ao ilustre acadêmico, as fronteiras de nosso Estado e da
região nordestina e ganhando Brasil. Coube-me neste ano de 2008,
por causa do infausto e precoce desaparecimento do autor de O
auto da cobiça, peça da qual tomei conhecimento em meus
tempos de visitas ao Grupo Sanhauá de Marcos Tavares, Sérgio
Castro Pinto e Marcus Vinicius de Andrade, entre outros,
sentar-me no lugar que ele tanto honrou.
Daqui a pouco vocês saberão de
mim melhor do que eu o diria. Pois Ronaldo é meu amigo há muito
tempo e poucos aqui ou fora daqui conhecem o homem, o
jornalista, o escritor e o poeta como ele conhece. Ainda assim,
peço-lhes um pouco mais de paciência para que eu faça algumas
considerações curriculares e extraprotocolares.
Digo-lhes que ainda sou o menino
sertanejo, cujo peito piava de asma, apesar do solícito balançar
da rede de dormir por minha mãe, dona Mundica. Esta imortalidade
é uma recuperação de minha infância em mim. E a repetição da
adolescência passada em Campina Grande no seminário dos
redentoristas em Bodocongó, como Hildeberto Barbosa Filho também
o fez, no Colégio Estadual da Prata, no Centro Estudantal
Campinense e no Cineclube Glauber Rocha, do qual fui presidente.
Deus foi muito bondoso comigo e
me deu um talento literário do qual não me fiz merecedor, mas
que diariamente tento merecer, fazendo um trabalho duro,
múltiplo, decente e, na medida do possível, profícuo. Deu-me
também um temperamento difícil, inquieto, irreverente. Tudo o
que sou – inclusive a honra de estar no convívio de vocês – devo
ao talento. Tudo que perdi, perdi por conta do temperamento
avoado. No balanço geral dos meus 57 anos bem vividos, e
portanto, eternizados, como registrou Damião no poema que me
dedicou, tenho apenas a dar graças e louvor, nada a lamentar,
nada de que me arrepender. Amei muito e continuo a amar. Minha
ex-mulher Regina Coeli dividiu comigo as dificuldades e os
prazeres de tempos não muito fáceis, mas muitas vezes alegre e
cheio de bons frutos, como nossos filhos
Vladimir,
Clarice e Cecília, e a bênção de nossos netos Pedro e Stella.
Minha companheira Maria Magdala está aqui comigo hoje
testemunhando a escalada na direção, não da glória literária,
mas, sim, do ofício a que me tenho dedicado ao longo da vida, o
ofício das letras. O ofício da boa palavra, sobretudo, é minha
tarefa. Ao lado de Magdala, minha musa inspiradora, meu último
amor, minha companhia definitiva, tenho encontrado inspiração
nesta batalha, que dói, que sangra, mas que não paralisa.
Magdala entrou na minha vida como o açúcar que não me rói
as veias, a graça que mantém meu
coração combalido de poeta, tantas vezes vilipendiado pelos
excessos à mesa e pelas libações de álcool, vivo, saltitante,
animado e, acima de tudo, apaixonado.
Minha mãe, Mundica, é a primeira
responsável por eu estar aqui. Até hoje me emociono ao
lembrar
sua voz me dizendo o “Navio negreiro” e “O livro e a América”,
de Castro Alves, O Cônego Antônio Anacleto me ensinou o caminho
dos livros depositados atrás dos vidros das estantes da Casa
Paroquial de Jesus, Maria, José. Aprendi a ler em compêndios com
vidas de santos e orações. No Grupo Escolar Jovelina Gomes, no
Ginásio Professor Afonso Pereira, da Fundação Padre Ibiapina, em
Uiraúna, e no Colégio Estadual da Prata, forjei o pouco que sei,
do qual tento transmitir o máximo possível. Carlos Aranha foi a
Campina Grande me buscar para o convívio com o Grupo Sanhauá e
os contatos com Mário Chamie e Nélida Piñon, minha amiga há meio
século. João Batista Lemos, Jaime Negreiros e Mauro Guimarães me
deram regra e compasso na vida de jornalista profissional.
Ronaldo Cunha Lima abriu o caminho para que eu desembarcasse
nesta estação mítica.
E aqui encerro minhas palavras
lembrando o conceito de Nélida Piñon, que me honra com
sua presença nesta festa
imerecida. Segundo minha amiga, exemplo de simplicidade, talento
e polidez, a Academia é uma casa para o convívio de excelências.
Não é missão de pouca monta, meus novos confrades, meus amigos
diletos do coração. Como no dia em que esta cadeira foi
inaugurada pelo professor Flóscolo, vivemos uma era de volta à
barbárie. A democracia de massas, que levou à Presidência da
República o primeiro líder político realmente egresso das
camadas populares da população, trouxe em sua bagagem pesada a
pregação da ignorância e o primado do demérito. A cafajestice,
que assola o mundo como as velhas pragas medievais, invadiu a
vida familiar, o aprendizado na escola e até
as bibliotecas. Uma literatura vulgar e uma arte mal educada
substituem em nossos dias os velhos conceitos de beleza e
delicadeza. “Par délicatesse j’ai
perdu ma vie” (“por delicadeza eu perdi minha vida”), escreveu o
príncipe dos poetas em todos os lugares e todos os tempos, o
francês Arthur Rimbaud. Por indelicadeza estamos perdendo
conceitos, parâmetros, princípios. A língua portuguesa-galaica,
criada por Camões e aprimorada por Eça,
Machado, Pessoa e Bandeira, é diariamente atropelada nas
esquinas da promiscuidade, do desleixo e da insensibilidade.
Deste convívio de excelências haverá de serem cerzidas as
bandeiras esfarrapadas da boa educação, do civismo e de um
progresso que não comprometa as bases da família, da fé e de
nossa confiança no futuro. Está em nossas mãos, meus novos e
queridos confrades, erguer os novos estandartes da qualidade na
educação, da produtividade na cultura e da ressurreição da
civilização.
Do pódio ao pó
A vida é uma frase interrompida (Victor Hugo)
O ginasta se projeta no ar
e se prosta ao solo;
o tenista empunha a raquete
e rebate a bola pra fora;
o ponteiro corta com força
e, bloqueado, faz o ponto contra;
o zagueiro desvia a pelota
e a vê morrer na própria rede;
o nadador bate a mão na borda
e sente o mundo a seus pés.
O pódio premia o suor
e o pó é o troféu da derrota.
A existência é uma corrida de
obstáculos
sem fita de chegada;
uma partida sem resultado;
uma Olimpíada sem medalha:
todos erram,
todos perdem a vida,
todos são iguais
perante o amor
e a morte.
Mãos à obra, pois. Muito
Obrigado.

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