FACULDADE GAMA E SOUZA

INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO

COORDENAÇÃO ACADÊMICA DO CURSO DE LETRAS

(Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas)

 

 

 

 

OS DOIS JOSÉS

E A SEARA DE REFERÊNCIAS

 

Por:

Rosiane de Almeida Silva

(Graduanda em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa)

 

 

Rio de Janeiro

2° semestre / 2007

SILVA, Rosiane de Almeida. Os dois Josés e a seara de referências. 2007. 55 f. Monografia (Graduação em Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa). Coordenação de Letras, Faculdade Gama e Souza.

 

BANCA EXAMINADORA:

 

Orientador Professor Mestre Aderaldo Luciano dos Santos (FGS)

Professora Doutora Izabel Cristina Augusto de S. Faria. (FGS / SEE-RJ)

Professora Mestre Cristina Alves de Brito (FGS – SEE-RJ)

Professor Mestre Antonio José Niddan Pereira (FGS)

 

 

 

FACULDADE GAMA E SOUZA

INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO

COORDENAÇÃO ACADÊMICA DO CURSO DE LETRAS

(Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas)

 

 

OS DOIS JOSÉS

E A SEARA DE REFERÊNCIAS

Por:

Rosiane de Almeida Silva

(Graduanda em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa)

 

 

Monografia entregue ao Orientador, Professor Mestre Aderaldo Luciano dos Santos e à Coordenação Acadêmica do Curso de Letras, como pré-requisito para obtenção do Certificado de Licenciatura Plena em Letras.

 

 

Rio de Janeiro

2° semestre / 2007

 

Para uma alma cega e iluminada que sempre acreditou... Sim, esta é a palavra ACREDITAR:

Ao longo das aulas, em cada disciplina, ao longo das aulas, ao término de cada período, de cada ano... e, acima de tudo, frutíferas nas conversas nos corredores da Gama e Souza.

 

... Dedico essa lapidagem a você, meu Mestre, Adercego, Aderaldo Luciano dos Santos.

“O ofício de um poeta é de revolver

a palavra

como o lavrador revolve a terra,

germiná-la como faz o semeador

e vê-la brotar até se tornar uma árvore

frondosa e cheia de frutos”.

José Nêumanne Pinto

 

“Quem de palavras tem experiência sabe

que delas se deve tudo esperar”.

José Saramago

 

Quero deixar aqui registrados meus agradecimentos a minha seara. Obrigada por tudo, vocês foram essenciais para minha formação:

·                    A minha semente:

Deus, meus pais Anilton e Creusa, meus irmãos, avós e sobrinhos;

·                    Aos guerreiros do bom combate:

Amilton, Raquel, Rosana, Silvia e Suzana;

·                    Aos patriotas:

Cristina Alves de Brito (pela correção de meus erros, pelas gargalhadas e por não ter dado “mole” mesmo),

Izabel Cristina Augusto de Souza Faria (por ser uma prova concreta do que o estudo pode proporcionar ao discurso),

Eliana da Cunha Lopes (pelo Latim, pelo conhecimento de mundo, pelo abraço mais puro e desinteressado que já recebi) e a

Gladson Octaviano Antunes (pelo grande exemplo de inteligência e simplicidade).

·                    A minha visão, meu coração, na tortura e na paixão, a purificação...:

Meu orientador de vida Aderaldo Luciano, por ter delatado o escritor José Nêumanne Pinto e a partir dele ter encontrado, no silêncio, a essência de uma verdadeira poesia.

 

 

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SUMÁRIO:

 

APRESENTAÇÃO ________________________________________________  8

1. INTRODUÇÃO___________________________________________ 10

2. NASCE NÊUMANNE... CAI UM PRECONCEITUOSO PARADIGMA____  13

2.1 Nêumanne é Poeta!_______________________________________   16

3. APRESENTANDO A SEARA DE SARAMAGO_____________________ 19

3.1 O outro José ______________________________________________ 20

3.2 A Intertextualidade ________________________________________  21

3.3 Visão esquematizada das referências no poema ________________   22

3.3.1 Relato dos traços intertextuais e citacionais na poesia__________  24

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS___________________________________ 37

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ELETRÔNICAS________________ 39

6. ANEXOS________________________________________________  43

 

 


 

APRESENTAÇÃO:

 

Nas Instituições de Ensino Superior, um dos elos fecundantes do conhecimento é a Monografia.  Todo trabalho acadêmico sério e cientificamente comprometido gera novas contribuições que continuam estruturando o saber e o desenvolvimento da humanidade.

Assim, a presente pesquisa monográfica vem demonstrar o grau de habilitação adquirida, desenvolvida a partir de um aprofundamento temático, construída através de inúmeras consultas bibliográficas especializadas.

