FACULDADE GAMA E SOUZA

INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO

COORDENAÇÃO ACADÊMICA DO CURSO DE LETRAS

(Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas)

 

 

 

 

OS DOIS JOSÉS

E A SEARA DE REFERÊNCIAS

 

Por:

Rosiane de Almeida Silva

(Graduanda em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa)

 

 

Rio de Janeiro

2° semestre / 2007

SILVA, Rosiane de Almeida. Os dois Josés e a seara de referências. 2007. 55 f. Monografia (Graduação em Letras – Português e Literaturas de Língua Portuguesa). Coordenação de Letras, Faculdade Gama e Souza.

 

BANCA EXAMINADORA:

 

Orientador Professor Mestre Aderaldo Luciano dos Santos (FGS)

Professora Doutora Izabel Cristina Augusto de S. Faria. (FGS / SEE-RJ)

Professora Mestre Cristina Alves de Brito (FGS – SEE-RJ)

Professor Mestre Antonio José Niddan Pereira (FGS)

 

 

 

FACULDADE GAMA E SOUZA

INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO

COORDENAÇÃO ACADÊMICA DO CURSO DE LETRAS

(Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas)

 

 

OS DOIS JOSÉS

E A SEARA DE REFERÊNCIAS

Por:

Rosiane de Almeida Silva

(Graduanda em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa)

 

 

Monografia entregue ao Orientador, Professor Mestre Aderaldo Luciano dos Santos e à Coordenação Acadêmica do Curso de Letras, como pré-requisito para obtenção do Certificado de Licenciatura Plena em Letras.

 

 

Rio de Janeiro

2° semestre / 2007

 

Para uma alma cega e iluminada que sempre acreditou... Sim, esta é a palavra ACREDITAR:

Ao longo das aulas, em cada disciplina, ao longo das aulas, ao término de cada período, de cada ano... e, acima de tudo, frutíferas nas conversas nos corredores da Gama e Souza.

 

... Dedico essa lapidagem a você, meu Mestre, Adercego, Aderaldo Luciano dos Santos.

“O ofício de um poeta é de revolver

a palavra

como o lavrador revolve a terra,

germiná-la como faz o semeador

e vê-la brotar até se tornar uma árvore

frondosa e cheia de frutos”.

José Nêumanne Pinto

 

“Quem de palavras tem experiência sabe

que delas se deve tudo esperar”.

José Saramago

 

Quero deixar aqui registrados meus agradecimentos a minha seara. Obrigada por tudo, vocês foram essenciais para minha formação:

·                    A minha semente:

Deus, meus pais Anilton e Creusa, meus irmãos, avós e sobrinhos;

·                    Aos guerreiros do bom combate:

Amilton, Raquel, Rosana, Silvia e Suzana;

·                    Aos patriotas:

Cristina Alves de Brito (pela correção de meus erros, pelas gargalhadas e por não ter dado “mole” mesmo),

Izabel Cristina Augusto de Souza Faria (por ser uma prova concreta do que o estudo pode proporcionar ao discurso),

Eliana da Cunha Lopes (pelo Latim, pelo conhecimento de mundo, pelo abraço mais puro e desinteressado que já recebi) e a

Gladson Octaviano Antunes (pelo grande exemplo de inteligência e simplicidade).

·                    A minha visão, meu coração, na tortura e na paixão, a purificação...:

Meu orientador de vida Aderaldo Luciano, por ter delatado o escritor José Nêumanne Pinto e a partir dele ter encontrado, no silêncio, a essência de uma verdadeira poesia.

 

 

 (Navegação: clique na numeração da página de cada item do SUMÁRIO para acessá-lo mais rapidamente. Volte ao sumário pela seta indicativa ao final de cada item: " voltar ao sumário". Download em arquivo Word, clique com o lado direito de mouse neste ícone: )

 

SUMÁRIO:

 

APRESENTAÇÃO ________________________________________________  8

1. INTRODUÇÃO___________________________________________ 10

2. NASCE NÊUMANNE... CAI UM PRECONCEITUOSO PARADIGMA____  13

2.1 Nêumanne é Poeta!_______________________________________   16

3. APRESENTANDO A SEARA DE SARAMAGO_____________________ 19

3.1 O outro José ______________________________________________ 20

3.2 A Intertextualidade ________________________________________  21

3.3 Visão esquematizada das referências no poema ________________   22

3.3.1 Relato dos traços intertextuais e citacionais na poesia__________  24

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS___________________________________ 37

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E ELETRÔNICAS________________ 39

6. ANEXOS________________________________________________  43

 

 


 

APRESENTAÇÃO:

 

Nas Instituições de Ensino Superior, um dos elos fecundantes do conhecimento é a Monografia.  Todo trabalho acadêmico sério e cientificamente comprometido gera novas contribuições que continuam estruturando o saber e o desenvolvimento da humanidade.

Assim, a presente pesquisa monográfica vem demonstrar o grau de habilitação adquirida, desenvolvida a partir de um aprofundamento temático, construída através de inúmeras consultas bibliográficas especializadas.

Após mergulhar inúmeras vezes na ignorância, na não-confiança, enfim, o sonho da realização deste trabalho resultou em um suculento fruto.  Mas, devemos logo informar que esta produção científica não é fruto de um ato isolado.  Sua essência se encontra na semente, ou seja, nas germinadas aulas de Teoria dos Significados, que originou o interesse pelo desenvolvimento deste assunto que trazemos para leitura e julgamento da Banca Examinadora.

Essa disciplina é oferecida na grade curricular obrigatória do Curso de Licenciatura Plena em Letras da Faculdade Gama e Souza.  Estuda o signo e as teorias gerais da linguagem, aprofundando o estudo dos sistemas, códigos e convenções do signo, semiótica e semiologia, o signo no centro do mundo e das relações, o leitor perante o signo, signo e leitura.

Não por coincidência, esta disciplina foi ministrada pelo mesmo orientador da elaboração deste trabalho, o Professor Aderaldo Luciano dos Santos, Mestre em Ciência da Literatura.  A contribuição dessa disciplina para o desenvolvimento deste trabalho ocorreu no dia 13 de março de 2006.  Neste dia, foi elaborado um breve estudo sobre o poema A Seara de Saramago, do escritor José Nêumanne Pinto, que um ano depois, virou tema para elaboração deste presente estudo.

Este poema é um típico texto no qual abunda a intertextualidade.  Nela se encontram referências a obras que contribuíram para o enriquecimento de nosso acervo literário e para evolução da nossa língua e do nosso povo, que a fala.  Em especial, como pode ser visto no poema, há um destaque referencial ao escritor José Saramago e a sua obra Memorial do Convento.  Nela se apresentam características de alguns personagens tecidos no enredo do escritor português.

Embasado nesta ótica, a presente pesquisa monográfica vem “delatar” traços intertextuais e citacionais estabelecidos no poema, exaltando também, a presença de José Nêumanne Pinto na Literatura Brasileira, como escritor e poeta.

  voltar ao sumário

 

1.    INTRODUÇÃO

 

 

Esta língua é minha semente

(...)

Esta língua é meu berço,

esta língua me conhece,

esta língua é meu caixão.

 

(NÊUMANNE, 2002:70)

 

A Língua, acompanhando-nos do nascer até a morte, é um instrumento de comunicação e expressão dos sentimentos cuja ferramenta mais utilizada é a palavra.  As palavras, é claro, têm um grande valor residindo naquele sentido guardado quando são enunciadas em um determinado contexto, assumindo assim, variadas formas de imagem e representação.  E através da função poética da linguagem, elas abrem caminho para uma possibilidade muito mais plural de significações.  Passam da convivência à conivência, tornando-se cúmplices e multiplicando-se.

A Arte de usar as palavras criando com elas formas sempre diferentes, chama-se Literatura.  Representa o conjunto de obras escritas com finalidade artística.  De acordo com Afrânio Coutinho “A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade criada através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade.” [1]

A Literatura é uma forma bem específica de manipular os signos lingüísticos, que somente alguns encontram, pois fogem à cristalização cotidiana das linguagens falada e escrita.  Através dela se faz necessário decifrar seu universo, mecanismo, estilo, gênero, ideologia e idiossincrasias, para não criarmos conclusões equivocadas.

Toda a obra literária, independente de sua forma ou conteúdo, percebe-se, do artista literário, uma ideologia, uma postura diante da realidade e de seus desejos.  A exemplo disso, temos a Poesia, uma forma mais concentrada da expressão verbal, ligada diretamente à transmissão de emoção.

Ao longo do tempo, os poetas e os filósofos preocuparam-se em definir a poesia[2]: para o poeta espanhol García Lorca "Todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm".  O poeta francês Mallarmé, defendendo uma outra concepção, afirmou que "a poesia se faz com palavras, e não com idéias".  E, segundo T. S. Eliot, "aprendemos o que é poesia lendo poesia".

