Jornal da Paraíba                                    POLÍTICA             quinta-feira, 26 de julho de 2006

A BANCA DO DISTINTO 

              

Desde que o ex-presidente Fernando Henrique nomeou o criminalista José Carlos Dias para o Ministério da Justiça, este colunista tem combatido com sua funda (sem sequer um pedregulhozinho) essa idéia de jerico brasileira de entregar o comando do Estado, em nome da cidadania, na guerra contra o crime organizado a um serviçal dos chefões desta indústria. Quando o colega de José Carlos Dias Márcio Thomaz Bastos foi nomeado para o mesmo cargo, o assunto voltou a ganhar relevância, mas nem por isso alguém se proclamou publicamente incomodado com o fato de o titular da pasta mais antiga do governo federal haver declarado, alto e bom som, que estava deixando uma banca de advocacia que lhe rendia a impressionante quantia de US$ 200 mil por mês. Ninguém prestou atenção ao fato de criminalistas não terem cidadãos decentes como clientes nem para a evidência de que tanto dinheiro assim não seria pago por mães famintas que furtam biscoitos nas gôndolas de supermercados, mas por altos executivos da delinqüência. Quaisquer lembranças incômodas como esta seriam abatidas sem piedade pelo argumento politicamente correto de que, como José Carlos Dias, Márcio Thomaz Bastos prestou inestimáveis serviços à democracia como defensor de presos políticos durante o regime militar. Entre estes, Luiz Inácio Lula da Silva em pessoa. Agora, diante da entrevista ao Estado de S. Paulo de domingo, em que o dr. Bastos diz, entre outras pérolas, que “o problema não é pôr mais gente na cadeia, é tirar da cadeia quem não precisa estar lá”, fica difícil resistir à tentação de perguntar se o autor desta frase atende prioritariamente a sua biografia de herói da resistência democrática ou a seu currículo de causídico comprometido com as causas de delinqüentes ricos, cruéis e poderosos. Quem o Dr. Bastos defende?

 

Os tanques nas ruas
                  “São Paulo errou ao não aceitar que os tanques do Exército saíssem às ruas”, disse Sua Excelência, cometendo triplo equívoco. O militante dos direitos civis contra a ditadura deveria saber que um democrata de verdade não convoca tanques. Os clientes do criminalista não lhe pagariam bem como pagam se ele tivesse a ilusão de que tropas na rua impedirão que as hordas sob o comando do Primeiro Comando da Capital (PCC) continuem cumprindo ordens emanadas das celas das prisões onde vivem seus líderes com celulares que não precisam de carregadores de bateria. E, escusado dizer, o ministro serviria melhor o cidadão se fosse menos submisso aos verdadeiros interesses que comandaram suas declarações: a reeleição do ex-cliente e atual chefe presidente.


Superávit para quê?
                  Em outra pérola da entrevista a Luiz Rila e Vannildo Mendes, o ministro Bastos tentou explicar por que, ao contrário do que o presidente prometera, as verbas orçamentárias destinadas à construção de presídios foram “contingenciadas”, ou seja, não foram gastas nas obras previstas. “Há outros valores em jogo. No projeto de estabilidade macroeconômica, é necessário criar superávit primário. Governo é assim: um cobertor um pouco curto para tudo”, disse. Bastos escusou-se de declinar que valor seria mais importante que a vida do cidadão, que delegou ao Estado de direito, em cuja cúpula figura, o exercício do monopólio da força legítima exatamente para evitar que ela seja extinta ou sofra danos. Para que servirá o superávit se o PCC matar todos?


Coragem, gente!
                  O ministro não perdeu a chance de elogiar o trabalho da Polícia Federal. Na verdade, as operações que seus subordinados daquela instituição têm protagonizado estão carreando votos ao candidato à reeleição, a quem o entrevistado serve, mas este seria mais correto e justo se cobrasse dos agentes federais uma ação mais efetiva no combate contra o tráfico de drogas. A perseguição aos criminosos de colarinho branco é uma tarefa útil e deve ser aplaudida por todos os cidadãos de bem. Mas é muito menos arriscada que o enfrentamento a bala dos chefões do tráfico, cuja atividade ilícita propicia o financiamento para as ações do PCC. Têm sobrado estratégia e inteligência na PF, como o ministro apregoou, mas um pouco mais de coragem não lhe faria mal.