Após mergulhar inúmeras vezes na ignorância, na não-confiança, enfim, o sonho da realização deste trabalho resultou em um suculento fruto.  Mas, devemos logo informar que esta produção científica não é fruto de um ato isolado.  Sua essência se encontra na semente, ou seja, nas germinadas aulas de Teoria dos Significados, que originou o interesse pelo desenvolvimento deste assunto que trazemos para leitura e julgamento da Banca Examinadora.

Essa disciplina é oferecida na grade curricular obrigatória do Curso de Licenciatura Plena em Letras da Faculdade Gama e Souza.  Estuda o signo e as teorias gerais da linguagem, aprofundando o estudo dos sistemas, códigos e convenções do signo, semiótica e semiologia, o signo no centro do mundo e das relações, o leitor perante o signo, signo e leitura.

Não por coincidência, esta disciplina foi ministrada pelo mesmo orientador da elaboração deste trabalho, o Professor Aderaldo Luciano dos Santos, Mestre em Ciência da Literatura.  A contribuição dessa disciplina para o desenvolvimento deste trabalho ocorreu no dia 13 de março de 2006.  Neste dia, foi elaborado um breve estudo sobre o poema A Seara de Saramago, do escritor José Nêumanne Pinto, que um ano depois, virou tema para elaboração deste presente estudo.

Este poema é um típico texto no qual abunda a intertextualidade.  Nela se encontram referências a obras que contribuíram para o enriquecimento de nosso acervo literário e para evolução da nossa língua e do nosso povo, que a fala.  Em especial, como pode ser visto no poema, há um destaque referencial ao escritor José Saramago e a sua obra Memorial do Convento.  Nela se apresentam características de alguns personagens tecidos no enredo do escritor português.

Embasado nesta ótica, a presente pesquisa monográfica vem “delatar” traços intertextuais e citacionais estabelecidos no poema, exaltando também, a presença de José Nêumanne Pinto na Literatura Brasileira, como escritor e poeta.

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1.    INTRODUÇÃO

 

 

Esta língua é minha semente

(...)

Esta língua é meu berço,

esta língua me conhece,

esta língua é meu caixão.

 

(NÊUMANNE, 2002:70)

 

A Língua, acompanhando-nos do nascer até a morte, é um instrumento de comunicação e expressão dos sentimentos cuja ferramenta mais utilizada é a palavra.  As palavras, é claro, têm um grande valor residindo naquele sentido guardado quando são enunciadas em um determinado contexto, assumindo assim, variadas formas de imagem e representação.  E através da função poética da linguagem, elas abrem caminho para uma possibilidade muito mais plural de significações.  Passam da convivência à conivência, tornando-se cúmplices e multiplicando-se.

A Arte de usar as palavras criando com elas formas sempre diferentes, chama-se Literatura.  Representa o conjunto de obras escritas com finalidade artística.  De acordo com Afrânio Coutinho “A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade criada através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade.” [1]

A Literatura é uma forma bem específica de manipular os signos lingüísticos, que somente alguns encontram, pois fogem à cristalização cotidiana das linguagens falada e escrita.  Através dela se faz necessário decifrar seu universo, mecanismo, estilo, gênero, ideologia e idiossincrasias, para não criarmos conclusões equivocadas.

Toda a obra literária, independente de sua forma ou conteúdo, percebe-se, do artista literário, uma ideologia, uma postura diante da realidade e de seus desejos.  A exemplo disso, temos a Poesia, uma forma mais concentrada da expressão verbal, ligada diretamente à transmissão de emoção.

Ao longo do tempo, os poetas e os filósofos preocuparam-se em definir a poesia[2]: para o poeta espanhol García Lorca "Todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm".  O poeta francês Mallarmé, defendendo uma outra concepção, afirmou que "a poesia se faz com palavras, e não com idéias".  E, segundo T. S. Eliot, "aprendemos o que é poesia lendo poesia".

Mas o que sabemos, a poesia está intrinsecamente ligada à música.  Ela é um gênero lírico cuja origem vem da “lira”, um instrumento musical que acompanhava os cantos ditirâmbicos na antiga Grécia.  Este fato revela sua primeira fase na Cultura Grega, na qual ela era apenas uma enunciação oral, cujas frases curtas eram pronunciadas dentro de um ritmo e cujas palavras soavam agradavelmente aos ouvidos.  Contudo, nesta fase inicial, já existia um objetivo muito claro, a necessidade de preservar a cultura.

Para Nêumanne:

Poesia é tentação

(adjetivos, prazeres da carne),

Pronomes, tempero e sabor,

Verbos, alívio à dor).

(NÊUMANNE, 2002:69)

 

A poesia é realmente um alívio à dor, onde o artista sente-se desobrigado das imposições da prosa como contar história, compor personagens, reproduzir ambientes, etc. É uma história transfigurada na verdade do tempo não-datado.