Mas o que sabemos, a poesia está intrinsecamente ligada à música.  Ela é um gênero lírico cuja origem vem da “lira”, um instrumento musical que acompanhava os cantos ditirâmbicos na antiga Grécia.  Este fato revela sua primeira fase na Cultura Grega, na qual ela era apenas uma enunciação oral, cujas frases curtas eram pronunciadas dentro de um ritmo e cujas palavras soavam agradavelmente aos ouvidos.  Contudo, nesta fase inicial, já existia um objetivo muito claro, a necessidade de preservar a cultura.

Para Nêumanne:

Poesia é tentação

(adjetivos, prazeres da carne),

Pronomes, tempero e sabor,

Verbos, alívio à dor).

(NÊUMANNE, 2002:69)

 

A poesia é realmente um alívio à dor, onde o artista sente-se desobrigado das imposições da prosa como contar história, compor personagens, reproduzir ambientes, etc. É uma história transfigurada na verdade do tempo não-datado.

Contemporaneamente, a poesia, por vários motivos, se caracteriza por novos entornos.  O que vale é um grau mais alto de abstração e interação lógica com o intelecto.  Tudo é significado e, em cada estrofe, cada verso, cada palavra, pode-se de tudo esperar. Ela retêm, entretanto, como qualquer outro texto, três níveis: o textual, o contextual e o intertextual.  Este último reflete o lastro cultural de quem escreve e de quem lê.  Ele é resultado de leituras e vivências valiosas e variadas.

O poema A Seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto apresenta um elevado nível intertextual.  Os escritores citados no poema têm suas obras representativas dos valores nacionais, mas superam a dimensão de nacionalidade, assumindo valores universais do homem e de sua capacidade de criação artística, em qualquer tempo, em qualquer lugar.

Isto é, basicamente, a que se propõe este presente trabalho, que sem sombra de dúvidas, servirá como apoio e desenvolvimento de outros, por se tratar de um dos poemas mais instigantes e bem-sucedidos de Nêumanne. Seguiremos orientados por Adelaide Lessa:

 

Num dia de luz

mais forte que os outros,

inventou o poeta

a palavra mais clara.

E pôs-se a cantar,

afluente de tudo,

que tudo faz parte

de um único verso![3]

 

  voltar ao sumário

 

2.  NASCE  NÊUMANNE...  CAI  UM  PRECONCEITOSO  PARADIGMA

 

 

 

A Literatura obedece às leis inflexíveis: a da herança, a do meio, e do momento.

Hypolite Taine

 

José Nêumanne Pinto é um paraibano nascido na pequenina cidade de Uiraúna, em 18 de maio de 1951, no Vale do Rio do Peixe, alto sertão paraibano, nos limites entre a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará. Primogênito de sete filhos de José de Anchieta Pinto e Raimunda Ferreira Pinto, que muito devota do cardeal inglês Newman, quis registrar o filho com este nome, mas uma escrevente do cartório de registro civil modificou o nome para Nêumanne.

Casou com Regina Coeli e com ela teve três filhos: Vladimir, Clarice e Cecília, e um neto chamado Pedro e sua primeira neta que está para nascer em março de 2008. Casou-se pela segunda vez.  Iniciou a carreira como jornalista em 1968, como crítico de cinema e repórter de polícia no Diário da Borborema em Campina Grande, Paraíba. Rompeu as fronteiras do seu Estado, tornando-se um influente jornalista e, editorialista do Jornal da Tarde, articulista de O Estado de São Paulo, comentarista de rádio na Jovem Pan e televisão no Jornal do SBT.

Foi seminarista e, nessa fase, gostava de apreciar grandes obras literárias, o que lhe deu base em sua carreira profissional.  Nêumanne é animado e cheio de humor. Atribui sua paixão pelas Letras e Jornalismo às histórias que ouvia nas noites de luar no sertão paraibano de Dona Mundica, sua mãe, que nunca gostou de ser chamada pelo nome próprio Raimunda.  Ou também, quando ela dizia versos de Castro Alves, ou quando ele mesmo lera Augusto dos Anjos no quarto dos fundos da casa da Rua Rui Barbosa, em Campina Grande, e Manuel Bandeira, comprados na livraria Pedrosa. 

Herdou a miopia de seu avô, pobre camponês, porém muito intelectual e apaixonado por poesia.  Conforme já foi dito, Nêumanne nasceu na Paraíba e foi educado em Campina Grande. Nos primeiros anos da década de 70,  mudou-se para São Paulo.  Essa sua origem nordestina é refletida em seus laços de amizade, seu gosto e em sua forma de vida e sua certeza íntima.

Em seus textos, aparecem sempre elementos próprios de sua terra, seja na linguagem, seja no ritmo.  Esta é a sua forma pessoal de exaltar o seu amor por suas origens, fortalecendo suas raízes históricas, tornando-se assim, homem de seu tempo.

Além disso, Nêumanne é um grande escritor, porém sua presença tem sido pouco notada na Literatura Brasileira.  Talvez isto seja decorrente de um pré-conceito que permeia muitas mentes, o de um jornalista não poder ser um bom escritor.  Contudo, sua literatura derruba por terra este preconceituoso paradigma.  Nêumanne, como jornalista sempre foi profissional, rígido, até obsessivo na busca da verdade, e revela sua alma numa literatura classificada por muitos como seca e exuberante.  Seca em relação a sua estrutura e linguagem, e exuberante em temática e referências.

Além de três livros de poesia, Nêumanne tem mais sete publicados, sendo dois romances e quatro de reportagens e ensaios políticos:

 

Mengele a Natureza do Mal

Romance-reportagem

1985

As Tábuas do Sol

Poemas

1986

Erundina, a mulher que veio com a chuva

Perfil Biográfico

1989

Atrás do Palanque

Bastidores da Eleição Presidencial de 1989

Reportagem

1989

Reféns do Passado

Coletânea de Artigos e Ensaios Políticos

Artigos e Ensaios

1992

República na Lama

Uma tragédia Brasileira

Reportagem

1992

Barcelona, Borborema

Poesia

1992

Veneno na veia

Romance Policial

1995

Solos do Silêncio

Poesia reunida

1996

O Silêncio do Delator

Romance

2004

 

Esse último, o Silêncio do Delator, em 2005 foi considerado pelos acadêmicos, como melhor livro de 2004, tendo por esse motivo ganhado o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes da Academia Brasileira de Letras.  Segundo a observação do próprio prêmio, esse livro inovou o romance contemporâneo, tanto na temática quanto nas técnicas narrativas.

Nêumanne sempre sonhou em escrever este livro e publicá-lo.  Guardou por anos o delato desta geração, que se arriscou em busca de seus ideais, embora com conseqüências desastrosas.  

Em sua narrativa um morto, durante todo o velório conta, canta, grita, denuncia, reivindica, conclama, exorciza etc. Na narrativa Nêumanne procura reconhecer todos os nomes, resgatar todos que se destacaram, ou procuraram de alguma forma fazer isto, mostrando-se às vezes ser um homem intratável, outras cordial, outras com a doçura de um menino.

Contudo, apesar de seu caráter ficcional, o livro é também de caráter enciclopédico, pois faz um panorama totalmente coerente da década de 60, e mais do que isto, retrata a caráter do homem nesta época em busca de sua identidade. Também, é válido ressaltar, seu caráter autobiográfico, que se mostra claro durante todo o entrelace da narrativa.  Quando o narrador-personagem toma voz e apresenta seu ponto de vista apresentando grandes vestígios de contato com os pontos de vista do escritor.

Assim, seus livros revelam a sua trajetória de vida, a maturidade:

...a poesia que não se faz só com palavras, como continua a supor tantos inocentes inúteis, mas, sobretudo com vivências capazes de merecer e de gerar as palavras certas.

Talvez nem todas as palavras contidas neste livro tão pouco palavroso sejam as certas, mas todas tiveram tempo suficiente para amadurecer antes da colheita.  (José Paulo Paes, in. Nêumanne, 2002:31)

 

Como vimos, Nêumanne, um sertanejo humilde, de vida simples, não se acomodou, apesar de todas as adversidades.  Logo ganha espaço, como um talentoso filho do sertão, que deixou para trás sua terra amada e venceu na cidade grande, mantendo firmes seus valores, demonstrando assim, o seu caráter e sua riqueza como ser humano.  Cada vez mais se destaca como um conceituado jornalista, escritor e um fenomenal poeta, como outro que cantou:

Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
P’ra sê poeta divera
Precisa tê sofrimento…
(Cante lá que eu canto cá).

              Patativa do Assaré

  voltar ao sumário

 

 

2.1  Nêumanne   é   Poeta!

 

    Poética

         I

Que é a Poesia?

uma ilha

cercada

de palavras

por todos os lados.

         II

Quem é o Poeta?

um homem

que trabalha o poema

com o suor do seu rosto.

Um homem

Que tem fome

Como qualquer

outro homem.

Cassiano Ricardo[4]

 

José Nêumanne Pinto é um grande poeta.  Como já foi dito, ele publicou vários livros, sendo três de poesia: As Tábuas do Sol (1986), Barcelona, Borborema (1992) e Solos do Silêncio (1996) que apresenta toda a sua poesia reunida.  Grande é o seu conhecimento sobre a produção poética brasileira, isto fez com que fosse por ele organizada uma antologia, Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século.

