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José Nêumanne Pinto
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Fagner funde brilho e simplicidade
no recente CD Uma canção no rádio |
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Assista aos vídeos editados com canções do CD. Um Especial
da Estação Nêumanne para você.
Clique nas imagens acima. |

Enquanto outros astros do cancioneiro brasileiro se afundam
na mesmice e relançam velhos êxitos em roupagem nova (nem
tanto!) ou se escondem da inspiração em outras formas da
expressão, Raimundo Fagner lança o CD Uma canção no rádio
para instigar, provocar, agradar e, ao mesmo tempo, mostrar
que um ídolo popular não se equilibra apenas em cordas
vocais, mas também em neurônios. Recentemente, ele tinha
trazido a lume um poeta maior de suas plagas, ao musicar
versos do também cearense Francisco Carvalho, cujo talento
supera em muito o desconhecimento de sua obra além de
Fortaleza, deixando claro que não se pode medir mérito
literário só pelo reconhecimento. E não faz muito tempo
assim que ele gravou um CD em total parceria com um colega
compositor e intérprete, o maranhense Zeca Baleiro,
mostrando que estilos singulares podem bem se compor bem ao
se complementarem.
A safra 2009 da cepa de Fagner faz
ressurgir a mesma parceria em verso, melodia e voz na faixa
que dá título e nobreza ao disco. Esta pode ser definida sem
favor nenhum como antológica, juntando-se ao que há de mais
precioso e especial na história de nosso cancioneiro
amoroso: Uma canção no rádio (filme antigo)
destaca-se pelo brilho e pela simplicidade, provando que uma
coisa tem tudo a ver com a outra. “Penso, rio, sofro, choro,
deixo a vida pra depois”; “tenho um coração raso de razão”
ou “que o céu me roube a luz, mas me reste a voz na noite
calada” são versos que atingem o ápice da qualidade no topo
da lírica brasileira. Não se pense, contudo, que o novo CD
de Fagner se limita a este ponto culminante, pois, na
verdade, não se trata de uma obra de altos e baixos, mas, ao
contrário, de uma produção que prova que compensa um gogó de
ouro recorrer a um cérebro de igual estofo.
O mesmo Fagner que mostrou ao
público que lhe pede bis intermináveis para Noturno e
Canteiros com quantos acordes se canta a Espanha de
Rafael Alberti e que pôs o biscoito fino de Ferreira Gullar
à mesa da plebe agora traz de seu garimpo particular de
artistas desconhecidos prontos para a fama mais um que tem
tudo para ocupar lugar de destaque na indústria fonográfica
brasileira - hoje anêmica em talentos promissores. Oliveira
do Ceará, humilde servente que assina três faixas no CD do
astro, aborda numa delas, Martelo (parceria com
Adamar e Gabriel o Pensador, que participa da gravação), a
indignação e a estupefação da Nação inteira pelo contexto em
que todos nós - do palco e da platéia – estamos inseridos.
O regional nordestino, é claro,
faz-se presente na sapeca Flor do Mamulengo, de Luiz
Fidélis (“me apaixonei por um boneco e ele ‘neco’ de se
apaixonar”), e, sobretudo, em Me dá meu coração,
clássico do pernambucano Accioly Neto, cuja obra mais uma
vez ressuscita na voz do “almuadem” (cantor de orações no
Islã) de Orós. Desta vez com o auxílio luxuoso da sonoridade
de Clemente Magalhães, Leo Fernandes, Cláudio Bezz,
Alexandre Prol e Rick de La Torre, do Núcleo Criativo
Corredor 5: estes meninos do Rio contribuem de forma
decisiva para a unidade, a qualidade e a novidade do som do
CD de Fagner.

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José Nêumanne, paraibano de Uiraúna, jornalista e escritor, é
editorialista do Jornal da Tarde, articulista de O Estado de
S. Paulo, comentarista da Rádio Jovem Pan e do SBT, membro
da Academia Paraibana de Letras e autor do romance O
silêncio do delator, Prêmio Senador José Ermírio de
Moraes, da Academia Brasileira de Letras, em 2005, como o
melhor livro de 2004. |
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© O Estado de S. Paulo,
sábado 11 de julho de 2009, Caderno 2, Página D9 | |
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