Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 4 de maio de 2006


 

Nossa razão e a do outro


Compreender a razão do outro é o segredo da boa diplomacia, certo? Certo! Mas o diplomata tem de conhecer a razão do outro exatamente para se tornar mais capacitado para defender o interesse do país que representa. O que falta ao trio de chanceleres brasileiros, principalmente a Marco Aurélio Garcia, que comanda as ações nacionais no palco “cucaracho”, é ter a mínima noção de defesa dos interesses brasileiros. Amamentada no leite da má consciência da exploração da miséria latino-americana pelo imperialismo tupiniquim, o consórcio Garcia-Amorim-Guimarães entende bem as razões de Hugo Chávez, Nestor Kírchener e mais ainda as do descendente de índios Evo Morales. E se esquece de que somos nós que lhes bancamos vencimentos e mordomias. 

 


Com as calças na mão


Um assessor próximo ao presidente Lula, não identificado, confidenciou que o governo brasileiro “foi pego de calças curtas”. Na verdade, foi pego com as calças na mão. Porque o trio de chanceleres não informou ao presidente (que, como se sabe, não é muito fanático por receber notícias que o contrariem) que o Brasil não deveria contar com a falácia do presidente da Petrobras, de que os bolivianos não têm como operar as refinarias ocupadas. Têm, sim! Técnicos e administradores venezuelanos, sob a chancela do “grande irmão” Hugo Chávez, já fazem isso há tempos, antes mesmo de o “companheiro” Evo Morales reduzir o contrato com a Petrobras a cinzas. A tal solidariedade bolivariana sulamericana é um conto de carochinha para enganar petista bobo.


E agora, Luiz?


Neste ano eleitoral, o governo federal tem vendido a falácia de que a conquista da auto-suficiência em petróleo é mais um grande feito, naquela base do discurso palanqueiro do “nunca antes”. A questão que se impõe depois da punhalada pelas costas do “companheiro” indígena da Bolívia é se o eleitorado brasileiro vai ser devidamente informado do rombo de US$ 1 bilhão que a ilusão da solidariedade com os pobres irmãos andinos está produzindo nos cofres da Petrobras, empresa cujo acionista majoritário é o pobre e sofrido povo brasileiro. Afinal, a auto-suficiência é produto de um esforço de vários governos e o prezuíjo na Bolívia resulta de um erro de cálculo grosseiro só dos atuais gestores.

 

DIPLOMACIA INCAPAZ

                Não dá para esperar nada de corajoso nem de particularmente inteligente ou sensatamente honesto do chanceler Celso Amorim. Afinal, esse cidadão foi presidente da Embrafilme no regime militar e, depois de ter sido ministro das Relações Exteriores no mandato-tampão de Itamar Franco, apresenta-se como “vítima” da ditadura para ficar bem com os colegas da atual gestão petista. Teoricamente, ele é chanceler, mas na prática não é bem assim. Pode ocupar o cargo e gozar das mordomias que este propicia – e elas não são poucas -, mas sua influência na política exterior do governo Lula é quase nula, porque no Itamaraty propriamente dito manda seu secretário-executivo, o também diplomata de carreira Samuel Pinheiro Guimarães, e nas relações com os parceiros tidos como prioritários pela elite petista no poder, os vizinhos da América Latina, quem dá as ordens é Marco Aurélio Garcia, professor universitário e há muito tempo conselheiro de Lula para assuntos que exijam alguma escolaridade, assunto no qual, como se sabe, o chefe do governo não é propriamente enfronhado.
               Pois bem, mas ainda assim, é surpreendente que a diplomacia brasileira ainda seja surpreendida por atitudes agressivas como a do novo presidente da Bolívia, o tosco Evo Morales, que rasgou o contrato que regulava a presença da Petrobras em seu país e ainda mandou tropas fardadas, armadas e embaladas, ocupar as refinarias da estatal brasileira em seu território. A atitude do novo caudilho boliviano foi um ato de guerra típico e só não foi encarado como tal pelo Itamaraty nesta sua nova fase à qual se incorporou ao tradicional fastio de nossos profissionais a submissão a ditames ideológicos absurdos porque anda faltando aos sucessores do Barão de Rio Branco o mínimo de competência e um restinho de nada de amor à Pátria.
Nossa razão e a do outro
             Compreender a razão do outro é o segredo da boa diplomacia, certo? Certo! Mas o diplomata tem de conhecer a razão do outro exatamente para se tornar mais capacitado para defender o interesse do país que representa. O que falta ao trio de chanceleres brasileiros, principalmente a Marco Aurélio Garcia, que comanda as ações nacionais no palco “cucaracho”, é ter a mínima noção de defesa dos interesses brasileiros. Amamentada no leite da má consciência da exploração da miséria latino-americana pelo imperialismo tupiniquim, o consórcio Garcia-Amorim-Guimarães entende bem as razões de Hugo Chávez, Nestor Kírchener e mais ainda as do descendente de índios Evo Morales. E se esquece de que somos nós que lhes bancamos vencimentos e mordomias.

