Parece ser de uma ironia atroz o fato irrecusável de que eu esteja aqui diante de vocês para celebrar a imortalidade saudando cinco mortos, o primeiro dos quais o poeta por excelência da morte. Há nesta festa, contudo, meus queridos amigos, mais que ironia, sabedoria. A lição foi ministrada antes de tudo pelos antigos gregos e romanos e recentemente trazida a este mesmo convívio – e muitos de nós somos testemunhas disso – pelo acadêmico Manuel Batista de Medeiros ao saudar outro confrade, Guilherme Silveira d’Ávila Lins, na última posse celebrada na Casa de Coriolano de Medeiros. Trouxe-nos o professor de Latim as mais sábias e mais profundas reflexões produzidas pelas mentes privilegiadas de outros mortais como nós, que viveram e morreram numa época distante já soterrada pela poeira do tempo. Nada teria este imodesto ex-seminarista menor nenhuma meditação tão arguta e tão profunda a lhes trazer para acrescer-se a elas.

A primeira faceta que me ocorre para abordar a imortalidade, queridos convidados nossos, é aquele antigo dito popular repetido quando encontramos outrem a respeito de quem falávamos ou pensávamos no momento. “Você não morre mais”, dizemos, não é mesmo? Pois. Trata-se da vitória da esperança sobre o medo, uma aposta na continuidade, que, contudo, não interrompe a inexorável extinção futura de quem diz, de quem ouve e das outras testemunhas, certo?

Há, ainda outro aspecto contido no verso célebre do soneto de Vinicius de Moraes, “e que seja infinito enquanto dure”. Este conceito está contido no poema que nosso amigo e agora também confrade Damião Cavalcanti resumiu num verso muito feliz com o qual abre o poema que dedicou a este noviço da imortalidade e está obtendo grande êxito entre nós e no exterior pela internet. No poema curto, que lhes peço licença para ler aqui, permito-me destacar os dois versos iniciais e o fecho. Ei-lo:

 

*IMORTAL


Ao poeta Neumanne


Se os momentos são bem vividos,
Viverei eternidades.
Cada um em cada uma
Com início, mas sem fim.
Se a morte ameaçar a vida,
Chame-me até de imortal.
Esses momentos de ida
Confundem-se com os da vinda.
E o chorar parecerá sorrir,
A matemática a mãe da música,
O preferível a sabedoria,
Almas gêmeas dos antigos.
Ao pensar assim também,
A montanha será topo
E seu caminho a planície,
Espaço e tempo um só ente.
Não importam distantes astros
E viagens transcendentes,
Nem tampouco as idades.
Nas circunstâncias de eclipse,
Viverei eternidades.

Gostaria de lhes chamar a atenção para duas reflexões preciosas que afloram do poema. A primeira delas é aquela sensação que muitas vezes nos assola de estarmos vivendo algo que não termina. É o que ocorre normalmente quando chegamos ao ápice no ato sexual, ao orgasmo, que, significativemente, os franceses chamam de “petit mort”, pequena morte. No caso do sexo, agradabilíssima forma de reprodução da vida, a expressão francesa é particularmente feliz, porque associa a morte ä renovação da vida, conceito posto a circular por dois judeus que viveram há dois milênios: o profeta Jesus Cristo e seu apóstolo Saulo de Tarso. A morte, para os cristãos, e aprendi isso desde cedo, nada mais é que o começo da vida eterna. Cristão como eu e como a maioria dos aqui presentes, também Damião subverte o conceito de eternidade, substituindo-o pelo de infinito: não se trata de algo que não começa nem termina, mas sim de algo que tem começo, mas não tem fim. Para os cristãos, a morte não é o fim, mas o começo do sem fim, o princípio do que não acaba.

