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RA -
Você disse
numa entrevista que a internet é um vício - você está sempre
ligado nos seus e-mails. Qual é o desafio do jornalismo impresso
diante da rapidez da informação digital?
Nêumanne -
Um dia destes, numa palestra que fiz na Academia Brasileira de
Letras sobre o assunto, lembrei o dia em que resolvi citar a
famosa pergunta de Stalin a Churchill sobre o número de divisões
de que o Papa dispunha para impedir a ocupação da Polônia pelas
tropas soviéticas depois da Segunda Guerra Mundial: queria saber
as circunstâncias do episódio e recorri, como você o faria, ao
Google. Encontrei uma miríade de respostas que me deixou mais
confuso e desinformado que antes da consulta. Então, apelei para
a velha imprensa de Gutenberg: procurei e achei o que precisava
num dicionário de citações. Continuo usando internet em geral e
o Google em particular, como de hábito, mas o episódio me serviu
de lição: o papel continua sendo o melhor veículo para a
informação correta e para a opinião necessária. A cibernética
nos empazina de informação. O profissional de imprensa será
sempre necessário para organizar a informação e opinar. O
desafio da imprensa é contrapor à velocidade da informação
digital a precisão e o pluralismo.
RA -
Como você
analisa a afirmação de que a quantidade de informação aumentou
vertiginosamente mas a qualidade caiu....
Nêumanne -
Não é uma questão de quantidade versus qualidade. A questão é de
excesso versus necessidade. Hoje consumimos uma quantidade
cavalar de informações e, então, necessariamente há muita
porcaria. Há que saber separar o joio do trigo, o útil do
descartável, o bom do lixo. Não é fácil. A imprensa só fornece
menos textos de má qualidade que a internet porque não tem
condições de oferecer ao público o mesmo volume de informações
que a rede mundial de computadores. Agora a exigência da
qualidade é maior, exatamente por causa da necessidade de
compensar a velocidade da informação digital.
RA -
Você é um
jornalista versátil e atua também em TV, constantemente acusada
de ser superficial. Concorda ou não?
Nêumanne - O problema é que as pessoas parecem não perceber com
clareza a evidência da diferença entre os veículos. O jornal em
particular e a imprensa em geral são veículos de informação. O
rádio (especialmente AM), que já teve um papel importante de
entretenimento e também se submeteu ao primado da notícia, é
cada vez mais o transmissor por excelência dos serviços
necessários para o funcionamento adequado da vida comunitária.
Com a disseminação do all news dos EUA entre nós nestes tristes
trópicos, a notícia passou a predominar sobre a música na
programação radiofônica de uma tal forma que hoje praticamente
não se usa mais o rádio (a não ser FM) para ouvir música, mas,
sim, para saber o que está ocorrendo e, cada vez mais, o que
fazer para ganhar tempo na vida corrida da cidade grande. A
televisão é um veículo de entretenimento por natureza e até por
definição, tendo ocupado o lugar que antes era do rádio e, de
certa forma, do teatro e do cinema. É claro que um instrumento
com o poder e a força que tem a TV não pode ser usado apenas
para divertir, mas a notícia, assim como outros usos, sendo o
mais nobre deles a difusão de conhecimentos, é um complemento do
lazer oferecido pelas emissoras. É natural que os noticiários da
TV tenham uma linguagem mais leve que os de rádio e,
principalmente, de imprensa. O noticiário da TV é mais
superficial, é claro. A natureza do meio é esta: instantaneidade
e superficialidade.
RA -
Apesar das novas tecnologias que aproximaram o mundo o
nordeste e o sul do Brasil ainda estão distantes culturalmente?
Nêumanne -
Nem
tanto. É claro que a massificação dos meios eletrônicos de
comunicação de massa têm como subproduto natural a
homogeneização das práticas lingüísticas e culturais. Ainda na
metade do século passado, quando os meios eletrônicos estavam
engatinhando, o canadense Marshall Mc Luhan ficou célebre pela
frase “o meio é a mensagem”. Ele foi profético: o meio é cada
vez mais a mensagem e não tem como impedir isso nem reduzir os
efeitos dessa realidade na fala e na produção cultural das
comunidades alcançadas pelos sinais eletrônicos da TV e da
internet. Meu querido amigo Flávio Tavares, não nosso pintor,
também meu amigo, mas o jornalista gaúcho, que foi trocado pelo
embaixador americano, Charles Elbrick, na ditadura militar,
comentou comigo que sua mãe, nos ermos dos pampas, usava com
naturalidade a gíria de Ipanema imposta pela TV Globo. Não há
propriamente uma distância entre o Nordeste e o Sul, mas o poder
da metrópole sobre a colônia, algo tão antigo quanto as viagens
dos descobridores, há meio milênio.
RA -
Existem jornais, como o Metro, distribuídos gratuitamente.
Temos as noticias na net. O jornal impresso tradicional está em
risco?
