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José Nêumanne Pinto
 

   

              Um dos clássicos do folclore político nacional selecionados pelo jornalista baiano Sebastião Nery é o causo, segundo ele verídico, protagonizado pelo coronel Chico Heráclio do Rego, de Limoeiro, interior de Pernambuco. À época do episódio, votava-se em cédulas impressas postas pelo eleitor num envelope que, lacrado e assinado pelos mesários, este depositava na urna. O coronel em questão reuniu seus moradores, mandou que ficassem em fila indiana e lhes entregou, um a um, os envelopes lacrados com as cédulas dos candidatos sufragados. Aí era só ir à seção eleitoral, pegar as assinaturas dos mesários e votar. Votar? Pois é! Um cabra mais ousado resolveu perguntar: “O senhor pode me dizer pelo menos em quem eu vou votar, coronel?” A resposta foi ríspida e rápida: “Então, cabra ignorante, tu não sabes que o voto é secreto?” Apois. Depois de uma campanha cívica da UDN, a oposição da época, foi consagrada a cédula única na qual o eleitor marcava com X o nome do candidato escolhido. Veio o voto eletrônico, o coronel morreu, mas o coronelismo está aí vivinho da Silva. A diferença é que os chefões políticos de hoje em dia recorrem à tecnologia “muderna” para praticar o “neocoronelismo”. O governo federal, seja pretenso social-democrata, seja falso socialista, distribui cartõezinhos de plástico para dar acesso do miserável às proteínas do Bolsa Família: este é o assistencialismo estatal. O particular fica sob as ordens do crime organizado. Os traficantes de drogas e os milicianos que os combatem ordenaram a seus currais eleitorais concentrados nos bairros miseráveis das periferias das grandes cidades brasileiras que usassem seus telefones celulares de tecnologia de ponta para fotografar a maquininha de votar e assim assegurar que ninguém está traindo a promessa do voto no candidato preferido da quadrilha ou da milícia. Precisa dizer mais alguma coisa para o preclaro leitor sacar a atualidade deste livro do André Heráclio, que é do mesmo clã do Rego ao qual pertencia o velho Chico?

 

José Nêumanne, jornalista, escritor e comentarista de rádio e televisão, é diretor editorial de A Girafa Editora.

(*)Publicado nas orelhas do livro Família e coronelismo no Brasil: uma história de poder, de André Heraclio do Rego, editado por A Girafa Editora em novembro de 2008

 

 

 

 

 

 

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