Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 18 de maio de 2006

...E a tragédia continua



    O balanço dos 251 atentados terroristas executados por ordem de um tal de Marcola, de seu telefone celular na prisão de onde dirige o Primeiro Comando da Capital, o PCC, foi trágico: 80 ônibus, 15 agências bancárias, 1 garagem de ônibus e 1 estação de Metrô foram atacadas, resultando 115 mortos, ao todo – 71 do bando atacante e 44 agentes da lei ou inocentes (23 policiais militares, 6 policiais civis, 3 guardas municipais, 8 agentes carcerários e 4 civis). E que ninguém se engane com o número de bandidos presos – 115 –, pois ele é irrelevante diante do poder de fogo, organização e articulação exibido pelos fora-da-lei.
    A sociedade comemora, aliviada, essa decisão de suspender as hostilidades. Mas tal alívio não tem o condão de ocultar as evidências trágicas de que a tragédia continua. Era claro, desde o início, que essa ordem teria de ser dada em algum momento, pois, para qualquer observador desapaixonado, isento e minimamente inteligente, os bandidos não tinham fôlego, ou seja, equipamentos e executantes, para manter o aparelho repressivo do Estado sob sua alça de mira. Em algum momento, eles teriam de parar e o fizeram com a mesma disciplina e a mesma organização com que deflagraram o banho de sangue na semana passada.
    Foi aventada a hipótese de ter o cessar fogo sido negociado entre as autoridades responsáveis pela manutenção da ordem e os delinqüentes que as desafiaram. Trata-se de uma hipótese terrível, não apenas do ângulo da intranqüilidade que ela pode gerar na sociedade pacífica e ordeira, que delega o monopólio do exercício da força legítima para que o Estado de Direito a exerça, mas também dos pontos de vista político e institucional. Afinal, a democracia é o império da lei e a obediência às normas jurídicas vigentes é condição inegociável de sua sobrevivência.

 

 

Chega de papo furado!


    Ainda que a versão de que a trégua – e não a paz definitiva, é bom que isso fique bem claro – foi negociada não seja verdadeira, os gestores públicos têm de tirar do episódio – que, além de enlutar várias famílias, praticamente paralisou a cidade mais importante do País e outros centros urbanos do Estado durante toda a segunda-feira, pelo menos – lições a serem aplicadas com a urgência e a eficiência que sempre demandaram e nunca mereceram. A principal delas é a necessidade de atitudes mais conseqüentes e rigorosas desses gestores públicos para o Estado poder cumprir sua tarefa precípua de garantir a vida e a liberdade dos cidadãos. A miríade de promessas eleiçoeiras não cumpridas, no caso da insegurança pública, é um crime de lesa-pátria.

Deslize estadual


    Deslize elementar no caso foi o cometido pelo governador de São Paulo, Cláudio Lembo, do PFL, que avalizou a informação do secretário de Segurança que herdou do candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, Saulo de Abreu. Segundo as autoridades, a polícia já sabia de antemão que o banho de sangue fora planejado pelo PCC. Se sabiam, por que não agiram? Do Estado a população ordeira espera que ponha em ação um plano de emergência para responder ao ataque dos bandidos. E isso não foi feito. Se não eram capazes de fazer isso, teriam de alertar os agentes da lei e os cidadãos inocentes da iminência da tragédia. Se nada disso foi feito, saber antes não aplaca, mas aumenta, a culpa das autoridades estaduais paulistas na tragédia.

Rotos e esfarrapados


    É execrável o jogo de empurra dos gestores públicos, que aproveitam para disparar no adversário de olho nas eleições de outubro: rotos falando mal de esfarrapados. Lembo pegou o bonde da administração estadual paulista andando e, se essa carona foi muito proveitosa em diversos setores, na segurança pública os tucanos são tradicionalmente desastrados. Covas e Alckmin lhe entregaram um bastão bichado. E Lula reduziu drasticamente as verbas no setor, segundo dados oficiais da execução do Orçamento da União. Seguindo a tradição de prometer indefinidamente sem nunca cumprir, a gestão federal petista anunciou repasse de verbas para os Estados construírem prisões, mas estas nunca se materializaram.