Como sabemos, um antologista, embora trabalhe com material alheio, pode tornar-se um autêntico criador. Escrevendo de modo indireto a história de uma literatura constrói uma obra nova e original.  A antologia preparada por Nêumanne recebeu muitas críticas e elogios.  Ela resultou em um trabalho intencionalmente eclético e, com intuito mercadológico, ofereceu um número plural de poetas e poemas, para satisfazer todos os gostos.

Sua poesia resultou em um fruto midiático, lançamento de um CD de poesia – As Fugas do Sol.  Este CD é uma coletânea que reúne 30 poemas de seus livros de poesias e alguns inéditos, lidos pelo próprio Nêumanne, e com trilha sonora original composta pelo maestro Marcus Vinícius de Andrade, um amigo de infância.  Desta forma, podemos perceber como ele, o poeta, escolheu o ritmo de cada verso, de cada estrofe.

A poesia para Nêumanne não é uma opção, na qual uns podem querer, ou não, ser poeta, mas sim uma vocação, um talento.  Ao escrever poemas Nêumanne diz que espanta todos os tormentos, sustenta a sua lucidez.  Já ao ler, ele também os sente e se sintoniza como ser humano.

Além disso, a sua terra Paraíba, “pequenina e heróica”, como é assim conhecida, é uma raiz que penetra fundo em sua poesia, que, de acordo com seu livro  Erundina, a mulher que veio com a chuva (Nêumanne, 1989:82), é um vocábulo indígena de significado controverso. Uns consideram que significa “rio mau”, outros “rio caudaloso”, outros ainda “braço de mar” ou “braço que vem do mar”.

Mas o mais interessante que relata este livro é uma afirmativa consciente que o narrador faz e que ninguém poderá negar é que, “... o Nordeste sempre foi e continuará sendo um verdadeiro banco genético, fornecedor de cérebros para o Brasil”.

Nêumanne é um poeta que possui características próprias.  Sua linguagem é pura, porém fatal.  Revela sinais de sua personalidade, fértil em imaginação e em intertextualidade.  É indiscutível seu talento e domínio da linguagem.  Nêumanne é um autêntico laboratorista da linguagem. Vejamos:

(...)

Entre o fazer e o ver,

ação e contemplação,

escolhi o ato de palavras:

fazê-las, habitá-las,

dar olhos à linguagem.

A poesia não é verdade:

é a ressurreição das presenças,

a história

transfigurada na verdade do tempo não datado.

(NÊUMANNE, 2002:225)

Nêumanne escolheu não somente o ato das palavras, mas também o ato de poetar sobre aquilo que vive, que sabe, pensa e sente.  Prova disso, é o seu poema A Seara de Saramago – um hino que glorifica a Língua Portuguesa, reverencia Saramago e uma genealogia de escritores nela mencionados.

 

 

  voltar ao sumário

 

3.  A   SEARA   DE   SARAMAGO

 

 

 

(...)

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra.

(...)

Carlos Drummond de Andrade

 

Os versos acima são do poema Procura da Poesia, de Carlos Drummond de Andrade. Se encaixam perfeitamente na tipologia do poema de Nêumanne A Seara de Saramago, que possui mil faces secretas de significados, sob uma única face neutra, a do significante. 

Na Seara podemos encontrar o emprego de palavras com significados diferentes do usual, o que é óbvio em se tratando de uma característica fundamental da linguagem poética, que usa da linguagem figurada, das metáforas, para com isso, oferecer margens interpretativas várias.

Os novos significados que o poeta atribui às palavras e às expressões revelam seu modo pessoal de ver o mundo e as coisas.  E os bons poetas conseguem manter uma linguagem preenchida com grande significados, surpreendendo estudiosos da língua, com as suas associações.  Dessa forma, como já foi dito, o poema A Seara de Saramago é um exemplo de tudo isto.

Nela podemos encontrar um Nêumanne que sabe tirar do âmago os mais plurais significados das palavras e das frases.  Ele faz associações perfeitas, criando associações densas e provocativas. E as referências intertextuais se incorporam sutilmente de modo que os sentidos originais se unem às novas conotações poéticas.  Estas são características marcantes de seus poemas. No dizer de Ezra Pound:

A Literatura não existe no vácuo. Os escritores, como tais, têm uma função social definida, que se torna relevante ou não, dependendo de sua competência como escritores.

(POUND, 1997)

Concluindo, a literatura de Nêumanne comprova sua competência como poeta, e seu grande conhecimento de Língua e Literaturas de Língua Portuguesa.  Nêumanne mostra o seu amor pela Língua Portuguesa, criando um poema que representa tudo aquilo que acredita serem os grandes pilares da Língua, dedicando-a ao escritor que propagou a nossa Língua Portuguesa no mundo, o escritor luso José Saramago. Sentencia Nêumanne em uma poética pessoal:

(...) 

Boa poesia..., é aquela que leva o leitor a identificar a própria emoção que o poeta sentiu, ao criar um determinado verso ou estrofe ou poema.

 (...)

(NÊUMANNE, 2004:388)

 

  voltar ao sumário

 

3.1  O   OUTRO   JOSÉ

 

Assim como muitos, José Nêumanne Pinto reconhece a força da literatura saramaguiana.  Tanto é seu reconhecimento que ele deixa registrado em um de seus mais fenomenais poemas A Seara de Saramago uma verdadeira reverência ao grande escritor luso.

José Saramago traduz a força e a vitalidade não só da Literatura Portuguesa para além das fronteiras de seu país, mas também da Língua Portuguesa.  Primeiro escritor de Língua Portuguesa a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998, pelo conjunto de sua obra que compreende prosa (contos e romances), poesia e teatro, além de ensaios.

Saramago nasceu no dia 16 de novembro de 1922, na pequenina cidade Azinhaga, Ribatejo, ao norte de Lisboa.  Tem suas origens no campo, mas com dois anos mudou-se com a família para Lisboa.  Com cinco anos, ao entrar para a escola, descobriu um erro na sua certidão de nascimento.  Segundo consta a sua biografia, um funcionário acrescentou ao seu registro, Saramago, logo virou seu apelido, principalmente por sua família Meirinho Sousa.

 Hoje Saramago é a sua marca e a identidade de um escritor que espalhou a Língua Portuguesa pelos quatro cantos do mundo.  Muitos sabem que Saramago é um escritor autodidata, pois abandonou os estudos precocemente em virtude de dificuldades econômicas da família.  Fez o curso profissional para serralheiro mecânico.  Na fase adulta, passou por várias experiências profissionais.  Foi funcionário público, jornalista e editor.  Em 1969, filiou-se ao Partido Comunista Português, mas devido aos acontecimentos políticos na época, abandonou o partido e os jornais, passando a viver como tradutor de textos.

Somente a partir do lançamento do romance Memorial do Convento, em 1982, é que passou a viver exclusivamente de Literatura.  A partir de 1992, passa a morar em Lanzarotte, ilha do arquipélago das Canárias.

Tornou-se um escritor ganhador de diversos prêmios, inclusive o Prêmio Camões em 1995.  Mas, o mais importante foi no dia 8 de outubro de 1998, quando a Academia Sueca de Letras anunciou o Prêmio Nobel de Literatura, que pela primeira vez foi atribuído a um escritor de Língua Portuguesa.  Este prêmio veio quando seu mais famoso romance Memorial do Convento completava dezesseis anos de lançamento.  Saramago tinha na época 76 anos, mas aos 60 já tinha alcançado a notoriedade.

Saramago é mundialmente lido, admirado e homenageado.  Suas obras encontram-se publicadas nos seguintes países: Espanha, França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Grécia, Bulgária, Polônia, Cuba, União Soviética, Checoslováquia, Dinamarca, Israel, Noruega, Romênia, Suécia, Finlândia, Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia, México, China, Turquia, Croácia e entre outros países.  E como não poderia deixar, foi publicado também, no Brasil.

Logo, a Língua Portuguesa agradece!

 

voltar ao sumário

 

3.2  A   INTERTEXTUALIDADE

 

O significado de um novo texto afasta, afeta e redimensiona o significado de todos os outros.

Marisa Lajolo

 

A intertextualidade é um elemento essencial e constitutivo do processo de escrita e leitura.  Abrange as diversas maneiras pelas quais um dado texto depende do conhecimento de outros textos para seu entendimento. Então, nomeia-se intertextualidade os diversos tipos de relações que um texto mantém com outros textos, e que segundo Bakhtin: Cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros significados (1992:291).  Segundo Julia Kristeva, criadora do termo: ... todo o texto é um mosaico de citações, de outros dizeres que o antecederam e lhe deram origem. (apud KOCH: 2006, 86).

  Inferimos, então, que todo o texto, assim como a poesia: “... toda a poesia que hoje é feita ou que virá a ser feita já foi feita. Somos apenas herdeiros!”, conforme as palavras de Ivan Junqueira.

