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Desde que Ernest Renan fez publicar sua
monumental e magnificamente escrita série de
textos sobre as origens do cristianismo, em
que lançou luz sobre sua figura, o fariseu
Saul (com nome de rei tribal judeu) de Tarso
saiu das sombras de uma posição subalterna
no Novo Testamento para campos mais
iluminados da reflexão filosófica. Embora
tenha mantido incólume sua fama de prosador
de indiscutíveis graça e qualidade, o
francês é hoje submetido ao crivo das
dúvidas em seus atributos de arqueólogo e
historiador. De sua biografia de São Paulo,
rebatizado após a espetaculosa conversão, ao
cair do cavalo na estrada de Damasco, de
perseguidor de cristãos a cristão
perseguido, vêm a lume sinais de que este
foi mais que o apóstolo dos gentios da
tradição de uma das profissões religiosas
predominantes no mundo pós-Império Romano.
Mais que mártir ou autor das epístolas às
comunidades cristãs primitivas mantidas no
rito da missa 20 séculos depois, ele foi
redescoberto como uma espécie de criador do
Cristo, a mente poderosa que transformou o
profeta simplório e taumaturgo popular na
referência de uma civilização que dominaria
os territórios conquistados pelas legiões
romanas e as mentes e os corações que nelas
têm habitado. O Paulo de Renan criou algo
que viria a se chamar de Ocidente e foi o
instaurador da Europa, continente que
dizimou indígenas na América e tribos
primitivas na África, deixando suas pegadas
também pela Ásia anciã.

O filho do comerciante de tendas, que,
segundo se desconfia, pode ter corrompido
algum burocrata do Império para adquirir a
condição de cidadão romano, judeu de origem
e grego por vocação globalizante (ou seja,
gregária), está descendo dos altares para
conquistar a glória das cátedras. Nesta era
globalizante, ele deixa a hagiografia para
ocupar o panteão da filosofia, entrando pelo
portal da ideologia. É possível argumentar
que a simpatia dos comunistas pelas raízes
da cristandade remonta às origens do
marxismo: o parceiro financiador do velho
barbudo, Friedrich Engels, tratou do tema
comparando os cristãos primitivos com os
pioneiros das comunas no século 19. Engels,
contudo, não é filósofo que se leve a sério
fora das hostes socialistas, ao contrário do
francês Alain Badiou, autor do recém-lançado
São Paulo: A Fundação do Universalismo
(tradução de Wanda Caldeira Brant). Num
texto erudito, claro e breve, este papa do
pensamento da esquerda democrática
contemporânea europeia resgata o papel
fundamental que o apóstolo peripatético e
distribuidor de cânones para os prosélitos
da nova religião na Ásia Menor e no centro
do Império teve na fixação de nossa vocação
para cidadãos do mundo.
Com a honestidade intelectual dos devotos da
lógica e da transparência, capazes de ler
além dos próprios limites e raciocinar acima
dos preceitos, o autor encontra nas
epístolas paulinas mais que as evidências da
instauração do amor como norma de convívio e
sobrevivência da condição humana.
O célebre trecho da carta aos coríntios, em
que o missivista
indica ao homem antigo a
porta de saída de sua renitente crosta de
egoísmo bárbaro, usando o convívio
harmonioso com o
outro como senha de acesso
à civilização, compõe um conjunto de ideias
fundadoras. Coerentes entre si, tornam a
palavra paulina essencial, conforme Badiou,
para a compreensão dos enigmas que ora
tentamos decifrar.
Mais até que o universalismo do discurso do
apóstolo, citado no título do ensaio,
fascina o filósofo francês a atualidade do
pregador globe-trotter de 2 mil anos atrás.
Ele encontra essa contemporaneidade
“perpétua” no estilo e até no universo
vocabular empregados nas epístolas, que,
segundo o consenso arqueológico, precedem
historicamente os Evangelhos e os
outros textos do Novo Testamento. Por
mais escassas que sejam as linhas das cartas
chegadas até nós hoje em dia, nelas
predomina, conforme Badiou, “sob o
imperativo do acontecimento, algo vigoroso e
atemporal, algo que, precisamente porque se
trata de destinar um pensamento ao universal
em sua singularidade nascente (o grifo é do
autor), mas independentemente de qualquer
particularidade, nos é inteligível sem
termos de recorrer a pesadas mediações
históricas (o que está longe de ser o caso
de diversas passagens dos Evangelhos,
para não falar do opaco Apocalipse).”
Pier Paolo (que não se perca pelo nome)
Pasolini, grande cineasta (diretor do
vigoroso O Evangelho Segundo Mateus),
definido por Badiou como “um dos maiores
poetas de nosso tempo”, é citado na obra
como testemunha dessa contemporaneidade que
nunca se perde. O autor ilustra sua
afirmação com o projeto cinematográfico em
que PPP pretendia situar o apóstolo hoje sem
mudar uma só palavra que remanesce do que
ele escreveu há 20 séculos. Poderoso
exemplo, não?
Só que há no livro de Badiou algo que vai
além do roteiro citado, no qual Pasolini
pretendia fazer do xará dele um ancestral
dos comunistas atuais. A atualidade que o
pensador moderno vê nas cartas do apóstolo
de antanho não se apoia em ideias, mas em
eventos, na clareza com que o missivista
antigo descrevia os fatos de seu tempo com a
clarividência de quem é capaz de enxergar
além dele. O Paulo de Badiou não é
precursor, mas profeta: não prevê, mas
relata o que vai mudar para que tudo fique
tal qual sempre foi.
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