NOTÍCIAS DA ESTAÇÃO NÊUMANNE

"Serão lançados até a próxima semana o CD e DVD novos de Zé Ramalho. Em ambos, o compositor e intérprete de Brejo do Cruz, no sertão da Paraíba, incluiu melodia que compôs sobre parte do poema "Poeira de estrelas", do também sertanejo paraibano, de Uiraúna, Zé Nêumanne. A faixa intitula-se "Do norte do norte". Nêumanne gravou o poema na íntegra no CD "As fugas do sol" (faixa 29), que está disponível para "download" em seu "site": a Estação Nêumanne.

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Também na Estação Nêumanne você pode ouvir a música "Barcelona, Borborema" (parceria de Gustavo Magno, Carlos Aranha e José Nêumanne, que é a faixa 7 do CD "Divina virtude", de GM). Clique neste ícone:

A seguir, leia a íntegra do poema que Zé Ramalho usou para compor "Do norte do norte"."

Carlos Aranha,no Correio da Paraíba coluna "Essas Coisas", 27 de março de 2007.

 

 

 

 

 

              Zé Nêumanne



Do norte do norte
as águias decolam
para vôos sem volta. 
Lá, tudo começa:
a voz do mudo, 
a vez do mundo. 
No norte do norte
as águas brotam do solo
e o fogo se consome, 
queimando a cera do tempo. 
No norte do norte, 
mora Deus, 
o dono da sorte, 
pelo menos à noite. 
Lá se consuma o pecado
de cada um, 
surgido do zero. 
No norte do norte, 
da terra é soprado
o barro humano, 
bafo de vida. 

Ao sul do sul
as águias sempre voltam
de vôos sem ida. 
Lá se chega sempre ao nada, 

ao nenhum talvez, 
decerto a ninguém. 
No sul do sul, 
as águas se lavam
em si mesmas. 
E o fogo se extingue
em cinza morna. 
No sul do sul, 
Deus vive de dia, 
na casa de sempre, 
erguida sobre ocos do vazio. 

Lá, se colhe
a semente da morte
na seara das virtudes
de todos, 
abrigados no sem fim
do infinito. 
No sul do sul, 
o último sopro, 
matéria divina, 
solfeja adeuses
em lábios selados. 



 

Entre o sul do sul
e o norte do norte
a leste e oeste, o medo
traça o destino parco
de quem se sente imenso. 
Entre o começo do fim
e o fim do começo, 
o compasso do verso. 
Lá Deus repousa
a sesta do guerreiro da paz
à sombra da luz das estrelas. 
O sono divino
vela a angústia do homem de não se saber
apenas um sonho, 
nem sempre um pesadelo, 
mas inevitavelmente
uma miragem de fumaça, 
uma nuvem opaca
de pó seco

e denso mistério. 


 

 

São Paulo, madrugada de 29/4-97

 

 

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