Nesta época em que a tecnologia prolonga, mas não espanta a morte, recebi uma mensagem por e-mail de um amigo, profissional de Direito como Manuel Batista, o representante da Academia Pernambucana de Letras nesta assembléia, Dr. José Paulo Cavalcanti, em que esta situação aparentemente paradoxal de herdar a imortalidade de quem já morreu. “Agora”, escreveu Zé Paulinho, “você já pode morrer”. A sentença serve ao mesmo tempo de consolo e de condenação: lembra a finitude, que não é só minha nem de Zé Paulinho, mas de todos nós aqui, ao mesmo tempo que nos afaga com a perspectiva de não ser aquela que Manuel Bandeira chamou de a Indesejada das Gentes a coveira dos pensamentos e obras que produzimos nesta terra. Não nos reunimos aqui para cortejar a morte, mas para celebrar a vida que fica, mesmo de quem já não está mais conosco – a escrita da construção da obra humana, pois, como diziam os mesmos antigos que inventaram esta celebração, a vida é curta, mas a arte é longa e, assim sendo, o que é humano é breve, mas o que diz respeito à humanidade se prolonga pelo tempo afora, de tal maneira e a um tal ponto que se eterniza.

O tema, então, não é a morte, mas a ressurreição. Cada vez que um ocupante desta cadeira 01 da Academia Paraibana de Letras saudar seus antecessores – e isso voltará a ocorrer quando eu não estiver mais entre vocês – Augusto dos Anjos ressuscitará. E sua obra acenderá dentro de nós a chama da vida, o lampejo da existência curta, mas profícua. Não será uma ruína, como a do faraó Ramsés 2º, que o poeta inglês Percy Bysche Shelley descreveu num dos mais célebres sonetos da literatura universal em todos os tempos. Peço-lhes vênia para lhes dizer em inglês e depois traduzir esta peça magnífica para que vocês compartilhem comigo o prazer do ritmo e a bênção da compreensão da inutilidade do poder efêmero e das obras de pedra que viram pó.

Ozymandias

I met a traveller from an antique land
Who said:—Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
"My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!"
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

Ozymandias

Encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas imensas pernas de pedra sem tronco
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado e em sua fronte
De lábio enrugado e em seu sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor leu bem suas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal estão escritas estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Apreciem minha obra, poderosos, e se desesperem!"
Nada mais resta: em redor da decadência
Daquela ruína colossal, sem limite e vazia
As areias solitárias e planas espalham-se ao longe.

Este soneto foi escrito em 1818, portanto há 190 anos, meus amigos, e cada dia que passa ele fica mais atual, tornando-se a prova viva, embora imaterial, de que a obra de Ramsés foi meio enterrada pela areia, mas nos traz lições para viver ainda hoje, graças ao olhar de lince do poeta. E é de um poeta assim que me cabe falar: um artista da palavra que usou as imagens da degeneração, da finitude, da putrefação para nos falar da permanente vida que surge dos escombros. Todos se lembram do Augusto dos Anjos do “Tome, Dr., esta tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa” do soneto “Budismo moderno”. Mas é preciso ter presente que o patrono desta cadeira 01 também escreveu num poema longo, forma na qual, segundo o colega e exegeta Ferreira Gullar, fala melhor o artífice da palavra que nos sonetos, embora estes sejam sempre de magnífica artesania, o “Poema negro”, um verso que bem poderia servir de epígrafe a estas palavras que vocês ouvem com paciência e esperança: “Não! Jesus não morreu! Vive na serra / Da Borborema, no ar de minha terra!” Meus amigos, não consigo ler ou dizer este verso sem emoção, pois ele fala do que há de mais transcendente, de mais relevante numa simplicidade e num bom gosto que desautoriza os críticos da complexidade e do mau gosto de nosso poeta maior.

