Jornal da Paraíba                                 POLÍTICA             quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

 

BÔNUS SEM ÔNUS 

                        Além de ter sido uma tragédia pessoal para as vítimas tragadas em seu interior, a cratera aberta nas obras para a construção da Estação Pinheiros do Metrô de São Paulo na sexta-feira passada serviu para demonstrações explícitas do despreparo de nossos políticos para a gestão pública. De um lado, o governador do Estado de São Paulo, José Serra (PSDB), protagonista da tragédia do lado oficial (embora o Metrô seja uma obra de financiamento tríplice, não apenas estadual, mas com participações municipal e federal), tentou eximir o poder público de responsabilidade, transferindo-a somente para as concessionárias privadas da obra. O que o principal executivo público brasileiro depois do presidente da República disse pode até ter alguma base jurídica, mas dos pontos de vista político e ético é desastroso. Afinal, não consta que os eleitores paulistas que o sufragaram em outubro, levando-o à vitória logo no primeiro turno, tenham delegado aos empreiteiros encarregados da construção da Linha 4 do Metró paulistano poderes da cidadania para gastar o rico dinheirinho suado do contribuinte. Ao contrário, o eleitorado paulista deu ao economista Serra carta branca para dispor do dinheiro público e o Estado, que ele governa, transferiu para o empreiteiro particular a tarefa de cuidar da obra. E o governador foi além, ao indicar o guichê dos empreiteiros para as vítimas pedirem indenização. O Estado pode cobrar depois das seguradoras ou das próprias concessionárias o total das indenizações, mas é seu dever ressarcir logo o prejuízo dos cidadãos atingidos pelo desastre, tenha sido ele um acidente geológico ou causado por erro humano. Ao indicar o “bispo” mais próximo para o prejudicado, Sua Excelência deixou claro que os políticos querem os bônus, mas não aceitam os ônus do poder público.

 

Exploração política
Mas os adversários do governo também têm sua parcela de leviandade no episódio do buraco, ao tentar transformá-lo numa espécie de mensalão dos tucanos. Foi distribuído na internet texto do apresentador de televisão Paulo Henrique Amorim, que se tornou quase um porta-voz informal da gestão federal petista, fazendo gravíssimas acusações a Geraldo Alckmin e aos tucanos em geral pela forma como a obra foi contratada. Se respeitasse mais o próprio currículo, o autor não teria misturado a contratação da obra com o buraco, pois uma coisa nada tem a ver com a outra. Pode ter havido erro técnico ou humano e isso precisa ser investigado, esclarecido, julgado e cobrado das autoridades. Só que o incidente em si nada tem a ver com a lisura da licitação.


Urubus de pirata
A sobrevoar as buscas dos bombeiros na cratera já apareceu até uma revoada de urubus de pirata da tragédia: os diretores do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. Estes começaram por associar o estilo de gestão privatizada da obra com o incidente e, depois, anunciaram a abertura de processo na Justiça tentando suspender a construção da Linha 4. É o caso mais agudo de oportunismo político em cima desta tragédia e agride o senso comum. No rastro de Paulo Henrique, que considera suspeito o Estado contratar a auditoria do insuspeito IPT, um dos diretores desse sindicato, Manoel Xavier Lemos Filho, sugeriu auditoria “independente” para avaliar a segurança e a devolução da obra à... Companhia do Metrô. Isso é que é reivindicar em causa própria!


De Gérson a Macunaíma
Mas essa turma da ideologia prêt-à-porter não é a única a tentar descolar um cantinho na notícia cheirando a carniça, não! Um bando de especialistas nesse tipo de obra deita regras de toda ordem sobre o incidente a partir de informações colhidas apenas em imagens captadas pelas câmeras da televisão e registradas pelos fotógrafos de jornal. É a típica associação de repórteres ansiosos pela produção a toque de caixa de um noticiário espetaculoso, à falta de outros assuntos que não chamam tanta atenção, com profissionais interessados em oferecer seus serviços de consultoria para ganhar algum dinheiro com a desgraça da aposentada, da advogada e das outras vítimas fatais da tragédia. A Lei de Gérson nunca sai de cartaz nesta Pátria de Macunaíma.