Com isso, é o nosso dever perceber o efeito de sentido provocado pelo deslocamento, ou transformação de “velhos” textos e o propósito comunicacional dos novos textos construídos.  Apresentaremos, dessa forma, uma visão esquematizada do poema A Seara de Saramago de José Nêumanne Pinto para uma melhor percepção da intertextualidade e em seguida um breve discorrer sobre a mesma.

 

voltar ao sumário

 

 

3.3 VISÃO ESQUEMATIZADA DAS REFERÊNCIAS DE LÍNGUA  PORTUGUESA  NO  POEMA

              Os termos grifados e sublinhados encontram correspondência nos termos e explicações entre os parênteses. Esta ferramenta visa apontar os pontos intertextuais e citacionais empregados pelo autor na confecção do poema.

 

A SEARA DE SARAMAGO (José Saramago)

 

Esta língua é minha semente,
machado de mulato do morro, (Machado de Assis - Origem)
pátria de poeta lisboeta. (Fernando Pessoa - Patriotismo)


Esta língua é minha visão,
o sol do soldado caolho, (André Peralta – Personagem do livro Obras do Diabinho da mão furada, de António José da Silva.  Foi baseado no desenvolvimento do Soldado maneta, personagem do Romance de José Saramago)
a mão do soldado maneta. (Baltasar Mateus, o Sete-Sóis – Personagem do livro Memorial do Convento – Romance de José Saramago).

Esta língua é minha música,
na palavra do padre pregador, (Padre Antônio Vieira)
no pássaro do padre voador. (Padre Bartolomeu de Gusmão- Personagem também do livro Memorial do Convento – Romance de José Saramago)

Esta língua é minha mulher
tem cuidados de mãe
no leito da amante.

Esta língua é minha rosa, (Guimarães Rosa)
tem perfume dos sertões gerais, (Obra: Grande Sertão Veredas)
tem sabor de vinhos do Porto. (Fernando Pessoa – Vinho ligação com a festa de Santo Antônio)

Esta língua é meu cavalo
para subir cidades e serras, (Eça de Queiroz, Obra: A Cidade e as Serras)
que a brisa do Brasil beija e balança. (Castro Alves Poema O Navio Negreiro)

 

Esta língua é fel com mel,
cantigas a palo seco (João Cabral de Melo Neto, Poema A Palo Seco
e Música de Belchior)

de ninar o futuro

Esta língua é meu coração,
na tortura, na paixão
e no sal amargo da purificação. (José Saramago - Obras)


Esta língua é jóia africana, (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe)
ela caça a onça caetana, (Ariano Suassuna – Obra Ao sol da onça caetana)
ela cruza a légua tirana. (Luiz Gonzaga)


Esta língua é fruto de meu ventre,
mata sede de amizade,
me arma nos bons combates. (Luís Vaz Camões – Obra Os Lusíadas - Canto I , e Apóstolo Paulo)


Esta língua não é de viver, (Fernando Pessoa – Fragmentos e Pompeu, general romano, 106-48 a.C.)
língua de navegar e de lamber

e de dançar o tango argentino. (Manuel Bandeira – Poema Pneumotórax)


Esta língua é meu berço,
esta língua me conhece,
esta língua é meu caixão. (Augusto dos Anjos – Poema O Caixão Fantástico)

 

voltar ao sumário

                      

 

3.3.1   RELATO DOS TRAÇOS INTERTEXTUAIS E CITACIONAIS NO POEMA

 

A intertextualidade no poema inicia-se logo no título A Seara de Saramago, a palavra “Saramago” nos remete ao escritor luso, a que chamamos “o outro José”, aquele ainda há pouco citado neste trabalho, José Saramago.  Assim prossegue o poema apresentando todos aqueles que junto a Saramago, para o escritor Nêumanne, fazem parte da seara de Língua Portuguesa.

Na primeira estrofe, no segundo verso, “machado de mulato do morro”, faz uma referência a Joaquim Maria, mas conhecido como Machado de Assis.  Escritor considerado pelos críticos em maioria, “o maior escritor brasileiro de todos os tempos”. Mas não é isto que aqui vamos enfocar.  Não é a sua vasta e variada obra, que abrangem romances como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quinca Borbas, Dom Casmurro, contos, crônicas, poesia, teatro, critica literária e teatral, mas sim sua origem.

Machado de Assis foi desde cedo um desafiador de seu tempo.  Nascido no Morro do Livramento, localizado no Cosme Velho, Laranjeiras Rio de Janeiro, em 21 de julho de 1839, onde morreu em 1908.

            Seu pai era brasileiro, mulato e pintor de paredes e sua mãe era portuguesa e lavadeira.  Logo, era mulato e nasceu no morro.  Viveu no meio de muita gente pobre e estudou apenas os primeiros anos em uma escola pública.  Contudo, apesar de sua origem humilde, foi um autoditada, com talentos excepcionais. Por uma vontade firmemente determinada, teve seus méritos reconhecidos em vida, e aos 58 anos veio a ser eleito Presidente da recém-fundada Academia Brasileira de Letras, a também conhecida como Casa de Machado de Assis.

“Estás sempre aí, bruxo alusivo e zombadeiro, que revolves em mim tantos enigmas.”

(Carlos Drummond de Andrade, no poema “A um bruxo, com amor” sobre a vida e a obra de Machado.).

           

            É este aí, Machado de Assis, bruxo do Cosme Velho, autor de obras-primas, buscou sempre valores permanentes e universais, por este motivo sua obra não se assemelha aos seus primeiros anos, pobre e “mestiço”, nem a sua pátria, pois como podemos ver em seu ensaio “Instinto de Nacionalidade” (1873):

(...) O que se deve exigir do escritor,

antes de tudo, é certo sentimento

íntimo, que o torne homem do

seu tempo e do seu país...

(...)

 

            Machado de Assis era mesmo homem de seu tempo, por este motivo seguia a tendência do seu tempo, mas o que não devemos esquecer é que ele era um humilde “mulato” que alcançou os mais elevados degraus da consideração social e consagração artística.

Quanto ao 3° verso, “pátria do poeta lisboeta”, o poeta lisboeta a qual o poema se refere é um dos maiores poetas de Língua portuguesa, com valor comparado ao de Camões. Estamos nos referindo a Fernando Pessoa.

Poeta enigmático, maior autor de heteronímia, por causa de sua constante despersonificação. Assim, conseguiu, o artista genial espelhar os múltiplos traços do homem de seu tempo: espiritualista, materialista e nacionalista.

Quando ele disse “A minha Pátria é a minha Língua” quis dizer que a sua pátria é a Língua Portuguesa, afirmando a importância da Língua para a identidade e a afirmação como homem social.

Na década de 20/30 do século XVIII, a pátria de Língua Portuguesa estendia-se por Ultramar.  O Brasil e os territórios indianos, Timor, Macau mais as colônias africanas, tudo já fazia parte da Pátria, da nossa pátria Língua Portuguesa.

            A 2ª estrofe traz em seu 2º verso “a mão do soldado maneta”. Este verso faz referência a um personagem do romance de Saramago Memorial do convento.  Segundo Linda Hutcheon (HUTCHEON, 1991:256) é um romance contemporâneo em que a presença e as elaborações do tema histórico ocupam o centro da narrativa, que convencionou chamar de metaficção historiográfica.

            O Memorial mescla ficção e história, buscando não se afastar, nem negar ou construir a história, mas sim revisitá-la de maneira consciente.  O soldado maneta a que o verso se refere é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, que tem a sua marginalidade manifestada na sua condição de ex-soldado e na sua limitação física, a mão esquerda perdida na guerra.

            Esta limitação física, entretanto, não afetou a sua força trabalhadora e criativa. Ajudou na construção do convento e se integrou ao grupo na construção da passarola (desta, iremos falar depois), desempenhando a função que lhe fora atribuída.

            O que nos interessa agora é relatar que este personagem faz uma referência explícita a outro personagem, o André Peralta “o sol do soldado caolho”, do 2º verso. Este personagem é também um personagem marginal que faz parte da novela Obras do Diabinho da mão furada, do António José da Silva, o judeu.  Como poderemos ver no estudo de Odil José de Oliveira Filho, a semelhança de André com Baltasar, nos fragmentos iniciais de cada uma de suas respectivas obras:

 

Retirou-se um soldado da milícia de Flandes, em tempo de Felipe II, Chamado André Peralta, aflito e maltratado da guerra, tão pobre como soldado e tão desgraçado como pobre. Depois de entrar neste reino, onde havia nascido, e caminhava para Lisboa (...)

 

Este que desafronta aparência, sacudir da espada e desaparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso... Por ser pouco o que pudera guardar de soldo, pedia esmola em Évora para juntar as moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe havia de fazer às vezes de mão... Sete-Sóis, mutilado, caminhava para Lisboa...passou Montemor, não leva por companhia e ajuda frade ou diabinho e para mão furada já lhe basta a sua. (Odil, 2003:79)

 

            Saramago atualiza o texto de António José.  Podemos então inferir claramente de certa forma que Baltasar é a continuação do também soldado Peralta.  Pois o caminho de ambos, novamente de acordo com Odil José foi o convento, um para habitá-lo, o outro para construí-lo.