Contemporaneamente, a poesia, por vários motivos, se caracteriza por novos entornos.  O que vale é um grau mais alto de abstração e interação lógica com o intelecto.  Tudo é significado e, em cada estrofe, cada verso, cada palavra, pode-se de tudo esperar. Ela retêm, entretanto, como qualquer outro texto, três níveis: o textual, o contextual e o intertextual.  Este último reflete o lastro cultural de quem escreve e de quem lê.  Ele é resultado de leituras e vivências valiosas e variadas.

O poema A Seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto apresenta um elevado nível intertextual.  Os escritores citados no poema têm suas obras representativas dos valores nacionais, mas superam a dimensão de nacionalidade, assumindo valores universais do homem e de sua capacidade de criação artística, em qualquer tempo, em qualquer lugar.

Isto é, basicamente, a que se propõe este presente trabalho, que sem sombra de dúvidas, servirá como apoio e desenvolvimento de outros, por se tratar de um dos poemas mais instigantes e bem-sucedidos de Nêumanne. Seguiremos orientados por Adelaide Lessa:

 

Num dia de luz

mais forte que os outros,

inventou o poeta

a palavra mais clara.

E pôs-se a cantar,

afluente de tudo,

que tudo faz parte

de um único verso![3]

 

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2.  NASCE  NÊUMANNE...  CAI  UM  PRECONCEITOSO  PARADIGMA

 

 

 

A Literatura obedece às leis inflexíveis: a da herança, a do meio, e do momento.

Hypolite Taine

 

José Nêumanne Pinto é um paraibano nascido na pequenina cidade de Uiraúna, em 18 de maio de 1951, no Vale do Rio do Peixe, alto sertão paraibano, nos limites entre a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará. Primogênito de sete filhos de José de Anchieta Pinto e Raimunda Ferreira Pinto, que muito devota do cardeal inglês Newman, quis registrar o filho com este nome, mas uma escrevente do cartório de registro civil modificou o nome para Nêumanne.

Casou com Regina Coeli e com ela teve três filhos: Vladimir, Clarice e Cecília, e um neto chamado Pedro e sua primeira neta que está para nascer em março de 2008. Casou-se pela segunda vez.  Iniciou a carreira como jornalista em 1968, como crítico de cinema e repórter de polícia no Diário da Borborema em Campina Grande, Paraíba. Rompeu as fronteiras do seu Estado, tornando-se um influente jornalista e, editorialista do Jornal da Tarde, articulista de O Estado de São Paulo, comentarista de rádio na Jovem Pan e televisão no Jornal do SBT.

Foi seminarista e, nessa fase, gostava de apreciar grandes obras literárias, o que lhe deu base em sua carreira profissional.  Nêumanne é animado e cheio de humor. Atribui sua paixão pelas Letras e Jornalismo às histórias que ouvia nas noites de luar no sertão paraibano de Dona Mundica, sua mãe, que nunca gostou de ser chamada pelo nome próprio Raimunda.  Ou também, quando ela dizia versos de Castro Alves, ou quando ele mesmo lera Augusto dos Anjos no quarto dos fundos da casa da Rua Rui Barbosa, em Campina Grande, e Manuel Bandeira, comprados na livraria Pedrosa. 

Herdou a miopia de seu avô, pobre camponês, porém muito intelectual e apaixonado por poesia.  Conforme já foi dito, Nêumanne nasceu na Paraíba e foi educado em Campina Grande. Nos primeiros anos da década de 70,  mudou-se para São Paulo.  Essa sua origem nordestina é refletida em seus laços de amizade, seu gosto e em sua forma de vida e sua certeza íntima.

Em seus textos, aparecem sempre elementos próprios de sua terra, seja na linguagem, seja no ritmo.  Esta é a sua forma pessoal de exaltar o seu amor por suas origens, fortalecendo suas raízes históricas, tornando-se assim, homem de seu tempo.

Além disso, Nêumanne é um grande escritor, porém sua presença tem sido pouco notada na Literatura Brasileira.  Talvez isto seja decorrente de um pré-conceito que permeia muitas mentes, o de um jornalista não poder ser um bom escritor.  Contudo, sua literatura derruba por terra este preconceituoso paradigma.  Nêumanne, como jornalista sempre foi profissional, rígido, até obsessivo na busca da verdade, e revela sua alma numa literatura classificada por muitos como seca e exuberante.  Seca em relação a sua estrutura e linguagem, e exuberante em temática e referências.

