José Nêumanne

             

Da infância, no sertão, só guardo lembrança de um único amigo: meu irmão Nilton, um ano mais novo. Brincávamos muito juntos, mas não me lembro de termos possuído brinquedos, destes produzidos em indústrias, naquele tempo de plástico, mas ainda não estes gadgets, bugigangas eletrônicas e complementos de luz, imagem e som que hoje predominam nos folguedos infantis. Brinquedo mesmo, no sentido pelo qual se entende a palavra hoje, só me lembro ter possuído um cavalo de pau, sobre o qual procurava imitar Roy Rodgers, Buck Jones ou Hapolong Cassidy, mas sem as camisas de franjinha, as cartucheiras nem os revólveres de plástico que Carlos Antônio, da minha idade, possuía e exibia com garbo. Meu irmão e eu costumávamos brincar com latas vazias de Toddy, que sob nosso controle se tornavam carros, prédios, monumentos e até pessoas. Crianças mais dadas ao esforço físico disparavam nas ruas em patinetes e carrinhos de rolimã, fabricados com rolamentos abandonados de automóveis. O que enriquecia e até enobrecia aquele lixo industrial era a imaginação: brincar, desde sempre, foi, é, a arte de tirar aventuras e prazeres do escasso, às vezes do nada. Mais até que isso: o exercício de animar, não no sentido estreito de alegrar, mas, sim, no mais amplo, o de dar anima (alma, em latim) a objetos inanimados. Daí, a proximidade existente entre artistas e arteiros, tanta que as duas atividades nem sempre se diferenciam: quem faz arte muitas vezes também a produz. E vice-versa. Esta exposição mexe com animação, nesse sentido lato de dar um sopro de vida em matéria morta e também no outro, do movimento, da mobilização. Fazer ficção é brincar com palavras escritas. O teatro, uma brincadeira de gestos e palavras faladas. Dentro de nós moram artistas e arteiros, muitas vezes até artistas arteiros: somos gente que pinta o sete e vai ao parque andar de roda gigante e girar no carrossel. Gente comum ou singular: meninas que jogam bola e marmanjos que não se envergonham de brincar de boneca. Mamulengos na maleta, monjolos em miniatura, rói-rói na barraca da feira livre: objetos que nos remetem à infância dentro da carcaça que enruga, engorda e cai. Brincar, jogar, tocar, fazer arte: jeitos de manter serelepe a velha inocência original, nunca perdida.


José Nêumanne é curador literário do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro.

Vilma Eid

   

      Quanto mais viajo pelo Brasil afora, quanto mais conheço e convivo ( menos do que gostaria...) com nossa gente, nossos artistas e arteiros, mais me encanto com o humor e a criatividade do povo brasileiro.
    Volto sempre pra São Paulo reenergizada, com o corpo cansado das longas andanças e a alma lavada, alegre, feliz.
    A vontade é de mostrar o que vejo, o que encontro, o que me surpreende!
     Daí nasceu ARTISTAS E ARTEIROS, muito mais da minha necessidade de prolongar essa sensação de leveza e de compartilhar com quem queira minhas emoções.
     Tenho crises de ufanismo e percebo que somos capazes de, apesar de todas as adversidades, tocar esse Brasil pra frente.
    Somos um povo feliz que, muitas vezes não ambiciona mais, porque acredita não precisar de mais.
     Eu estava , certa vez, em Recife, no 18* andar do hotel Recife Palace, em Boa Viagem, onde me hospedo, quando ouvi uma música em volume muito alto. Fui à janela e vi, lá embaixo, uma multidão seguindo, cantando e dançando, um trio elétrico de brinquedo. Ele tinha um som possante e era guiado por controle remoto pelo seu muito orgulhoso dono e criador. Ri sozinha e entendi que aquele homem não pensava em morar melhor, comer melhor, se vestir melhor ou colocar os filhos em uma escola melhor. Ali estava um cidadão feliz! Pra que mais?
     Meu desejo é que, ao passearem por esta mostra, vocês, crianças de 2 a 90 anos, também sintam a alegria que motivou esses criadores, que retiram do seu cotidiano e do seu ambiente, a inspiração e o material necessário para produzir.
     Manipulem, mexam, interajam, descubram os movimentos, os segredos, a diversão que cada um desses objetos pode nos proporcionar.
    Essas peças são apenas algumas das que recolhi por minhas andanças e não tenho a pretensão de que elas possam representar todo o universo do imaginário do povo brasileiro, infinitamente rico!
   Quem sabe vocês também não passarão a pensar e a olhar para eles, dando risada.


Vilma Eid
é presidente do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro.

 

O jornalista e poeta José Nêumanne Pinto será o primeiro a receber a medalha José Lins do Rego do mérito literário, criada por projeto do deputado estadual Fabiano Lucena, do PSDB, no plenário da Assembléia Legislativa do Estado da Paraíba, em João Pessoa, sexta-feira 26 de outubro de 2007, às 16 horas.

 

 

 

 

 

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: