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Como o Senhor entrou no cineclubismo?
Entrei no Cineclube Glauber Rocha, que se reunia aos domingos
numa das salas do Colégio das Damas a convite de um colega de
classe, Iremar Maciel de Brito, que, à época o presidia. Além
disso, eu freqüentava amiúde a casa de Nicó Barros, outro colega
de classe, que era primo de Luiz Carlos Virgolino, um de seus
fundadores e que morreu precocemente. Outro colega no Estadual
da Prata que também foi presidente do Cineclube Glauber Rocha
foi Roberto França. Essa turma também se relacionava fora das
reuniões, na Praça do Rotary, no próprio Colégio e no Teatro
Municipal.
Qual foi a importância do cineclubismo na
sua vida?
O cineclubismo teve importância capital em minha opção pela
produção cultural. A paixão pelo cinema foi uma espécie de senha
de entrada para o debate cultural mais amplo, literário
inclusive. Além disso, me permitiu ter contato com um crítico de
cinema de João Pessoa, Carlos Aranha, que propiciou meu contato
com o Grupo Sanhauá, poetas de João Pessoa, principalmente
Marcus Vinicius de Andrade. Por meio deles, passei a me
corresponder com Mário Chamie e o pessoal do Poema/processo no
Sudeste e em Natal.
Qual a sua visão da atividade cineclubista?
A atividade cineclubística foi a esta época responsável pela
descoberta do mundo lá fora através do cinema. Além disso, o
Cineclube de Campina Grande - Luiz Custódio, Bráulio Tavares,
José Umbelino, Rômulo e Romero Azevedo, entre outros - mantinha
conosco uma rivalidade amigável e muito profícua. O cineclubismo
foi o grande responsável pelo debate cultural em Campina Grande
nos anos 60. Depois, viria Elizabeth Marinheiro com seus corais.
Mas antes dela os cineclubes é que agitavam a moçada. A produção
cinematográfica paraibana nasceu dos cineclubes. Linduarte
Noronha, Vladimir Carvalho e Manfredo Caldas são produtos do
cineclubismo. Assim como Wills Leal, Barreto Neto, Martinho
Moreira Franco, Jurandy Moura, Carlos Aranha e outros baluartes
da imprensa cultural paraibana. José Umbelino, Bráulio Tavares e
os irmãos Azevedo beberam nessa fonte. Assim como Luiz Custódio,
que fez carreira universitária, primeiro em João Pessoa e agora
de volta a Campina Grande.
O Cineclubismo teve alguma influência na
sua vida profissional?
Como presidente do Cineclube Glauber Rocha, passei a selecionar
os filmes para as sessões do Cinema de Arte, nas quartas-feiras,
no Cine Capitólio. Como eu tinha de escrever críticas para
explicar a seleção, publicadas pelo Diário da Borborema, tive
meus primeiros contatos com o jornalismo, que se tornaria minha
profissão.
Em João Pessoa, a influência Católica foi
marcante no início do cineclubismo. Em Campina Grande também
teve essa influência? como foi?
Sim. Nossos ícones eram o baiano Walter da Silveira e o
paraibano José Rafael de Menezes. Caminhos do cinema, de Zé
Rafael, era uma espécie de bíblia de nossa geração. Eu já
conhecia o pensamento humanista do cristão pregador da
tolerância, nascido em Monteiro, pelas leituras no Instituto
Redentorista Santos Anjos, onde estudei no começo dos anos 60.
Discípulo de Jacques Maritain, Zé Rafael era uma espécie de
Alceu Amoroso Lima nordestino. Sua influência foi capital no
movimento como um todo.
Durante a Ditadura Militar, a atividade
cineclubista em Campina Grande sofreu alguma censura?
Nâo diretamente no cineclubismo, mas numa de suas vertentes. O
Cineclube Glauber Rocha virou Grupo Levante, que realizou uma
exposição no foyer do Teatro Municipal. Delatada por João de
Assis, diretor do colégio 11 de outubro, a exposição foi
censurada e apreendida pelo Grupamento de Engenharia, comandado
à época pelo major Wilson Raizer.
Qual a contribuição que o cineclubismo
deixou para Campina Grande?
É possível dizer que tudo o que se produziu em arte e cultura em
Campina Grande depois dos anos 60 teve origem nos debates dos
dois cineclubes mais importantes. Nada foi em vão.

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