Jornal da Paraíba                                 POLÍTICA             quinta-feira, 14 de setembro de 2006

CALA A BOCA, FERNANDO! 

              
                                                                                        
        O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que o jornalista Telmo Martino apelidou de “le senateur mûlatre” (o senador mulato, em francês, referência jocosa ao orgulho com que ele se refere ao “pé na cozinha” em suas origens), pode ser considerado - pelos inimigos ironicamente e pelos amigos seriamente - o “príncipe dos sociólogos brasileiros”, mas em política eleitoral brasileira, ele se tem mostrado, na melhor das hipóteses, um amadoris de dar dó. Ou, então, na pior, um oportunista de fazer corar um frade de pedra. No começo da campanha, quando Geraldo Alckmin e José Serra disputavam a indicação do PSDB para o que os tucanos pensavam que seria um passeio para derrotar o presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva, ele disse publicamente que Alckmin seria melhor candidato, mas Serra seria melhor presidente. Ou seja, completo mesmo, só ele. Na verdade, o “melhor candidato” se tem mostrado um desastre e ninguém é capaz ainda de saber se o ex-prefeito de São Paulo será, ou não, melhor presidente que qualquer outro, inclusive o atual. O ex só conseguiu tumultuar mais um processo que não precisava mais de muita coisa para ser tumultuado. Depois, em entrevista à revista Playboy, ele disse que seu ex-ministro da Saúde seria o melhor homem para governar o Brasil na atual conjuntura. Como Serra é candidato a governador de São Paulo e a indicação do partido para a Presidência é o outro, que ganhou a batalha interna, ficou parecendo que alguém se esqueceu de avisar ao condestável que os companheiros de partido consideram o ex-governador paulista a pessoa mais indicada para ocupar o principal posto de mando na República, que ele presidiu por dois mandatos sucessivos de quatro anos cada. Não devem ser, pois, raros os correligionários que gostariam de vê-lo de boca fechada agora.

 

Fala, Fernando!
Mas o homem não se fez de rogado e falou. Mais que isso: distribuiu uma carta. Nesta, fez duras críticas à leniência com que seu sucessor do PT tratou a crise gerada em seu governo por parte dos membros deste e também por figurões da cúpula petista com o escândalo de corrupção batizado pelo ex-amigo dos tucanos e depois dos petistas, sempre no governo, Roberto Jefferson, do PTB do Rio, de “mensalão”. A dura crítica de um homem público cujo discurso habitualmente é monótono de tão sereno fez desabar sobre a disputa eleitoral pela presidência uma avalanche de críticas ferozes contra o candidato à reeleição, à qual até o sempre anódino principal candidato da oposição aderiu. Mas nada disso abalou o favoritismo de Lula, que parece inexpugnável.


Escuta, Fernando!
O problema todo do discurso furibundo do professor é que ele chega completamente fora de hora, seja ao partir de sua boca, seja ao ser usado pelo candidato à Presidência ou até mesmo por um crítico normalmente temido por sua retórica contundente, como é o chefão do PFL Antonio Carlos Magalhães. O presidente ficou vulnerável durante todo o segundo semestre do ano passado, entre a delação do presidente nacional do PTB afastado do cargo e as festas de fim de ano, quando parece ter retomado o fôlego, mas tucanos e pefelistas ficaram brigando para ver quem usaria a chave do baú, esquecendo-se de que esta ainda fazia parte do chaveiro que o ex-líder sindical carregava na cintura. Agora é tarde: a ferocidade contra o adversário o torna um mártir.


Chega, Fernando!
O problema do PSDB é de timing e descaramento. Lula não conseguiu a virada porque o povo é tolo, mas porque os tucanos pensam que o povo é tolo. Se a questão é ética, como a oposição quer nos convencer que é, qual a diferença real entre os petistas que expuseram seu rabo-de-palha, mas apontaram para o dos adversários, e estes, que passaram recibo do próprio, ao trabalharem escandalosamente pela absolvição de seu então presidente nacional, Eduardo Azeredo, senador por Minas Gerais, obviamente tão implicado quanto qualquer governista na prática contábil ilícita levada a efeito pelo famigerado publicitário mineiro Marcos Valério? Por que o eleitor se convenceria a mudar de governante se quem propôs tal mudança admitia fazer o mesmo jogo sujo?


