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Da
usina para o acampamento
A primeira contradição aparente no currículo de Bruno Maranhão é o fato de ele pertencer a uma estirpe de usineiros e liderar trabalhadores sem-terra na guerra pela reforma agrária, contra o latifúndio improdutivo. Essa contradição, contudo, se anula quando se lembra que a luta do MLST, como, de resto, a do MST e de outros grupos do gênero, não é contra o latifúndio improdutivo para tomar a terra dos especuladores e entregá-la a quem dela pode tirar o próprio sustento e produzir alimentos. Mas, sim, contra o Estado democrático de direito, cujos primados – a liberdade de empreender, decidir, informar e opinar, a igualdade de oportunidades e a impessoalidade – contrariam a organização social coronelista, baseada em compadrio e personalismo.
Do acampamento para o palácio
A óbvia desenvoltura do usineiro pernambucano nos corredores palacianos também apenas aparentemente contradiz sua condição de comandante assumido da horda de bárbaros que promoveu o quebra-quebra nos salões do Congresso Nacional. Não é de hoje que encarregados pela sociedade da guarda do Estado de Direito desenrolam seus tapetes vermelhos para receber e até homenagear inimigos deste cujo objetivo é desmoralizar a democracia. Fernando Henrique já o havia feito. E seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, faz questão de envergar bonés e outros badulaques desses grupos agressores, entre os quais o MLST. A imprensa reproduziu fotografias de encontros do presidente com o dirigente e nelas fica mais que clara a camaradagem cúmplice entre os dois.
Do palácio para a urna
A doação de R$ 5,7 milhões de verbas públicas pelo governo federal do PT ao MLST é coerente com o que a gestão anterior já o fizera em benefício desses mesmos ditos movimentos sociais. Os tucanos e a companheirada distribuem com prodigalidade o dinheiro público porque sabem que, sendo de todos, na prática o Erário não é de ninguém. Os primeiros o faziam porque pensavam com isso poder comprar a paz social no campo irredento. Os atuais governantes substituíram essa prática com muito mais método e notória eficiência, comprovados em práticas bem-sucedidas como o valerioduto para fazer amigos e influenciar votações no Congresso e a Bolsa Família, uma herança bendita de Fernando Henrique, para obrar o milagre da transformação da esmola em votos.
Da urna para a casa-grande
É por isso que este colunista acredita que a melhor análise do desafio desse usineiro ao Estado de Direito, usando o latifúndio como mero pretexto, foi feita por um ex-companheiro dele na direção do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
(PCBR), dissidência guerrilheira do Partido Comunista tradicional na guerra suja, Rômulo de Araújo Lima. Quando lhe pedi opinião sobre a atuação do latifundiário no comando dos sem-terra, meu amigo de infância respondeu: “Ele não mudou nada!” Continuaria guerrilheiro? “Nada disso, continua usineiro”. É isso: o plano de Bruno Maranhão é substituir o império da lei pela ditadura da casa-grande e encerrar as liberdades democráticas em masmorras na senzala.
O melhor argumento do líder do governo na Câmara dos
Deputados, Arlindo Chinaglia (PT-S), na defesa do novo programa
econômico do PT para a eventual segunda gestão de Lula, foi a
credibilidade adquirida pelo presidente na condução da
economia. O alargamento da distância que o separa na disputa
eleitoral do adversário tucano Geraldo Alckmin mostra que o
eleitorado confia, de fato, no chefe do governo. E que, de
barriga cheia, o cidadão brasileiro está pouco se lixando para
o dilema crucial do candidato à própria reeleição: seria ele
cúmplice dos 40 ladrões do PT e do governo denunciados pelo
procurador-geral da República ou apenas um inepto que não
sabia o que ocorria ao alcance de seu nariz?
A comissão composta pela
Associação Paulista de Magistrados (Apamagis) para propor ao
presidente da República, ao ministro da Justiça, ao Senado
Federal e à Câmara dos Deputados uma legislação penal mais
rigorosa pode dar em nada, mas já é pelo menos um passo dado
na direção certa. Reféns da violência e da incapacidade crônica
da autoridade para resolver o problema, as vítimas inocentes da
guerra suja das ruas no Brasil podem cobrar de parlamentares e
governantes que debatam as propostas dos juízes e realizem as
propostas viáveis. Em vez de continuarem a transferir a
responsabilidade de uns para outros e prometerem projetos
milagrosos que nunca se concretizam, podem agora fazer algo de
útil.
Talvez com pena do candidato, a Folha de
S. Paulo escondeu uma das mais significativas fotos desta
temporada eleitoral numa página interna da cobertura da convenção
tucana em Belo Horizonte, no último fim da semana. A câmera,
instalada na parte de trás da platéia, testemunhou o
isolamento do candidato do PSDB à Presidência da República,
Geraldo Alckmin, que tem crescido na proporção inversa a sua
queda nas pesquisas de opinião. Aquele foi mais um flagrante da
crueldade do militante partidário com seus postulantes
destinados ao fiasco. Dizem que governante em fim de mandato só
toma café frio. Pelo visto, candidato a segundo colocado em
disputa eleitoral não tem direito sequer de matar a sede.
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