Tropas na rua
                    A súbita vocação de vivandeira de quartel do ex-defensor de presos políticos Márcio Thomaz Bastos traz à tona uma anedota do tempo da “Redentora”, de tristíssima memória. Consta que um velho repórter de polícia do Diário de Notícias tinha armado sua cama de toda noite no plantão sem graça da redação quando teve o sono interrompido pela campainha do telefone. Do outro lado da linha, o patrão questionou: “E aí?” A resposta foi rápida: “Tudo em ordem, chefe”. E, então, o velho João Dantas, furioso, retrucou: “Tudo em ordem, uma ova! As tropas estão na rua. E você também”. Em plena madrugada de 1º de abril de 1964, as tropas de Mourão Filho, a “vaca fardada”, já chegavam bem perto do Rio de Janeiro.


Cadeias só no papel
                  Na semana passada, entrevistada num canal de TV por assinatura, a socióloga Julita Lemgruber desmascarou, de forma implacável, o cinismo oficial federal em relação à guerra contra o crime organizado. Autora do capítulo específico sobre a questão penitenciária no tal Plano Nacional de Segurança Pública, a especialista disse com todas as letras e exibiu todos os números como provas de que a maioria das 27 propostas feitas para reverter a catástrofe das prisões e deter a ousadia do PCC não foi posta em prática pelo governo federal. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), por exemplo, R$ 140 milhões do Fundo Penitenciário (Funpen) não foram usados para a construção de novas celas.


Aquecendo o forno
                 Ensaia-se na CPI dos sanguessugas, a primeira que tinha tudo para dar certo e salvar a face suja do Congresso, uma briga de interesses políticos que pode conduzi-la ao destino malfadado das outras: dos Correios, dos Bingos e do mensalão. De um lado, o presidente Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), e o relator, Amir Lando (PMDB-RO), esquentam os panos para evitar ferimentos generalizados nos coleguinhas alvejados. Do outro, Raul Jungman (PPS-PE) e Fernando Gabeira (PV-RJ) tocam fogo no monturo para incendiar o circo. Por via das dúvidas, já tem gente que começa a levar cargas de lenha para não deixar o forno de pizzas do parlamento esfriar de vez. É difícil caçar coelhos nos bosques de Brasília!


Garçom, nesta mesa de bar...
                E para quem pensava que, enfim, o cadáver de Cristiano Machado, sacrificado pelo PSD para eleger Getúlio Vargas, em 1950, não seria mais exumado, uma notícia inquietante. Já não é segredo para ninguém na horta onde florescem o chuchu Geraldo Alckmin e o jiló José Jorge que começam a funcionar, por enquanto informalmente, só Deus sabe até quando, os comitês Lula-Serra no maior colégio eleitoral do País, justamente o Estado de São Paulo que o candidato tucano governou. Enquanto em Minas Gerais a moda é pedir votos para Lula e Aécio. Se os showmícios não fossem proibidos, talvez fosse o caso de chamar Reginaldo Rossi para os palanques da oposição. A palavra traição é a bola da vez na campanha.


RAUL CORTEZ

Como se sabe, herói brasileiro que se preze só depois de morto. Raul Cortez, gênio de nossas artes cênicas, se notabilizou interpretando papéis elegantes e discretos. Nesta República, onde as boas maneiras foram trocadas pela cafajestice generalizada e a caradura substituiu a postura moral adequada para a vida sã em sociedade, o grande ator fará muita falta nas peças, telenovelas e filmes nos quais nunca mais atuará. Uma lágrima furtiva, pois, para um grande ator e seus personagens fora de moda!

 

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