Jornal da Paraíba                                 POLÍTICA             quinta-feira, 19 de outubro de 2006

UM LULA AO FEITIO DE MALUF


          A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira foi uma ótima amostra da enorme distância que o separa do candidato da oposição, Geraldo Alckmin, do PSDB, em matéria de habilidade política e capacidade de comunicação. E produziu também um estranhamento: se se dá tão bem em enfrentar jornalistas críticos e aptos a colocá-lo contra a parede, por que Sua Excelência teme tanto confrontos do gênero? Porque a verdade verdadeira é que ele se saiu muito bem, sem deixar nenhuma pergunta sem resposta, mesmo quando era disparada por profissionais da experiência de Renata Lo Prete, a repórter da Folha de S. Paulo que deflagrou o escândalo do mensalão ao entrevistar Roberto Jefferson, ou Lourival Sant’Anna, meu colega no Estadão. No embate, o candidato à reeleição mostrou ser um excelente aluno de seu antigo desafeto e aliado ocasional Paulo Maluf. Pois respondeu sem convencer a quem perguntava, mas passou a impressão de que estava dominando o assunto para o eleitorado. Foi visível também a mudança de tática que ele adotou na entrevista: depois de ter pedido desculpas e perdoado os companheiros que erraram, disseminado a culpa nos arraiais adversários, sempre mantendo o argumento de que não sabia de nada, ele tentou transferir a culpa para os petistas que protagonizaram os escândalos. Principalmente o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, derrubados pela participação nos episódios de corrupção. Na verdade, os entrevistadores e os telespectadores informados sabem que Dirceu, Palocci e outras vítimas da devassa iniciada por Jefferson nunca foram acusados de enriquecer ilicitamente com dinheiro público, mas de comandar um esquema de compra de apoio no parlamento para o governo do PT.

 

Bola pro mato
A parte relativa à tentativa de responsabilizar Dirceu e Palocci serviu também de exemplar demonstração de como o presidente é engenhoso e desenvolto na arte de ziguezaguear e se contradizer, chutando a lógica para o mato, quando o jogo é de campeonato. Além de elogiar os ex-lugares tenentes, dizendo que ambos “poderiam ser ministros de qualquer governo”, os defendeu, ao afirmar que ele próprio nunca poderia garantir que os dois “cometeram coisas erradas”. Mas não perdeu a chance de vestir a toga do juiz rigoroso das atitudes alheias. As quedas espetaculares desses poderosos auxiliares foram explicadas de maneira implacável: “Eles viraram alvo de especulações e eu não poderia mantê-los. Não existe amigo nessas coisas. Existe comportamento.”


Da expropriação ao mensalão
Ao atribuir as denúncias de corrupção contra o partido e o governo a erros pessoais de seus ex-subordinados, o presidente escapou pela tangente para não enfrentar a diferença existente entre a corrupção dos outros, endêmica e arquetípica na política nacional, e a dos companheiros, que é inovadora. Na verdade, sempre se roubou na administração pública brasileira. A diferença é que os oligarcas de antanho se locupletavam em benefício próprio. À exceção da realização de sonhos de consumo, da qual a Land Rover de Silvinho Pereira é um símbolo, os companheiros petistas tiram dinheiro dos cofres públicos para bancar projetos partidários ou de governo. O novo padrão de corrupção é descendente direto das expropriações dos grupos da esquerda armada.


Sem poder, mas com prestígio
Mas, no que se refere à impunidade, os petistas se igualam aos desafetos da velha “direita”, que eles antes execravam e hoje convocam para justificar os próprios malfeitos. Os dois ex-auxiliares citados por Lula no Roda Viva são ótimos exemplos dessa leniência reinante na República petista. Palocci foi eleito deputado federal e, se mereceu tantos elogios do chefe, pode estar cotado para um posto importante no segundo governo dele. Dirceu nem precisa disso: está ganhando a vida, e, pelos sinais exteriores de riqueza, à tripa forra, intermediando negócios para empresários privados, usando para isso os poderosos contatos que ainda mantém na máquina pública federal e a força no partido do governo. Não mais detém o poder, mas mantém o prestígio.


O poder e o juízo
A entrevista ao Roda Viva foi um show particular do presidente da República em sua condição de Midas, que transforma falácia em propaganda. Mas nenhuma das pérolas que nela disparou é comparável em desfaçatez com a afirmação de que o deputado Ricardo Berzoini (SP) caiu da presidência do PT, porque não foi capaz de explicar o grotesco episódio da produção em seu terreiro de um dossiê falso tentando incriminar tucanos em geral e o governador eleito de São Paulo, José Serra, em particular. Ao se manter no poder afirmando que nada sabia de mensalão e delitos do gênero e mandar afastar Berzoini por esse motivo, Lula mostrou ser fiel ao lema dos coronéis: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Procon para a política
O professor José Pastore, da USP, deu, em artigo publicado no Estadão da terça-feira, uma boa idéia para pôr fim (ou, pelo menos, reduzir) à desavergonhada manipulação de dados errados em palanques e nos meios de comunicação por candidatos cínicos a cargos públicos (quem não é?). Ele propôs que o Tribunal Superior Eleitoral crie uma espécie de Procon para conferir dados errados usados por políticos nos comícios e nos programas de rádio e televisão, gratuitos ou não, e os puna com a cessão do tempo equivalente ao usado para mentir ao eleitor para uso do adversário direto. Isso, segundo ele, reduziria bastante a demagogia nas campanhas eleitorais. E criaria um festival de direitos de resposta.


Para a posteridade
É da hora a leitura de Nervos de aço, um retrato da política e dos políticos no Brasil, registro do depoimento circunstanciado e bem escrito do ex-deputado e ex-presidente nacional do PTB Roberto Jefferson (RJ) ao jornalista e escritor Luciano Trigo. Editado pela Topbooks, esse livro é o mais completo manual sobre corrupção na gestão pública já editado no País. Daqui a cem anos, será material de primeira para sociólogos. Se alguém quiser entender as dificuldades que Geraldo Alckmin enfrenta para derrotar Lula nas urnas, leia o livro e perceba quantas oportunidades ele dá a um opositor inteligente e destemido para desmontar o discurso de versões e falácias utilizado pelo candidato à reeleição.


Só dá nós!
Luiz Fernando Carvalho está gravando, em Taperoá, a microssérie A pedra do reino, do paraibano Ariano Suassuna, que irá ao ar em janeiro. Maria Adelaide Amaral prepara, também para 2007, uma minissérie sobre a ocupação holandesa de Pernambuco. Um dos heróis será nosso conterrâneo André Vidal de Negreiros, assunto da História da Paraíba, de José Octávio de Arruda Melo, que a autora está lendo. Benedito Rui Barbosa tem lido tudo o que lhe cai às mãos sobre o ciclo do açúcar para escrever sua próxima novela no horário nobre, na qual tratará de tema correlato ao do clássico Casa Grande & Senzala, do pernambucano Gilberto Freyre. Pelo visto, o próximo será o ano de Paraíba e Pernambuco na Globo.

 

PAULINHO DA VIOLA

No sujo balcão de negócios dos espetáculos no Brasil, em que artistas de renome e reputação agem como rameiras em busca de um michezinho básico oficial, Paulinho da Viola se destaca pela elegância no estilo de seus sambas e por um comportamento pessoal digno e altivo. Ao fim da temporada de reinauguração do Teatro da Fecap em São Paulo, o portelense, casado com uma descendente do químico paraibano que inventou a Água Rabelo, santo remédio para quase tudo, tem tudo para vir brilhar nesta galeria.

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