Jornal da Paraíba  

  POLÍTICA  

quinta-feira, 13 de julho de 2006

 

ABOBRINHAS ILIMITADAS


    
                                                                                       

                    Segundo consenso dos analistas mais respeitados do cenário eleitoral nacional, a única possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, ser impedido de se reeleger pelo principal candidato da oposição, o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin, do PSDB, é a de ele mesmo se deixar derrotar pela facilidade com que transforma a própria língua numa espécie de plantação de abobrinhas ilimitadas. Apesar de manter uma margem confortável sobre o adversário contra quem se deve confrontar, Sua Excelência não tem poupado suas platéias de seus já tradicionais escorregões gramaticais, lógicos e éticos. Nenhum deles até agora comprometeu de forma decisiva seu favoritismo no seio do público que realmente lhe interessa, o lúmpen proletariado usuário das benesses de seus programas sociais. Mas ele acaba de divulgar um conceito que mostra em definitivo a distância que o separa do estadista do qual a Nação precisa para sair do atoleiro. 

             Na solenidade em que confiou o comando dos Correios ao PMDB, em troca de apoio a sua candidatura, Lula deixou claro que entregará ministérios e cargos de todos os escalões a seus companheiros de jornada, mas se isentou desde já das responsabilidades pelas irregularidades eventualmente cometidas por estes no exercício do poder. A frase literal de seu discurso é incrível: “É mais que justo que o partido que tenha um ministro no governo seja o responsável por todo o ministério”. Como a responsabilidade pelo que for praticado na gestão é inerente ao cargo ocupado pelo mandatário, tendo sido ele o escolhido pela sociedade para exercer o poder, e não os subordinados aos quais delega a miuçalha de tal exercício, ele praticou uma espécie de renúncia ao mandato. Ou seja: o presidente abriu mão agora da metade de um mandato que ainda nem conquistou. 

 

 

Bem-vindo ao clube!

         Essa busca do poder total com responsabilidade zero não é uma fantasia exclusiva de Lula, mas uma prática que se tem vulgarizado no Brasil neste presidencialismo imperial mitigado, legitimado pela Constituição de 1988. Nosso regime jurídico consagrou o exercício do mando sem compromisso algum dos congressistas na gestão pública. O Poder Judiciário também justifica as barbaridades praticadas por seus membros com a desculpa amarela de que só cumprem leis (quando na verdade as interpretam de acordo com as próprias conveniências) que outros, e não eles, redigem. Foi seu comportamento pragmático e ambíguo que levou nosso “guia”, portanto, a aderir gostosamente a este “não é comigo” amplo e geral.

Oportunismo cínico


    A Rádio Jovem Pan levou ao ar anteontem a gravação do depoimento à CPI do Tráfico de Armas do principal líder da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcos Willians Camacho, Marcola. Foi um repugnante espetáculo de cinismo, em que o meliante disse ter pago R$ 645 mil ao delegado Ruy Fontes para merecer seus favores. Qualquer brasileiro de posse das faculdades mentais sabe que a chave da impunidade, sem o que o crime não venceria a guerra contra a lei em nossas cidades, é a corrupção dos agentes que, em teoria, exercem a força legítima concedida pela sociedade ao Estado de Direito. Mas daí a acreditar na acusação, feita com clara intenção oportunista, vai uma distância enorme.

Cinismo oportunista

          No depoimento, Marcola reclamou das condições desumanas em que vivem os condenados em nosso inferno presidiário. É claro que o Estado de Direito teria de garantir a integridade física dos cidadãos isolados do convívio social pela prática de crimes e é imoral e absurdo o estado das prisões no Brasil. Mas será útil lembrar que o queixoso não foi preso pelo amor que teria pela ordem jurídica, mas, sim, pela pertinácia com que a violou, pondo termo à vida de muitos inocentes. É inadmissível que num país cuja autoridade não se comove com o drama de sertanejos com fome e favelados sem camisa, ainda haja quem considere um assassino bárbaro e covarde como esse uma mera vítima das distorções sociais.

