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Sou jornalista e ficcionista. Vivo disso. Como profissional da
comunicação, tenho plena noção das dificuldades de
reconstituição de um fato recente, quanto mais da história –
algo passado há anos, decênios, séculos. Mais do que isso:
tenho experiência no ramo. Toda reportagem tem um pouco de
fantasia – nem sempre por conta de alguma invencionice de quem
escreve, quase sempre pelas falhas de memória de quem lhe
conta o fato narrado. A memória é traiçoeira: nunca ninguém se
lembra de um fato ocorrido em sua vida exatamente como ele foi
vivido, pois normalmente a lembrança chega marcada por outros
fatos e outras experiências do passado e, sobretudo, pela
vivência do presente. A memória é um exercício de ficção,
também: quando eu escrevia o romance O silêncio do
delator – laureado pela Academia Brasileira de Letras com
o prêmio Senador José Ermírio de Moraes, em 2005, como o
melhor livro de 2004 -, tive uma experiência interessante
neste sentido. Lembrava-me de uma cena com um tigre de papel
da Esso no filme A chinesa, do francês Jean-Luc Godard
(que havia visto no Cine Capitólio) e quando o revi em DVD,
não a achei. Talvez a versão para DVD tenha excluído a cena,
mas é mais provável que ela tenha sido acrescentada à minha
lembrança da fita por outro tipo de visão que tive ao longo
dos 40 anos que separavam o momento em que escrevia o livro do
instante em que a assisti, nos anos 60 do século passado, na
adolescência passada na minha amada cidade adotiva de Campina
Grande.
É, portanto, com
espírito compreensivo e até uma certa cumplicidade que tenho
encontrado na leitura de textos desta revista a respeito do
passado de minha cidade natal falhas factuais repetidas e
repetitivas envolvendo uma pessoa muito amada por mim e fatos
muito presentes nas minhas recordações. Como já observei em
textos que escrevi e no discurso de minha posse na cadeira nº
01 (Augusto dos Anjos) na Academia Paraibana de Letras, o
memorialista pode ser inventivo, mas o historiador tem o dever
precípuo da exatidão na narrativa. Um pouco porque a ausência
de meu pai nas histórias contadas de Uiraúna me incomoda,
reconheço, mas mais ainda pelo amor à exatidão dos fatos que
tem marcado minha vida de homem de imprensa, rádio e
televisão, pedi à editora desta revista, Terezinha Vieira,
espaço para fazer algumas correções que creio serem
necessárias até em respeito aos autores que cometeram tais
deslizes.
A primeira lacuna
diz respeito à história do Uiraúna Tênis Clube. Na minha
infância, os bailes na cidade eram realizados no salão
esvaziado do curtume de Antônio Jacinto, na área central do
comércio. Lembro-me também de haver comparecido a festas no
galpão do Grupo Escolar Jovelina Gomes, à época que lá moravam
dona Palmira, a diretora, e o marido dela, seu Militão. Quando
meu pai, José de Anchieta Pinto, assumiu a presidência do
clube, voltando de Campina Grande, tratou de reconstruir, no
meio da ampla Rua Nova, sua sede própria, cujo teto havia
desabado. O prédio que ele reconstruiu lá está de pé até hoje.
Como resiste ao tempo a logomarca desenhada por José Adalberto
Ribeiro, meu colega no Colégio Estadual da Prata, em Campina
Grande.

Foi também de meu pai a
iniciativa pioneira de produzir sorvetes em nosso tórrido
torrão tropical. Ele tinha possuído um armazém de víveres para
flagelados na seca de 1958 e sempre nutriu uma paixonite por
boléias de caminhão, ganhando a vida a transportar cargas de
algodão e de mercadorias do sertão para o Sudeste e do Sudeste
para o sertão. Do Rio trouxe nossa paixão comum pelo Clube de
Regatas do Flamengo, quando Garcia; Tomires e Pavão; Jadir,
Dequinha e Jordan: Joel, Duca, Evaristo, Dida e Zagalo foram
tricampeões em 1955. E também meu apreço pela leitura, pois me
abastececia com gibis do Bolinha, Luluzinha e Pimentinha e a
revista Manchete Esportiva, que publicava as magníficas
colunas de Nélson Rodrigues. Ao se aventurar pelo negócio de
guloseimas frias, seu Anchieta teve de importar de Cajazeiras
o sorveteiro Ezequias e instalar um conjunto de motor a Diesel
e gerador de eletricidade, pois à época não nos havia chegado
ainda a luz de Paulo Afonso. Por sugestão de um cunhado, o
médico Raimundo Ferreira Pinto, deu ao estabelecimento, na Rua
do Comércio, o nome de Sorveteria Alabama, homenageando
o estado sulista americano.

Ali, numa vistosa “radiola”, ouvi
Nat King Cole cantando em espanhol e Miltinho, de quem sou fã
e amigo hoje, entoando “cara de palhaço, pinta de palhaço”. E
eu morria de rir, pois “pinta” na gíria sertaneja denominava o
órgão genital masculino – a letra me parecia, então, fescenina.
Ali, com saudade de uma namoradinha que havia deixado em
Campina Grande, Regina Coeli, mais tarde a mãe de meus filhos
e avó de meus netos, ouvia, com emoção, o LP O Inimitável,
repto de Roberto Carlos ao lançamento de Paulo Sérgio,
intérprete que, com voz bem similar à do Rei, fez muito
sucesso, mas morreu precocemente. Contava-se – não sei se é
verdade, pois nunca testemunhei – que alguns matutos
misturavam a água gelada servida num copo junto com o sorvete
e a mexiam com a colherzinha na taça antes de tomar. Ou ainda
que outros enchiam sacos de picolés e chegavam a seus sítios
com o saco molhado cheio de palitos. Pode ser que tenha
aparecido gente por lá com saco para encher de picolés, da
mesma forma que minha mãe, Mundica, ouvia muitos pedidos de
amigas para vender sorvetes que não fizessem mal à gripe nem
piorassem resfriados. Mas duvido que meu pai permitisse a
venda de sacos de picolé. Mas o certo é que seu negócio
derreteu ao sol do sertão, menos pela falta de costume dos
nativos em relação a sorvetes, fossem moles ou duros, mas
muito mais pelas despesas com o grupo gerador, o empregado,
etc. Quando chegou a luz de Paulo Afonso, Nozinho Barbosa
abriu no lugar a Sorvelanches Canaã, muito citada neste
espaço, erradamente tida como pioneira na arte dos doces
gelados em nossa terra.

Outra paixão de meu pai era
pela música: tocava pistom na banda de música de Jesus, Maria,
José e nas orquestras de carnaval, sempre sob a regência de
Dedé de Capitão, de cuja família era amigo – amizade de que me
beneficiei, pois passava minhas férias em Campina Grande ora
na casa de Expedito Gomes, ora na casa de Jaceme e Manoel
Israel. Meu pai não tinha o talento de Constantino de Acácio
para o trompete, mas se orgulhava da potência do próprio
sopro, que fazia inflar e corar as bochechas quando o tocava.
De sua vocação de empreendedor foram obtidos os recursos e de
seu talento de gerente foram erguidas as paredes da sede onde
até hoje a banda ensaia.

É assim que me lembro. E foi assim
que ocorreu. Quem souber de mais pode acrescentar. Mas
subtrair não, pois, se a memória é uma colcha de retalhos, a
História só deve ser contada se o for com imparcialidade e
exatidão.
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