Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 06 de julho de 2006

 

SEM BOLA NA URNA 


    
           A seleção nacional desembarcou na Alemanha na condição de vencedora virtual da Copa do Mundo, mercê do virtuosismo de seus astros, entre os quais Ronaldo Fenômeno, o melhor do mundo de alguns anos atrás, e o considerado melhor do último ano, Ronaldinho Gaúcho. Mas infelizmente caiu diante da mesma França para que perdera a Copa de 1998 nas quartas de final, provocando uma frustração que só não iguala à ocorrida na Inglaterra, em 1966, porque o de 40 anos atrás teve de enfrentar Portugal e Hungria e este de agora só passou por Croácia, Austrália, Japão e Gana.

Foi um óbvio castigo à soberba. E a prova de descontentamento dos "deuses do futebol" com a vaidade, o individualismo e a ambição desmedida de jogadores e da comissão técnica, empenhados apenas em superar recordes individuais e assegurar o próprio êxito profissional. O hexacampeonato foi sacrificado para Cafu aumentar o número de partidas disputadas pela seleção; Ronaldo Fenômeno se tornar o maior artilheiro de todas as Copas; e Roberto Carlos acrescentar mais partidas disputadas a seu currículo.

O técnico Carlos Alberto Parreira comemorou cinicamente a passagem para as quartas de final com o time dando o primeiro chute correto em direção ao gol (e defendido pelo goleiro) a dois minutos do final do jogo, já então perdido.

A torcida, humilhada pela esperança frustrada, está convidada a refletir sobre a euforia arrogante e estúpida de uma geração de profissionais de caráter muito duvidoso, adequada ao instante político do País. Por conta disso, os excelentíssimos senhores dirigentes do Estado brasileiro, que já se preparavam para usar o título como trunfo eleitoral, podem começar a pôr as barbichas de molho. Pois, da mesma forma como favoritismo não ganha campeonatos, eleições são vencidas nas urnas, não nas pesquisas.

 

 

 Jogamos mal!

Antes da Copa, o cronista esportivo Juca Kfouri, em entrevista à revista Caros Amigos, previu que o Brasil não seria campeão, pois isso não era do interesse dos comerciantes que comandam a Fifa. A previsão contrariava uma pirâmide que circulava na internet provando que o hexa já estava no papo. Agora Juca pode bater no peito e dizer que acertou na mosca. Peço a devida vênia para discordar. O Brasil não perdeu para um esquema de arbitragens: não foi prejudicado em nenhuma partida por um juiz mal intencionado. Ao contrário, os árbitros não influenciaram nos resultados dos jogos contra Croácia, Austrália, Japão e Gana e, se se pode falar em erros graves, eles ocorreram a nosso favor. Contra a França, ainda que o juiz ajudasse, nós perderíamos.

Nem sempre melhores!

Nós, brasileiros, sempre partimos do pressuposto de que temos os melhores jogadores e, por isso, quando perdemos, a tendência é atribuirmos a derrota a fatores fora do campo. Circula na internet uma pseudodenúncia do dirigente do Milan e ex-lateral Leonardo reafirmando o que se fala desde a final da Copa de 1998: que a CBF teria vendido, por algum motivo, o título e, por isso, o time fez feio contra a França. Bobagem! A equipe francesa era muito melhor que a brasileira em 1998 e, por isso, venceu o jogo - e bem - por 3 a 0, todos gols de Zidane, um craque do nível de Maradona e incomparavelmente superior em técnica, visão de jogo e espírito de luta a nossos Ronaldos, apontados como melhores que ele apenas por esquemas, estes sim, negociais.

Apenas um negócio!