            Assim, soldado caolho e soldado maneta, indivíduos marginalizados, vindos das camadas populares, servem para conferir forma e identidade à minoria registrada em nossas letras, mas em maioria desde nossos primórdios.

            Prosseguindo, ainda utilizando Baltasar e a obra Memorial do Convento, de acordo com Kaufman (KAUFMAN, 1991: 129), Baltasar é um personagem típico. Mas há na obra os classificados personagens autênticos da história, a exemplo disso temos o Padre Bartolomeu de Gusmão.  Na 3º estrofe, no 3º verso “no pássaro do padre voador”, faz referencia a ele.

            Na obra de Saramago, Bartolomeu é um padre jesuíta que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem outro combustível que não seja a vontade humana.  Tirando esta forma imaginativa de voar, tudo isto aconteceu.  Gusmão foi um padre nascido em Santos que escreveu alguns sermões.  Consagrou-se no estudo da Física e Matemática, mas abdicou de tudo para se dedicar inteiramente ao estudo de balões. Seu invento ficou conhecido como “passarola”, e em sua homenagem foi erguido um monumento em sua cidade.

            Na 3ª estrofe, no segundo verso, aparece a palavra "pregador". Logo compreendemos que pregador é todo aquele que propaga a fé, pois assim são conhecidos todos aqueles que tinham uma missão de fé desde os tempos dos jesuítas.

            Contudo, um grande exemplo de pregador é sem dúvidas o Padre Antônio Vieira.  Nascido em Portugal, mas formou-se no Brasil como padre jesuíta, onde passou grande parte de sua vida missionária de pregação.  Conforme Fidelino de Figueiredo (FIDELINO, HPL, 268): “Era constitucionalmente um pregador, dos maiores de todos os tempos.”

            Alinha-se entre os grandes oradores universais, que maior não se produziu em Língua Portuguesa. Grande pregador, político e escritor, Vieira foi, sobretudo, uma das grandes figuras da cultura do século XVII.  Sua obra compreende 500 cartas, algumas obras de profecia e aproximadamente 200 sermões, sendo que, muitos deles são famosíssimos, confirmando sua qualidade como escritor e sua vasta cultura.

            Na época, os sermões possibilitavam que a palavra do pregador falasse para todas as camadas.  Seus sermões abrangem não só a teologia, mas também as questões de moralidade, filosóficas e políticas.

            Segundo sua biografia, ele confessou modestamente não ter nada de inteligente a princípio.  Foi preciso um fato extraordinário: um abalo cerebral, uma dor de cabeça muito forte que se fez julgar à beira da morte, e de repente uma grande claridade interior, que fez com que ele adquirisse uma facilidade para memorizar tudo que lesse.

            Fato este, lendário ou não, fez com que Vieira se tornasse um excelente padre, escritor e pregador conforme Hernani Cidade diz nas Obras Escolhidas vol. X, p. XXXV:

... a vivacidade permanente de uma inteligência ao mesmo tempo lúdico e engenhoso, de uma sensibilidade permeável a toda radiação de beleza das coisas e das palavras e capaz de captar e transmitir pelo modo mais sugestivo e aliciaste, e teremos uma imagem de qual seria a sedução deste mago da palavra. (CIDADE, 1953:4).

 

            Contudo, seus sermões não se dirigem apenas a um homem barroco de seu tempo, mas também ao homem dos nossos dias, pegando nos temas que continuam a ser atuais, um fenômeno, uma figura única e genial, que exprimiu de forma simples e clara a sua época.

A 5ª estrofe, o 1º e 2º versos fazem referências a um escritor e a uma obra sua considerada a mais original e inovadora da literatura brasileira de conteúdo universal. Estamos falando de Guimarães Rosa, nascido em Minas Gerais em 1908, e de sua obra Grande Sertão Veredas, romance de 1956.

Desde cedo, Guimarães procurou conhecer as regiões que habitava e seus arredores. O povo e a vida do sertão mineiro o inspiraram a produzir obras inovadoras. Diz Antonio Candido:

A experiência documentária de Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela coisa e o nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia do rústico – tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional, para fazê-lo exprimir os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e, na verdade, o Sertão é o Mundo. (CANDIDO, 1968: 359)

 

Através da leitura deste livro viajamos para muitos lugares sem sair do lugar, e como o próprio Nêumanne escreveu em um de seus textos “O Grande Sertão Veredas é um texto encantados, cheio de nuances”... Proporciona um passeio turístico pelas cidades históricas de Minas Gerais, de Belo Horizonte, vai até a Cordisburgo, cidade natal do autor (...).

Guimarães Rosa foi apaixonado pela toponímia, a designação dos lugares pelos nomes. O levantamento da toponímia é uma das veredas na qual podemos nos embrenhar pelo grande sertão.  Se folhearmos a esmo, podemos encontrar nas páginas iniciais do romance inúmeros nomes de localidades, rios, aldeias, pontes, fazendas, retiros, montes, como: Terras de Urucúia, Vereda-da-vaca Mansa de Santa-Rita, Cachoeira dos Bois, Campo-Redondo, Vereda do Buriti Pardo, Passo do Pubo, Fazenda O Limãozinho, Vau-Vau, Sete Lagoas, Serra - Nova distrito de Rio Pardo, Ribeirão Traçadal, Serra do Cafundó, Campo Azulado, Queimadão, Angical, Extrema-de-Santa-Maria, Cabeça de Negro, Chapadão das Vertentes, Brejo Verde, Córrego das Quebra-Quináus, paragem da Aroeirinha, Piratinga, Liso do Sussuarão, Bambual do Boi, fazenda de Santa Catarina, lagoa sussuarana, Vereda do Vitorino, córrego Genipapo, Rio Pandeiros, Vereda do Alegre, rio Acari, Vila da pedra de Amolar, Barreiro Novo, rio do Borá, etc.

Continuando com nosso trajeto, chegamos ao vinho que aparece na 3ª estrofe “tem sabor de vinhos do Porto”, faz também referência a Fernando Pessoa.  Embora o vinho seja uma das mais velhas tradições lusitanas, especula-se que a cultura videira em Portugal tenha começado por volta de 282 a.C. O vinho está presente na obra dos mais clássicos escritores, e é natural que neste número se inclua Fernando Pessoa, que apresenta um número bastante significativo em referência em relação ao vinho:

“Boa é a vida, mas melhor é o vinho”.

 

“Ao gozo segue a dor e o gozo a esta.

ora o vinho bebemos porque é festa,

ora o vinho bebemos porque há dor.

Mas de um e de outro vinho nada resta”.

 

“Afoga a alma em vinho”.

 

Como vimos nos versos acima, Fernando Pessoa vale-se da metáfora do vinho para afogar seus dissabores e os amores da alma pessoana.

A 6ª estrofe, no 2º verso, faz uma referência a um romance póstumo de José Maria Eça de Queiroz, conhecido como Eça de Queiroz, publicado em 1901, A cidade e as serras.

O enredo desta narrativa gira em torno de Jacinto, principal personagem do romance, que mora há anos em Paris e acostumou-se ao conforto que uma cidade pode proporcionar.  Após alguns anos volta a morar na pequenina Tormes, em Portugal.  E lá vive um grande conflito entre seu modo de vida anterior e o que agora lhe é oferecido.  É a tensão que vive o homem urbano, refém do conflito proporcionado pela tecnologia e pelas necessidades surgidas com a civilização que perdeu a vitalidade e o apego às coisas simples, naturais e primitivas.

Nesse romance podemos ver Eça exalar um amor puro à terra da sua pátria.  A libertação do lado bucólico e saudosista de um homem viajado e cosmopolita.  Eça é o representante máximo do Realismo/Naturalismo em Portugal, o maior prosador português de todos os tempos.  E sua bagagem cultural e de mundo fez com que desse à língua sua fluidez, a sua maleabilidade e a sua atualidade.

Agora no 3º verso “que a brisa do Brasil beija e balança” faz referência a um poeta mais lido e mais admirado do Brasil, que viveu intensamente os grandes episódios históricos do seu tempo, embora tenha morrido aos 24 anos, é um poeta realizado, estamos falando de Castro Alves.

Classificado como poeta romântico, social e “condoreiro”, foi no Brasil o anunciador da Abolição da Escravatura e da República.  Por ter se dedicado à causa abolicionista recebeu o título de “Poeta dos Escravos”.

“Que a brisa do Brasil beija e balança” é uma aliteração que veio ecoar os valores absolutos e as causas que o escritor defendeu.  Sendo que estes versos fazem parte de seu poema “Navio Negreiro”, declamado pela primeira vez na sessão comemorativa do dia da Independência, no dia 7 de setembro.  Este poema exalta o povo africano e presta homenagem a Os Lusíadas, de Camões.

Castro Alves reconheceu os negros como heróis e principalmente como humanos, dedicando-lhes lugar de destaque em suas mais famosas poesias.  É o verde e amarelo da bandeira de nossa terra fazem acordar e balançar o nosso Brasil, que após tantos anos de batalhas vencidas, como o próprio “navio” refere: por Andrada (referência a José Bonifácio de Andrada e Silva – o patriarca da Independência) e a Colombo (Cristóvão Colombo – descobridor da América). É isto que Castro Alves mais desejou, e que todos nós desejamos.

