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CN - Sua base profissional se encontra aqui
na Paraíba, como crítico de cinema e repórter de polícia em um
jornal campinense, no final dos anos 60. O que ainda resta
daquele jovem de Uiraúna?
Nêumanne - Pode até ser pretensão minha, mas eu me sinto como se
ainda fosse o menino que saiu de Uiraúna para subir a serra da
Borborema e de cima dela ver o mundo. Minha visão, apesar de
míope, ainda é a daquele menino. E, se o açúcar corroeu minhas
veias de diabético e os excessos à mesa aumentaram o diâmetro de
minha cintura, meu organismo físico combalido ainda transporta a
alma curiosa de poeta do menino do sertão.
CN - Você já ganhou prêmios de destaque na
área de comunicação, como o Prêmio Esso de Jornalismo Econômico,
em 1975. É possível resumir em palavras a paixão pela profissão?
Nêumanne - Em mim a vocação de jornalista equivale à vocação do
poeta e do escritor. Só acredito em jornalistas vocacionais,
aqueles que encaram o ofício como uma missão quase sacerdotal. E
eu sou assim: mesmo com todas as atividades extracurriculares
que tenho, sou repórter 24 horas por dia e comentarista até
quando durmo.
CN - Foi na área de opinião que você firmou
sua imagem na televisão brasileira. De onde surgiu a tão famosa
frase "direto ao assunto"?
Nêumanne - Quando meu irmão, Anchieta Filho, nascido em Campina
Grande, me convidou para fazer um comentário por dia na Rádio
Jovem Pan, a primeira coisa que pensei foi: não vou escrever e
ler comentário, pois meio que me dá nos nervos ouvir um colega
lendo o comentário. Essa natureza improvisada do comentário às
vezes cria problemas, mas o ganho em naturalidade e, portanto,
em comunicação com o público é muito maior que eventuais perdas.
Isso (e mais o fato de que não tenho papas na língua) me levou
ao título, que pegou. Quando me convidam para fazer palestra, é
comum que me peçam para usar esse título.
CN - Nos últimos anos, você se dedica ao
colunismo digital, com críticas especializadas de cinema para um
portal online. Como jornalista, qual sua visão da dita
'revolução' da internet?
Nêumanne - Considero a internet um vício, uma espécie de
cocaína: recebo e respondo a mais de 150 e-mails por dia. Hoje
fico mais tempo lendo e respondendo a mensagens na internet que
escrevendo para jornal ou comentando para o rádio e a TV.
Preciso dizer mais?
CN - Em seu currículo literário, vários
gêneros estão presentes, como poesia, ensaios, romances e até
perfis biográficos. É possível nos revelar qual o preferido?
Nêumanne - Esta é uma verdadeira "escolha de Sofia". Prefiro não
me arriscar. Seria como indicar um dos meus três filhos ou dos
dois netos como favorito. Cada gênero me atrai de seu jeito e à
sua hora. Sou meio ciclotímico, mas fiel a todos.
CN - Uma de suas obras mais famosas,
"Barcelona Borborema", traz diversos poemas sobre Campina
Grande. Você já afirmou que alguns dos primeiros versos do livro
foram escritos em guardanapos de aviões e de restaurantes. De
certa forma, são estes os momentos em que bate a saudade da
terrinha?
Nêumanne - Campina Grande não é minha terra, mas a adotei como
se filho fosse. Quando eu era menino, me encantava quando
chegava à cidade pelo Serrotão. Ainda hoje me emociono quando me
aproximo de Campina Grande por qualquer dos seus lados. E não
consigo ler um dos poemas de "Borborema", quando tento, pois
sempre caio no choro. A saudade é permanente e sempre preciso
voltar para Campina Grande para começar algum projeto novo. Esta
cidade é meu ponto de partida.
CN - Conte-nos um pouco sobre o sentimento
de ocupar a cadeira número 1 da Academia Paraibana de Letras.
Nêumanne - A Paraíba é um Estado de grandes literatos: um dos
maiores poetas brasileiros de todos os tempos é Augusto dos
Anjos, patrono da cadeira 01, que ocuparei em 8 de setembro
próximo. José Américo de Almeida e José Lins do Rego são do
primeiro time dos escritores brasileiros no século 20. Só isso
já diz a importância de 29 acadêmicos terem votado em mim na
eleição que preencheu a vaga aberta com a partida do grande
teatrólogo e folclorista Altimar Alencar Pimentel. Entrar na
Academia é assumir o compromisso de voltar mais aqui e também de
trabalhar mais pela divulgação do Estado no Sudeste, onde vivo e
atuo.
CN - Ocupar esta vaga vai mudar sua rotina a ponto
de permanecer mais tempo aqui na Paraíba?
Nêumanne - Tenho vindo com muito mais freqüência a meu Estado
nos últimos tempos e uma das causas foi a disputa da cadeira na
APL. Ao entrar na Academia, é natural que minha presença na
Paraíba seja mais constante.
CN - Na prática, qual a principal importância de
sempre levar o nome da Paraíba para o contexto intelectual do
país?
Nêumanne - Espero corresponder à expectativa que meus confrades
na Academia tiveram em relação à possibilidade de tornar a
produção literária paraibana mais visível no eixo Rio-São Paulo.
Tudo farei para isso, dentro das limitações de meu parco
engenho.
CN - Em seu site na internet, você coleciona
algumas fotos da família, principalmente com os netinhos. Você
se considera um vovô coruja?
Nêumanne – Isso é intriga da oposição. Na verdade, não sou
coruja não. Eu sou é absolutamente, irremediavelmente,
inegavelmente apaixonado por Pedro, 6 anos, e Stella, 6 meses,
meus amadíssimos netos.

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