Fala-se muito na responsabilidade dos dirigentes, mas são negligenciados fatores mais relevantes. Um deles é a arrogância da torcida, incapaz de ver os defeitos de seu time e de seus ídolos. Quando os resultados favorecem, os torcedores beijam os pés de seus astros e os transformam em deuses inatacáveis. Mas, quando estes perdem as competições, são imediatamente tachados de mercenários e até acusados de venais, como no caso citado aqui na coluna da final da Copa de 1998. Jogadores de futebol, de basquete e de tênis ganham bem porque são artistas que desempenham papéis importantes num espetáculo que movimenta milhões. A pecha de mercenário não cabe na atividade deles, já que não são soldados, mas estrelas de um negócio que gera muita grana.

Nunca antes, o hexa!

O fato de o Brasil, favoritíssimo ao título, ter sido derrubado nas quartas de final e o principal presidenciável da oposição, Geraldo Alckmin, do PSDB, ter subido um pouco nas pesquisas, mais ou menos na mesma ocasião, não significa que a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha passado a correr algum risco. É bem verdade que o eleitor brasileiro foi poupado de slogans do tipo "nunca antes o Brasil tinha sido hexa" ou "Ronaldo é campeão porque Lula mandou Parreira baixar o buchão dele". Mas a derrota na Alemanha não deverá produzir estragos de monta na campanha petista à Presidência. Deve até ajudar por ter mostrado, a 4 meses da disputa, que só o peru é que morre de véspera.

Vade retro!

O Tribunal de Contas da União (TCU) mandou para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma lista de 2,9 mil administradores públicos acusados de desviar recursos federais, viciar licitações ou superfaturar preços. Isso de nada vai adiantar, pois eles poderão, se quiserem, concorrer às eleições e, se eleitos, baterão no peito e dirão que o povo os absolveu das acusações, por mais corretas que estas sejam. É mentira: eles estão sendo absolvidos por eles próprios, que fazem as leis e as interpretam a seu bel prazer. A justiça é que deve evitar que eles disputem. A culpa de o Brasil ser o País da impunidade, como registrou em seu livro o jornalista paraibano Sebastião Barbosa, é deles, e não nossa!

Sem perder a calma jamais!

Os facínoras do Primeiro Comando da Capital (PCC) encontraram uma maneira de mexer com os nervos das autoridades paulistas que acabaram com as regalias de seus poderosos chefões nas prisões do Estado: está promovendo uma série de execuções covardes e brutais de agentes carcerários, que, desesperados, ameaçam se vingar envenenando presos. A autoridade estadual encontra-se na situação difícil de parodiar Ernesto Che Guevara: vai ter de ser muito firme, sem nunca poder perder, não a ternura, mas, sim, a calma, a cabeça e o controle da situação. Pois, se a vingança é um prato que se come frio, neste caso é puro veneno: a retaliação sem fim não interessa à sociedade, mas apenas aos delinqüentes.

Tucanos embananados!

Sensacional, a entrevista da professora de filosofia da USP e da Unicamp Maria Sylvia de Carvalho Franco às páginas amarelas da revista Veja desta semana! Ela denunciou o uso desmedido do dinheiro público e da estrutura governamental para manter o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, apesar das denúncias de corrupção contra seu governo. Segundo ela, este age como um tirano e Alckmin foi escolhido para perder. Este colunista não chegaria a tanto, mas os tucanos têm muita responsabilidade no favoritismo presidencial, pois não moveram uma palha para tirá-lo da disputa quando deveriam tê-lo feito. Se o Brasil é uma República de Bananas, muitas delas engordam tucanos.

 

IPOJUCA PONTES

Após a notícia recente de que o patrocínio da estatal Petrobras para cinema se concentra no Rio de Janeiro e a constatação de que Guilherme Fontes não devolveu os milhões tomados dos cofres públicos para produzir um filme que nunca foi acabado, o herói desta semana só poderia ser o cineasta e jornalista paraibano Ipojuca Pontes, que extinguiu a Embrafilme quando foi ministro da Cultura no governo Collor. A esquerda festiva sabe por que o execra e, também por isso, ele deve mesmo é ser exaltado.

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