Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 15 de junho de 2006

 
DE DITADURA PARA DITADURA


    
             A primeira informação relevante que foi revelada a respeito do principal líder do Movimento de Libertação dos Sem-Terra, que depredou a Câmara dos Deputados na semana passada em Brasília, Bruno Maranhão, foi o fato de ele pertencer à cúpula dirigente do Partido dos Trabalhadores – PT. A segunda, sua história de antigo militante, primeiro da esquerda tradicional (pertenceu ao alto comando do Partido Comunista Brasileiro, o “pecebão” stalinista de Prestes e outros) e depois da dissidência que pretendeu derrubar a ditadura militar pelas armas, e não pela resistência democrática. E, enfim, a terceira: sua condição, não de miserável camponês expulso de suas terras pela seca e pela ganância dos latifundiários, mas de legítimo descendente da classe destes senhores semifeudais das terras e das almas no interior de seu Estado natal, Pernambuco. Haverá, por acaso, alguma contradição insolúvel entre essas três características fundamentais?
        O conhecimento da história real (e não da fantasiada na lavagem cerebral realizada tanto nos acampamentos da militância esquerdista radical quanto nos cursos aparentemente científicos e acadêmicos da Universidade brasileira) mostrará que, ao contrário do que muitos ingênuos possam pensar, a biografia do líder dos bárbaros da invasão da Câmara não contém incoerências fundamentais.
        O Partido dos Trabalhadores é uma confederação de grupos extremistas de esquerda, que combateram a ditadura militar, mas não para a instauração da democracia dita burguesa e, sim, pela substituição do autoritarismo de direita pela “ditadura do proletariado”, mostrengo intrujado por Vladimir Ilitch Lênin Ulianov na teoria comunista de Marx e Engels. Logo, não há oposição alguma entre a inserção do PT na disputa democrática e a luta antidemocrática dos grupos que o compõem.

 

 

Da usina para o acampamento

         A primeira contradição aparente no currículo de Bruno Maranhão é o fato de ele pertencer a uma estirpe de usineiros e liderar trabalhadores sem-terra na guerra pela reforma agrária, contra o latifúndio improdutivo. Essa contradição, contudo, se anula quando se lembra que a luta do MLST, como, de resto, a do MST e de outros grupos do gênero, não é contra o latifúndio improdutivo para tomar a terra dos especuladores e entregá-la a quem dela pode tirar o próprio sustento e produzir alimentos. Mas, sim, contra o Estado democrático de direito, cujos primados – a liberdade de empreender, decidir, informar e opinar, a igualdade de oportunidades e a impessoalidade – contrariam a organização social coronelista, baseada em compadrio e personalismo.

Do acampamento para o palácio

        A óbvia desenvoltura do usineiro pernambucano nos corredores palacianos também apenas aparentemente contradiz sua condição de comandante assumido da horda de bárbaros que promoveu o quebra-quebra nos salões do Congresso Nacional. Não é de hoje que encarregados pela sociedade da guarda do Estado de Direito desenrolam seus tapetes vermelhos para receber e até homenagear inimigos deste cujo objetivo é desmoralizar a democracia. Fernando Henrique já o havia feito. E seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, faz questão de envergar bonés e outros badulaques desses grupos agressores, entre os quais o MLST. A imprensa reproduziu fotografias de encontros do presidente com o dirigente e nelas fica mais que clara a camaradagem cúmplice entre os dois.

Do palácio para a urna

        A doação de R$ 5,7 milhões de verbas públicas pelo governo federal do PT ao MLST é coerente com o que a gestão anterior já o fizera em benefício desses mesmos ditos movimentos sociais. Os tucanos e a companheirada distribuem com prodigalidade o dinheiro público porque sabem que, sendo de todos, na prática o Erário não é de ninguém. Os primeiros o faziam porque pensavam com isso poder comprar a paz social no campo irredento. Os atuais governantes substituíram essa prática com muito mais método e notória eficiência, comprovados em práticas bem-sucedidas como o valerioduto para fazer amigos e influenciar votações no Congresso e a Bolsa Família, uma herança bendita de Fernando Henrique, para obrar o milagre da transformação da esmola em votos.

Da urna para a casa-grande

        É por isso que este colunista acredita que a melhor análise do desafio desse usineiro ao Estado de Direito, usando o latifúndio como mero pretexto, foi feita por um ex-companheiro dele na direção do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), dissidência guerrilheira do Partido Comunista tradicional na guerra suja, Rômulo de Araújo Lima. Quando lhe pedi opinião sobre a atuação do latifundiário no comando dos sem-terra, meu amigo de infância respondeu: “Ele não mudou nada!” Continuaria guerrilheiro? “Nada disso, continua usineiro”. É isso: o plano de Bruno Maranhão é substituir o império da lei pela ditadura da casa-grande e encerrar as liberdades democráticas em masmorras na senzala.

A credibilidade de Lula

        O melhor argumento do líder do governo na Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-S), na defesa do novo programa econômico do PT para a eventual segunda gestão de Lula, foi a credibilidade adquirida pelo presidente na condução da economia. O alargamento da distância que o separa na disputa eleitoral do adversário tucano Geraldo Alckmin mostra que o eleitorado confia, de fato, no chefe do governo. E que, de barriga cheia, o cidadão brasileiro está pouco se lixando para o dilema crucial do candidato à própria reeleição: seria ele cúmplice dos 40 ladrões do PT e do governo denunciados pelo procurador-geral da República ou apenas um inepto que não sabia o que ocorria ao alcance de seu nariz?

Alguém se mexe

       A comissão composta pela Associação Paulista de Magistrados (Apamagis) para propor ao presidente da República, ao ministro da Justiça, ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados uma legislação penal mais rigorosa pode dar em nada, mas já é pelo menos um passo dado na direção certa. Reféns da violência e da incapacidade crônica da autoridade para resolver o problema, as vítimas inocentes da guerra suja das ruas no Brasil podem cobrar de parlamentares e governantes que debatam as propostas dos juízes e realizem as propostas viáveis. Em vez de continuarem a transferir a responsabilidade de uns para outros e prometerem projetos milagrosos que nunca se concretizam, podem agora fazer algo de útil.

Ao perdedor, nem água



    Talvez com pena do candidato, a Folha de S. Paulo escondeu uma das mais significativas fotos desta temporada eleitoral numa página interna da cobertura da convenção tucana em Belo Horizonte, no último fim da semana. A câmera, instalada na parte de trás da platéia, testemunhou o isolamento do candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, que tem crescido na proporção inversa a sua queda nas pesquisas de opinião. Aquele foi mais um flagrante da crueldade do militante partidário com seus postulantes destinados ao fiasco. Dizem que governante em fim de mandato só toma café frio. Pelo visto, candidato a segundo colocado em disputa eleitoral não tem direito sequer de matar a sede.


    RONALDO FENÔMENO

    Ronaldo Nazário nada fez contra a Croácia na estréia da seleção brasileira na Copa da Alemanha. Nem precisava. Quando lhe contaram que o presidente da República perguntara sobre seu peso ao técnico Carlos Alberto Parreira, não se fez de rogado: “todo mundo diz que ele bebe pra caramba. Eu não acredito: assim como não estou gordo, ele não deve beber pra caramba”. Como o centro-avante canarinho não se mostrou propriamente uma sílfide na partida de estréia, resta saber se o oposto é verdadeiro.