Cinismo federal


    O renomado criminalista paulista Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça, ofereceu os préstimos da Polícia Federal ao governador Cláudio Lembo. Seria uma tática esperta de tergiversar, se não fosse somente uma deslavada manifestação de cinismo. A PF tem protagonizado freqüentemente o noticiário, desempenhando o papel de instituição eficiente no combate ao crime do colarinho branco, atividade na qual a investigação não é tão complexa como parece e o risco de baixas de agentes é próximo de zero. Mas essa repartição burocrática da administração federal, sob as ordens do valoroso defensor de presos políticos à época da ditadura, não tem cumprido sua obrigação precípua de reprimir o tráfico de drogas, atividade que sustenta o crime organizado.

A PUC com o PCC


    Os terroristas do PCC se aproveitaram da cumplicidade dos boateiros para disseminar o pânico. Na “batalha de São Paulo”, prestaram essencial serviço aos bandidos comunicadores que espalharam o pânico que paralisou a maior cidade do País na segunda-feira, comerciantes que fecharam as portas de seus negócios e executivos que pararam ônibus, Metrô e outros serviços públicos essenciais. Destaque especial para o professor de Direito da PUC Pedro Estevão que defendeu a decretação de “estado de emergência” em São Paulo pelo presidente Lula. Esses boateiros não mataram ninguém, mas merecem ser execrados pela covardia: ao contrário dos delinqüentes, não arriscaram a vida. Pelo jeito, nem a reputação.

Praga de “Cego”



    Em São Paulo, onde coordenou debates de um encontro internacional de liberais, ao lado do francês Guy Sorman, entre outros, o cineasta pessoense Ipojuca Pontes ainda teve tempo para acompanhar o noticiário da TV Senado. Diante do pronunciamento de um nobre parlamentar petista chamado Sibá Machado, o diretor do memorável documentário Homens do caranguejo, e de Pedro Mico (protagonizado por Pelé), que os amigos chamam carinhosamente de “Cego”, não se conteve e despejou sua ira misturando o estilo de seu Manduri, de Patos, no sertão da Paraíba, com João Guimarães Rosa, de Cordisburgo, no Norte de Minas Gerais. “Esse um, se ficar de quatro, sai pastando e não se levanta mais nunca”, disse. Arre!

Encontro na Bienal


    A leitores e ouvintes cativos um convite oportunista. Deculpem-me o jabá, caititu ou seja o que for, mas não resisto a marcar um encontro com esses amigos. Na happy hour do domingo 21 de maio, adequadamente uma hora feliz para mim, de volta à terrinha, uma vez mais, vou participar de uma mesa redonda na primeira Bienal do Livro da Paraíba. Espero apertar a mão de cada leitor desta coluna nova e falar de meus livros velhos lá no Espaço Cultural José Lins do Rego, meu xará e ídolo de infância. Fogo Morto, sua obra-prima, é um texto que imortaliza o escritor e sua terra, Pilar, onde também nasceu o jornalista Edwaldo Pacote, que tem jeito de puxador de fole e talento de escriba do primeiro time.

HERÓIS BRASILEIROS


     O deputado José Távora convida para a entrega da Medalha Tiradentes à cantora paraibana Elba Ramalho. Espezinhada na Paraíba, por ter a coragem de denunciar a exploração eleiçoeira e perspectiva de corrupção no projeto faraônico da transposição das águas do Rio São Francisco, ela tem seus méritos reconhecidos no Rio de Janeiro, onde mora há mais de 30 anos. A sessão solene ocorrerá às 18h30m de segunda-feira no plenário Barbosa Lima Sobrinho da Assembléia Legislativa do Estado do Rio. Viva Elba!