Além de três livros de poesia, Nêumanne tem mais sete publicados, sendo dois romances e quatro de reportagens e ensaios políticos:

 

Mengele a Natureza do Mal

Romance-reportagem

1985

As Tábuas do Sol

Poemas

1986

Erundina, a mulher que veio com a chuva

Perfil Biográfico

1989

Atrás do Palanque

Bastidores da Eleição Presidencial de 1989

Reportagem

1989

Reféns do Passado

Coletânea de Artigos e Ensaios Políticos

Artigos e Ensaios

1992

República na Lama

Uma tragédia Brasileira

Reportagem

1992

Barcelona, Borborema

Poesia

1992

Veneno na veia

Romance Policial

1995

Solos do Silêncio

Poesia reunida

1996

O Silêncio do Delator

Romance

2004

 

Esse último, o Silêncio do Delator, em 2005 foi considerado pelos acadêmicos, como melhor livro de 2004, tendo por esse motivo ganhado o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira de Letras.  Segundo a observação do próprio prêmio, esse livro inovou o romance contemporâneo, tanto na temática quanto nas técnicas narrativas.

Nêumanne sempre sonhou em escrever este livro e publicá-lo.  Guardou por anos o delato desta geração, que se arriscou em busca de seus ideais, embora com conseqüências desastrosas.  

Em sua narrativa um morto, durante todo o velório conta, canta, grita, denuncia, reivindica, conclama, exorciza etc. Na narrativa Nêumanne procura reconhecer todos os nomes, resgatar todos que se destacaram, ou procuraram de alguma forma fazer isto, mostrando-se às vezes ser um homem intratável, outras cordial, outras com a doçura de um menino.

Contudo, apesar de seu caráter ficcional, o livro é também de caráter enciclopédico, pois faz um panorama totalmente coerente da década de 60, e mais do que isto, retrata a caráter do homem nesta época em busca de sua identidade. Também, é válido ressaltar, seu caráter autobiográfico, que se mostra claro durante todo o entrelace da narrativa.  Quando o narrador-personagem toma voz e apresenta seu ponto de vista apresentando grandes vestígios de contato com os pontos de vista do escritor.

Assim, seus livros revelam a sua trajetória de vida, a maturidade:

...a poesia que não se faz só com palavras, como continua a supor tantos inocentes inúteis, mas, sobretudo com vivências capazes de merecer e de gerar as palavras certas.

Talvez nem todas as palavras contidas neste livro tão pouco palavroso sejam as certas, mas todas tiveram tempo suficiente para amadurecer antes da colheita.  (José Paulo Paes, in. Nêumanne, 2002:31)

 

Como vimos, Nêumanne, um sertanejo humilde, de vida simples, não se acomodou, apesar de todas as adversidades.  Logo ganha espaço, como um talentoso filho do sertão, que deixou para trás sua terra amada e venceu na cidade grande, mantendo firmes seus valores, demonstrando assim, o seu caráter e sua riqueza como ser humano.  Cada vez mais se destaca como um conceituado jornalista, escritor e um fenomenal poeta, como outro que cantou:

Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
P’ra sê poeta divera
Precisa tê sofrimento…
(Cante lá que eu canto cá).

              Patativa do Assaré

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2.1  Nêumanne   é   Poeta!

 

    Poética

         I

Que é a Poesia?

uma ilha

cercada

de palavras

por todos os lados.

         II

Quem é o Poeta?

um homem

que trabalha o poema

com o suor do seu rosto.

Um homem

Que tem fome

Como qualquer

outro homem.

Cassiano Ricardo[4]

 

José Nêumanne Pinto é um grande poeta.  Como já foi dito, ele publicou vários livros, sendo três de poesia: As Tábuas do Sol (1986), Barcelona, Borborema (1992) e Solos do Silêncio (1996) que apresenta toda a sua poesia reunida.  Grande é o seu conhecimento sobre a produção poética brasileira, isto fez com que fosse por ele organizada uma antologia, Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século.

Como sabemos, um antologista, embora trabalhe com material alheio, pode tornar-se um autêntico criador. Escrevendo de modo indireto a história de uma literatura constrói uma obra nova e original.  A antologia preparada por Nêumanne recebeu muitas críticas e elogios.  Ela resultou em um trabalho intencionalmente eclético e, com intuito mercadológico, ofereceu um número plural de poetas e poemas, para satisfazer todos os gostos.

Sua poesia resultou em um fruto midiático, lançamento de um CD de poesia – As Fugas do Sol.  Este CD é uma coletânea que reúne 30 poemas de seus livros de poesias e alguns inéditos, lidos pelo próprio Nêumanne, e com trilha sonora original composta pelo maestro Marcus Vinícius de Andrade, um amigo de infância.  Desta forma, podemos perceber como ele, o poeta, escolheu o ritmo de cada verso, de cada estrofe.

A poesia para Nêumanne não é uma opção, na qual uns podem querer, ou não, ser poeta, mas sim uma vocação, um talento.  Ao escrever poemas Nêumanne diz que espanta todos os tormentos, sustenta a sua lucidez.  Já ao ler, ele também os sente e se sintoniza como ser humano.

