Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Quem tem medo de Sílvio Pereira?



    Há quem se preocupe com o que o ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira tem a contar sobre o bilhão que Marcos Valério ambicionava levar no tal do “mensalão”, mas este colunista abelhudo está mais interessado é na parte da entrevista (que ele deu ao Globo do Rio de Janeiro domingo) à qual ninguém deu atenção: a ameaça de morte de que se diz alvo o entrevistado.
    Se Padre Bernardo, professor de lógica deste escriba no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, nos anos 60, ainda estiver vivo, certamente me cobrará as oportunas lições que me deu e exigirá que as aplique no caso. Se Sílvio teme que sua vida corre risco deve saber também por quê. Ou seja: talvez o ex-membro da cúpula do partido no governo tenha informações que podem prejudicar muita gente importante. Essa é a única explicação possível para o fato de alguém se sentir ameaçado a ponto de ameaçar matá-lo. Por que diacho, então, é que ninguém, do governo ou da oposição, discutiu seriamente essa ameaça de morte e suas razões? O que essa gente teria a temer?
    Bem, para ser justo, há uma pessoa que se tem manifestado a respeito desse assunto: a senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), que declarou o seguinte: “Do mesmo modo que existem petistas socialistas e honestos, também há (no PT) pessoas capazes de roubar, matar, caluniar e liquidar qualquer um que passe pela frente, ameaçando seu projeto de poder”. Ela disse isso esta semana, repercutindo o temor de Pereira.
    Candidata a presidente da República, a senadora deve saber o que fala, uma vez que foi do PT. Mas até agora não apareceu ninguém do governo ou da oposição para contestá-la ou exigir dela mais explicações. Que país é este em que uma postulante ao maior posto da República faz uma acusação dessa gravidade e ninguém se manifesta a respeito?

 



Funerais na fronteira



    Para ser fiel ao espírito macabro desta coluna hoje, encerro-a dando-lhe uma dica cultural. Se passar em João Pessoa a fita Três enterros, de Tommy Lee Jones, o ator americano estreando na direção, não perca! É uma versão bem-sucedida daquela maçante telenovela global América. A saga de uma amizade, ocorrida na fronteira despovoada do Texas com o México, é narrada na fita com fluência, mantendo em suspenso o fôlego do espectador, a principal característica de uma boa narrativa, segundo o preceito do mestre Gabriel García Márquez. Os intérpretes, principalmente o protagonista e diretor, mas não somente ele, dão um banho de competência em seus papéis. Não se deixe espantar pelo título tétrico.

Impunidade geral e irrestrita



    Continua válida como nunca a expressão “Brasil, país da impunidade”, cunhada pelo colega Sebastião Barbosa, o Barbosinha, sobrinho da mártir dos camponeses Margarida Alves. Demitido pelo presidente da República da Casa Civil e cassado pelos próprios pares da Câmara dos Deputados, o comissário José Dirceu continua desfilando lépido e fagueiro em jatinhos particulares emprestados por amigos ricos. E acaba de ganhar do amigo Eros Grau um presentão de Dia das Mães: não vai ter de explicar ao MP de São Paulo se, afinal, recebia, ou não, malas de dinheiro oriundas de Santo André e transportadas no automóvel de Gilberto Carvalho, hoje secretário particular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Perícia suspeita



    Aliás, a senadora Heloísa Helena não faz segredo de que também se sente ameaçada de morte por sua oposição ferrenha ao governo. Recentemente, ela telefonou para a viúva de Antônio Costa Santos, equivocadamente apelidado na mídia de Toninho do PT (e só depois de sua execução, à véspera da queda das torres gêmeas de Nova York, em setembro de 2001) para avisá-la de que, se aparecer morta e isso for atribuído a suicídio, ela não deveria acreditar. Roseana Garcia, a interlocutora, que também se sente ameaçada por exigir a apuração completa do assassínio do marido, entendeu perfeitamente o recado. A senadora se referia à perícia que apontou como suicídio a causa da morte de Carlos Delmonte, o legista dos casos de Campinas e de Santo André.

Quem quer matar Heloísa?



    Será útil ainda lembrar que Heloísa Helena não manifestou essa desconfiança apenas em particular. Pelo microfone do plenário do Senado, contou a seus pares que avisou aos filhos que não acreditem que possa ser um crime banal, comum no ambiente violento das grandes cidades brasileiras, o eventual assalto de que ela seja vítima. No mesmo pronunciamento reafirmou que não tem vocação suicida. E disse, com efes e erres, quem considera suspeito de mandar matá-la, caso isso venha a acontecer: “este governo de bandidos”. Não consta que nenhum ex-colega petista da parlamentar e presidenciável tenha tentado desmenti-la ou sequer desdizê-la. Por que será, hein? Falta-lhes convicção de que ela mente ou lhes sobram informações de que ela fala a verdade?

Nunca antes se temeu tanto



    Quem acha que a senadora tem razões para temer pela vida baseia-se em noticias recentes. A viúva de Antônio Costa Santos tenta obter cidadania portuguesa para a filha adolescente por não se sentir segura no Brasil. O irmão mais velho de Celso Daniel, João Francisco Daniel, fechou a clínica de oftalmologia de 30 anos em São Bernardo para se esconder no interior da Bahia, com medo de ser executado pelos assassinos do ex-prefeito petista de Santo André. O irmão deles, Bruno Daniel, e a mulher deste, Marilena Nakano, fugiram para o exterior, levando os três filhos, pelo mesmo motivo. Deu uma síndrome geral de pânico entre parentes de petistas mortos ou há algo mais podre no ar do que se admite neste reinado de dom Lulinha, que “nunca antes...”?

Do camarada bigodudo



    Há quem estranhe o fato de o PT, que demonstra nunca ter faltado a nenhuma das aulas dos coronéis de antanho, ora se empenhe tanto em manter impunes os mandantes dos assassinatos dos próprios companheiros Antônio Costa Santos e Celso Daniel. Afinal, os coronéis só matavam adversários, nunca amigos ou apaniguados. Esta era uma especialidade do ídolo da “companheirada” petista: Josef Stalin. Quem duvidar está convidado a ler o calhamaço Stalin – na corte do czar vermelho, de Simon Montefiore. Compulsando as cartas dos auxiliares mais próximos do camarada bigodudo, o autor conta em detalhes como este planejava e executava a extinção física dos que mais pareciam gozar de sua confiança e amizade.

HERÓIS BRASILEIROS


     Nesta República, onde o ex-presidente do STF Nélson Jobim se comportou como um rábula em defesa de José Dirceu, permanentemente defendido por outro juiz do Supremo, Eros Grau, o comportamento do procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, merece aplauso. Seu libelo acusatório contra os 40 ladrões do “mensalão” tem justo destaque, não apenas pelo heroísmo pessoal do signatário, mas pelo indício de que uma instituição republicana ainda é digna dessa denominação: o Ministério Público.