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O primeiro impacto produzido por esta edição da Rovelle é a
beleza esplendorosa que salta aos olhos na capa e na
contracapa. E também habita cada página do livro. Esta beleza
nasce da consciência do poder encantatório da palavra que tem
o autor, o múltiplo artista paraibano Chico Salles. Compositor
e intérprete musical, além de poeta do improviso, ele tem a
noção exata deste poder
na dimensão oral da língua dos violeiros nordestinos, dos
mestres do improviso da poesia sulina e da carga de sedução
dos diversos sotaques regionais que em nada alteram a beleza
nada inculta da última flor do Lácio, que Camões inventou e
Eça, Pessoa, Machado, Bandeira, Drummond e tantos outros têm
aperfeiçoado ao longo dos tempos. À intimidade com a palavra
dita Chico soma a familiaridade com o verbo escrito. E o
gênero literário que mais aproxima a linguagem falada dos
códigos impressos é o cordel, romanceiro popular que se
aproveita das facilidades mnemônicas da poética cantada para,
com os versos impressos em papel, tornar-se poesia de bancada.
Mestres desta arte, como outro sertanejo paraibano (de
Pombal), Leandro Gomes de Barros, homenageado neste
Cordelinho, já fizeram isto antes muitas vezes, contando
aventuras, romances de amor e causos de graça (publicáveis ou
fesceninos). A novidade deste livro é que o cordel tem sido
pródigo em gestas e romanceiros, mas não no mesmo grau em
literatura infanto-juvenil: é aí que Chico inova recontando
velhas histórias tradicionais de bichos de domínio público,
algumas das quais ele deve ter ouvido na infância em Souza, no
mesmo Vale do Rio do Peixe onde nascemos Ciro Fernandes e eu.
E falar do xilogravador Ciro de Uiraúna, que ilustra este
livro, é tratar da extraordinária beleza visual deste volume.
Ex-pintor de paredes na periferia de São Paulo e, depois,
“artefinalista” de agências de publicidade no Rio de Janeiro,
este meu conterrâneo tornou-se um dos mais inspirados artistas
neste gênero plástico popular do Brasil, muito utilizado nas
capas dos folhetos, quase sempre feitas pelos autores, desde
que aprendeu sua técnica com outro paraibano, Zé Altino. A
barata e o tigre, protagonistas dos romances de Chico Salles,
ganham vida nos seus versos. E cor, brilho e beleza também nas
extraordinárias e marcantes ilustrações de Ciro de Uiraúna,
senhor de um estilo único e privilegiado, que marca estas
páginas como sinuosos desenhos em ferro em brasa deixavam nas
pernas dos rebanhos de nossos ancestrais signos que
identificavam seus proprietários. Chico Salles e Ciro
Fernandes introduzem com este Cordelinho as crianças do Brasil
no universo encantado dos romances de Pavão Misterioso,
Generosa, Cego Aderaldo, Camonge, Bocage, Zé Pretinho e Inácio
da Catingueira. E devolvem a todos nós retalhos coloridos de
uma infância que nunca será perdida.

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© Prefácio da segunda edição do livro Cordelinho, de
Chico Salles, com ilustrações de Ciro Fernandes,
editado pela Editora Rovelle (Rio de Janeiro, 2008).
José Nêumanne, jornalista, poeta e escritor, é comentarista
dos jornais da Rádio Jovem Pan e do SBT, editorialista do
Jornal da Tarde e autor do romance O silêncio do delator,
prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira
de Letras, em 2005, pelo melhor livro de 2004. |