Estou aqui diante de ilustríssimos exegetas de nosso patrono comum, particularmente o acadêmico que me saudará com o talento e a verve de sempre, meu querido amigo Ronaldo Cunha Lima, e será muito arriscado meu próximo passo. Mas minha pretensão de menino sertanejo que conseguiu sobreviver, passando incólume pelo primeiro ano de vida e chegar à imortalidade aos 57, este tipo de ousadia não é de assombrar e espero que nem os choque. Há algum tempo venho buscando desafiar o conceito comum de que Augusto dos Anjos é o poeta da tristeza, do pessimismo, o cantor dos vermes, o bardo da dissecação cadavérica. Desde os idos de 60, quando o lia sofregamente no quarto dos fundos da casa dos meus pais na rua Ruy Barbosa, atrás do Colégio dos Damas, em Campina Grande, esta identificação do maior poeta paraibano de todos os tempos – e um dos três maiores de meu panteão poético, ao lado de Castro Alves e Manuel Bandeira – com o fúnebre e o atro me parece mais uma destas confusões que se costuma fazer entre o autor e sua obra. Esta experiência vivo-a eu mesmo e, sendo esta a noite de minha imodéstia, peço-lhes vênia para lhes contar que não sou tão religioso nem tão triste nem tão ético nem tão desapegado dos bens materiais como minha poesia revela. Meu amado amigo e crítico Álvaro de Sá, que foi chamado para o andar de cima quando preparava um ensaio sobre minha poesia, é que me chamou a atenção para o fato de uma pessoa pândega ser um poeta grave e um cristão rebelde aos cânones e rituais da Igreja ser tão canônico e pouco rebelde ao tratar da fé em seus versos. Antes que torne este discurso enfadonho pela autocomiseração e levando em conta que jamais conseguirei falar tão bem de mim como Ronaldo o fará, retomo a questão de Augusto a partir da definição magnífica da colega mineira Adélia Prado, segundo quem da poesia que escreve dela só é a letra. Ninguém precisa ter a fé dela nem a minha para entender que a poesia, mais que qualquer outro gênero literário, mais até que qualquer arte, é a expressão de uma voz interior, de uma alma independente que pode habitar o coração, mas não o corpo efêmero de quem cria. Agora não estou sozinho nesta tarefa aparentemente inglória. Ana Isabel, aqui presente, e Socorro Aragão, representada por Afrânio, meu ex-vizinho na Rua Ruy Barbosa, me revelaram que em suas pesquisas sobre nosso patrono descobriram ser ele também um satírico colaborador dos jornais da festa das Neves. Os estudiosos sérios de sua vida já descobriram há muito mais tempo que tísico não era o poeta, mas seu alter-ego confessado nos versos. Considerar Augusto apenas um pálido reflexo magro e encurvado desta sua persona é desmerecer sua artesania verbal, é não lhe dar o devido valor.

É de todo conveniente lembrar aqui que o Augusto que ficou não foi o analisado pela crítica nem sempre brilhante como a de Gullar, mas o popular, recitado pelos corais de colégios e pelos declamadores amadores e amorosos. Isso foi possível graças a sua técnica apurada, capaz de alcançar em sua obra momentos à altura dos maiores “ritmistas” da poesia em língua portuguesa, de Joaquim du Bocage a Antônio Frederico de Castro Alves. Em “O artesanato em Augusto dos Anjos”, estudo clássico a respeito, o clebrado crítico Manuel Cavalcanti Proença fez uma decupagem de seus poemas mostrando como ele dominava com maestria o decassílabo, verso fundador da língua, usado por Camões nos Lusíadas, manejado com destreza por nossos repentistas populares e considerado um desafio por poetas com menos capacidade de superar suas dificuldades. A preferência pelo decassílabo deve-se, segundo o crítico ao fato de este permitir mais que todos a variedade de ritmo baseada na distribuição das tônicas. É este o segredo da fácil memorização da obra poética de Augusto – e aqui está Ronaldo que não me deixa mentir. É a natureza mnemônica do decassílabo que o torna favorito dos violeiros. E foi ela também que me permitiu decorar meu soneto favorito, “Vandalismo”, um dos raros exemplares simbolistas de sua obra inteira e um primor de artesanato. Nélida já me ouviu recitá-lo na solenidade de recebimento do prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, para meu romance O silêncio do delator, e tenho certeza de que ela não se aborrecerá de ouvi-lo novamente. Chamo a atenção para o fato de eu não ser capaz de decorar nem mesmo os poemas que faço:

 

Vandalismo, de Augusto dos Anjos

 

Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde o nume de amor em serenatas

Canta a aleluia virginal das crenças.