Merecido ostracismo
Nem mesmo executivos que prestaram inestimáveis serviços à grande obra que é o Metrô de São Paulo se eximem desse tipo de exploração. O ex-presidente da Companhia Plínio Assman, por exemplo, questionou publicamente a opção pelo túnel sob o rio Pinheiros em detrimento da hipótese de se construir uma ponte, com um trecho a céu aberto, como foi feito em sua gestão na primeira Linha, a Norte-Sul. Ainda que a observação seja tecnicamente defensável, este não é o momento para começar esse tipo de discussão. Ao proferi-la, seu autor ganha cinco minutos de volta à notoriedade, mas, em compensação, dá ao público motivos para acreditar que o ostracismo do qual emergiu fugazmente lhe era mais adequado.

O PSDB não se emenda
Na penúltima eleição para compor a Mesa da Câmara dos Deputados, a bancada federal do PSDB, liderada por Alberto Goldman (SP), afinado com o então prefeito de São Paulo, José Serra, ignorou as pretensões do aliado José Carlos Aleluia (PFL-BA) e apoiou publicamente o candidato oficial, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) no primeiro turno, sob o pretexto de prestigiar a tradição de eleger presidente um membro da bancada com o maior número de deputados. Deu no que deu: com o apoio dos tucanos, foi eleito Severino Cavalcanti (PP-PE), dando início à mais vergonhosa legislatura da história da Casa. Agora, mais uma vez influenciada por Serra, a bancada anunciou apoio ao petista Arlindo Chinaglia (SP).


E o PSDB não aprende
O anúncio formal do apoio a Chinaglia, feito pelo deputado Jutahy Magalhães (BA), se baseava uma vez mais na pretensa proporcionalidade, embora o PT não tenha mais a maior bancada de deputados federais. Novamente os tucanos perderam a oportunidade de se aproveitar da divisão governista para eleger um presidente que não seja tão submisso ao Palácio do Planalto sob direção petista. A péssima repercussão da decisão pode fazer o tucanato voltar atrás, mas dificilmente terá influência prática na sucessão de Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Os amigos do PT podem até lhes causar algum transtorno, mas isso não é problema para quem tem inimigos como Tasso, Fernando Henrique, Serra... Ô patota ruim de serviço!

Profecias desta era
Na noite desta terça-feira 23, o cineasta e jornalista Ipojuca Pontes virá à Paraíba para lançar no Solar do Conselheiro, no centro histórico de João Pessoa, seu livro A Era Lula – Crônica de um desastre anunciado, lançado pela Girafa Editora. O volume é uma coletânea de primorosos (tanto no conteúdo quanto na forma) ensaios sobre a primeira gestão petista na República. Embora não tenham sido escritos para publicação em jornais, portanto perecíveis por definição e sem a organicidade de algo produzido para ser editado em livro, os textos chamam a atenção pela perenidade da análise e pela coerência da visão crítica do autor. Alguns chegam perto de ser proféticos, tão argutos e apropriados são.

© Charges de William Medeiros

 

ABIGAIL ROSSI  DE AZEVEDO


Aos 75 anos, a “vó” Abigail, aposentada, corintiana fanática, não poderá mais freqüentar as aulas de surfe que começou a tomar na piscina da Associação Cristã de Moços (ACM) de Santo Amaro, em São Paulo: na tarde da sexta-feira 12, ela caminhava pela rua Capri quando o chão se abriu sob seus pés e foi soterrada. Foi desta cidadã extrovertida e solidária o primeiro corpo sem vida içado da cratera da Linha 4 do Metrô de São Paulo: atingida pela fatalidade, saiu do anonimato e se tornou uma heroína.

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