por W. J. SOLHA
 

A reconstituição de uma época riquíssima, num romance ágil, denso e original
 

 

      
          A ficção é a melhor forma de se assistir aos acontecimentos de uma parte do passado como se fosse “ao vivo”. Tornam-se incrivelmente presentes, nos grandes romances, aquela gente que resistiu à invasão napoleônica em Moscou, aqueles americanos ricos que vagaram pela Europa no entreguerras, A Girafa Editora, 2ª ed., 2005, ISBN 85-8986-51-9aqueles paraibanos que viveram o Ciclo da Cana de Açúcar. “O Silêncio do Delator”, de José Nêumanne, tornou-se, na mesma linha, a maneira mais perfeita de se “ver” o que foram os muitos grupos de jovens brasileiros dos anos 60, apaixonados – e marcados - por Bob Dylan, Mao e Che, pelos Beatles, mais o cinema de Glauber e Godard, além do tórrido tempero da revolução sexual.
Tolstoi dizia que não escrevera nada que não houvesse visto. Hemingway fez parte da lost generation. Zé Lins foi, ele mesmo, um menino de engenho. Com uma carreira que inclui a Folha de São Paulo, o Estadão e o Jornal do Brasil, Nêumanne começou no jornalismo justamente nos anos 60, tema de seu livro, como crítico de cinema do Diário da Borborema.
         - Nos idos de 67 – segundo me disse -, Bráulio Tavares presidia o Cineclube de Campina Grande, eu, o Glauber Rocha. Eu programava o Cinema de Arte do Cine Capitólio; ele, a sessão Cultura do Cine Babilônia.
          Adquirindo saber e enorme vivência com artistas, políticos e intelectuais daqui e do Sul em seu desenvolvimento, aparelhou-se, com o tempo, para produzir aquilo que o narrador de seu livro classifica de romance enciclopédico, o que nos lembra logo o “Ulisses” de Joyce e o “Contraponto”, de Huxley, obras. que fazem os inventários completos de suas épocas e de seus ambientes, tal como Dante – em “A Divina Comédia” - fez com a Florença que o exilou. Assim, “O Silêncio do Delator” nos traz do passado uma juventude idealista e culta que seqüestrou um embaixador, protestou contra a guerra do Vietnã, padeceu a ditadura, idolatrou Woodstock; viu mil vezes “A Chinesa” de Godard e “Os Retratos da Vida” de Lelouch, analisou telas de Lichtenstein e de Wharol; dissecou romances de Camus e Salinger; riu e se comoveu com as tiras em quadrinhos de Crumb e Quino, deslumbrou-se com as sinfonias de Luciano Berio e Phillip Glass, usufruiu e sofreu a revolução da pílula, que transformou o comportamento reprimido da década anterior, principalmente entre as mulheres.
           - O livro de Nêumanne – diz Affonso Romano de Sant´Anna – realizou, de modo original, aquilo que tantos tentaram – “o romance de minha geração”.
          De modo original? Sim, porque, entre outras coisas, “O Silêncio do Delator” é um enorme monólogo em que um autor incerto orquestra as vozes de todo um grupo de velhas figuras - marcantes no seu tempo -, reunidas agora no funeral de uma delas, o Morto, com quem faz duo constante (numa brincadeira com o Brás Cubas do Machado). Falam, aí, a historiadora, o publicitário rico que não conseguiu se impor como romancista, a psicanalista, o ex-guerrilheiro que fez fortuna especulando na bolsa, o militante comunista que virou ministro, o popstar que é gay; o artista plástico que ficou na miséria; etc, etc.
        Ao contrário que seria de se esperar de quem é poeta, Nêumanne não usa em seu romance as construções comuns em Gabriel García Márquez (“El mundo era tan reciente, que muchas. cosas carecían de nombre”) ou Guimarães Rosa (“estalinho de estrelas, deduzir de grilos”). Assim, ele preenche as 540 páginas de seu livro com o que ele mesmo chama de “texto zero”, tão despojado quando o do também jornalista-romancista Ernest Hemingway.
       - “Tudo o que estiver ao meu alcance será revelado neste velório”, promete, objetivamente, o início de “O Silêncio do Delator”. Mas isso, capciosamente como no título, não é cumprido, pois enquanto García Márquez cria nomes precisos para os habitantes de sua precisa Macondo, como José Arcádio Buendía, Amaranta, Remédios, mais Úrsula Iguarán; enquanto, no “Grande Sertão;Veredas”, vigoram os bem mineiros Jisé Simpilício, Titão Passos, Jazevedão ou Fafafa, Nêumanne vai chamando suas personagens femininas de Helena, Penélope e Hebe, obtendo com isso uma desindividualização-generalização semelhante às das máscaras do teatro grego, colocando todo mundo – isso é ainda mais significativo – em alguma cidade do país da qual não se sabe o nome nem a que estado ou região pertence. Acaba-se chegando, com isso, por vias indiretas, ao “poético” necessário ao gênero herdeiro da “Ilíada” e da “Eneida”.
       Quando peguei “O Silêncio do Delator” pela primeira vez, há cerca de dois anos, travei logo no início. Não conhecia o comentário em que Bráulio avisava: “No começo o leitor custa a pegar o tom e o ritmo, mas depois que consegue passar a terceira, vai em terceira até o fim”. Senti o que me pareceu excesso de referências e citações, grande problema do “Contraponto” de Aldous Huxley... e de todos os meus romances. Tanto, que para me livrar do cacoete no último, ainda inédito, tive de reduzir suas 400 páginas originais a 160. Mas com o nome de Nêumanne repetido freqüentemente – há pouco tempo – devido à sua posse na Academia Paraibana de Letras e na de Cinema, retomei a leitura de sua narrativa e me aconteceu a reedição de minha descoberta em dois tempos da “Chacona”, de Bach: o primeiro, com estranhamento e resistência, o segundo com sintonia e prazer. Nada de excesso de referências. O que há é um fabuloso uso de necessários tijolos ou átomos para a reconstrução de um universo, talvez o mais rico da recente história brasileira.
       Bem, falou-se e fala-se muito, merecidamente, de A Pedra do Reino, do Ariano Suassuna. Acho que está na hora de se fazer igual barulho em torno de todo esse “ Silêncio”, para que se faça justiça à sua retumbante fortuna crítica, a que venho juntar este meu tarol. Uma minissérie da Globo cairia bem.