Além disso, a sua terra Paraíba, “pequenina e heróica”, como é assim conhecida, é uma raiz que penetra fundo em sua poesia, que, de acordo com seu livro  Erundina, a mulher que veio com a chuva (Nêumanne, 1989:82), é um vocábulo indígena de significado controverso. Uns consideram que significa “rio mau”, outros “rio caudaloso”, outros ainda “braço de mar” ou “braço que vem do mar”.

Mas o mais interessante que relata este livro é uma afirmativa consciente que o narrador faz e que ninguém poderá negar é que, “... o Nordeste sempre foi e continuará sendo um verdadeiro banco genético, fornecedor de cérebros para o Brasil”.

Nêumanne é um poeta que possui características próprias.  Sua linguagem é pura, porém fatal.  Revela sinais de sua personalidade, fértil em imaginação e em intertextualidade.  É indiscutível seu talento e domínio da linguagem.  Nêumanne é um autêntico laboratorista da linguagem. Vejamos:

(...)

Entre o fazer e o ver,

ação e contemplação,

escolhi o ato de palavras:

fazê-las, habitá-las,

dar olhos à linguagem.

A poesia não é verdade:

é a ressurreição das presenças,

a história

transfigurada na verdade do tempo não datado.

(NÊUMANNE, 2002:225)

Nêumanne escolheu não somente o ato das palavras, mas também o ato de poetar sobre aquilo que vive, que sabe, pensa e sente.  Prova disso, é o seu poema A Seara de Saramago – um hino que glorifica a Língua Portuguesa, reverencia Saramago e uma genealogia de escritores nela mencionados.

 

 

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3.  A   SEARA   DE   SARAMAGO

 

 

 

(...)

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra.

(...)

Carlos Drummond de Andrade

 

Os versos acima são do poema Procura da Poesia, de Carlos Drummond de Andrade. Se encaixam perfeitamente na tipologia do poema de Nêumanne A Seara de Saramago, que possui mil faces secretas de significados, sob uma única face neutra, a do significante. 

Na Seara podemos encontrar o emprego de palavras com significados diferentes do usual, o que é óbvio em se tratando de uma característica fundamental da linguagem poética, que usa da linguagem figurada, das metáforas, para com isso, oferecer margens interpretativas várias.

Os novos significados que o poeta atribui às palavras e às expressões revelam seu modo pessoal de ver o mundo e as coisas.  E os bons poetas conseguem manter uma linguagem preenchida com grande significados, surpreendendo estudiosos da língua, com as suas associações.  Dessa forma, como já foi dito, o poema A Seara de Saramago é um exemplo de tudo isto.

Nela podemos encontrar um Nêumanne que sabe tirar do âmago os mais plurais significados das palavras e das frases.  Ele faz associações perfeitas, criando associações densas e provocativas. E as referências intertextuais se incorporam sutilmente de modo que os sentidos originais se unem às novas conotações poéticas.  Estas são características marcantes de seus poemas. No dizer de Ezra Pound:

A Literatura não existe no vácuo. Os escritores, como tais, têm uma função social definida, que se torna relevante ou não, dependendo de sua competência como escritores.

(POUND, 1997)

Concluindo, a literatura de Nêumanne comprova sua competência como poeta, e seu grande conhecimento de Língua e Literaturas de Língua Portuguesa.  Nêumanne mostra o seu amor pela Língua Portuguesa, criando um poema que representa tudo aquilo que acredita serem os grandes pilares da Língua, dedicando-a ao escritor que propagou a nossa Língua Portuguesa no mundo, o escritor luso José Saramago. Sentencia Nêumanne em uma poética pessoal:

(...) 

Boa poesia..., é aquela que leva o leitor a identificar a própria emoção que o poeta sentiu, ao criar um determinado verso ou estrofe ou poema.

 (...)

(NÊUMANNE, 2004:388)

 

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3.1  O   OUTRO   JOSÉ

 

Assim como muitos, José Nêumanne Pinto reconhece a força da literatura saramaguiana.  Tanto é seu reconhecimento que ele deixa registrado em um de seus mais fenomenais poemas A Seara de Saramago uma verdadeira reverência ao grande escritor luso.

José Saramago traduz a força e a vitalidade não só da Literatura Portuguesa para além das fronteiras de seu país, mas também da Língua Portuguesa.  Primeiro escritor de Língua Portuguesa a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, pelo conjunto de sua obra que compreende prosa (contos e romances), poesia e teatro, além de ensaios.

Saramago nasceu no dia 16 de novembro de 1922, na pequenina cidade Azinhaga, Ribatejo, ao norte de Lisboa.  Tem suas origens no campo, mas com dois anos mudou-se com a família para Lisboa.  Com cinco anos, ao entrar para a escola, descobriu um erro na sua certidão de nascimento.  Segundo consta a sua biografia, um funcionário acrescentou ao seu registro, Saramago, logo virou seu apelido, principalmente por sua família Meirinho Sousa.

