Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 01 de junho de 2006

Alckmin, o Cristiano da vez
Alckmin, o Cristiano da vez



     O pessedista mineiro Cristiano Machado talvez nem pudesse imaginar que teria o nome registrado na História do Brasil. E não é que teve? O que ocorreu com ele em 1950 se repetiu tanto nas disputas eleitorais que foi cunhado até um verbo para definir a traição à sorrelfa a um candidato oficial em benefício de outro: “cristianizar”. O que transformaria uma figura apagada como aquela numa metáfora recorrente até hoje, 56 anos depois?
    O maior partido do Brasil à época da sucessão do presidente Eurico Dutra era o PSD, conglomerado de coronéis regionais reunidos sob a égide do ditador Getúlio Vargas no Estado Novo e com cujo apoio o chefe do primeiro governo sob a Constituição de 1946 havia derrotado o candidato udenista, Eduardo Gomes. A flor de nata da elite dirigente do PSD repousava no leite mineiro e o chefe dessa elite era Cristiano Machado, convenientemente escolhido pela convenção nacional para enfrentar o brigadeiro, postulante pela segunda vez. Só que o PTB, que parecia fadado a ser mero coadjuvante do PSD no cenário político, lançou a candidatura do ex-ditador Getúlio Vargas para a disputa democrática. O PSD deixou Cristiano falando sozinho e votou no baixinho gorducho, que terminaria por trocar as bombachas do exílio em seu rancho de Itu, em São Borja, para vestir o fraque presidencial.
    Desde então, longa tem sido a lista dos “cristianizados” em eleições presidenciais. Juscelino Kubitschek “cristianizou” o marechal Henrique Lott, que havia dado um golpe legalista para garantir sua posse, favorecendo Jânio Quadros, de olho na disputa de 1965, na qual preferia ser candidato da oposição, e não oficial. O “Senhor diretas” Ulysses Guimarães foi “cristianizado” pelo PMDB na eleição de Fernando Collor, em 1989. O Cristiano da vez é o ex-governador paulista Geraldo Alckmin.

 

 

Lições da História



    Os tucanos criticam a deficiente formação escolar do adversário petista, Luiz Inácio Lula da Silva. Mas faltaram a algumas aulas básicas de História do Brasil. Não atentaram até agora, por exemplo, para os maus resultados das “cristianizações” do passado. Cristiano foi sacrificado em benefício de Getúlio, que se matou com um tiro no peito. Jânio Quadros renunciou à Presidência e gerou uma crise política que desaguou no golpe militar de 1964, cujos líderes cancelaram a eleição de 1965 e, de lambujem, cassaram o mandato de JK, que, então senador, votara no primeiro presidente militar, Castello Branco, na eleição indireta no Congresso. Collor teve o mandato interrompido pelo impedimento aprovado pelo Congresso que o detestava e ele desprezava.

Ao vencido, as batatas!



    De um lado, convém lembrar que o primeiro responsável pela “cristianização” de Alckmin foi ele mesmo. No governo de São Paulo, proibido pela lei de se candidatar à própria reeleição e sem ânimo para disputar o Senado por sentir que o adversário, Eduardo Suplicy, do PT, não será fácil de ser batido, apostou todas as suas fichas na indicação presidencial pelo PSDB. Foi com tanta sede ao pote que demoliu as precárias pontes que o ligavam ao ex-prefeito da Capital paulista José Serra. Na sofreguidão de obter a indicação dos convencionais, comportou-se de maneira açodada e até inábil. De modo que venceu Serra, mas, contrariando o lema de Machado de Assis, pode entregar as batatas ao vencido, favorito na luta pelo governo do Estado de São Paulo.

