Revista A Semana, de João Pessoa, PB

(Sexta-feira 17 de outubro de 2008)

 

 

 

RA - Você disse numa entrevista que a internet é um vício - você está sempre ligado nos seus e-mails. Qual é o desafio do jornalismo impresso diante da rapidez da informação digital?


Nêumanne - Um dia destes, numa palestra que fiz na Academia Brasileira de Letras sobre o assunto, lembrei o dia em que resolvi citar a famosa pergunta de Stalin a Churchill sobre o número de divisões de que o Papa dispunha para impedir a ocupação da Polônia pelas tropas soviéticas depois da Segunda Guerra Mundial: queria saber as circunstâncias do episódio e recorri, como você o faria, ao Google. Encontrei uma miríade de respostas que me deixou mais confuso e desinformado que antes da consulta. Então, apelei para a velha imprensa de Gutenberg: procurei e achei o que precisava num dicionário de citações. Continuo usando internet em geral e o Google em particular, como de hábito, mas o episódio me serviu de lição: o papel continua sendo o melhor veículo para a informação correta e para a opinião necessária. A cibernética nos empazina de informação. O profissional de imprensa será sempre necessário para organizar a informação e opinar. O desafio da imprensa é contrapor à velocidade da informação digital a precisão e o pluralismo.


RA - Como você analisa a afirmação de que a quantidade de informação aumentou vertiginosamente mas a qualidade caiu....


Nêumanne - Não é uma questão de quantidade versus qualidade. A questão é de excesso versus necessidade. Hoje consumimos uma quantidade cavalar de informações e, então, necessariamente há muita porcaria. Há que saber separar o joio do trigo, o útil do descartável, o bom do lixo. Não é fácil. A imprensa só fornece menos textos de má qualidade que a internet porque não tem condições de oferecer ao público o mesmo volume de informações que a rede mundial de computadores. Agora a exigência da qualidade é maior, exatamente por causa da necessidade de compensar a velocidade da informação digital.


RA - Você é um jornalista versátil e atua também em TV, constantemente acusada de ser superficial. Concorda ou não?


Nêumanne - O problema é que as pessoas parecem não perceber com clareza a evidência da diferença entre os veículos. O jornal em particular e a imprensa em geral são veículos de informação. O rádio (especialmente AM), que já teve um papel importante de entretenimento e também se submeteu ao primado da notícia, é cada vez mais o transmissor por excelência dos serviços necessários para o funcionamento adequado da vida comunitária. Com a disseminação do all news dos EUA entre nós nestes tristes trópicos, a notícia passou a predominar sobre a música na programação radiofônica de uma tal forma que hoje praticamente não se usa mais o rádio (a não ser FM) para ouvir música, mas, sim, para saber o que está ocorrendo e, cada vez mais, o que fazer para ganhar tempo na vida corrida da cidade grande. A televisão é um veículo de entretenimento por natureza e até por definição, tendo ocupado o lugar que antes era do rádio e, de certa forma, do teatro e do cinema. É claro que um instrumento com o poder e a força que tem a TV não pode ser usado apenas para divertir, mas a notícia, assim como outros usos, sendo o mais nobre deles a difusão de conhecimentos, é um complemento do lazer oferecido pelas emissoras. É natural que os noticiários da TV tenham uma linguagem mais leve que os de rádio e, principalmente, de imprensa. O noticiário da TV é mais superficial, é claro. A natureza do meio é esta: instantaneidade e superficialidade.


RA - Apesar das novas tecnologias que aproximaram o mundo o nordeste e o sul do Brasil ainda estão distantes culturalmente?


Nêumanne - Nem tanto. É claro que a massificação dos meios eletrônicos de comunicação de massa têm como subproduto natural a homogeneização das práticas lingüísticas e culturais. Ainda na metade do século passado, quando os meios eletrônicos estavam engatinhando, o canadense Marshall Mc Luhan ficou célebre pela frase “o meio é a mensagem”. Ele foi profético: o meio é cada vez mais a mensagem e não tem como impedir isso nem reduzir os efeitos dessa realidade na fala e na produção cultural das comunidades alcançadas pelos sinais eletrônicos da TV e da internet. Meu querido amigo Flávio Tavares, não nosso pintor, também meu amigo, mas o jornalista gaúcho, que foi trocado pelo embaixador americano, Charles Elbrick, na ditadura militar, comentou comigo que sua mãe, nos ermos dos pampas, usava com naturalidade a gíria de Ipanema imposta pela TV Globo. Não há propriamente uma distância entre o Nordeste e o Sul, mas o poder da metrópole sobre a colônia, algo tão antigo quanto as viagens dos descobridores, há meio milênio.


RA - Existem jornais, como o Metro, distribuídos gratuitamente. Temos as noticias na net. O jornal impresso tradicional está em risco?


