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Bola pro mato
A parte relativa à tentativa de responsabilizar Dirceu e Palocci serviu também de exemplar demonstração de como o presidente é engenhoso e desenvolto na arte de ziguezaguear e se contradizer, chutando a lógica para o mato, quando o jogo é de campeonato. Além de elogiar os ex-lugares tenentes, dizendo que ambos “poderiam ser ministros de qualquer governo”, os defendeu, ao afirmar que ele próprio nunca poderia garantir que os dois “cometeram coisas erradas”. Mas não perdeu a chance de vestir a toga do juiz rigoroso das atitudes alheias. As quedas espetaculares desses poderosos auxiliares foram explicadas de maneira implacável: “Eles viraram alvo de especulações e eu não poderia mantê-los. Não existe amigo nessas coisas. Existe comportamento.”
Da expropriação ao mensalão
Ao atribuir as denúncias de corrupção contra o partido e o governo a erros pessoais de seus ex-subordinados, o presidente escapou pela tangente para não enfrentar a diferença existente entre a corrupção dos outros, endêmica e arquetípica na política nacional, e a dos companheiros, que é inovadora. Na verdade, sempre se roubou na administração pública brasileira. A diferença é que os oligarcas de antanho se locupletavam em benefício próprio. À exceção da realização de sonhos de consumo, da qual a Land Rover de Silvinho Pereira é um símbolo, os companheiros petistas tiram dinheiro dos cofres públicos para bancar projetos partidários ou de governo. O novo padrão de corrupção é descendente direto das expropriações dos grupos da esquerda armada.
Sem poder, mas com prestígio
Mas, no que se refere à impunidade, os petistas se igualam aos desafetos da velha “direita”, que eles antes execravam e hoje convocam para justificar os próprios malfeitos. Os dois ex-auxiliares citados por Lula no
Roda Viva são ótimos exemplos dessa leniência reinante na República petista. Palocci foi eleito deputado federal e, se mereceu tantos elogios do chefe, pode estar cotado para um posto importante no segundo governo dele. Dirceu nem precisa disso: está ganhando a vida, e, pelos sinais exteriores de riqueza, à tripa forra, intermediando negócios para empresários privados, usando para isso os poderosos contatos que ainda mantém na máquina pública federal e a força no partido do governo. Não mais detém o poder, mas mantém o prestígio.
O poder e o juízo
A entrevista ao Roda Viva foi um show particular do presidente da República em sua condição de Midas, que transforma falácia em propaganda. Mas nenhuma das pérolas que nela disparou é comparável em desfaçatez com a afirmação de que o deputado Ricardo Berzoini (SP) caiu da presidência do PT, porque não foi capaz de explicar o grotesco episódio da produção em seu terreiro de um dossiê falso tentando incriminar tucanos em geral e o governador eleito de São Paulo, José Serra, em particular. Ao se manter no poder afirmando que nada sabia de mensalão e delitos do gênero e mandar afastar Berzoini por esse motivo, Lula mostrou ser
fiel ao lema dos coronéis: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
Procon para a política
O professor José Pastore, da USP, deu, em artigo publicado no Estadão
da terça-feira, uma boa idéia para pôr fim (ou, pelo menos, reduzir) à desavergonhada manipulação de dados errados em palanques e nos meios de comunicação por candidatos cínicos a cargos públicos (quem não é?). Ele propôs que o Tribunal Superior Eleitoral crie uma espécie de Procon para conferir dados errados usados por políticos nos comícios e nos programas de rádio e televisão, gratuitos ou não, e os puna com a cessão do tempo equivalente ao usado para mentir ao eleitor para uso do adversário direto. Isso, segundo ele, reduziria bastante a demagogia nas campanhas eleitorais. E criaria um festival de direitos de resposta.

Para a posteridade
É da hora a leitura de Nervos de aço, um retrato da política e dos políticos no
Brasil, registro do depoimento circunstanciado e bem escrito do ex-deputado e ex-presidente nacional do PTB Roberto Jefferson (RJ) ao jornalista e escritor Luciano Trigo. Editado pela Topbooks, esse livro é o mais completo manual sobre corrupção na gestão pública já editado no País. Daqui a cem anos, será material de primeira para sociólogos. Se alguém quiser entender as dificuldades que Geraldo Alckmin enfrenta para derrotar Lula nas urnas, leia o livro e perceba quantas oportunidades ele dá a um opositor inteligente e destemido para desmontar o discurso de versões e falácias utilizado pelo candidato à reeleição.
Só dá nós!
Luiz Fernando Carvalho está gravando, em Taperoá, a microssérie
A pedra do reino, do paraibano Ariano Suassuna, que irá ao ar em janeiro. Maria Adelaide Amaral prepara, também para 2007, uma minissérie sobre a ocupação holandesa de Pernambuco. Um dos heróis será nosso conterrâneo André Vidal de Negreiros, assunto da
História da Paraíba, de José Octávio de Arruda Melo, que a autora está lendo. Benedito Rui Barbosa tem lido tudo o que lhe cai às mãos sobre o ciclo do açúcar para escrever sua próxima novela no horário nobre, na qual tratará de tema correlato ao do clássico
Casa Grande & Senzala, do pernambucano Gilberto Freyre. Pelo visto, o próximo será o ano de Paraíba e Pernambuco na
Globo.
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