O risco do cálculo



    De outro lado, o candidato tucano ao governo paulista talvez se precipite ao considerar a derrota do correligionário para a Presidência e a própria vitória como favas contadas e ver isso até com euforia. O raciocínio de Serra aproxima-se do de Juscelino em 1960: melhor ter Lula presidente agora, pois em 2010 ele não poderia mais se candidatar, que ajudar a Alckmin e levar ao Planalto um candidato à reeleição. Desde que foi instituída pelo tucano Fernando Henrique, a reeleição no Brasil favorece tanto o executivo no exercício do cargo que o pleito eleitoral entre os dois mandatos parece mais um recall que uma disputa para valer. Como JK, Serra pode se dar mal se Lula eleger uma bancada forte do PT para incomodá-lo na Assembléia de São Paulo.

Esperteza em Minas



    Mais ainda que Serra, o governador Aécio Neves se considera imbatível na disputa pelo governo de Minas Gerais. Seu interesse na derrota de Alckmin e na vitória de Lula se tornou evidente quando, sob inspiração do comissário José Dirceu, foi lançada a pré-candidatura do mineiro nascido na Bahia Itamar Franco pelo PMDB, não para valer, mas apenas para entregar o partido de bandeja ao grupo governista do partido, rachado ao meio. “Alckmin é meu candidato, mas o candidato de Minas é Itamar”, disse o neto de uma célebre raposa política do PSD, Tancredo Neves. Pelo visto, ele não aprendeu uma lição que o avô gostava de repetir: “a esperteza quando é demais termina mesmo por engolir o espertalhão”.

Caros colegas



    “Você já aprendeu a malandragem, hein?” disse o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) ao advogado do PCC Sérgio Wesley da Cunha, quando este depunha na CPI do Tráfico de Armas. “Aprendi aqui mesmo”, respondeu o depoente, incontinenti, provocando revolta nos nobres parlamentares que o inquiriam. Preso por desacato à autoridade, o desacatado foi convocado a olhar em redor e ver quem ele ironizava. Isso foi, no mínimo, temerário, pois na certa ali estavam muitos deputados que têm votado sistematicamente na absolvição dos colegas que pegaram um dinheirinho do “valerioduto”. Convivendo com bandidos violentos, o advogado talvez não tivesse dificuldade em identificar os colegas de colarinho branco.

Antes que se esqueçam



    Uma semana após a revista Veja ter estampado na capa a foto de Marcos Willians Herbas Camacho, Marcola, o comandante do PCC e mandante do massacre de policiais e civis inocentes em São Paulo, sua concorrente Época (do grupo da Rede Globo) registrou conversas gravadas em vídeo nas quais o bandido aparece como líder, mas não de uma facção de facínoras e sim de uma espécie de sindicato de pobres presos torturados. Antes que todos se esqueçam, na batalha de São Paulo, os liderados de Marcola eram os vilões. Os heróis foram as vítimas deles. A tentativa posterior de se aproveitar disso para exterminar suspeitos depois do massacre é execrável, mas não pode tornar esquecida essa verdade elementar.

Muito prazer...



    A CPI do Tráfico de Armas queria a todo custo levar Marcola para depor na Câmara, mas o presidente Aldo Rebelo (PCdoB-SP) não permitiu. E fez muito bem. Agora pretende levá-lo para o Fórum da Barra Funda em São Paulo. Antes isso! Mas devia era ser ouvido em videoconferência, para eliminar os riscos de fuga de um preso perigoso como ele. A insistência dos deputados em inquirir pessoalmente o meliante, que já teve até a candidatura à Presidência lançada na internet por gozadores, faz crer que os deputados estão mesmo é se comportando como fãs que fazem questão de conhecer seu ídolo. Afinal, o que o bandido tem a contar já deve tê-lo feito a promotores e policiais, perguntadores profissionais?

HERÓIS BRASILEIROS


    Ellen Gracie

    A substituição de Nelson Jobim por Ellen Gracie na presidência do Supremo Tribunal Federal já produz mudanças positivas na atuação de nosso Judiciário. Já não é mais dada como certa a concessão de hábeas-corpus para mentir ou calar a depoentes nas CPIs, apesar de Eros Grau haver dado mais uma contribuição à impunidade geral reinante. Recebida pela grosseiro machismo dos senadores, a primeira mulher a presidir um Poder na República renova as esperanças de que ainda possa haver justiça entre nós.