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Exploração política
Mas os adversários do governo também têm sua parcela de leviandade no episódio do buraco, ao tentar transformá-lo numa espécie de mensalão dos tucanos. Foi distribuído na internet texto do apresentador de televisão Paulo Henrique Amorim, que se tornou quase um porta-voz informal da gestão federal petista, fazendo gravíssimas acusações a Geraldo Alckmin e aos tucanos em geral pela forma como a obra foi contratada. Se respeitasse mais o próprio currículo, o autor não teria misturado a contratação da obra com o buraco, pois uma coisa nada tem a ver com a outra. Pode ter havido erro técnico ou humano e isso precisa ser investigado, esclarecido, julgado e cobrado das autoridades. Só que o incidente em si nada tem a ver com a lisura da licitação.
Urubus de pirata
A sobrevoar as buscas dos bombeiros na cratera já apareceu até uma revoada de urubus de pirata da tragédia: os diretores do Sindicato dos Metroviários de São Paulo. Estes começaram por associar o estilo de gestão privatizada da obra com o incidente e, depois, anunciaram a abertura de processo na Justiça tentando suspender a construção da Linha 4. É o caso mais agudo de oportunismo político em cima desta tragédia e agride o senso comum. No rastro de Paulo Henrique, que considera suspeito o Estado contratar a auditoria do insuspeito IPT, um dos diretores desse sindicato, Manoel Xavier Lemos Filho, sugeriu auditoria “independente” para avaliar a segurança e a devolução da obra à... Companhia do Metrô. Isso é que é reivindicar em causa própria!
De Gérson a Macunaíma
Mas essa turma da ideologia prêt-à-porter não é a única a tentar descolar um cantinho na notícia cheirando a carniça, não! Um bando de especialistas nesse tipo de obra deita regras de toda ordem sobre o incidente a partir de informações colhidas apenas em imagens captadas pelas câmeras da televisão e registradas pelos fotógrafos de jornal. É a típica associação de repórteres ansiosos pela produção a toque de caixa de um noticiário espetaculoso, à falta de outros assuntos que não chamam tanta atenção, com profissionais interessados em oferecer seus serviços de consultoria para ganhar algum dinheiro com a desgraça da aposentada, da advogada e das outras vítimas fatais da tragédia. A Lei de Gérson nunca sai de cartaz nesta Pátria de Macunaíma.
Merecido ostracismo
Nem mesmo executivos que prestaram inestimáveis serviços à grande obra que é o Metrô de São Paulo se eximem desse tipo de exploração. O ex-presidente da Companhia Plínio Assman, por exemplo, questionou publicamente a opção pelo túnel sob o rio Pinheiros em detrimento da hipótese de se construir uma ponte, com um trecho a céu aberto, como foi feito em sua gestão na primeira Linha, a Norte-Sul. Ainda que a observação seja tecnicamente defensável, este não é o momento para começar esse tipo de discussão. Ao proferi-la, seu autor ganha cinco minutos de volta à notoriedade, mas, em compensação, dá ao público motivos para acreditar que o ostracismo do qual emergiu fugazmente lhe era mais adequado.
O PSDB não se emenda
Na penúltima eleição para compor a Mesa da Câmara dos Deputados, a bancada federal do PSDB, liderada por Alberto Goldman (SP), afinado com o então prefeito de São Paulo, José Serra, ignorou as pretensões do aliado José Carlos Aleluia (PFL-BA) e apoiou publicamente o candidato oficial, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) no primeiro turno, sob o pretexto de prestigiar a tradição de eleger presidente um membro da bancada com o maior número de deputados. Deu no que deu: com o apoio dos tucanos, foi eleito Severino Cavalcanti (PP-PE), dando início à mais vergonhosa legislatura da história da Casa. Agora, mais uma vez influenciada por Serra, a bancada anunciou apoio ao petista Arlindo Chinaglia (SP).
E o PSDB não aprende
O anúncio formal do apoio a Chinaglia, feito pelo deputado Jutahy Magalhães (BA), se baseava uma vez mais na pretensa proporcionalidade, embora o PT não tenha mais a maior bancada de deputados federais. Novamente os tucanos perderam a oportunidade de se aproveitar da divisão governista para eleger um presidente que não seja tão submisso ao Palácio do Planalto sob direção petista. A péssima repercussão da decisão pode fazer o tucanato voltar atrás, mas dificilmente terá influência prática na sucessão de Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Os amigos do PT podem até lhes causar algum transtorno, mas isso não é problema para quem tem inimigos como Tasso, Fernando Henrique, Serra... Ô patota ruim de serviço!
Profecias desta era
Na noite desta terça-feira 23, o cineasta e jornalista Ipojuca Pontes virá à Paraíba para lançar no Solar do Conselheiro, no centro histórico de João Pessoa, seu livro
A Era Lula – Crônica de um desastre anunciado, lançado pela Girafa Editora. O volume é uma coletânea de primorosos (tanto no conteúdo quanto na forma) ensaios sobre a primeira gestão petista na República. Embora não tenham sido escritos para publicação em jornais, portanto perecíveis por definição e sem a organicidade de algo produzido para ser editado em livro, os textos chamam a atenção pela perenidade da análise e pela coerência da visão crítica do autor. Alguns chegam perto de ser proféticos, tão argutos e apropriados são.
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