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NA GALÁXIA DA
WIKIPEDIA
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Vivemos hoje sob a égide da desconstrução. Estamos na era da “des”: a desinformação também está a imperar. Pois parece ter começado neste milênio o fim do conceito enciclopédico, que os franceses pré-revolucionários incutiram na civilização ocidental há mais de três séculos: a idéia de que o conhecimento deve ser organizado para ser transmitido está totalmente fora de moda. O consultor deste escriba para vogas é nosso ministro da Cultura, Gilberto Gil. E ele adotou, ao que parece em definitivo, a pregação da demolição da autoria. Aquele conceito, contemporâneo da Enciclopédia, diga-se de passagem, de que alguém pode viver do que o próprio talento produzir está sendo esmagado pelo princípio elementar segundo o qual qualquer obra do pensamento ou da criação estética deve ser submetida à coletivização. É o pogrom dos cérebros, o holocausto da arte e do engenho humanos! Neste panorama é que se enquadra a tal da
Wikipedia, uma brincadeira de hackers que se tornou o símbolo da nova era: uma anti-enciclopédia da qual os verbetes resultam da criatividade e na maioria das vezes da idiossincrasia, nem sempre bem intencionada, de quem tiver acesso à rede mundial de computadores, vulgo internet.
Se vivemos sob o domínio do apócrifo, qual a lógica de pagar a alguém direitos só por haver escrito um poema, pintado um quadro (aliás, não há mais alguém que pinte quadros) ou composto uma sinfonia (ou ainda alguma algaravia destrambelhada)? Neste universo da “desautoria” (o termo não está dicionarizado, mas também os códigos da linguagem, entre estes as palavras e as regras gramaticais estão submetidos à nova desordem desta anarquia), nada mais é autorizado. A verdade é apenas uma referência histórica, assim como o sânscrito, a peste negra e, ao que parece, a decência na gestão republicana.
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O primado da versão
Não se trata de uma coisa nossa, como o samba, a prontidão e a bossa no tempo de Noel Rosa. O fenômeno é global e nós aqui só adotamos e exacerbamos a moda. Damos nossa contribuição, disso não há dúvida. É, para dar o exemplo da ocasião, o caso do horário eleitoral gratuito. Atribui-se a uma raposa felpuda mineira, que pode ter sido Gustavo Capanema ou José Maria Alkmin (sem cê, mesmo), a verdade segundo a qual “não importa o fato, mas a versão”. Como o teorema em questão se encerra em si mesmo, este é um caso em que não carece debater a autoria, pois prevalece a versão, de acordo com o interesse do interlocutor, certo? O horário eleitoral gratuito, uma bossa nossa no planeta globalizado pelo crime organizado, consagra o primado da versão.
Rabos de palha em confronto
Será o nobre parlamentar mensaleiro, sanguessuga ou as duas coisas? Nada disso: Sua Excelência é sempre um cidadão de ilibada conduta, como garantem os adjetivos com que enfeita seu currículo na propaganda eleitoral gratuita, pouco importando os fatos que o desabonem. Ocorre no rádio e na televisão, os veículos de informação e entretenimento de uma sociedade de pobres iletrados, o confronto entre rabos de palha: como quase todos os têm, a existência de um garante a invisibilidade do outro. E vice-versa. E quem não tiver e expor os demais? A lei simplesmente o proíbe. É isso aí: os autores das leis garantiram a si mesmos o direito inalienável de seus partidos os enaltecerem sem que os adversários ou algum analista isento abelhudo os execrem.
A ciência do embuste
Na galáxia da Wikipedia, a neodemocracia vigente não pressupõe mais o fim do direito de um no princípio do direito de outrem, mas impera a indiscriminada licença para tudo o que apetecer a qualquer um. De posse da farta remuneração propiciada pela condição de intérprete, bem anabolizada pelo cargo público exercido parcialmente, o cantor e compositor baiano se dá ao luxo de dispensar os recursos advindos da autoria. E reveste a renúncia de cunho democrático, apoiado na popularização da arte e no rebaixamento da cultura até o rés do chão, invertendo a tendência da recém-extinta era da Enciclopédia, que pretendia elevar o nível de conhecimento e informação das massas. Nesse ambiente é que prospera o marketing, a ciência da mentira e da embuste.
