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Essa busca do poder total com responsabilidade zero não é uma
fantasia exclusiva de Lula, mas uma prática que se tem
vulgarizado no Brasil neste presidencialismo imperial mitigado,
legitimado pela Constituição de 1988. Nosso regime jurídico
consagrou o exercício do mando sem compromisso algum dos
congressistas na gestão pública. O Poder Judiciário também
justifica as barbaridades praticadas por seus membros com a
desculpa amarela de que só cumprem leis (quando na verdade as
interpretam de acordo com as próprias conveniências) que outros,
e não eles, redigem. Foi seu comportamento pragmático e ambíguo
que levou nosso “guia”, portanto, a aderir gostosamente a este
“não é comigo” amplo e geral.
A Rádio Jovem Pan levou ao ar anteontem a
gravação do depoimento à CPI do Tráfico de Armas do principal
líder da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC),
Marcos Willians Camacho, Marcola. Foi um repugnante espetáculo de
cinismo, em que o meliante disse ter pago R$ 645 mil ao delegado
Ruy Fontes para merecer seus favores. Qualquer brasileiro de posse
das faculdades mentais sabe que a chave da impunidade, sem o que o
crime não venceria a guerra contra a lei em nossas cidades, é a
corrupção dos agentes que, em teoria, exercem a força legítima
concedida pela sociedade ao Estado de Direito. Mas daí a
acreditar na acusação, feita com clara intenção oportunista,
vai uma distância enorme.
No depoimento, Marcola reclamou das condições desumanas em que
vivem os condenados em nosso inferno presidiário. É claro que o
Estado de Direito teria de garantir a integridade física dos
cidadãos isolados do convívio social pela prática de crimes e
é imoral e absurdo o estado das prisões no Brasil. Mas será útil
lembrar que o queixoso não foi preso pelo amor que teria pela
ordem jurídica, mas, sim, pela pertinácia com que a violou,
pondo termo à vida de muitos inocentes. É inadmissível que num
país cuja autoridade não se comove com o drama de sertanejos com
fome e favelados sem camisa, ainda haja quem considere um
assassino bárbaro e covarde como esse uma mera vítima das distorções
sociais.
Vai
para o trono ou não vai?
Sempre digo que fui inimigo de infância
de Bráulio Tavares, filho do ex-colega Nilo e da ex-fã Cleuza.
Pois presidi o Cineclube Glauber Rocha e ele, o Cineclube de
Campina Grande, nos anos 60. Éramos, pois, rivais! Sempre tive
razões para invejar o moço, pois ele escreve muito bem e, para
completar a humilhação, me manda seus textos, que este jornal
reproduz, por internet. Se eu fosse filho de Nilo e Cleuza e
tivesse o talento desse cabra, teria feito a análise maravilhosa
de sua lavra sobre nosso complexo de inferioridade que levou ao
favoritismo na Copa e do favoritismo à derrota. No céu, Nélson
Rodrigues festeja o fato de que seu trono na terra não está mais
vazio. É ou não é, seu Chacrinha?
A ocasião não poderia ser mais apropriada para o disparate.
Afinal, a troca do apoio do PMDB por cargos na direção de uma
estatal é a prova de que, em vez de mudar, como prometeu ao
eleitorado na campanha de 2002, Lula e o PT têm radicalizado no
recurso abusivo ao loteamento de “boquinhas” na máquina pública
federal, velho vício que remonta à espoliação dos recursos de
Pindorama, à exploração do suor de nativos e degredados
africanos e à dilapidação do patrimônio natural nacional pelos
colonizadores portugueses. A sesmaria dos Correios é sabidamente
podre: foi a divulgação de recebimento de propina por Maurício
Marinho, burocrata da empresa, que deflagrou a denúncia da existência
do tal “mensalão” pelo ex-amigo do governo Roberto Jefferson.
Esse episódio compõe a crônica da impunidade anunciada. O
senador Ney Suassuna (PB), principal articulador do apoio do PMDB
ao projeto de reeleição de Sua Excelência, foi apontado como
suspeito no mais recente escândalo que denegriu a imagem do
Congresso Nacional, da classe política e da própria democracia
como regime de gestão pública. Seria uma irresponsabilidade
inaceitável condenar, in limine e sem defesa, este parlamentar.
Mas, ao aceitar a mão estendida por um suspeito, o chefe da Nação
deixou claro que, sob sua direção, o conceito preponderante na
democracia brasileira não é o da mulher de César, que deve ser
e parecer honesta sempre, mas o lema de Bernardes, conforme o qual
ao amigo se dá tudo e ao inimigo se reserva o rigor da lei.
Pior que a traição ao slogan da mudança é a adoção explícita
e cínica pelo presidente da estratégia da irresponsabilidade.
Primeiro, ele se disse traído e não delatou os traidores.
Depois, tentou minimizar o crime cometido por companheiros de
governo e partido, descaracterizando a corrupção e definindo-a
como mero uso de “caixa 2”, com a atenuante de ser praticado
por todos os partidos nas eleições. Contando com o próprio
carisma, ungiu os pecadores com a graça generosa de seu perdão.
E, aí, procurou desqualificar os adversários, que teriam
torturado esses “pobres coitados” nas CPIs. Agora, recorre à
tática do tirano comunista Josef Stalin, que conseguiu convencer
a população de que nada sabia dos crimes que mandava seus
asseclas cometerem.
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