 

FORTUNA CRÍTICA

Affonso Romano de Sant'Anna (06.11.2004 - O Globo) Ajalmar. Trova  Aleilton Fonseca (18.06.2005, Jornal do Brasil), Álvaro Alves de Faria  Antônio Olinto (Tribuna de Imprensa, 20.07.2005) Betty Vidigal (O escritor, nov.2005) Bráulio Tavares (Jornal da Paraíba, 23.12.04) Caio Porfírio Carneiro (22.11.04) Carol Almeida (Jornal do Commercio - 24.10.04) Cláudia Cordeiro (revista Continente Multicultural - jan.2005)   Deonísio da Silva (12.10.04 - Jornal do Brasil,  21.12.04 - Observatório de Imprensa) Escobar Franelas O Silêncio do Delator (José Nêumanne), por Escobar Franelas [artigo reproduzido a partir da edição do blog Recanto das Letras, publicado em 19/12/2008. Eustáquio Gomes (23.01.2005 - Correio Popular de Campinas)   Henrique Veltman (Imprensa Livre, SP)  Hugo Pontes (01.06.2005 - jornal Mantiqueira, página 1 do Caderno Variedades) Ipojuca Pontes (08.10.04 - Gazeta Mercantil) José Alcides Pinto, (19.03.2005, Diário do Nordeste) Júlio Daio Borges, (02.2005, Rascunho)   Luiz Augusto Crispim - (07.01.05 /08.06.2005-Correio da Paraíba) Marcus Vinícius Vilaça (25.08.2005-ABL) Martinho Moreira Franco (14.11.04 - O Norte, João Pessoa) Nei Leandro de Castro (02.02.2005-Tribuna do Norte) Roberto Romano (junho.2005, n. 92, revista Cult) Rômulo Azevedo (04.06.2005 - Jornal da Paraíba) Ronaldo Cagiano (22.07.05 - Estado de Minas)  Rosiane de Almeida Silva: OS DOIS JOSÉS E A SEARA DE REFERÊNCIAS (ensaio acadêmico) Ruy Fabiano (09.10.04 -Estadão) Sérgio de Castro Pinto(Blocos Online) Walter Fontoura (09.10.04 - Folha de São Paulo) W. J. Solha (03.02.2009) Wilson Martins (22.11.04 - Gazeta do Povo// O Globo)  

 

 

 

 

 

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