Jornal da Paraíba                                 POLÍTICA             quinta-feira, 12 de outubro de 2006

CHUCHUZINHO APIMENTADO


            O debate de domingo na Band apresentou a Luiz Inácio Lula da Silva e a milhões de brasileiros uma inesperada face do tucano Geraldo Alckmin, que tenta evitar a reeleição do presidente da República: sua contundência assustou obviamente o adversário e surpreendeu o telespectador e eleitor que viu o programa. Durante o primeiro turno inteiro, o ex-governador de São Paulo foi um competidor anódino e aparentemente inócuo. Tanto que a ausência de Lula no último debate da Globo foi atribuída ao temor que ele teria de ser desacatado pela candidata do PSOL, a senadora alagoana Heloísa Helena, e não do principal pretendente, que, durante toda a competição, só conseguiu passar a incômoda impressão de que “não fede nem cheira”. Muita gente boa inculpou a decisão de Lula de faltar ao debate da Globo pela arrancada final do adversário, que terminou por impedir o triunfo do candidato oficial logo no primeiro turno, o que era esperado por seus aliados e previsto pelos institutos de pesquisa. Depois do desempenho de Lula no primeiro debate do segundo turno, porém, é de duvidar que sua presença no último do primeiro o ajudasse a conquistar os votos necessários para cruzar a barreira dos 50% mais um dos votos válidos. Depois que “temperaram o chuchuzinho”, segundo o milionário de votos Clodovil Hernandes, e diante do “chuchu com pimenta”, na definição dada pelo gênio da publicidade Neil Ferreira, Sua Excelência mostrou-se inesperadamente despreparado para enfrentar um oponente mais aguerrido. Oito pontos percentuais atrás do líder na primeira pesquisa para o segundo turno, feito pela Datafolha, a Alckmin não restava alternativa: ele tinha mesmo de apelar para o falso dossiê antitucano dos petistas aloprados. Se Lula e os assessores não previam isso, eles pensam que estão disputando o quê?

 

Beicinho de criança mimada
O que ocorreu domingo não é novo, pois Lula nunca gostou mesmo de ser contrariado. Sempre que algo semelhante lhe ocorre, fica amuado e faz beicinho com facilidade. Sua primeira reação, como no susto que tomou com a agressividade de Alckmin no debate, é de estupefação: ele custa a crer que alguém ouse desafiá-lo. Isso definitivamente não faz parte de seu temperamento. Age como se fosse uma criança mimada, habituada ao afago e à bajulação. Anos de exercício do mando sem contestação no sindicato, no Partido dos Trabalhadores e agora na presidência da República o treinaram para receber o elogio com naturalidade e a crítica com arrogância, desdém, destempero. Este é um de seus defeitos no exercício do poder. Por isso, reagiu tão mal neste caso.

Um tom acima
Alguns especialistas isentos têm alertado que nem sempre vencer um debate de forma acintosa resulta em bons dividendos nas urnas. É improvável que só a superioridade de Alckmin no domingo inverta a tendência, que permanece favorável ao adversário petista. Diz-se que, por falta de prática, o candidato tucano bateu mais do que devia, podendo ter transformado o oponente em mártir aos olhos benevolentes do eleitor. Por isso, a reação irritada e prepotente do presidente e de seus aliados ao longo da semana não faz nenhum sentido. O pânico mostrado por Lula na reta final do primeiro turno e seus arrufos nos prolegômenos do segundo denotam uma preocupação nas raias do desespero, que não reflete os índices das pesquisas que revelam seu favoritismo.

