O jornalista e escritor José Nêumanne Pinto nasceu na cidade de Uiraúna no Alto Sertão Paraibano. Iniciou sua brilhante carreira nos anos 60 como crítico de cinema e repórter policial. Posteriormente, começou uma bem-sucedida trajetória na imprensa nacional, passando pelos jornais Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo e, no internacional The Miami Herald e TV. Atualmente Nêumanne se prepara para ocupar a cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras que outrora foi do poeta Augusto dos Anjos. Numa de suas recentes visitas à Campina Grande, ele concedeu entrevista ao Portal Celino Neto falando de sua vida, seus projetos e a família.

 

 

CN - Sua base profissional se encontra aqui na Paraíba, como crítico de cinema e repórter de polícia em um jornal campinense, no final dos anos 60. O que ainda resta daquele jovem de Uiraúna?


Nêumanne - Pode até ser pretensão minha, mas eu me sinto como se ainda fosse o menino que saiu de Uiraúna para subir a serra da Borborema e de cima dela ver o mundo. Minha visão, apesar de míope, ainda é a daquele menino. E, se o açúcar corroeu minhas veias de diabético e os excessos à mesa aumentaram o diâmetro de minha cintura, meu organismo físico combalido ainda transporta a alma curiosa de poeta do menino do sertão.


CN - Você já ganhou prêmios de destaque na área de comunicação, como o Prêmio Esso de Jornalismo Econômico, em 1975. É possível resumir em palavras a paixão pela profissão?


Nêumanne - Em mim a vocação de jornalista equivale à vocação do poeta e do escritor. Só acredito em jornalistas vocacionais, aqueles que encaram o ofício como uma missão quase sacerdotal. E eu sou assim: mesmo com todas as atividades extracurriculares que tenho, sou repórter 24 horas por dia e comentarista até quando durmo.


CN - Foi na área de opinião que você firmou sua imagem na televisão brasileira. De onde surgiu a tão famosa frase "direto ao assunto"?


Nêumanne - Quando meu irmão, Anchieta Filho, nascido em Campina Grande, me convidou para fazer um comentário por dia na Rádio Jovem Pan, a primeira coisa que pensei foi: não vou escrever e ler comentário, pois meio que me dá nos nervos ouvir um colega lendo o comentário. Essa natureza improvisada do comentário às vezes cria problemas, mas o ganho em naturalidade e, portanto, em comunicação com o público é muito maior que eventuais perdas. Isso (e mais o fato de que não tenho papas na língua) me levou ao título, que pegou. Quando me convidam para fazer palestra, é comum que me peçam para usar esse título.


CN - Nos últimos anos, você se dedica ao colunismo digital, com críticas especializadas de cinema para um portal online. Como jornalista, qual sua visão da dita 'revolução' da internet?


Nêumanne - Considero a internet um vício, uma espécie de cocaína: recebo e respondo a mais de 150 e-mails por dia. Hoje fico mais tempo lendo e respondendo a mensagens na internet que escrevendo para jornal ou comentando para o rádio e a TV. Preciso dizer mais?


CN - Em seu currículo literário, vários gêneros estão presentes, como poesia, ensaios, romances e até perfis biográficos. É possível nos revelar qual o preferido?


Nêumanne - Esta é uma verdadeira "escolha de Sofia". Prefiro não me arriscar. Seria como indicar um dos meus três filhos ou dos dois netos como favorito. Cada gênero me atrai de seu jeito e à sua hora. Sou meio ciclotímico, mas fiel a todos.


CN - Uma de suas obras mais famosas, "Barcelona Borborema", traz diversos poemas sobre Campina Grande. Você já afirmou que alguns dos primeiros versos do livro foram escritos em guardanapos de aviões e de restaurantes. De certa forma, são estes os momentos em que bate a saudade da terrinha?


Nêumanne - Campina Grande não é minha terra, mas a adotei como se filho fosse. Quando eu era menino, me encantava quando chegava à cidade pelo Serrotão. Ainda hoje me emociono quando me aproximo de Campina Grande por qualquer dos seus lados. E não consigo ler um dos poemas de "Borborema", quando tento, pois sempre caio no choro. A saudade é permanente e sempre preciso voltar para Campina Grande para começar algum projeto novo. Esta cidade é meu ponto de partida.


CN - Conte-nos um pouco sobre o sentimento de ocupar a cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras.


Nêumanne - A Paraíba é um Estado de grandes literatos: um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos é Augusto dos Anjos, patrono da cadeira 01, que ocuparei em 8 de setembro próximo. José Américo de Almeida e José Lins do Rego são do primeiro time dos escritores brasileiros no século 20. Só isso já diz a importância de 29 acadêmicos terem votado em mim na eleição que preencheu a vaga aberta com a partida do grande teatrólogo e folclorista Altimar Alencar Pimentel. Entrar na Academia é assumir o compromisso de voltar mais aqui e também de trabalhar mais pela divulgação do Estado no Sudeste, onde vivo e atuo.

 

CN - Ocupar esta vaga vai mudar sua rotina a ponto de permanecer mais tempo aqui na Paraíba?

 

Nêumanne - Tenho vindo com muito mais freqüência a meu Estado nos últimos tempos e uma das causas foi a disputa da cadeira na APL. Ao entrar na Academia, é natural que minha presença na Paraíba seja mais constante.

 

CN - Na prática, qual a principal importância de sempre levar o nome da Paraíba para o contexto intelectual do país?

 

Nêumanne - Espero corresponder à expectativa que meus confrades na Academia tiveram em relação à possibilidade de tornar a produção literária paraibana mais visível no eixo Rio-São Paulo. Tudo farei para isso, dentro das limitações de meu parco engenho.

 

CN - Em seu site na internet, você coleciona algumas fotos da família, principalmente com os netinhos. Você se considera um vovô coruja?

 

Nêumanne – Isso é intriga da oposição. Na verdade, não sou coruja não. Eu sou é absolutamente, irremediavelmente, inegavelmente apaixonado por Pedro, 6 anos, e Stella, 6 meses, meus amadíssimos netos.

© Segunda-Feira, 25 de Agosto de 2008 | Celino Neto é colunista social do Jornal da Paraíba

 

 

 

 

 

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