 Hoje Saramago é a sua marca e a identidade de um escritor que espalhou a Língua Portuguesa pelos quatro cantos do mundo.  Muitos sabem que Saramago é um escritor autodidata, pois abandonou os estudos precocemente em virtude de dificuldades econômicas da família.  Fez o curso profissional para serralheiro mecânico.  Na fase adulta, passou por várias experiências profissionais.  Foi funcionário público, jornalista e editor.  Em 1969, filiou-se ao Partido Comunista Português, mas devido aos acontecimentos políticos na época, abandonou o partido e os jornais, passando a viver como tradutor de textos.

Somente a partir do lançamento do romance Memorial do Convento, em 1982, é que passou a viver exclusivamente de Literatura.  A partir de 1992, passa a morar em Lanzarotte, ilha do arquipélago das Canárias.

Tornou-se um escritor ganhador de diversos prêmios, inclusive o Prêmio Camões em 1995.  Mas, o mais importante foi no dia 8 de outubro de 1998, quando a Academia Sueca de Letras anunciou o Prêmio Nobel de Literatura, que pela primeira vez foi atribuído a um escritor de Língua Portuguesa.  Este prêmio veio quando seu mais famoso romance Memorial do Convento completava dezesseis anos de lançamento.  Saramago tinha na época 76 anos, mas aos 60 já tinha alcançado a notoriedade.

Saramago é mundialmente lido, admirado e homenageado.  Suas obras encontram-se publicadas nos seguintes países: Espanha, França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Grécia, Bulgária, Polônia, Cuba, União Soviética, Checoslováquia, Dinamarca, Israel, Noruega, Romênia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia, México, China, Turquia, Croácia e entre outros países.  E como não poderia deixar, foi publicado também, no Brasil.

Logo, a Língua Portuguesa agradece!

 

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3.2  A   INTERTEXTUALIDADE

 

O significado de um novo texto afasta, afeta e redimensiona o significado de todos os outros.

Marisa Lajolo

 

A intertextualidade é um elemento essencial e constitutivo do processo de escrita e leitura.  Abrange as diversas maneiras pelas quais um dado texto depende do conhecimento de outros textos para seu entendimento. Então, nomeia-se intertextualidade os diversos tipos de relações que um texto mantém com outros textos, e que segundo Bakhtin: Cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros significados (1992:291).  Segundo Julia Kristeva, criadora do termo: ... todo o texto é um mosaico de citações, de outros dizeres que o antecederam e lhe deram origem. (apud KOCH: 2006, 86).

  Inferimos, então, que todo o texto, assim como a poesia: “... toda a poesia que hoje é feita ou que virá a ser feita já foi feita. Somos apenas herdeiros!”, conforme as palavras de Ivan Junqueira.

Com isso, é o nosso dever perceber o efeito de sentido provocado pelo deslocamento, ou transformação de “velhos” textos e o propósito comunicacional dos novos textos construídos.  Apresentaremos, dessa forma, uma visão esquematizada do poema A Seara de Saramago de José Nêumanne Pinto para uma melhor percepção da intertextualidade e em seguida um breve discorrer sobre a mesma.

 

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3.3 VISÃO ESQUEMATIZADA DAS REFERÊNCIAS DE LÍNGUA  PORTUGUESA  NO  POEMA

              Os termos grifados e sublinhados encontram correspondência nos termos e explicações entre os parênteses. Esta ferramenta visa apontar os pontos intertextuais e citacionais empregados pelo autor na confecção do poema.

 

A SEARA DE SARAMAGO (José Saramago)

 

Esta língua é minha semente,
machado de mulato do morro, (Machado de Assis - Origem)
pátria de poeta lisboeta. (Fernando Pessoa - Patriotismo)


Esta língua é minha visão,
o sol do soldado caolho, (André Peralta – Personagem do livro Obras do Diabinho da mão furada, de António José da Silva.  Foi baseado no desenvolvimento do Soldado maneta, personagem do Romance de José Saramago)
a mão do soldado maneta. (Baltasar Mateus, o Sete-Sóis – Personagem do livro Memorial do Convento – Romance de José Saramago).

Esta língua é minha música,
na palavra do padre pregador, (Padre Antônio Vieira)
no pássaro do padre voador. (Padre Bartolomeu de Gusmão- Personagem também do livro Memorial do Convento – Romance de José Saramago)

Esta língua é minha mulher
tem cuidados de mãe
no leito da amante.

