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Uma das maiores pragas do Brasil – comparável à saúva dos
tempos de Jeca Tatu e à corrupção e ao crime organizado atuais
– é a mentalidade lotérica que assola nossa sociedade. Muitos
brasileiros (é sempre perigoso generalizar, mas também seria
ingenuidade não reconhecer isso) têm a ilusão de que é
possível ganhar tudo o que precisa para viver com conforto de
uma vez só e não têm paciência para ir construindo
paulatinamente e acumulando os bens resultantes do trabalho
duro aos poucos. Apesar da proibição do jogo de azar no
governo Dutra, após o colapso do Estado Novo de Vargas,
aposta-se o tempo todo no Brasil. Faz isso o comerciante que
explora o turista nas praias durante o verão; o vendedor de
bondes que sonha com o grande golpe; o aposentado viciado em
bingos, que teimam em funcionar, apesar de ilegais; o batedor
de carteiras; ou o assaltante profissional. Mas também o
empresário dependurado nas tetas do Estado, o funcionário
público que cria dificuldades para vender facilidades, o
viciado nos pregões da Bolsa e os milhares de pré-adolescentes
que acorrem às peneiras dos times de futebol ou aos programas
de calouro em busca de glória e fortuna fáceis. Este não é um
caráter exclusivamente nacional, mas havemos de convir que
aqui a impunidade crônica e a desigualdade abjeta do “manda
quem pode, obedece quem juízo”, adicionada ao “me engana que
eu gosto”, prosperam mais que em outros países, onde se
prefere dar duro no presente, investindo no pra frente, a só
sonhar com o futuro. Esta mentalidade malsã fundou a República
do mensalão, do cartão corporativo e do “levar vantagem em
tudo”, de interesse da elite dominante, que enche as próprias
burras para distribuir com os apaniguados, dá sombra e água
fresca aos devotos do bezerro de ouro do mercado financeiro e
fornece esmolas de proteínas aos miseráveis. Antônio Ermírio
de Moraes é, portanto, um brasileiro na contramão. Herdeiro de
uma tradição de riqueza que ganha foros simbólicos, não se
insere nestes padrões do ganho fácil, da escravização às
aparências e às facilidades que nossa sociedade
patrimonialista concedeu a seus ascendentes e permite aos
descendentes. Na pátria da cigarra, resolveu ser formiga:
virou uma espécie de símbolo do homem que produz, um
estrangeiro num território favorável aos lances de dados e
hostil ao suor. Por isso mesmo, não deu certo na política,
atividade em que se pratica a promoção pelo demérito e se
considera a falta de escrúpulos e o desprezo ao mérito
vantagens insuperáveis. O fato de ter sucesso nos negócios
fala bem das empresas e obras beneméritas que administra, da
família e dele mesmo, mas também do Brasil. Afinal, se ele dá
certo, por que outros de nós, comprometidos com a solidez das
construções, feitas tijolo a tijolo, com argamassa no meio,
também não daríamos? Um homem respeitado pelo que faz vale
muito numa terra em que a inveja pelo êxito alheio só é
superada pela adoração dos aventureiros bem-sucedidos. A vida
real, sem fantasia, do empresário, do dramaturgo, do
benemérito Antônio Ermírio de Moraes é um investimento num
País melhor, que dorme embaixo das roletas e acima das
propinas. Tê-lo como exemplo é a prova de que nem tudo é jogo,
nem tudo é acaso e que o possível é possível, num ambiente em
que nos acostumamos a sonhar com o improvável, embalados por
um acomodamento covarde e oportunista. É a constatação de que
o antropólogo francês Claude Levi-Straus não estava com razão,
pelo menos não tinha a razão inteira, ao afirmar que o Brasil
passou da barbárie para a decadência sem conhecer a
civilização. Há, como afirmava o gênio da raça Gilberto
Freyre, sementes de uma civilização nos trópicos nos
empreendimentos do Grupo Votorantim, na medicina de excelência
do Hospital da Beneficência Portuguesa e não apenas nestes
exemplos, que podem não ser muitos, mas também não são de
exceção. Pois, afinal, Antônio Ermírio de Moraes é um
brasileiro comum, como eu, você e o Zé Mané da esquina, que
percorre a pé quilômetros de casa para o trabalho duro e,
mesmo sem conviver com a fortuna nem com a glória, não se
deixa seduzir pelo tilintar das fichas do “cassinão” em que
alguns querem transformar nossa pátria.
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