Ilusão de noiva


        A brutal nacionalização dos ativos da Petrobras na Bolívia também põe em xeque o velho sonho petista (administrado por Marco Aurélio Garcia) da liderança mundial a ser exercida por Luiz Inácio Lula da Silva. Se não consegue administrar velhos quintais brasileiros, como a Bolívia, agora sob influência do venezuelano Hugo Chávez, como pode nosso profeta e guia do “nunca antes” almejar o pódio disputado por pesos pesados da economia do futuro, como Índia e China? O pior é que nem a rápida substituição dos técnicos brasileiros pelos venezuelanos no terreiro de Evo Morales deverá mostrar de uma vez aos teóricos da hegemonia do “pai dos pobres” sobre o mundo encantado o absurdo desse sonho.

Que emprego, que nada, sô!


Amigo leitor do JP, quer saber por que o candidato da oposição, Geraldo Alckmin, do PSDB, não consegue fazer sua campanha decolar nem do aeroporto João Suassuna, ao embalo do forró, em Campina Grande? Leia a entrevista que ele deu para o Estadão domingo dizendo que fará do Bolsa Família uma “porta de saída”, criando empregos depois de dar a esmola. Os tucanos não entenderam direito que o segredo que faz o povão perdoar o PT do “mensalão” e do “valerioduto” é a esmola propriamente dita, e não uma perspectiva de ocupação. Eles me lembram o caso do mendigo desaforado que, ao receber a esmola e o conselho de que não deveria pagar bebida com ela, retrucou: “Vai querer o quê? Que eu compre uma casa?”

 

 

 

  Eles sabem que fazem


Nem o mais ingênuo dos brasileiros tinha o direito de esperar comportamento diferente da cúpula petista que, neste fim de semana em São Paulo, decidiu postergar para depois das eleições (e daí, com certeza, para as calendas gregas) a investigação sobre a “companheirada” que se envolveu no escândalo do “mensalão”. A auto-indulgência do PT não permitia outra saída para a questão. Como se sabe, com base no velho lema stalinista, segundo o qual “os fins justificam os meios”, os petistas adaptaram a frase de Cristo na cruz e têm como preceito o “perdoai-nos, ó vós, que sabeis que, como nós, também fazeis”. Do mandamento comunga a oposição, partícipe do perdão genérico aos “mensaleiros” na Câmara.

 


Assim seja, mano!


O cúmulo da desinformação é pensar que a esquerda em geral – e o PT em particular – considera o comunismo fim e a ditadura do proletariado meio para chegar a ele. Os fins agora são as “boquinhas” no aparelho do Estado e para conquistá-las vale a disputa dentro das regras do jogo da democracia dita “burguesa”, por isso mesmo tão execrada antigamente. O “partido das boquinhas” agora precisa mesmo é reeleger o companheiro-mor presidente, como declarou o secretário de Relações Internacionais, Valter Pomar. Se para tanto, convém enterrar o velho sonho da auto-suficiência da ética na política, é só chamar o padre de passeata e mandar dar a extrema-unção ao velho discurso abandonado. Amém, só nós!

 

Francenildo Santos Costa, o Nildo, humilde caseiro piauiense, que ousou contar o que viu e com isso derrubou o todo-poderoso primeiro ministro da Fazenda do governo Lula, Antônio Palocci, reúne todos os méritos para estrelar esta série de heróis brasileiros, inaugurada aqui na semana passada com Severina Xavier, a Guarabira, paciente do leprosário de Bayeux. Ele encarou todas as pressões e continua sendo processado pelos esbirros da Receita e da Polícia Federal, mas não mentiu. Nem omitiu.