A 7ª estrofe, 2º parágrafo “cantigas a palo seco” faz referência a um poema e a uma música, ambas intituladas como “A palo seco”.  A primeira é um poema de João Cabral de Melo Neto, filho de senhor de engenho, por isto tendo passado a infância e a adolescência nos engenhos de cana-de-açúcar no interior pernambucano.

Suas obras se caracterizam pela preocupação com a forma, na tentativa de despir o poema do supérfluo, em busca do essencial, por este motivo, sendo rotulado como poeta antilírico, seco, cerebral, como ele fez questão de ser.

A partir da sua vivencia, o escritor pernambucano adota “a seca” como tema para expressão de sua poesia.   Seu significado não consta nos dicionários, mas como o poeta mesmo disse: O cante a palo seco / é um cante desarmado.

Em segundo, A palo seco é também título de uma música Antônio Carlos Gomes Belchior, nascido em Sobral, no Ceará mais conhecido como Belchior.  Durante a infância começou a cantar em feira com versos de improviso. Logo, ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos, como: Fagner, Ednardo e outros e começou a apresentar-se em festivais de música no Nordeste.

Suas composições são marcadas pela suavidade da interpretação o que dilui a força dramática, grande exemplo disso é a então referida A palo seco.

A 8ª estrofe “e no sal amargo da purificação” faz referência novamente ao tão ilustre José Saramago que no “sal amargo” de suas letras, e de suas obras como: Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria, O Ano de 1993, Deste Mundo e do Outro, A Bagagem do Viajante, As Opiniões que o DL teve, Os Apontamentos, Cadernos de Lanzarote I, Cadernos de Lanzarote II, Cadernos de Lanzarote III, Cadernos de Lanzarote IV, Viagem a Portugal, A Noite, Que Farei Com Este Livro. A Segunda Vida de Francisco de Assis, In Nomine Dei, Objecto Quase, Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Terra do Pecado e Todos os Nomes.

Lendo-as, você se tortura, se apaixona e assim purifica-se.

Na 9ª estrofe, no 1º verso “Esta língua é jóia africana”, faz referência aos países africanos que falam a Língua Portuguesa: Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde, onde se fala um português bastante puro, embora com alguns traços próprios, em geral arcaísmo e dialetalismo lusitanos semelhantes aos encontrados no Brasil.

Contudo, é também uma jóia a literatura desses países, representados por: Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato da Cruz, David Mestre, João Melo, João Maimona, Manuel Rui, Paula Tavares, Ruy Duarte de Carvalho, João Luís Mendonça, Fernando Kafukeno, Rui de Noronha, Noémia de Souza, Virgílio Lemos, Rui Knopfli, Marcelino dos Santos, Luís Carlos Patraquim, Mia Couto, Eduardo White, Nélson Saúte, Caetano da Costa Alegre, Francisco José Tenreiro, Félix Siga, Pedro Monteiro Cardoso, Eugênio Tavares, Jorge Pedro Barbosa, Amílcar Cabral, José Craveirinha, entre outros que servem de “tambor”, para fazer ecoar suas letras, considerada por muitos as, mais lindas e puras poesias em Língua Portuguesa.

            Continuando na 9ª estrofe, no 2º verso “ela caça a onça caetana”. Essa “onça caetana” representa, na verdade, a parte de um projeto de vida do também escritor paraibano Ariano Suassuna.

            Ele, um artista único e original, com uma visão muito pessoal da vida e dos acontecimentos.  Em seus romances, peças de teatro e poemas desvenda o povo do sertão nordestino.  Mas tudo iniciou quando Suassuna, ao participar da fundação do Teatro do Estudante do Recife, a partir da experiência, compreendeu a necessidade de ser um autor literário e não apenas um analista da vida nordestina.  Contudo, só entre 1958-79, Ariano Suassuna dedicou-se também a prosa de ficção.

            Em 1976 publica inicialmente sob a forma de folhetim no Diário de Pernambuco Ao sol da onça caetana, mas só em 77 foi editado e integrado ao volume de a História d’o rei degolado nas caatingas do sertão.

            Seu romance é brasileiro.  E esta obra é fundamentalmente uma epopéia, na qual os heróis não provêm apenas de famílias ilustres, mas de todo o povo do sertão.  Neste livro, Ao sol da onça caetana, o autor narra fatos de sua própria vida e de sua família, fala de acontecimentos políticos que abalaram o seu Estado Natal.  Mistura realidade com lendas tradicionais de seu povo, num clima épico bastante original.

            O próprio animal que intitula o romance e a que o poema se refere – a onça - simboliza um ser divinizado.  Toma forma de Deus e do Diabo, bem ao estilo suassuniano.  Contudo, esta obra manifesta o respeito do autor pelo sentimento religioso do povo sertanejo, suas crenças pelos seus santos e profetas e a transmissão de tudo isto para o nosso acervo de Língua Portuguesa.

Ainda na 9ª estrofe, mas agora no 3º verso “ela cruza a légua tirana”, podemos perceber uma referência direta à música “Légua Tirana”, do compositor popular Luiz Gonzaga.  Lançada no ano de 1949, esta música é um clássico na voz de Gonzaga, que segundo está em seu sítio na Internet, foi o primeiro músico a assumir a nordestinidade, representada pela sanfona e pelo chapéu de couro.

Luiz Gonzaga despertou interesse pela música ouvindo apresentações de outros músicos nordestinos.  A temática de suas músicas assim como em Légua Tirana, é ecoar as dores e os amores de seu povo do sertão:

Oh, que estrada mais comprida 
Oh, que légua tão tirana 
(...)
Quando o sol tostou as foia 
E bebeu o riachão 
Fui inté o juazeiro 
Pra fazer a minha oração 
Tô voltando estropiado 
Mas alegre o coração 
Padim Ciço ouviu a minha prece 
Fez chover no meu sertão 
(...)
 
                  
               Assim, Gonzaga, nordestino de berço, de raiz, dá voz a seu povo, cantando a essência de seu sertão.

Na 10ª estrofe, no 3º verso, há a referência às estrofes iniciais do poema Os Lusíadas escritos por Luís Vaz de Camões.  Camões um soldado cego, pobre e português nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524, aonde veio a falecer, em 1580. Começou a escrever Os Lusíadas por volta de 1545, que é composta por 1102 estrofes e 8816 versos.  O poema, porém, só foi publicado em 1572, mas foi e continua a ser considerado uma das mais significativas epopéias da literatura universal.

Os Lusíadas, palavra empregada em um poema em latim, foi empregada pela primeira vez em português por Camões.  Precedida do artigo masculino no plural – os -, significa os lusitanos, os portugueses.

A epopéia de Camões narrada a cunho pessoal, pois vivenciou tudo aquilo que escreveu, os feitos heróicos dos portugueses na descoberta do caminho marítimo às Índias.  São os episódios mais gloriosos da história de Portugal, por mares nunca antes navegados.  É um hino de louvor e glória humana, que vencera uma de suas grandes batalhas, a conquista do mar, assim combatendo “o bom combate”, pois como Fernando Pessoa mesmo disse: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

O eu do poeta foi substituído pelo Eu coletivo, pelo povo português. O poeta escolheu para cantar não os seus feitos pessoais, mas os feitos dos portugueses.  As perigosas viagens por mares nunca antes navegados e a descoberta de novas terras davam ao mundo uma nova dimensão do poder do homem, como centro do universo, capaz até mesmo de subjugar os deuses: “Que eu canto o peito ilustre lusitano, / A quem Netuno e Marte obedeceram”.

O herói do poema “os barões” que “passaram além de Taprobana”, o maior deles foi Vasco da Gama, e os seus portugueses que foram dilatando a fé e o império.  Logo, o sonho dos poetas Quinhentistas de escrever um poema enaltecendo as glórias lusitanas, só foi realizado por ele.

A partir da combinação de palavras com significados diferentes do usual e da criação de palavras, Camões deu nova dimensão à Língua Portuguesa como expressão artística.  Mas estes versos também fazem referência a uma passagem bíblica.  De acordo com a bíblia, São Paulo foi exilado por motivos religiosos da época, assim prestes a sair dele escreveu uma carta a Timóteo dizendo: “Combati o bom combate”, como podemos ver na pesquisa em anexo a este trabalho.

Assim Camões também, conservou a sua fé para combater todas as adversidades. Apesar do naufrágio que sua embarcação sofreu, ele não largou o manuscrito de Os Lusíadas, que não serviu para salvar o seu corpo, mas sim para eternizar a sua alma:

Enfim acabarei a vida e verão todos

que fui tão afeiçoado à minha pátria,

que não me contentei de morrer nela, mas com ela.

 

Já na 11ª estrofe, o 1º e 2º versos fazem referência ao poema de Fernando Pessoa. Como o eu - lírico do poema diz “...engrandecer a pátria e construir para a evolução da humanidade”,  logo navegar foi preciso, conforme também o poema Mar Português:

Ó mar salgado, quanto do teu sal.