 

Da olgiva fúlgida e das colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas,

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas, os florões, as pratas.

 

Como os velhos templários medievais,

Entrei um dia nestas catedrais

E nestes templos claros e risonhos.

 

E erguendo os gládios e brandindo as hastas

Com o desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.

 

É provável que provenha do ritmo o prestígio da obra de Augusto mesmo entre pessoas simples que não tenham o hábito da leitura. Acrescento-lhe também a predilação popular pelo linguajar indecifrável. Parte do segredo da popularidade de Jânio Quadros, por exemplo, deve-se às palavras que pronunciava e poucos entendiam, mas achavam bonito aquele discurso. O mesmo vale para nosso patrono. E para nós, seus leitores e admiradores devotos. Ocorreu-me hoje escrevendo este discurso que nunca me havia interessado para buscar no dicionário o sentido da palavra “moneras”. Apesar de citar e recitar sempre aqueles versos magníficos do “Monólogo de uma sombra”. E cito de cor, sem saltear: “Sou uma sombra, venho de outras eras, / Do cosmopolitismo das moneras / pólipo de recônditas reentrâncias”. Bonito, hein? Pois é. Só esta minha obrigação de lhes falar aqui me fez recorrer ao dicionário, hábito freqüente de minha lida de profissional da palavra. E aí fiquei sabendo que monera quer dizer bactéria. Vivendo e aprendendo. Mesmo na imortalidade.

Antes de encerrar este breve introdução ao patrono da cadeira 01 desta egrégia Academia, gostaria de abordar a releitura crítica sobre ele empreendida por um dos maiores poetas, críticos literários e intelectuais do Brasil hoje, Mário Chamie. O moço de Cajobi, São Paulo, com sua irreverência habitual, contestou, num estudo reproduzido em seu livro A palavra inscrita, a crença comum de que Augusto seria um pregador evolucionista pelo fato de citar freqüentemente em seus versos o pensamento científico de Ernst Haeckel e Herbert Spencer, teóricos do “evolucionismo”, leitura filosófica da obra do biólogo Charles Darwin. O instaurador da Práxis, habituado a recursos lingüísticos como a ironia e a carnavalização, vê no autor de Eu um “involucionista”, alguém que prega a volta ao estado original da matéria como contrapartida à decomposição, à degeneração e à putrefação da matéria extinta. Para ele, em Augusto “o triunfo da crença ergue a hipótese da esperança que nos livra da impotência absoluta e abjeta, salvando-nos da condição de ‘cósmico zero’ ou da ‘mônada vil’. Essa crença, com efeito, impede-nos a queda no vazio do nada e, em contrapartida, nos ergue ao vazio pleno do Nirvana”. Tomo a liberdade de, mesmo sem a licença do autor, assegurar que mais que Haeckel, que tanto citou nos versos, Augusto foi mais fiel a Georg Friederich Hegel, o pai da dialética, ao narrar em seu ritmo alucinante de violeiro a tese e a antítese se encontrando no infinito da síntese.

Antes de incorrer na ira dos cultores do poeta triste, prefiro avançar no discurso rumo ao primeiro ocupante desta cadeira, o filósofo do direito José Flóscolo da Nóbrega. Este e eu compartilhamos a sina do proparoxítono. Meu segundo prenome, Nêumanne, resultado de um erro da tabeliã encarregada de meu registro, incapaz de reproduzir a vontade de minha mãe de me batizar de Newman como o orador John Henry Newman, cardeal inglês e santo católico, permite-me, depois de tantos anos de soletrá-lo, a oportunidade de me aproximar de meu antecessor e xará, José como eu e proparoxítono como eu, embora ele duplamente, também Nóbrega, e eu, apenas Pinto, um reles, simplíssimo paroxítono desacentuado.

