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Ex-Alckmin e ex-chuchu
A certeza da impunidade (et pour cause, da vitória) levou os petistas a cometerem o erro fatal de providenciarem aquilo de que a metade mais rica e mais independente do País precisava: o Anti-Lula. O ex-governador tucano de São Paulo não tinha sequer um nome para reivindicar essa função. No começo da campanha, ele tentou ser Alckmin e no Nordeste, onde é até hoje desconhecido, foi chamado de Alfenim – um breve contra diabéticos e obesos. Depois, tentou assumir o apelido de “picolé de chuchu” – um breve contra a emoção. No fim, adotou um Geraldo, que lembra bordão de programa humorístico. Mas tantas lambanças fizeram Lula e o PT que terminaram por conseguir fazer desse Geraldo o Anti-Lula, que venceu o presidente em 11 Estados da Federação.
Quinta coluna!
A cúpula tucana pensava até domingo não dispor de um pretendente para valer à Presidência. Ninguém na oposição nunca acreditou na capacidade de seu candidato mostrar-se capaz de enfrentar um adversário comparado com Teflon, porque sujeira nenhuma parecia pegar nele. Fernando Henrique abusou das piadas sobre a fraqueza do correligionário e os favoritíssimos candidatos aos governos de São Paulo, José Serra, e Minas, Aécio Neves, agiram nas próprias campanhas como se a guerra federal já estivesse perdida e ambos pudessem se dedicar às próprias ambições na sucessão de Lula em 2010. Aí o presidente e seus estrategistas deram a Geraldo o argumento de que ele precisava para unir e motivar suas tropas: 28 dias de sobrevivência até a última batalha.
Aposta na divisão
Lula e o PT apostaram pesado na divisão do País nesta eleição. Eles forjaram um candidato do povo, do lúmpen-proletariado, do favelado e com a máquina pública na mão compraram o apoio dos banqueiros impedindo que estes fornecessem o esperado oxigênio, sem o qual a campanha de Geraldo, ex-Alckmin, ex-chuchu, agora o Anti-Lula, tem vivido a pão e água. O mapa do Brasil de acordo com as vitórias nos Estados mostra claramente essa divisão: o País pobre e dependente do Estado garantiu a maioria dos votos a Lula e a outra banda, menos pobre e que sobrevive à base da iniciativa privada, assegurou ao tucano a possibilidade de disputar o segundo turno. A metade carente superou aritmeticamente a outra banda. Mas não foi capaz de garantir a reeleição.
A vez do chato?
O anestesista Geraldo é o adversário que qualquer candidato pediu a Deus. No palanque comporta-se como se estivesse numa sala de cirurgia: o tom de sua voz é sempre baixo, em feitio de oração. Mas, ainda assim, tornou-se porta-voz da indignação nacional que encontrou nele o melhor meio de xingar Lula e tudo quanto ele representa, inclusive o carisma. O premiadíssimo publicitário Neil Ferreira traduziu a eficiência inesperada desse aparente paradoxo numa sentença sensata: “Eu quero um presidente chato, uma garantia de que amanhã eu vou acordar do mesmo jeito como me deitar hoje.” E, assim, o criador do baixinho da Kaiser resumiu o sentimento popular da metade do País que não quer bis de Lula.
O povo é bobo?
Adepto de sentir o ânimo do povo tomando-lhe diretamente o pulso em conversas pessoais sem intermediação de políticos ou colegas, o jornalista Mauro Guimarães tomou um táxi no Aeroporto de Confins e, a caminho do Palácio da Liberdade, onde o esperava o então governador de Minas, Tancredo Neves, perguntou ao chofer se o desagradava ter votado nele para governador e vê-lo chegar à Presidência da República pelo voto indireto. “Tá brincando, doutor! Se eu votei no homem para governador e ele virar presidente, meu voto será promovido, não será?” Mauro, hoje vice-presidente da TAM, aprendeu conversando diretamente com ele o que repetiam os sindicalistas do ABC - Lula à frente: “o povo não é bobo”.
O povo pensa
O mapa eleitoral do município de São Paulo mostra que bobo é quem pensa que funciona o papo de campanha com o qual os petistas tentaram abater em pleno vôo o favoritismo de José Serra para o governo paulista. O argumento de que o eleitor se sentiria traído pelo candidato, que havia prometido ficar na Prefeitura o mandato inteiro e o tinha abandonado para disputar o governo, mais uma vez se comprovou tolo. Os sindicalistas do ABC é que estavam certos: se o eleitor elegera Serra contra Marta, cuja gestão fora aprovada pelos munícipes no dia da eleição, e cumpriu sua gestão a contento, por que haveria de impedir que ele fosse promovido a governador? Como diz Mauro Guimarães, o povo sabe pensar.
Pensa bem, Serra!
Durante a campanha inteira, o ex-prefeito de São Paulo flertou com a idéia de deixar o ex-governador Geraldo Alckmin afundar na pasmaceira em que a campanha tucana parecia ter caído. Chegou até a achar, no mínimo, interessantes os comitês Serrula. Com quase 60% dos votos e uma vitória significativa do companheiro de partido no Estado, ele pode agora se ter lembrado da frase do avô de seu colega mineiro Aécio Neves, como ele um milionário de votos. “A esperteza, quando grande demais, é um bicho que engole o esperto”, filosofava Tancredo Neves. Seja quem for o presidente em 2007, Serra e Aécio serão interlocutores importantes demais para limitarem sua influência à guerra pela sucessão em 2010.
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