Esta língua é minha rosa, (Guimarães Rosa)
tem perfume dos sertões gerais, (Obra: Grande Sertão Veredas)
tem sabor de vinhos do Porto. (Fernando Pessoa – Vinho ligação com a festa de Santo Antônio)

Esta língua é meu cavalo
para subir cidades e serras, (Eça de Queiroz, Obra: A Cidade e as Serras)
que a brisa do Brasil beija e balança. (Castro Alves Poema O Navio Negreiro)

 

Esta língua é fel com mel,
cantigas a palo seco (João Cabral de Melo Neto, Poema A Palo Seco
e Música de Belchior)

de ninar o futuro

Esta língua é meu coração,
na tortura, na paixão
e no sal amargo da purificação. (José Saramago - Obras)


Esta língua é jóia africana, (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe)
ela caça a onça caetana, (Ariano Suassuna – Obra Ao sol da onça caetana)
ela cruza a légua tirana. (Luiz Gonzaga)


Esta língua é fruto de meu ventre,
mata sede de amizade,
me arma nos bons combates. (Luís Vaz Camões – Obra Os Lusíadas - Canto I , e Apóstolo Paulo)


Esta língua não é de viver, (Fernando Pessoa – Fragmentos e Pompeu, general romano, 106-48 a.C.)
língua de navegar e de lamber

e de dançar o tango argentino. (Manuel Bandeira – Poema Pneumotórax)


Esta língua é meu berço,
esta língua me conhece,
esta língua é meu caixão. (Augusto dos Anjos – Poema O Caixão Fantástico)

 

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3.3.1   RELATO DOS TRAÇOS INTERTEXTUAIS E CITACIONAIS NO POEMA

 

A intertextualidade no poema inicia-se logo no título A Seara de Saramago, a palavra “Saramago” nos remete ao escritor luso, a que chamamos “o outro José”, aquele ainda há pouco citado neste trabalho, José Saramago.  Assim prossegue o poema apresentando todos aqueles que junto a Saramago, para o escritor Nêumanne, fazem parte da seara de Língua Portuguesa.

Na primeira estrofe, no segundo verso, “machado de mulato do morro”, faz uma referência a Joaquim Maria, mas conhecido como Machado de Assis.  Escritor considerado pelos críticos em maioria, “o maior escritor brasileiro de todos os tempos”. Mas não é isto que aqui vamos enfocar.  Não é a sua vasta e variada obra, que abrangem romances como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quinca Borbas, Dom Casmurro, contos, crônicas, poesia, teatro, critica literária e teatral, mas sim sua origem.

Machado de Assis foi desde cedo um desafiador de seu tempo.  Nascido no Morro do Livramento, localizado no Cosme Velho, Laranjeiras Rio de Janeiro, em 21 de julho de 1839, onde morreu em 1908.

            Seu pai era brasileiro, mulato e pintor de paredes e sua mãe era portuguesa e lavadeira.  Logo, era mulato e nasceu no morro.  Viveu no meio de muita gente pobre e estudou apenas os primeiros anos em uma escola pública.  Contudo, apesar de sua origem humilde, foi um autoditada, com talentos excepcionais. Por uma vontade firmemente determinada, teve seus méritos reconhecidos em vida, e aos 58 anos veio a ser eleito Presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras, a também conhecida como Casa de Machado de Assis.

“Estás sempre aí, bruxo alusivo e zombadeiro, que revolves em mim tantos enigmas.”

(Carlos Drummond de Andrade, no poema “A um bruxo, com amor” sobre a vida e a obra de Machado.).

           

            É este aí, Machado de Assis, bruxo do Cosme Velho, autor de obras-primas, buscou sempre valores permanentes e universais, por este motivo sua obra não se assemelha aos seus primeiros anos, pobre e “mestiço”, nem a sua pátria, pois como podemos ver em seu ensaio “Instinto de Nacionalidade” (1873):

(...) O que se deve exigir do escritor,

antes de tudo, é certo sentimento

íntimo, que o torne homem do

seu tempo e do seu país...

(...)

 

            Machado de Assis era mesmo homem de seu tempo, por este motivo seguia a tendência do seu tempo, mas o que não devemos esquecer é que ele era um humilde “mulato” que alcançou os mais elevados degraus da consideração social e consagração artística.

Quanto ao 3° verso, “pátria do poeta lisboeta”, o poeta lisboeta a qual o poema se refere é um dos maiores poetas de Língua portuguesa, com valor comparado ao de Camões. Estamos nos referindo a Fernando Pessoa.

Poeta enigmático, maior autor de heteronímia, por causa de sua constante despersonificação. Assim, conseguiu, o artista genial espelhar os múltiplos traços do homem de seu tempo: espiritualista, materialista e nacionalista.

Quando ele disse “A minha Pátria é a minha Língua” quis dizer que a sua pátria é a Língua Portuguesa, afirmando a importância da Língua para a identidade e a afirmação como homem social.

Na década de 20/30 do século XVIII, a pátria de Língua Portuguesa estendia-se por Ultramar.  O Brasil e os territórios indianos, Timor, Macau mais as colônias africanas, tudo já fazia parte da Pátria, da nossa pátria Língua Portuguesa.

