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"A
primeira coisa que me ocorre lhes dizer, amigas e amigos meus,
cuja presença aqui me prestigia e desvanece, é o primeiro
verso de um soneto - o único poema que sei de cor. E nem meu é!
Mas, se querem saber, é como se fosse, tantos anos o tenho
repetido, tantas vezes dele me tenho lembrado e tantas noites são
aquelas em que ele tem percutido dentro de minha cabeça como um mantra, a oração escandida por um anjo. “Meu coração tem
catedrais imensas.” É isso mesmo: a abertura de
“Vandalismo”, de Augusto dos Anjos, nascido na Paraíba como
eu e morto em Minas, como tantos ancestrais de muitos dos que
aqui pacientemente me escutam. Este verso me encanta pelo ritmo
das sílabas, pela música da linguagem, pela força da imagem.
É grandioso e é singelo, ao mesmo tempo, como devem ser as
obras-primas: sólido e delicado, másculo e meigo, etéreo e prático.
(...)
Muitos
podem ser os motivos para que com ele abra este agradecimento
feito na condição que ainda me espanta de autor do romance O
silêncio do delator, laureado pelos membros desta Casa, que
Machado de Assis, do Cosme Velho, e Joaquim Nabuco, de
Massangana, fundaram e cujo espírito todos os acadêmicos
presentes e ausentes têm renovado, em benefício da cultura
nacional, em seu ameno e profícuo convívio em torno da mesa de
chá. Mas gostaria de destacar uma só, a mais simples, a mais
direta, a mais prosaica de todas: a correspondência com o
sentimento de humildade e reconhecimento, de gratidão e
despojamento com que aqui venho me investir desta honraria,
a maior
que poderia ser dada a um imodesto operário da língua, seu súdito
vaidoso, embora nem por isso infiel. Pois reivindico minha condição
de fiel para lhes garantir que me dirijo a cada um dos acadêmicos
e convidados aqui presentes com a humildade de um peregrino em
Meca, o ânimo caridoso do soldado romano que umedeceu os lábios
secos de Jesus na
cruz e o
estoicismo de Gandhi e Martin Luther King acolhendo as balas que
lhes ceifaram a vida. Entro nesta sala tirando os sapatos para
me sentar à mesa, à moda japonesa. Como um romeiro sobe as
escadas de pedra de Monte Santo, perto de Canudos, no sertão da
Bahia, lacerando as rótulas. Sou um cruzado da palavra, um
guerreiro do vernáculo e venho aqui para convocá-los à luta,
luta renhida, heterônimo da vida no canto do guerreiro indígena
do poema de Gonçalves Dias.
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O
silêncio do delator,
que mereceu a honra desta premiação, é um projeto literário
no qual reuni todos os valores que aqui venho defender. Relato
dos malogros e êxitos
de minha geração
, este romance não faz nenhuma concessão a modismos ideológicos
ou mercadológicos. Ao contrário: elaborado ao longo de vinte
anos, seu texto aborda com franqueza, mas também com verve e
leveza, a experiência de vida e reflete a visão do autor, sem
autocomiseração nem leniência com as facilidades exibidas na
feira de vaidades de nossa sociedade de massas e consumo.
"
Fragmento
do discurso de José Nêumanne Pinto, durante a solenidade de
entrega do Prêmio José Ermírio de Moraes, pelo romance O
silêncio do delator. No Youtube, o discurso completo.

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