São lágrimas de Portugal!

Por ter cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

(PESSOA, 1950:11)

 

Mas também foi uma frase dita por Pompeu, um general romano (106-48 a.C.), dita aos marinheiros amedrontados que recusavam a viajar durante a guerra, segundo Jornal da Poesia.

No último verso “e de dançar o tango argentino”, pode-se notar a citação de uma parte do poema de Manuel Bandeira, o Pneumotórax.

Este poema faz parte do livro Libertinagem, composto por 38 poemas e publicado inicialmente em 1930.  O título do livro se refere à essência de toda a sua obra modernista – Liberdade, seja no conteúdo, seja na forma.  E é a Bandeira a quem se deve a iniciação da utilização do verso livre.

De acordo com a sua biografia, Manuel Bandeira aos 18 anos descobriu que tinha tuberculose, então, teve que interromper seus estudos por motivos de grave enfermidade, desde então, começou a compor versos.  Então, toda a sua vida foi marcada pela perda de seus pais e irmão.  Sua obra confunde-se com sua existência, levando-nos a identificar no eu - lírico de seus poemas o próprio poeta.

Na esperança de uma recuperação mediante o tratamento médico só resta uma canção trágica.  E como ele mesmo diz: “Não fiz versos por ser poeta. Fiz para desabafar os sentimentos físicos”.  Em Pneumotórax, o poeta transforma uma situação perturbadora em algo sereno e até cômico.  Por meio de uma linguagem simples, utilizou o “prosaísmo poético”, que parte dos sintomas, passa pelo diagnóstico da enfermidade e desemboca em um desfecho aquela altura natural, em que a fala do médico traduz que “a vida inteira podia ter sido e que não foi”, e continua sendo o que é.  E foi, tanto que Manuel viveu até 96 anos esperando o que é os destinos de todos nós.

Manuel Bandeira é o poeta da ternura humilde e ao mesmo tempo ardente, do amor à vida, das pequenas coisas de todo o dia.  Sabe humanizar os objetos mais prosaicos.  Sua literatura é leve, trágica, liberta:

A vida

Não vale a pena e a dor de ser vivida.

Os corpos se entendem, mas as almas não.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(Antologia, s.d.:168)

 

Na última estrofe, no último verso “esta língua é meu caixão”, a última palavra “caixão” faz referência a um poema de um poeta único da nossa literatura brasileira.  Ele é um escritor também conhecido como poeta macabro, paraibano e escritor de apenas um livro de poesias, Eu, publicado em 1912, considerado pelos críticos em maioria uma obra-prima e é por isso que é o livro mais reeditado na Língua Portuguesa.

Estamos falando de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, conhecido como Augusto dos Anjos.  Os críticos não conseguiram classificá-lo em nenhuma escola literária pelo fato de suas obras representarem a soma de todas as tendências de sua época.

O seu poema é o Caixão Fantástico, que fala da “aceleração” intrínseca dos tempos.  O caixão representa a morte das tendências que se prostraram e não acompanharam a mudança de seu tempo, já que o tempo não pára, mas tudo que pára morre, e lá se vão todos no caixão.

            Assim, conseqüentemente pode acontecer com as tendências que não evoluem com o tempo, com os estudos que não progridem. Mas a língua não pára.  Conforme foi dito na introdução deste trabalho: “a Língua é um instrumento de comunicação e expressão de sentimento que nos acompanha do nascer até a morte”.

A Literatura ainda tenha este poder de nos confrontar com a nossa própria língua, de nos mostrar que, apesar de tudo o que aprendemos formalmente sobre nosso idioma, suas possibilidades continuam ilimitadas nas mãos e mentes de quem o sabem pensar.           

José Paulo Paes (NÊUMANNE, 2002:31).

  voltar ao sumário

 

4.  CONSIDERAÇÕES   FINAIS

 

Língua Portuguesa

 

Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela...

 

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrôlo da saudade e da ternura!

 

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

 

Em que da voz materna ouvi: “Meu filho!”

E em que Camões chorou, no exílio amargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

Olavo Bilac (Antologia, s.d. 110).

 

A Língua Portuguesa, assim é conhecida “última flor do Lácio” no soneto de Olavo Bilac. Mas também é conhecida como a Língua de Camões, por causa de Luiz Vaz de Camões, autor de Os Lusíadas.

Como vimos, para Nêumanne em A Seara de Saramago, a Língua é a semente, é a visão, é a música, é a mulher, é a rosa, o cavalo, é fel com mel, é o coração, é a jóia africana, é o fruto do seu ventre, que não é de viver, e sim de navegar e de lamber e de dançar... Mas o mais significativo é que a Língua é o seu caixão, na verdade é o meu, o seu, o nosso caixão.

O Português é a língua que os portugueses, os brasileiros, muitos africanos e alguns asiáticos aprenderam no berço e a reconhecem como patrimônio nacional e utilizam-na como instrumento de comunicação.  Tem aproximadamente 230 milhões de falantes e, segundo um levantamento feito pela Academia Brasileira de Letras, ela tem atualmente 356 mil unidades lexicais que estão dicionarizadas no vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa.

Uma Língua nada inculta como a nossa é portadora de longa história, que ficam registrados principalmente nas obras de muitos escritores.  Como vimos Saramago, Machado, Pessoa, Vieira, Gusmão, Guimarães Rosa, Eça, Castro Alves, João Cabral de Melo Neto, Suassuna, Camões, Bandeira, Augusto dos Anjos, Belchior, Luiz Gonzaga e todos aqueles que nas terras africanas se dedicam às letras, podem ser considerados porta-vozes de seus povos e intérpretes do ser humano, em qualquer época, em qualquer país.  E Nêumanne também, por ter a consciência de que a Língua Portuguesa é apaixonante, torturante, mas lendo bons escritores desta seara, você se purifica. Ouçamos o poeta Nêumanne:

Venho de muito longe, e da aldeia onde nasci trago notícias da preciosidade desta língua cuja sobrevivência em liberdade decente nos cabe a todos assegurar.  E é este o requerimento que aqui subscrevo. Valho-me desta ocasião única para fazer um apelo:

 “Não deixamos esta nossa Língua Portuguesa morrer”![5]

José Nêumanne Pinto

 

  voltar ao sumário

 

 

 

 

 

4.  REFERÊNCIAS   BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

 

ALVES, Castro. Poesias Completas. Prefácio de Manuel Bandeira. Edições Ouro.

 

ALVES, Afonso Telles. Antologia da Literatura Mundial – Antologia de Poetas Brasileiros. 3 ed. s.d.ed. Globo. SP.

 

ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988.

 

ASSIS, Machado de. O Alienista e outras histórias. Biografia e notas M. Cavalcanti Proença. Edições de Ouro – Clássicos Brasileiros: Rio de Janeiro, 1880.

 

BANDEIRA, Manuel. Antologia Poética, 6 ed. Editora Sabiá Ltda., Rio de Janeiro, 1961.

 

BELCHIOR. A Palo Seco. In. Músicas do Século XX. 1976. São Paulo. Millennium. Faixa 12 (2’56).

 

BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. Ed. Paulus. São Paulo. 30ª impressão: março de 1990.

 

CAMÕES, Luís  Vaz de. Os Lusíadas, em Camões Épico, Coleção Nossos Clássicos, 14, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1957.

 

COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. 2 ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978.

 

COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Sul-Americana, 1955.

 

DRUMMOND, Carlos. Obra Completa. Rio de Janeiro. Ed. Aguilar.

 

GONZAGA, Luiz. Légua Tirana. in.: A viagem de Gonzagão & Gonzaguinha. Canta: Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. s.d. Rio de Janeiro. EMI. Faixa 13.

 

HUTCHEON, Linda, (1991). Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago.

 

 

KAUFMAN, Helena, "A metaficção historiográfica de José Saramago". Colóquio/Letras, n. 120 ,1991.

 

KOCH, Ingedore Villaça e ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo, 2006.

 

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. 8 ed. São Paulo, Ed. Cultrix, 1970.

 

KRISTEVA, Julia Historia da linguagem. Lisboa: Signos, 1974 idem. Introdução a Semanálise. Tradução de Lucia França Ferraz. SP: perspectiva.

 

MELO NETO, João Cabral de. Antologia Poética. 2 ed. Rio de Janeiro : José Olympio, 1973.

 

OLIVEIRA FILHO, Odil José de. Carnaval no convento: intertextualidade e paródia em José de Saramago. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.

 

___________________.Obra Poética. Volume único, Cia. João Aguilar Editora, Rio de Janeiro, 1969.

 

___________________. Mensagem. Lisboa. Assírio & Alvim, 1950.

 

PINTO, José Nêumanne. Solos do Silêncio, poesia reunida. 2 ed. São Paulo: Geração Editorial, 2002.

 

___________________. O Silêncio do Delator. 2 ed. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.

 

___________________. Erundina: a mulher que veio com a chuva. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

 

POUND, Ezra. ABC da Literatura. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

 

QUEIROZ, Eça de. A cidade e as Serras. 13 ed. Porto: Aillaud & Lelos Ltda., 1933.

