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José Nêumanne
Pinto
O tratamento que vem sendo dispensado ao filme
A cidade perdida, de Andy Garcia, no Brasil levanta duas questões relevantes para os leitores inteligentes (e independentes) deste periódico. A primeira é que a patrulha ideológica, denunciada por Cacá Diegues na época da ditadura, ainda está em plena vigência nesta democracia, que a substituiu. A outra é que uma bela miragem, mais que valer mais que mil palavras, produz uma avalanche verbal capaz de impedir a visão e o bom entendimento das pessoas.
Vi o filme por indicação de um amigo muito querido, além de parceiro na tarefa ingrata, mas nem sempre inglória, de encarar (e muitas vezes enfrentar) patrulheiros que, em nome da ideologia, transformam as próprias causas em preconceitos e tentam impô-las pela truculência intelectual: o cineasta e jornalista paraibano Ipojuca Pontes. Por escrito, o diretor de
Pedro Mico lembrou o entusiasmo que levou Anthony Quinn, o inesquecível protagonista de
Zorba, o grego, a considerar Andy Garcia o melhor ator latino de Hollywood. Só que neste filme ele foi muito mais que um intérprete competente a responder por um papel difícil – o do dono do cabaré
El trópico, óbvia referência ao famoso Tropicana, principal jóia da efervescente noite de Havana nos anos 50. O que conseguiu, com a bagatela (para os padrões hollywoodianos e até para os tupiniquins) de US$ 9,5 milhões, foi fazer um filme bonito, agradável de ver (e também de ouvir, pois a trilha sonora é maravilhosa) e instigante como móvel para o debate histórico e a reflexão política.
Ode lírica - A fita é uma ode lírica à Havana dos anos dourados, que a família do autor foi obrigada a abandonar depois da instalação da última e longeva ditadura que infelicita Cuba há quase meio século. A intenção de comover, pondo o espectador ao lado (até de mãos dadas) dos heróis do entrecho, foi atingida plenamente. A nostalgia do realizador não se manifesta num estéril desabafo de natureza meramente pessoal, mas leva cada pessoa no escurinho do cinema a exumar as próprias lembranças e chorar com ele a saudade de um tempo bom que passou e não mais voltará.
Isso não resulta, contudo, de um apelo fácil daqueles pueris e piegas, próprio de fotonovelas, mas de uma narrativa sofisticada e inteligente. Nem poderia ser de forma diferente. O grande escritor (e também dissidente) cubano Cabrera Infante contribuiu para o roteiro, que é gracioso, mas também sofisticado, sem fazer concessões ao politicamente correto nem aos baixos instintos choraminguentos da platéia habitual do cinema comercial.
O Bobo inteligente
- Uma personagem chama atenção, ao longo da narrativa: a do dublê de escritor e comentarista satírico, que funciona como uma espécie de consciência crítica do protagonista. Esse tipo irreverente e folgazão, ao mesmo tempo adequado e incômodo, inconveniente e contundente, baseado no Bobo da tragédia
Rei Lear, de William Shakespeare, parece ter sido escrito especialmente para o impagável Bill Murray, o intérprete do ator entediado em
Lost in translation, de Sofia Coppola. Excessos de vaidade me levam até a compará-lo com Marco Antônio, não o da peça
Julius Caesar, também de Shakespeare, mas, sim, o dito Coelho, consciência crítica da patota dos Sovacões Solidários do Recruta Pepé, em meu romance
O silêncio do delator.
Apesar de todas essas suas óbvias virtudes, os críticos dão, no máximo, uma estrela à obra nos roteiros cinematográficos da imprensa e os exibidores a programaram em sessões isoladas e perdidas de fim da tarde em cinemas decadentes por curta temporada. Um círculo de ferro! Ainda assim, quem vai gosta, se diverte e se comove, desde que não tenha jurado votos de fidelidade ideológica à brutalidade boçal da ditadura castrista nem acenda velas mentais no altar do santo máximo da guerrilha esquerdista nos anos 60,
Che Guevara.
O formoso assassino - Sim, porque o médico argentino asmático e formoso que protagonizou a aventura guerrilheira de Sierra Maestra, ao lado de Fidel Castro e Camilo Cienfuegos, não é retratado no filme com aquela aura romântica que o envolve desde que ganhou o mundo a fotografia famosa de Korda que o transformou numa espécie de Cristo ateu, redentor dos desvalidos da terra. Nem visto como o autor da sentença equivocada “ser duro, mas sem jamais perder a ternura”. Qual o quê! Essa imagem, reproduzida em filmes como
Diários da motocicleta, do brasileiro Walter Salles, que o mostrou cruzando o rio Amazonas a nado para se solidarizar com leprosos de uma colônia na margem oposta, é parcial e incompleta. Além de romântico revolucionário, o dr. Ernesto Guevara era também um chefe guerrilheiro implacável e violento que, na luta, chegou a se tornar um assassino serial frio e insensível. Ao narrar a saga dos Fellove, clã atingido pelos rigores do conflito revolucionário, Andy Garcia não teve complacência com Fulgencio Batista y Zaldívar, o histriônico sargento telegrafista que comandou a ditadura sanguinária derrubada pelos barbudos de Sierra Maestra. Mas também não tratou com luvas de pelica a venda por Fidel Castro de sua Cuba amada ao ouro de Moscou, em plena Guerra Fria. É essa franqueza, documentada em cenas como a repugnante rapina de objetos de valor dos cubanos que ainda conseguiam sair do país nos primórdios do regime castrista (bons tempos aqueles!), que leva a crítica simpatizante da ideologia submarxista tropicalista da ditadura caribenha a torcer o nariz para o filme. E desestimula os programadores a providenciarem horários mais decentes e correspondentes aos apelos comerciais da fita nas salas de exibição.
Esses súditos do politicamente correto tratam Cabrera Infante e Andy Garcia como
gusanos (palavra castelhana que significa vermes e é usada para definir os cubanos irredentos que resistem à submissão da ilha aos caprichos de um tirano psicopata). De fato, pensando bem, quem rasteja e escava o solo, na busca de um tesouro inalcançável, é exatamente quem sabota A cidade perdida, tentando, felizmente em vão, impedir que o mundo sinta o mau cheiro dos miasmas que emanam do cadáver de um regime que apodrece corroído pela própria desumanidade.

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José
Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde,
comentarista da rádio Jovem Pan, e autor de
O silêncio do delator, prêmio Senador José Ermírio de Morais, da Academia Brasileira de Letras, em 2005.
Clique na capa para ter acesso à livraria virtual.
Obras do jornalismo de
ficção e biografia: Mengele: A natureza do mal. São Paulo: EMW, 1985,
romance-reportagem; Atrás do palanque: Bastidores da eleição presidencial de
1989. São Paulo: Siciliano, 1989, reportagem; Reféns do passado. São Paulo: Siciliano, 1992, artigos e ensaios políticos;
Erundina: A mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, perfil biográfico;
A república na lama: Uma tragédia brasileira.São Paulo: Geração Editorial, 1992.
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