As portas da cadeia
 Para justificar seu escasso conhecimento sobre o desenrolar das investigações da Polícia Federal, com a ajuda do Coaf do Ministério da Fazenda, todos órgãos sob seu comando, Lula disse que ele não é um “delegado de porta de cadeia”. Como qualquer bom policial deve atuar perto de uma porta de cadeia, embora do lado de fora, muita gente atribuiu esta rata às habituais dificuldades do chefe do governo com o vernáculo. Mas talvez ele tenha querido prestar uma homenagem subliminar ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que, no cargo, abriu mão de sua condição de ilustre criminalista para se comportar como “advogado de porta de cadeia” de membros do PT e do governo, que delinqüem com freqüência e tranqüilidade, porque têm as costas largas.

Quase dois milhões de notas
Também é totalmente estapafúrdia a reação retardada do candidato à reeleição, ao destilar sua revolta contra a insistência com que o ex-governador paulista cobrou dele explicações sobre o falso dossiê contra os tucanos, preparado por companheiros petistas por ele próprio acusados de serem “aloprados”. Essa insistência, aliás, nunca deveria ser comparada com o Samba de uma nota só, de Tom Jobim, como se queixou Sua Excelência depois do debate, até porque a bomba suicida da “cumpanheirada” custou uma quantia equivalente a um milhão e 750 mil notas de um real. Mesmo não tendo sido um aluno modelo de matemática, o presidente deveria saber a diferença entre uma nota só e quase dois milhões delas.

É mesmo de doer!
 O professor Paulo Ghiraldelli Jr,, que agora empresta seu talento à Business School de São Paulo, continua fazendo sua pregação (nada solitária, aliás) a favor do voto nulo no segundo turno desta eleição presidencial. Ele escreveu aos leitores de seu blog, “O filósofo de São Paulo”, nunca ter visto candidatos tão despreparados para a Presidência da República quanto os que se enfrentaram domingo no debate da Band. Já polemizei com o mestre, por considerar o voto nulo uma renúncia inaceitável do eleitor a sua responsabilidade de decidir. Mas tenho de reconhecer, justiça seja feita, que esta campanha tem sido de uma indigência mental de dar dó e fazer vergonha a qualquer brasileiro inteligente.


Bomba de efeito moral
Os testes nucleares subterrâneos de domingo, usados como sucedâneos dos fogos de artifício para comemorar o aniversário do ditador norte-coreano Kim Jong-il, são mais uma trágica demonstração de que a humanidade não parece aprender com seus erros mais terríveis. O fogo de barreira que a inócua ONU e mesmo o patrão americano têm tentado usar para enfrentar esses desafios abertos do tirano herdeiro da tirania comunista do pai se tem provado inócuo. Como foram as tentativas diplomáticas de deter o rearmamento alemão, a anexação da Áustria e a invasão da Polônia, preliminares das sangrentas batalhas da Segunda Guerra Mundial. O coreano não é Hitler, mas precisa ser detido antes que tente sê-lo.

 


Contra o caos
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, está disposto a provar que não assumiu a responsabilidade de administrar o maior município do País somente para preencher a lacuna aberta com a saída do titular da chapa vencedora em 2004, José Serra, para disputar (e vencer) o governo de São Paulo. Conseguiu aprovação da Câmara para mandar retirar até o último dia deste ano toda propaganda visual que torna a visão da cidade que administra feia e caótica. Além de ousada, a medida é polêmica, inovadora e original. Por mais difícil que seja sua execução, ela é uma tentativa válida de provar que é possível governar tendo o bem comum, e não o interesse de investidores privados, como alvo. Oxalá dê certo!

 

PADRE VALDEMIR SANTANA
Domingo, na missa das 19h30m, os fiéis que acorrem à igreja de Santo Antônio, em Tambaú, testemunharam, como sempre, o destemor, o talento e o tirocínio de seu pároco, padre Valdemir Santana. À luz de uma profunda sabedoria teológica, o sacerdote admitiu a bênção de Deus para cristãos que tentam a segunda chance depois de malograrem na primeira tentativa. “Deus é relação”, pregou ele, citando Antoine de Saint Exupéry, autor de O pequeno príncipe: “você se torna responsável por aquele que seduz”.

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