Gostaria de ter herdado do lente de Direito, hoje injustamente, se não esquecido, pouco celebrado, como me lembrou seu colega e leitor Rodrigo Toscano, o saber filosófico e a capacidade de manejar as palavras como Didi fazia com a bola de futebol. Seu discurso de posse nesta Casa de Coriolano de Medeiros é uma das mais perfeitas e bem acabadas peças retóricas – e até literárias – que já li na vida. E me deu o tema de que precisava para não deixar esta oração limitada a uma espécie de confeito de bolo sem bolo. Flóscolo se queixou de um fato que hoje se pereniza, é até o caso de dizer que parece se eternizar e que merece nosso repúdio e nossa luta para impedir que ele se afirme. Disse o mestre: “A tremenda desordem moral que lavra no mundo bem evidencia a fase de degradação que ora vivemos. Assistimos àquela invasão vertical de bárbaros, de que falava Rathenau”. Aqui, mais uma vez, sem querer furtar um pouco do brilho dele para a opaca condição deste meu discurso, mas já o fazendo, quero lembrar que A invasão dos bárbaros, continuação de A queda do império americano, ambos filmes do canadense Denys Arcand, inspirou meu romance O silêncio do delator, aqui já citado.

Coincidências à parte, voltarei ao tema no final desta fala, pois antes ainda terei o prazer de me referir aos imortais que me antecederam nesta cadeira, o primeiro deles, Flóscolo, nascido em 1898 em Santa Luzia do Sabugi e falecido em 1969, nesta capital paraibana. O pessoense Humberto Carneiro da Cunha Nóbrega sucedeu-o fazendo um discurso de pesquisador, que era, no qual recompôs as raízes genealógicas do patrono, aparentado com o mais importante político do Estado, Epitácio Pessoa, como ele fez questão de lembrar. Cronista de fatos curiosos protagonizados pelo antecessor, o ex-reitor da Universidade Federal da Paraíba, nascido em 1912 e falecido em 1988, deixou a marca de uma obra capaz de justificar os acadêmicos que o elegeram para esta cadeira em 1971, aos 59 anos de idade.

Substituiu-o o bibliófilo Waldemar Duarte. Bem biografado pelo promotor Antônio Batista Neto na revista de Uiraúna, nossa cidade comum, editada por minha prima Terezinha Vieira, sobrinha do grande orador sacro e educador monsenhor Manuel Vieira, este imortal era um homem dedicado ao serviço público e à organização bibliográfica. Em comum com ele temos o sertão do Rio do Peixe de onde emigramos – ele para cá e eu para Campina Grande. Não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Além de ter nascido em Uiraúna como eu, ele em 1923, eu em 1951, temos em comum a amizade com o poeta e funcionário público Eurícledes Formiga, da mesma patota boêmia a que pertencia, entre outros, Osíris de Belli, Filho de São João do Rio do Peixe, a cujo município nossa Uiraúna pertencia quando Waldemar e eu nascemos, antes da emancipação conseguida pelo médico e político Oswaldo Cascudo, obstetra que me puxou a fórceps do ventre da minha mãe, Formiga conheceu meu pai, Anchieta Pinto, adolescente aprendendo pistom na casa de sua irmã, minha tia Floripes, em sua cidade natal. Ganhou a vida pela memória espantosa que o permitiria, por exemplo, dizer novamente este discurso, palavra por palavra, e repeti-lo ao contrário, se é que vocês ainda teriam paciência para isso. Waldemar, o amigo de Formiga, entrou nesta Academia em 1991, aos 68 anos, e aqui foi recebido pelo poeta Jansen Filho, cuja obra, como a de Castro Alves, minha mãe costumava dizer de cor nas noites de breu da calçada quente e sem brisa do sertão, antes de a luz de Paulo Afonso chegar a Uiraúna. Minha mãe gostava particularmente de seu poema “Renata”.