Nêumanne -
O que põe
os jornais impressos tradicionais em risco não são os
concorrentes fortíssimos na imprensa gratuita ou nas telas dos
computadores, mas a ineficiência inerente deles próprios. A
decadência da Galáxia de Gutenberg na Era da Informação Digital
é provocada pela própria incapacidade de compreender seu papel
de “explicadora” e “organizadora” do exagerado acervo de
informações à disposição do público. Se as empresas
proprietárias de jornais e revistas prestassem mais atenção nas
necessidades de seus mercados consumidores potenciais e
investissem mais em qualidade seletiva da informação e
capacidade plural de opinião, estariam numa condição muito
melhor nos rankings de desempenho econômico.
RA -
Você
escreve abreviado na net? Ou mantém o português correto?
Nêumanne -
Não tenho
nada contra quem escreve abreviado na Net. Entendo o estilo de
quem se expressa assim, mas não foi a língua que minha mãe, Dona
Mundica, e as professoras do Grupo Escolar Jovelina Gomes me
ensinaram em Uiraúna, no sertão da Paraíba, nos anos 50. Escrevo
em português, porque não sei escrever em outro idioma. Mas
respeito quem – como meu querido amigo e grande poeta alagoano
Ledo Ivo – defende a grafia abreviada, adaptada à velocidade do
veículo. Agora, cá pra nós, Rosinha, você não acha que um bjs é
muito mais frio e sem graça que beijos? Tenha certeza de que
Wellington vai concordar comigo nisso.
RA -
Segundo Nelida Pinon, o internetês não ameaça o português.
O que acha em relação a essa turma que já nasceu convivendo com
a net e suas novidades?
Nêumanne -
Olha,
Rosinha, conheço a Nélida desde meus 16 anos e desde então me
acostumei a segui-la: ela manda e eu obedeço. Então, se ela diz
que não ameaça, não ameaça mesmo e ponto final. E vem cá, vamos
combinar que não tinha por que ameaçar. Ninguém fala internetês,
então internetês não existe, é apenas um código escrito, como
outro qualquer – a língua do pê e os códigos secretos que os
adolescentes de minha época usavam para selecionar quem podia
saber de seus segredos. Em Campina Grande, nos anos 60, a moda
era um tal de gaderi poluty. Já ouviu falar?
RA -
Como é a sua rotina de produção no dia a dia?
Nêumanne -
Levanto
muito cedo e, depois de caminhar e tomar café, dou um expediente
na Girafa – Editora, da qual sou sócio. Antes do almoço,
participo de uma reunião de editorialistas com Ruy Mesquita,
diretor de opinião de O Estado de S. Paulo. Depois do almoço,
escrevo um editorial para o Jornal da Tarde, do Grupo Estado, e
edito o que será publicado no dia seguinte. Feito isso, gravo em
MP3 num laptop e passo pela internet (veja só) dois comentários
para a Rádio Jovem Pan. Nos intervalos, respondo a mais de uma
centena de mensagens de fãs e desafetos por e-mail diariamente,
além de administrar a edição de meu site Estação Nêumanne. Às 7
da noite, vou para o estúdio do SBT, no km 18 da Via Anhangüera,
gravar os comentários para os jornais da meia noite e das 6 da
manhã. Aí volto pra casa, que também não sou de ferro, né,
neguinha?
RA -
Como é o seu processo de criação literária?
Nêumanne -
Só me
sento diante do computador para escrever prosa quando ela está
praticamente pronta em minha cabeça. Foi assim com meu último
romance, O silêncio do delator, que ganhou o Prêmio
Senador José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de
Letras, em 2005, como o melhor livro de 2004. Escrevi religiosa
e febrilmente todas as manhãs, ao longo de nove meses, e submeti
os resultados a meu amigo e terapeuta Humberto Mariotti e a meu
então sócio na Girafa Pedro Paulo de Sena Madureira. Poesia é
diferente: entro numa espécie de transe, tomo notas, passo para
o computador e vou mexendo no poema até considerá-lo pronto.
Acho que os poetas nascem prontos, atendem a uma vocação, ou
melhor a uma danação. E os prosadores se fazem com a vivência.
Cito sempre como exemplos Arthur Rimbaud, que foi um dos maiores
poetas de todos os tempos em todas as línguas e escreveu até os
17 anos, de um lado, e, de outro, Machado de Assis, que produziu
suas obras primas na maturidade, às portas da velhice. Considero
Esaú e Jacó e Memorial de Aires, suas últimas
obras, as mais perfeitas. Ou melhor: as menos imperfeitas.
Quanto à prosa jornalística, este é um gênero da lógica, não da
literatura. Devo meus artigos quinzenais no Estadão e mensais no
Jornal da Tarde, sobretudo, às lições aprendidas com o padre
holandês Bernardo no Instituto Redentorista Santos Anjos, em
Bodocongó, Campina Grande, em meados do século passado.
RA -
Por que
ser imortal da APL?
Nêumanne –
Isso você
tem de perguntar aos 29 acadêmicos que votaram em mim, entre os
32 que compareceram à Casa de Coriolano de Medeiros na manhã de
22 de julho passado para escolher quem teria, enfim, a honra de
se sentar na cadeira 01, de Augusto dos Anjos, José Flóscolo da
Nóbrega, Humberto Nóbrega, Waldemar Duarte e Altimar Pimentel.
Peça para teu pai, Wellington Aguiar, que ele te ajudará na
pesquisa. Quem sabe alguém encontre uma boa resposta para sua
questão.

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