Vai para o trono ou não vai?

    Sempre digo que fui inimigo de infância de Bráulio Tavares, filho do ex-colega Nilo e da ex-fã Cleuza. Pois presidi o Cineclube Glauber Rocha e ele, o Cineclube de Campina Grande, nos anos 60. Éramos, pois, rivais! Sempre tive razões para invejar o moço, pois ele escreve muito bem e, para completar a humilhação, me manda seus textos, que este jornal reproduz, por internet. Se eu fosse filho de Nilo e Cleuza e tivesse o talento desse cabra, teria feito a análise maravilhosa de sua lavra sobre nosso complexo de inferioridade que levou ao favoritismo na Copa e do favoritismo à derrota. No céu, Nélson Rodrigues festeja o fato de que seu trono na terra não está mais vazio. É ou não é, seu Chacrinha?

Podres poderes

            A ocasião não poderia ser mais apropriada para o disparate. Afinal, a troca do apoio do PMDB por cargos na direção de uma estatal é a prova de que, em vez de mudar, como prometeu ao eleitorado na campanha de 2002, Lula e o PT têm radicalizado no recurso abusivo ao loteamento de “boquinhas” na máquina pública federal, velho vício que remonta à espoliação dos recursos de Pindorama, à exploração do suor de nativos e degredados africanos e à dilapidação do patrimônio natural nacional pelos colonizadores portugueses. A sesmaria dos Correios é sabidamente podre: foi a divulgação de recebimento de propina por Maurício Marinho, burocrata da empresa, que deflagrou a denúncia da existência do tal “mensalão” pelo ex-amigo do governo Roberto Jefferson.

Impunidade anunciada

               Esse episódio compõe a crônica da impunidade anunciada. O senador Ney Suassuna (PB), principal articulador do apoio do PMDB ao projeto de reeleição de Sua Excelência, foi apontado como suspeito no mais recente escândalo que denegriu a imagem do Congresso Nacional, da classe política e da própria democracia como regime de gestão pública. Seria uma irresponsabilidade inaceitável condenar, in limine e sem defesa, este parlamentar. Mas, ao aceitar a mão estendida por um suspeito, o chefe da Nação deixou claro que, sob sua direção, o conceito preponderante na democracia brasileira não é o da mulher de César, que deve ser e parecer honesta sempre, mas o lema de Bernardes, conforme o qual ao amigo se dá tudo e ao inimigo se reserva o rigor da lei.

Figurino stalinista

         Pior que a traição ao slogan da mudança é a adoção explícita e cínica pelo presidente da estratégia da irresponsabilidade. Primeiro, ele se disse traído e não delatou os traidores. Depois, tentou minimizar o crime cometido por companheiros de governo e partido, descaracterizando a corrupção e definindo-a como mero uso de “caixa 2”, com a atenuante de ser praticado por todos os partidos nas eleições. Contando com o próprio carisma, ungiu os pecadores com a graça generosa de seu perdão. E, aí, procurou desqualificar os adversários, que teriam torturado esses “pobres coitados” nas CPIs. Agora, recorre à tática do tirano comunista Josef Stalin, que conseguiu convencer a população de que nada sabia dos crimes que mandava seus asseclas cometerem.

 

DOUGLAS KONISHI DE SOUZA 

Douglas Konishi de Souza, de 23 anos, caminhava com a mulher numa rua de seu bairro quando foi fuzilado nas primeiras horas da manhã de anteontem por dois pistoleiros a soldo do Primeiro Comando da Capital (PCC), apenas por ser filho de um agente presidiário. Vítima involuntária de uma guerra suja, tornou-se o símbolo da brutalidade sem limites de facínoras e a prova definitiva do mal que fazem os pseudo-ingênuos cretinos que acreditam que seus assassinos sejam, na verdade, vítimas da sociedade. 

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