            A 2ª estrofe traz em seu 2º verso “a mão do soldado maneta”. Este verso faz referência a um personagem do romance de Saramago Memorial do convento.  Segundo Linda Hutcheon (HUTCHEON, 1991:256) é um romance contemporâneo em que a presença e as elaborações do tema histórico ocupam o centro da narrativa, que convencionou chamar de metaficção historiográfica.

            O Memorial mescla ficção e história, buscando não se afastar, nem negar ou construir a história, mas sim revisitá-la de maneira consciente.  O soldado maneta a que o verso se refere é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, que tem a sua marginalidade manifestada na sua condição de ex-soldado e na sua limitação física, a mão esquerda perdida na guerra.

            Esta limitação física, entretanto, não afetou a sua força trabalhadora e criativa. Ajudou na construção do convento e se integrou ao grupo na construção da passarola (desta, iremos falar depois), desempenhando a função que lhe fora atribuída.

            O que nos interessa agora é relatar que este personagem faz uma referência explícita a outro personagem, o André Peralta “o sol do soldado caolho”, do 2º verso. Este personagem é também um personagem marginal que faz parte da novela Obras do Diabinho da mão furada, do António José da Silva, o judeu.  Como poderemos ver no estudo de Odil José de Oliveira Filho, a semelhança de André com Baltasar, nos fragmentos iniciais de cada uma de suas respectivas obras:

 

Retirou-se um soldado da milícia de Flandes, em tempo de Felipe II, Chamado André Peralta, aflito e maltratado da guerra, tão pobre como soldado e tão desgraçado como pobre. Depois de entrar neste reino, onde havia nascido, e caminhava para Lisboa (...)

 

Este que desafronta aparência, sacudir da espada e desaparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso... Por ser pouco o que pudera guardar de soldo, pedia esmola em Évora para juntar as moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe havia de fazer às vezes de mão... Sete-Sóis, mutilado, caminhava para Lisboa...passou Montemor, não leva por companhia e ajuda frade ou diabinho e para mão furada já lhe basta a sua. (Odil, 2003:79)

 

            Saramago atualiza o texto de António José.  Podemos então inferir claramente de certa forma que Baltasar é a continuação do também soldado Peralta.  Pois o caminho de ambos, novamente de acordo com Odil José foi o convento, um para habitá-lo, o outro para construí-lo.

            Assim, soldado caolho e soldado maneta, indivíduos marginalizados, vindos das camadas populares, servem para conferir forma e identidade à minoria registrada em nossas letras, mas em maioria desde nossos primórdios.

            Prosseguindo, ainda utilizando Baltasar e a obra Memorial do Convento, de acordo com Kaufman (KAUFMAN, 1991: 129), Baltasar é um personagem típico. Mas há na obra os classificados personagens autênticos da história, a exemplo disso temos o Padre Bartolomeu de Gusmão.  Na 3º estrofe, no 3º verso “no pássaro do padre voador”, faz referencia a ele.

            Na obra de Saramago, Bartolomeu é um padre jesuíta que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro combustível que não seja a vontade humana.  Tirando esta forma imaginativa de voar, tudo isto aconteceu.  Gusmão foi um padre nascido em Santos que escreveu alguns sermões.  Consagrou-se no estudo da Física e Matemática, mas abdicou de tudo para se dedicar inteiramente ao estudo de balões. Seu invento ficou conhecido como “passarola”, e em sua homenagem foi erguido um monumento em sua cidade.

            Na 3ª estrofe, no segundo verso, aparece a palavra "pregador". Logo compreendemos que pregador é todo aquele que propaga a fé, pois assim são conhecidos todos aqueles que tinham uma missão de fé desde os tempos dos jesuítas.

            Contudo, um grande exemplo de pregador é sem dúvidas o Padre Antônio Vieira.  Nascido em Portugal, mas formou-se no Brasil como padre jesuíta, onde passou grande parte de sua vida missionária de pregação.  Conforme Fidelino de Figueiredo (FIDELINO, HPL, 268): “Era constitucionalmente um pregador, dos maiores de todos os tempos.”

            Alinha-se entre os grandes oradores universais, que maior não se produziu em Língua Portuguesa. Grande pregador, político e escritor, Vieira foi, sobretudo, uma das grandes figuras da cultura do século XVII.  Sua obra compreende 500 cartas, algumas obras de profecia e aproximadamente 200 sermões, sendo que, muitos deles são famosíssimos, confirmando sua qualidade como escritor e sua vasta cultura.

            Na época, os sermões possibilitavam que a palavra do pregador falasse para todas as camadas.  Seus sermões abrangem não só a teologia, mas também as questões de moralidade, filosóficas e políticas.