Nêumanne - O que põe os jornais impressos tradicionais em risco não são os concorrentes fortíssimos na imprensa gratuita ou nas telas dos computadores, mas a ineficiência inerente deles próprios. A decadência da Galáxia de Gutenberg na Era da Informação Digital é provocada pela própria incapacidade de compreender seu papel de “explicadora” e “organizadora” do exagerado acervo de informações à disposição do público. Se as empresas proprietárias de jornais e revistas prestassem mais atenção nas necessidades de seus mercados consumidores potenciais e investissem mais em qualidade seletiva da informação e capacidade plural de opinião, estariam numa condição muito melhor nos rankings de desempenho econômico.


RA - Você escreve abreviado na net? Ou mantém o português correto?


Nêumanne - Não tenho nada contra quem escreve abreviado na Net. Entendo o estilo de quem se expressa assim, mas não foi a língua que minha mãe, Dona Mundica, e as professoras do Grupo Escolar Jovelina Gomes me ensinaram em Uiraúna, no sertão da Paraíba, nos anos 50. Escrevo em português, porque não sei escrever em outro idioma. Mas respeito quem – como meu querido amigo e grande poeta alagoano Ledo Ivo – defende a grafia abreviada, adaptada à velocidade do veículo. Agora, cá pra nós, Rosinha, você não acha que um bjs é muito mais frio e sem graça que beijos? Tenha certeza de que Wellington vai concordar comigo nisso.


RA - Segundo Nelida Pinon, o internetês não ameaça o português. O que acha em relação a essa turma que já nasceu convivendo com a net e suas novidades?


Nêumanne - Olha, Rosinha, conheço a Nélida desde meus 16 anos e desde então me acostumei a segui-la: ela manda e eu obedeço. Então, se ela diz que não ameaça, não ameaça mesmo e ponto final. E vem cá, vamos combinar que não tinha por que ameaçar. Ninguém fala internetês, então internetês não existe, é apenas um código escrito, como outro qualquer – a língua do pê e os códigos secretos que os adolescentes de minha época usavam para selecionar quem podia saber de seus segredos. Em Campina Grande, nos anos 60, a moda era um tal de gaderi poluty. Já ouviu falar?

 

RA - Como é a sua rotina de produção no dia a dia?

 

Nêumanne - Levanto muito cedo e, depois de caminhar e tomar café, dou um expediente na Girafa – Editora, da qual sou sócio. Antes do almoço, participo de uma reunião de editorialistas com Ruy Mesquita, diretor de opinião de O Estado de S. Paulo. Depois do almoço, escrevo um editorial para o Jornal da Tarde, do Grupo Estado, e edito o que será publicado no dia seguinte. Feito isso, gravo em MP3 num laptop e passo pela internet (veja só) dois comentários para a Rádio Jovem Pan. Nos intervalos, respondo a mais de uma centena de mensagens de fãs e desafetos por e-mail diariamente, além de administrar a edição de meu site Estação Nêumanne. Às 7 da noite, vou para o estúdio do SBT, no km 18 da Via Anhangüera, gravar os comentários para os jornais da meia noite e das 6 da manhã. Aí volto pra casa, que também não sou de ferro, né, neguinha?

 

RA - Como é o seu processo de criação literária?

 

Nêumanne - Só me sento diante do computador para escrever prosa quando ela está praticamente pronta em minha cabeça. Foi assim com meu último romance, O silêncio do delator, que ganhou o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras, em 2005, como o melhor livro de 2004. Escrevi religiosa e febrilmente todas as manhãs, ao longo de nove meses, e submeti os resultados a meu amigo e terapeuta Humberto Mariotti e a meu então sócio na Girafa Pedro Paulo de Sena Madureira. Poesia é diferente: entro numa espécie de transe, tomo notas, passo para o computador e vou mexendo no poema até considerá-lo pronto. Acho que os poetas nascem prontos, atendem a uma vocação, ou melhor a uma danação. E os prosadores se fazem com a vivência. Cito sempre como exemplos Arthur Rimbaud, que foi um dos maiores poetas de todos os tempos em todas as línguas e escreveu até os 17 anos, de um lado, e, de outro, Machado de Assis, que produziu suas obras primas na maturidade, às portas da velhice. Considero Esaú e Jacó e Memorial de Aires, suas últimas obras, as mais perfeitas. Ou melhor: as menos imperfeitas. Quanto à prosa jornalística, este é um gênero da lógica, não da literatura. Devo meus artigos quinzenais no Estadão e mensais no Jornal da Tarde, sobretudo, às lições aprendidas com o padre holandês Bernardo no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, Campina Grande, em meados do século passado.

 

RA - Por que ser imortal da APL?

 

Nêumanne – Isso você tem de perguntar aos 29 acadêmicos que votaram em mim, entre os 32 que compareceram à Casa de Coriolano de Medeiros na manhã de 22 de julho passado para escolher quem teria, enfim, a honra de se sentar na cadeira 01, de Augusto dos Anjos, José Flóscolo da Nóbrega, Humberto Nóbrega, Waldemar Duarte e Altimar Pimentel. Peça para teu pai, Wellington Aguiar, que ele te ajudará na pesquisa. Quem sabe alguém encontre uma boa resposta para sua questão.

© Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008 | Revista A Semana, de João Pessoa, PB | Entrevista concedida a Rosa Aguiar

 

 

 

 

 

 

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