O novo bezerro de ouro
Nesta sociedade, em que cada um pode inventar um verbete sobre qualquer coisa na
Wikipedia, o poder é exercido por aquele que for capaz de produzir as melhores (et pour cause as menos realistas) versões fictícias das próprias memórias. Mensaleiros se sacrificaram pelo partido em que militam, que, por sua vez, serve a uma entidade reverenciada, inexistente e desconhecida, Sua Excelência o Povão. Em nome deste novo bezerro de ouro, os descamisados de Perón e Collor, os excluídos da Teologia da Libertação, a verdade desaparece como fato e como conceito filosófico, substituída pela versão do interesse de cada um, restabelecendo-se, aí, o princípio bárbaro do “cada um por si e Deus contra todos”.
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Dúvida cruel
Não foi surpresa para quem conhece bem nosso Congresso o fato de somente dois deputados federais denunciados pela CPI dos sanguessugas terem renunciado para garantirem a possibilidade de virem a se reeleger em outubro. Afinal, os mensaleiros que renunciaram não se deram tão bem assim, uma vez que abriram mão de seus restos de mandato, o que não foi feito por muitos companheiros também denunciados que, mesmo tendo sido condenados pelo Conselho de Ética, terminaram absolvidos no plenário, à exceção de três ou quatro gatos pingados. A questão que fica é saber se a próxima legislatura devolverá um pouco de vergonha na cara à Câmara ou manterá o padrão corporativista da que ora está por
terminar.
Senadores na berlinda
A novidade dos sanguessugas fica por conta da abertura de processo contra os três senadores implicados. É provável que Magno Malta (PL-ES) tenha vida mansa, pois o relator de seu processo, Sibá Machado (PT-AC), foi a favor da pizza geral no caso. Serys Slhessarenko (PT-MS), candidata ao governo de seu Estado, não terá idêntica facilidade com Demóstenes Torres (PFL-GO), que não deu moleza aos acusados na CPI. Nosso Ney Suassuna (PMDB-PB), pretendente a voltar ao cargo, também deve estar tendo pesadelos com o que o espera, pois o relator de seu processo, Jéferson Peres (PDT-AM), tem sido uma das raras reservas éticas na cena desanimadora de um Poder Legislativo corroído pelos próprios vícios.
Coitado do chuchu!
Em entrevista à Playboy deste mês, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apontou seu ministro da Saúde José Serra como o brasileiro mais preparado no momento para ocupar a cadeira na qual ele já se sentara antes. Como este é candidato ao governo do Estado de São Paulo e o partido de ambos, o PSDB, tem candidato próprio à Presidência da República - e ele é o ex-governador paulista Geraldo Alckmin -, talvez seja conveniente alguém avisar ao ilustre sociólogo sobre o fato. Com o governador do Ceará Lúcio Alcântara elogiando o candidato petista em plena campanha e FHC dando declarações desse gênero, talvez nem seja necessário Lula subir em tantos palanques para vencer logo no primeiro turno.
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DONA
SENHORINHA FREIRE BARBOSA
Nestes tempos de raros heróis, urge citar Senhorinha Freire Barbosa, que, aos 18 anos, morava em Tacaratu, no sertão de Pernambuco, quando teve gravadas suas interpretações de duas canções populares de sua região, Mandei cortar capim e Oh roseira, pela Missão Folclórica de Mário de Andrade. Hoje, aos 77 anos, com 6 dos 11 filhos vivos, 8 netos e 1 bisneto, no lançamento das gravações da época em CD, ela simboliza uma cultura de teima resistência numa época em que a arte é subordinada ao mercado.
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