E daí, Fernando?
Está certo que Fernando Henrique pôs o dedo na ferida ao explicitar o erro na carta que tem provocado tanta celeuma. Mas o mínimo que se pode dizer de sua autocrítica é que, se ela ajuda alguém, não é o candidato do partido, mas o adversário pesadamente criticado no capítulo anterior. Se o eleitor nunca teve motivo nenhum para preterir Lula e preferir Alckmin por causa da participação de PSDB e PFL na pizzaria dos julgamentos dos “mensaleiros” na Câmara, por que ele mudaria de opinião só por ter um ilustre prócer oposicionista batido no peito e reconhecido a própria culpa? É nesse particular que a carta em questão serve de munição para o inimigo como os palpites infelizes citados aqui antes.

 

Não é só o pobre, viu?
Costuma-se culpar o cidadão pobre pela lassidão moral que deprecia a vida pública no Brasil, por votar na reeleição de Lula, e não no candidato de seus críticos tucanos. Há no raciocínio uma forte dose de preconceito social e regional. Afinal de contas, não serão os sertanejos paraibanos que entregarão de bandeja uma cadeira na Câmara dos Deputados ao ex-ministro Antônio Palocci, responsável por um dos mais truculentos e abjetos crimes contra a cidadania na história da democracia brasileira, ao mandar quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, que o vira numa casa freqüentada por prostitutas e lobistas. Sua campanha é bancada a peso de ouro pela plutocracia paulista.


Elogio da ignorância
Um dos maiores escândalos de todos os tempos da educação no Brasil é a Universidade Federal do ABC, que o governo federal instalou apenas para amealhar mais uns votinhos na região de onde o presidente da República e candidato à reeleição se lançou do anonimato para a fama. Anunciada como prova de que “nunca antes ninguém fez tanto pela educação”, a UFABC fez dois vestibulares, nos quais foram aprovados 1 mil 500 alunos, mas eles só terão um prédio próprio para estudar daqui a nove meses. Até lá terão de freqüentar um prédio alugado por R$ 30 mil e outro, que ainda nem sequer foi alugado. Os críticos deste governo não estão muito longe da verdade quando nele constatam o elogio da ignorância.


Um lixo de filme
Na coluna anterior, este escriba reclamou do descaso da crítica e dos programadores com o ótimo filme de Andy Garcia sobre Havana, Cuba, A cidade perdida. Hoje a queixa é a oposta. O filme O maior amor do mundo, de Cacá Diegues, incensado e premiado em festivais, é uma concessão piegas, babada e equivocada à mentalidade politicamente correta, que desgraça a atividade pública e vicia a cultural. Se os críticos, jurados e programadores tivessem prestado atenção na obra, como deveriam ter feito, teriam percebido que o lixão não é apenas o cenário, mas a exata autocrítica de seu realizador: ela exala miasmas fétidos em cada fotograma numa mostra de como o populismo joga fora o dinheiro do povo. 

 

JEFFERSON PERES
O senador Jefferson Peres (PDT-AM) é um dos raros políticos brasileiros que podem se orgulhar de ter convivido no pântano moral em que se transformou o Congresso Nacional sem se contaminar. E não se instalou numa torre de marfim nem ficou à distância vendo passar o desfile da bandalheira. Ao contrário: tem enfiado as mãos na sujeira produzida no Congresso e ainda as mantém limpas. O anúncio de sua aposentadoria é uma péssima notícia, mas ninguém lhe pode negar o direito de tirar as mãos da lama.

 

Edições anteriores: [001]  [002]  [003]  [004]  [005]  [006]  [007]  [008]  [009]   [010]  [011]   [012]  [013] [014] [015] [016] [017] [018] [019] [020]

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: estacao@neumanne.com