A morte de Waldemar, há três anos, levou Ronaldo Cunha Lima a me sugerir disputar-lhe a vaga pelas condições de uiraunense, admirador de Augusto dos Anjos e amigo comum de Formiga, estas duas condições compartilhadas com o poeta de Guarabira, campinense por adoção e devoção que nem o orador que vos fala. Cheguei a me inscrever, mas desisti de participar da disputa, vencida com todos os méritos pelo dramaturgo e folclorista Altimar de Alencar Pimentel, Nascido em 1936, em Maceió, Alagoas, mas morador havia muito tempo nesta cidade, meu antecessor fez carreira brilhante, ultrapassando, como fiz questão de registrar no telegrama passado a nosso presidente Juarez Farias por ocasião da sessão de homenagem póstuma ao ilustre acadêmico, as fronteiras de nosso Estado e da região nordestina e ganhando Brasil. Coube-me neste ano de 2008, por causa do infausto e precoce desaparecimento do autor de O auto da cobiça, peça da qual tomei conhecimento em meus tempos de visitas ao Grupo Sanhauá de Marcos Tavares, Sérgio Castro Pinto e Marcus Vinicius de Andrade, entre outros, sentar-me no lugar que ele tanto honrou.

Daqui a pouco vocês saberão de mim melhor do que eu o diria. Pois Ronaldo é meu amigo há muito tempo e poucos aqui ou fora daqui conhecem o homem, o jornalista, o escritor e o poeta como ele conhece. Ainda assim, peço-lhes um pouco mais de paciência para que eu faça algumas considerações curriculares e extraprotocolares.

Digo-lhes que ainda sou o menino sertanejo, cujo peito piava de asma, apesar do solícito balançar da rede de dormir por minha mãe, dona Mundica. Esta imortalidade é uma recuperação de minha infância em mim. E a repetição da adolescência passada em Campina Grande no seminário dos redentoristas em Bodocongó, como Hildeberto Barbosa Filho também o fez, no Colégio Estadual da Prata, no Centro Estudantal Campinense e no Cineclube Glauber Rocha, do qual fui presidente.

Deus foi muito bondoso comigo e me deu um talento literário do qual não me fiz merecedor, mas que diariamente tento merecer, fazendo um trabalho duro, múltiplo, decente e, na medida do possível, profícuo. Deu-me também um temperamento difícil, inquieto, irreverente. Tudo o que sou – inclusive a honra de estar no convívio de vocês – devo ao talento. Tudo que perdi, perdi por conta do temperamento avoado. No balanço geral dos meus 57 anos bem vividos, e portanto, eternizados, como registrou Damião no poema que me dedicou, tenho apenas a dar graças e louvor, nada a lamentar, nada de que me arrepender. Amei muito e continuo a amar. Minha ex-mulher Regina Coeli dividiu comigo as dificuldades e os prazeres de tempos não muito fáceis, mas muitas vezes alegre e cheio de bons frutos, como nossos filhos Vladimir, Clarice e Cecília, e a bênção de nossos netos Pedro e Stella. Minha companheira Maria Magdala está aqui comigo hoje testemunhando a escalada na direção, não da glória literária, mas, sim, do ofício a que me tenho dedicado ao longo da vida, o ofício das letras. O ofício da boa palavra, sobretudo, é minha tarefa. Ao lado de Magdala, minha musa inspiradora, meu último amor, minha companhia definitiva, tenho encontrado inspiração nesta batalha, que dói, que sangra, mas que não paralisa. Magdala entrou na minha vida como o açúcar que não me rói as veias, a graça que mantém meu coração combalido de poeta, tantas vezes vilipendiado pelos excessos à mesa e pelas libações de álcool, vivo, saltitante, animado e, acima de tudo, apaixonado.

