Há quem diga que todos os livros já foram escritos. O que resta, então, para os escritores de hoje?

            Não é verdade que todos os livros já tenham sido escritos. Na verdade, escreve-se muito, mas parece que quanto mais se escreve mais há a descrever, reescrever, circunscrever. Não faltam idéias nem formas para inscrever e prescrever. Há um mundo de histórias a serem narradas em prosa e uma ruma imensa de sentimentos a serem expressos em poesia. Basta ter talento e disposição para encontrá-las. Mas este é serviço de Deus, não nosso.

            Entre “desestruturar” o romance e escrever uma simples história com começo, meio e fim, o que mais o atrai?

            Este é o grande dilema da literatura desde o século 20. O romance morreu com James Joyce e renasceu com Truman Capote. Eis o dilema: desmontar a lógica narrativa, desobedecer aos critérios de tempo e lugar e desafiar o leitor com jogos interlingüísticos, de um lado, ou simplesmente seguir os cânones da língua e contar uma história de forma linear, como todo mundo gosta de ouvir ou ler, se possível até a partir de dados reais? O que mais me desafia é o caminho alternativo proposto por Jorge Luís Borges: histórias que podem ser reais ou fictícias e o leitor nunca saberá. Sempre almejei ser Borges na vida. Quando escrevi O silêncio do delator era este meu objetivo, mas terminei sendo puramente joyciano. Isso não foi, não é, uma escolha, mas uma imposição, algo que vem de fora para dentro, que puxa, empurra e encolhe o narrador. É uma experiência terrível, mas real. Contra ela remédio não há.

         Num país que lê tão pouco, inclusive jornais, a gente escreve pra quem?

       Na verdade verdadeira, o melhor escritor escreve sempre e apenas para si mesmo. O leitor é uma conseqüência abstrata da experiência real de narrar para si próprio uma história. O mercado, então, é um objetivo ainda mais distante para qualquer escritor de fato. Volto a Borges, que disse em Harvard que o prazer de escrever não é comparável com o de ler, até porque será sempre impossível ter na leitura do próprio texto o mesmo desfrute que se tem lendo outrem. Como superar Conrad? Como competir com Rimbaud? Como se emparelhar com Eça ou Machado? Ele só se perguntava. Quem sou eu para encontrar a resposta que ele não teve? O ato de escrever é individual, intransferível e narcísico. Ler deverá ser sempre um prazer inenarrável.

        Houve tempo em que debochávamos das academias. Elas recuperaram prestígio ou o deboche era uma reação juvenil?

         A abordagem das academias pelos escritores é mais ou menos como aquela do dançarino de gafieira quando pinta um rebuliço: quem está fora não entra e quem está dentro não sai. Ou seja, meu amigo, a academia é para poucos. Quem entra se compraz. Quem não entra despreza. A academia é uma parreira de uvas muito maduras que a raposa diz desprezar, não por estarem verdes, mas porque estão podres.

        Na sua maneira de ver as coisas, ao escrever um romance, a Paraíba é uma personagem ou é o enredo?

        Escrevi dois romances. No primeiro, Veneno na veia, o protagonista era Brasília e o enredo, o apodrecimento das instituições. No segundo, O silêncio do delator, a protagonista era a minha geração, a sua, a que viveu nos anos 60 a plenitude da mocidade inquieta e rebelde, e o enredo, a revolução que malogrou. Agora penso escrever algo atemporal do sertão. No tal texto, a Paraíba não será personagem nem enredo, mas moldura, uma circunstância, um advérbio de lugar. Na verdade, penso no sertão como protagonista e na vida real em pleno trâmite como enredo de ficção. Mas não sei se serei capaz de escrevê-lo.
        
        

© O Norte, J. Pessoa, junho de 2008, coluna de Agnaldo Almeida. 

LEIA: Álvaro Cardoso Gomes, Carlos Aranha, Glória Gadelha, Manfredo Caldas, Moacir Japiassu, Vlademir Carvalho e Wanderley Pereira COM.NÊUMANNE NA ACADEMIA PARAIBANA DE LETRAS.

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José Nêumanne Pinto nasceu em 18 de maio de 1951 em Uiraúna, no vale do Rio do Peixe, alto sertão paraibano. Descortinou o mundo de cima da Serra da Borborema, onde se descobriu poeta e jornalista. Encarapitado em planalto alheio, o de Piratininga, gerou e criou no desvario de São Paulo três filhos, dois dos quais lhe deram até agora um neto cada um e de cada gênero. Gravou um CD de poemas e publicou dez livros: perfis, poemas, reportagens, artigos, ensaios, romances. Um destes, O silêncio do delator, ganhou o prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, em 2005, como o melhor livro de 2004. De ofício e suor é chefe dos editorialistas do Jornal da Tarde e comentarista na Rádio Jovem Pan e nos telejornais do SBT – tudo lá na Paulicéia Desvairada. Paraibano, carioca e paulistano, fã de Augusto dos Anjos, Zé Lins do Rego e Albert Camus, é bicampeão carioca de futebol pelo Flamengo e se sagrou campeão no mesmo esporte na Paraíba, ululando o óbvio na galera da raposa.

 

 

 

 

 

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