|

Um dos clássicos do folclore político nacional selecionados
pelo jornalista baiano Sebastião Nery é o causo, segundo ele
verídico, protagonizado pelo coronel Chico Heráclio do Rego,
de Limoeiro, interior de Pernambuco. À época do episódio,
votava-se em cédulas impressas postas pelo eleitor num
envelope que, lacrado e assinado pelos mesários, este
depositava na urna. O coronel em questão reuniu seus
moradores, mandou que ficassem em fila indiana e lhes
entregou, um a um, os envelopes lacrados com as cédulas dos
candidatos sufragados. Aí era só ir à seção eleitoral, pegar
as assinaturas dos mesários e votar. Votar? Pois é! Um cabra
mais ousado resolveu perguntar: “O senhor pode me dizer pelo
menos em quem eu vou votar, coronel?” A resposta foi ríspida e
rápida: “Então, cabra ignorante, tu não sabes que o voto é
secreto?” Apois. Depois de uma campanha cívica da UDN, a
oposição da época, foi consagrada a cédula única na qual o
eleitor marcava com X o nome do candidato escolhido. Veio o
voto eletrônico, o coronel morreu, mas o coronelismo está aí
vivinho da Silva. A diferença é que os chefões políticos de
hoje em dia recorrem à tecnologia “muderna” para praticar o “neocoronelismo”.
O governo federal, seja pretenso social-democrata, seja falso
socialista, distribui cartõezinhos de plástico para dar acesso
do miserável às proteínas do Bolsa Família: este é o
assistencialismo estatal. O particular fica sob as ordens do
crime organizado. Os traficantes de drogas e os milicianos que
os combatem ordenaram a seus currais eleitorais concentrados
nos bairros miseráveis das periferias das grandes cidades
brasileiras que usassem seus telefones celulares de tecnologia
de ponta para fotografar a maquininha de votar e assim
assegurar que ninguém está traindo a promessa do voto no
candidato preferido da quadrilha ou da milícia. Precisa dizer
mais alguma coisa para o preclaro leitor sacar a atualidade
deste livro do André Heráclio, que é do mesmo clã do Rego ao
qual pertencia o velho Chico?

|