Minha mãe, Mundica, é a primeira responsável por eu estar aqui. Até hoje me emociono ao lembrar sua voz me dizendo o “Navio negreiro” e “O livro e a América”, de Castro Alves, O Cônego Antônio Anacleto me ensinou o caminho dos livros depositados atrás dos vidros das estantes da Casa Paroquial de Jesus, Maria, José. Aprendi a ler em compêndios com vidas de santos e orações. No Grupo Escolar Jovelina Gomes, no Ginásio Professor Afonso Pereira, da Fundação Padre Ibiapina, em Uiraúna, e no Colégio Estadual da Prata, forjei o pouco que sei, do qual tento transmitir o máximo possível. Carlos Aranha foi a Campina Grande me buscar para o convívio com o Grupo Sanhauá e os contatos com Mário Chamie e Nélida Piñon, minha amiga há meio século. João Batista Lemos, Jaime Negreiros e Mauro Guimarães me deram regra e compasso na vida de jornalista profissional. Ronaldo Cunha Lima abriu o caminho para que eu desembarcasse nesta estação mítica.

E aqui encerro minhas palavras lembrando o conceito de Nélida Piñon, que me honra com sua presença nesta festa imerecida. Segundo minha amiga, exemplo de simplicidade, talento e polidez, a Academia é uma casa para o convívio de excelências. Não é missão de pouca monta, meus novos confrades, meus amigos diletos do coração. Como no dia em que esta cadeira foi inaugurada pelo professor Flóscolo, vivemos uma era de volta à barbárie. A democracia de massas, que levou à Presidência da República o primeiro líder político realmente egresso das camadas populares da população, trouxe em sua bagagem pesada a pregação da ignorância e o primado do demérito. A cafajestice, que assola o mundo como as velhas pragas medievais, invadiu a vida familiar, o aprendizado na escola e até as bibliotecas. Uma literatura vulgar e uma arte mal educada substituem em nossos dias os velhos conceitos de beleza e delicadeza. “Par délicatesse j’ai perdu ma vie” (“por delicadeza eu perdi minha vida”), escreveu o príncipe dos poetas em todos os lugares e todos os tempos, o francês Arthur Rimbaud. Por indelicadeza estamos perdendo conceitos, parâmetros, princípios. A língua portuguesa-galaica, criada por Camões e aprimorada por Eça, Machado, Pessoa e Bandeira, é diariamente atropelada nas esquinas da promiscuidade, do desleixo e da insensibilidade. Deste convívio de excelências haverá de serem cerzidas as bandeiras esfarrapadas da boa educação, do civismo e de um progresso que não comprometa as bases da família, da fé e de nossa confiança no futuro. Está em nossas mãos, meus novos e queridos confrades, erguer os novos estandartes da qualidade na educação, da produtividade na cultura e da ressurreição da civilização.

Do pódio ao pó

 

A vida é uma frase interrompida (Victor Hugo)

 

O ginasta se projeta no ar

e se prosta ao solo;

o tenista empunha a raquete

e rebate a bola pra fora;

o ponteiro corta com força

e, bloqueado, faz o ponto contra;

o zagueiro desvia a pelota

e a vê morrer na própria rede;

o nadador bate a mão na borda

e sente o mundo a seus pés.

O pódio premia o suor

e o pó é o troféu da derrota.

A existência é uma corrida de obstáculos

sem fita de chegada;

uma partida sem resultado;

uma Olimpíada sem medalha:

todos erram,

todos perdem a vida,

todos são iguais

perante o amor

e a morte.

 

Mãos à obra, pois. Muito Obrigado.

 

Poema inédito "Do pódio ao pó" lido na solenidade, em formatação html.

Veja mais fotos da eleição e da solenidade:

 Fotos da eleição e comentário (mp3) de Joseval Peixoto. Aguarde carregar o arquivo.

NOTÍCIAS DA ESTAÇÃO NÊUMANNE.

 

 

 

 

 

 

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