 

RICARDO, Cassiano. Jeremias sem-chorar. José Olympio. 3 ed., 1976.

 

ROSA, João Guimarães. 1965. Grande Sertão: Veredas. 4 ed. Rio de Janeiro, José Olympio.

 

SARAMAGO, José. Memorial do Convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

 

SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro (coord.). Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX. Rio de Janeiro: UFRJ. Coordenação dos Cursos de Pós-Graduação em Letras Vernáculas, 1999 e 2003. 3 v.

 

SUASSUNA, Ariano. História d'o Rei Degolado nas Caatingas do Sertão: Romance Armorial e Novela Romançal Brasileira – Ao Sol da Onça Caetana, J. Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1977.

 

VIEIRA, Pe. Antônio. Os Sermões. Seleção com ensaio crítico de Jamil Almansur Haddad, Ed. Melhoramentos, São Paulo, 1963.

 

 

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

 

 

http://www.gonzagao.com.br/index2. php

 

http://adercego.blogsome.com / Acesso em 8 de set. 2007. 21h34min: 18.

 

http://www.revista.agulha.nom.br/poesia.html /Acesso em 18 de jul. 2007. 20h54min: 18

 

http://www.neumanne.com / Acesso em 12 de ago. de 2006. 19h22min: 45

 

http://www.facom.ufba.br/com024/saramago/nobel.htm / Acesso em 24 de ago. de 2007. 21h34min: 21.

 

http://www.linguaportuguesa.ufrn.br/pt_3.4.f.php / Acesso em 01/10/2007 21h11min: 23.

 

http://www.instituto-camoes.pt.html / Acesso em 24 de ago. de 2007. 21h34min: 21.

 

voltar ao sumário

 

 

ANEXOS:

 

 

POEMA DE JOSÉ NÊUMANNE PINTO

 

(A SEARA DE SARAMAGO)


 

Esta língua é minha semente,
machado de mulato do morro,
pátria de poeta lisboeta.
 

Esta língua é minha visão,
o sol do soldado caolho,
a mão do soldado maneta.


Esta língua é minha música,
na palavra do padre pregador,
no pássaro do padre voador.


Esta língua é minha mulher
tem cuidados de mãe
no leito da amante.

 

Esta língua é minha rosa,
tem perfume dos sertões gerais,
tem sabor de vinhos do Porto.


Esta língua é meu cavalo
para subir cidades e serras,
que a brisa do Brasil beija e balança.


Esta língua é fel com mel,
cantigas a palo seco
de ninar o futuro.


Esta língua é meu coração,
na tortura, na paixão
e no sal amargo da purificação.


Esta língua é jóia africana,
ela caça a onça caetana,
ela cruza a légua tirana.

 

Esta língua é fruto de meu ventre,
mata sede de amizade,
me arma nos bons combates.


Esta língua não é de viver,
língua de navegar e de lamber
e de dançar o tango argentino.


Esta língua é meu berço,
esta língua me conhece,
esta língua é meu caixão.

 

 

voltar ao sumário

 

POEMA DE CASTRO ALVES

 

(O NAVIO NEGREIRO)

 

TRAGÉDIA NO MAR


VI

(...)

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
 

voltar ao sumário

 

POEMA DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO

(A PALO SECO)


 

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;

 

se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

 

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;

 

é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

O cante a palo seco

é um cante desarmado:

só a lâmina da voz

sem a arma do braço;

 

que o cante a palo seco

sem tempero ou ajuda

tem a abrir o silêncio

com sua chama nua.

 

O cante a palo seco

não é um cante a esmo:

exige ser cantado

com todo o ser aberto;

 

é um cante que exige

o ser-se ao meio-dia,

que é quando a sombra foge

e não medra a magia.

 

O silêncio é um metal

de epiderme gelada,

sempre incapaz das ondas

imediatas da água:

 

a pele do silêncio

pouca coisa arrepia:

o cante a palo seco

de diamante precisa.


 

Ou o silêncio é pesado,

é um líquido denso,

que jamais colabora

nem ajuda com ecos:

 

mais bem, esmaga o cante

e afoga-o, se indefeso:

a palo seco é um cante

submarino ao silêncio.

 

A palo seco canta

o pássaro sem bosque,

por exemplo: pousado

sobre um fio de cobre;

 

a palo seco cantam

ainda melhor esse fio

quando sem qualquer pássaro

dá o seu assovio.

 

A palo seco canta

a bigorna e o martelo,

o ferro sobre a pedra,

o ferro contra o ferro;

 

a palo seco canta

aquele outro ferreiro:

o pássaro araponga

que inventa o próprio ferro.

 

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

 

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

 

Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:

 

não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.

 

voltar ao sumário

 

MÚSICA DE BELCHIOR


(A PALO SECO)



Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo, eu me desesperava
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
Mas ando mesmo descontente
Desesperadamente eu grito em português
Tenho 25 anos de sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força desse destino
Um tango argentino
Me cai bem melhor que o blues
Sei que assim falando pensas
Que esse desespero é moda em 76
E eu quero é que esse canto torto feito faca
Corte a carne de vocês

 

voltar ao sumário

MAPA DOS PAÍSES E REGIÕES ONDE O PORTUGUÊS É LÍNGUA OFICIAL

 

MÚSICA DE LUIZ GONZAGA

 

(LÉGUA TIRANA)

Oh, que estrada mais comprida 
Oh, que légua tão tirana 
Ai, se eu tivesse asa 
Inda hoje eu via Ana 
Quando o sol tostou as foia 
E bebeu o riachão 
Fui inté o juazeiro 
Pra fazer a minha oração 
Tô voltando estropiado 
Mas alegre o coração 
Padim Ciço ouviu a minha prece 
Fez chover no meu sertão 
Varei mais de vinte serras 
De alpercata e pé no chão 
Mesmo assim, como inda farta 
Pra chegar no meu rincão 
Trago um terço pra das dores 
Pra Reimundo um violão 
E pra ela, e pra ela 

voltar ao sumário

 

LUIZ VAZ DE CAMÕES

 

(OS LUSÍADAS)

Canto I

(3 primeiras estrofes)


1


As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2


E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3


Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

voltar ao sumário

BÍBLIA SAGRADA

 

 

(SEGUNDA CARTA DE SÃO PAULO A TIMÓTEO – (cap. 4, v. 6-8)

 

 

 

Combati o bom combate – Quanto a mim, meu sangue está para ser derramado em libação, e chegou o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a fé. Agora só me resta a coroa da justiça que o Senhor, justo Juiz, me entregará naquele Dia; e não somente para mim, mas para todos os que tiveram esperando com amor a sua manifestação.

voltar ao sumário

 

"A Minha Pátria é a Língua Portuguesa"

 

 

“Boa é a vida, mas melhor é o vinho”.

 

“Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta”.

Ora o vinho bebemos porque é festa,

Ora o vinho bebemos porque há dor.

Mas de um e de outro vinho nada resta”.

 

“Afoga a alma em vinho”.

______________________________________________________________________

      Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:

      "Navegar é preciso; viver não é preciso."

 

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tornou o misticismo da nossa raça.

(texto do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética")

&

"Navigare necesse; vivere non est necesse”.

(Pompeu, general romano, 106-48 a.C.).

 

POEMA DE MANUEL BANDEIRA

(PNEUMOTÓRAX)

 

 

 

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

 

Mandou chamar o médico:

Diga trinta e três.

Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

— Respire.

..............................................................................................................

O Sr. tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito

[infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

voltar ao sumário

 

POEMA DE AUGUSTO DOS ANJOS

 

                                     (O CAIXÃO FANTÁSTICO)

 

 

Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

 

Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas viagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

 

A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio...

 

Era tarde! Fazia muito frio.
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!

 

 

voltar ao sumário
 


[1] COUTINHO, Afrânio. Notas de teoria literária. 2.ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978. p.9-10

 

[2] Enciclopédia Delta Universal, vol. 12, editora Delta S.A. Rio de Janeiro, Brasil, 1982, pg. 6500-6505.

[3] LESSA, Adelaide Petters. Universo – poema, in Antologia da Literatura Mundial – Antologia de Poetas Brasileiros. Ed. Globo. SP. p.230

 

[4] RICARDO, Cassiano. Jeremias sem-chorar. José Olympio. 3 ed., 1976, p.11.

 

[5] PINTO, José Nêumanne. Discurso da Cerimônia de entrega do Prêmio José Ermírio de Moraes pelo melhor livro de 2004 - O Silêncio do Delator. Academia Brasileira de Letras, 2005. A Girafa Editora, São Paulo. Dezembro de 2005. P.12.

 

voltar ao sumário

 

 

 

 

 

 

De acordo com a legislação em vigor, esta mensagem não pode ser considerada SPAM por possuir: identificação do remetente; descrição clara do conteúdo; e opção de remoção. Se você não deseja mais receber mensagens como estas, envie-nos novo e-mail, colocando em ASSUNTO, a palavra RETIRAR. Webdesigner: