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José Nêumanne
O ABC é uma
modalidade do repente (poesia popular sertaneja) e do cordel,
sendo basicamente usado para celebrar feitos e heróis do povo,
que ouve os desafios de viola ou lê os folhetos com romances
vendidos nas feiras livres do sertão. É uma prática ancestral de
celebrar o heroísmo a partir de senhas, ou palavras-chave, por
ordem alfabética, de A a Z. Bráulio Tavares, que
conhece
bem as formas literárias populares do Nordeste (assim como da
ficção científica), recorreu a esse modo para fazer uma
abordagem original do universo no qual se apóiam dramas e
romances de seu conterrâneo Ariano Suassuna. No ano da
comemoração dos 80 anos do escritor paraibano (nascido no
Palácio do Governo, em 1927, ano em que seu pai, João Suassuna,
era presidente da Província, que sempre lhe serviu de cenário,
mesmo tendo o autor se mudado para Pernambuco, em cuja capital,
Recife, foi estudar, quando sua mãe ainda morava em Taperoá), o
livro de Tavares se destaca exatamente por isso.
Leitor apaixonado
da poesia e do romance e espectador privilegiado do teatro de
Suassuna, o escritor de Campina Grande aproveita a celebração da
efeméride para revolver, de forma competente e agradável, todo o
universo mítico no qual o literato pessoense ergueu seu marco,
para usar outra expressão familiar aos interessados na poética
popular nordestina: Marco marciano, por sinal, é o título da
canção de Lenine e Bráulio que mistura a epopéia sideral com a
saga sertaneja. Bráulio recorreu a um expediente interessante
para facilitar a leitura do abecedário pelo leitor urbano,
desacostumado à fórmula. O primeiro verbete é Acauã, nome da
fazenda onde Ariano passou os primeiros anos de sua infância,
com o pai ainda vivo. A fazenda, em Souza, no sertão paraibano,
é histórica, pois por lá passou Frei Caneca em ferros a caminho
de Recife, onde liderara malograda revolta republicana contra o
Primeiro Império, e teve sua decadência registrada nas imagens
de um clássico do documentário brasileiro, O país de São Saruê
(título inspirado num folheto de cordel), dirigido por outro
paraibano, Vladimir Carvalho.
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Descrita
no verbete João Grilo, seu protagonista, a obra-prima de Ariano Suassuna, a
comédia teatral O auto da compadecida, é, como ele mesmo gosta
de apregoar em suas engraçadíssimas aulas-espetáculo, a fusão de
três folhetos de cordel, que leu na infância. O mais celebrado
de sua prosa de ficção, A pedra do reino, do qual Luiz Fernando
de Carvalho adaptou uma microssérie para a televisão, levada ao
ar em junho passado, justamente quando se comemorava o
aniversário do autor do romance, também se inspira (mais que
isso, se molda) em formas da narrativa popular, seja cantada por
violeiros e rabequistas, seja impressa nos folhetos dos poetas
de bancada. O título da tese da professora Elizabeth Marinheiro
sobre o romance - A intertextualidade das formas simples -
remete exatamente a essa questão: trata-se de um texto de ficção
construído sobre a intertextualidade, só que não das citações
eruditas, como o termo complicado pode insinuar, mas, sim, das
formas literárias que falam diretamente ao goto, ao gosto e ao
conhecimento do povo. A forma original que Bráulio encontrou
para celebrar seu ídolo foi falar das fontes em que ele bebeu
para construir a obra pela qual ele se tornou conhecido e
festejado no Brasil inteiro na programação do veículo popular
por excelência da arte, da cultura, do entretenimento e da
informação. Ao dissecar as origens dos textos nos quais o
celebrado autor se inspirou, o exegeta aproveitou para trazer a
lume a extraordinária riqueza da produção literária dos sertões.
É conhecida da academia - e até mesmo do público leitor em geral
- a militância de Ariano pela conservação das formas da cultura
popular, de origem marcadamente ibérica, mas misturada com
tradições indígenas e africanas. Infelizmente, contudo, só se
conhece a releitura que ele tem feito, primeiro no teatro e
depois na prosa de ficção, das obras seminais dessa cultura, que
pode ser sepultada pela urbanização, pela tecnologia e,
sobretudo, pela globalização. Bráulio faz, neste sentido, um
trabalho exemplar, ao escavar, como um arqueólogo e expor à luz
do dia obras de extraordinário valor, recriadas pelo engenho e
pela arte de um escritor fora de série, ao qual, aliás, o autor
do abecedário sempre rendeu suas homenagens, a ponto de se
tornar um especialistas - para tanto convidado para participar
da redação do roteiro original da microssérie para a televisão.
O último verbete foi
reservado para Zélia, a bela mulher com quem o feioso dramaturgo
se casou e sua paixão pela vida afora.
Seja na forma
adaptada da modalidade de viola e cordel, seja na escolha das
palavras para encimarem o capítulo, permitindo uma abordagem
linear da vida, paixão e influências do autor-tema, Bráulio
traça um painel completo de um universo rico, colorido e
profícuo. Didático, mas sedutor, seu estilo introduz o leitor
num universo ancestral, que se torna novo a seus olhos ávidos de
informação. |
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