APRESENTAÇÃO:
Nas Instituições de Ensino Superior, um dos elos fecundantes
do conhecimento é a Monografia. Todo trabalho acadêmico sério
e cientificamente comprometido gera novas contribuições que
continuam estruturando o saber e o desenvolvimento da
humanidade.
Assim, a presente pesquisa monográfica vem demonstrar o grau
de habilitação adquirida, desenvolvida a partir de um
aprofundamento temático, construída através de inúmeras
consultas bibliográficas especializadas.
Após mergulhar inúmeras vezes na ignorância, na não-confiança,
enfim, o sonho da realização deste trabalho resultou em um
suculento fruto. Mas, devemos logo informar que esta produção
científica não é fruto de um ato isolado. Sua essência se
encontra na semente, ou seja, nas germinadas aulas de Teoria
dos Significados, que originou o interesse pelo
desenvolvimento deste assunto que trazemos para leitura e
julgamento da Banca Examinadora.
Essa disciplina é oferecida na grade curricular obrigatória do
Curso de Licenciatura Plena em Letras da Faculdade Gama e
Souza. Estuda o signo e as teorias gerais da linguagem,
aprofundando o estudo dos sistemas, códigos e convenções do
signo, semiótica e semiologia, o signo no centro do mundo e
das relações, o leitor perante o signo, signo e leitura.
Não por coincidência, esta disciplina foi ministrada pelo
mesmo orientador da elaboração deste trabalho, o Professor
Aderaldo Luciano dos Santos, Mestre em Ciência da Literatura.
A contribuição dessa disciplina para o desenvolvimento deste
trabalho ocorreu no dia 13 de março de 2006. Neste dia, foi
elaborado um breve estudo sobre o poema A Seara de Saramago,
do escritor José Nêumanne Pinto, que um ano depois, virou tema
para elaboração deste presente estudo.
Este poema é um típico texto no qual abunda a
intertextualidade. Nela se encontram referências a obras que
contribuíram para o enriquecimento de nosso acervo literário e
para evolução da nossa língua e do nosso povo, que a fala. Em
especial, como pode ser visto no poema, há um destaque
referencial ao escritor José Saramago e a sua obra Memorial do
Convento. Nela se apresentam características de alguns
personagens tecidos no enredo do escritor português.
Embasado nesta ótica, a presente pesquisa monográfica vem
“delatar” traços intertextuais e citacionais estabelecidos no
poema, exaltando também, a presença de José Nêumanne Pinto na
Literatura Brasileira, como escritor e poeta.
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1. INTRODUÇÃO
Esta língua é minha semente
(...)
Esta língua é meu berço,
esta língua me conhece,
esta língua é meu caixão.
(NÊUMANNE, 2002:70)
A Língua, acompanhando-nos do nascer até a morte, é um
instrumento de comunicação e expressão dos sentimentos cuja
ferramenta mais utilizada é a palavra. As palavras, é claro,
têm um grande valor residindo naquele sentido guardado quando
são enunciadas em um determinado contexto, assumindo assim,
variadas formas de imagem e representação. E através da
função poética da linguagem, elas abrem caminho para uma
possibilidade muito mais plural de significações. Passam da
convivência à conivência, tornando-se cúmplices e
multiplicando-se.
A Arte de usar as palavras criando com elas formas sempre
diferentes, chama-se Literatura. Representa o conjunto de
obras escritas com finalidade artística. De acordo com
Afrânio Coutinho “A Literatura, como toda arte, é uma
transfiguração do real, é a realidade criada através da língua
para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma
corpo e nova realidade.”
A Literatura é uma forma bem específica de manipular os signos
lingüísticos, que somente alguns encontram, pois fogem à
cristalização cotidiana das linguagens falada e escrita.
Através dela se faz necessário decifrar seu universo,
mecanismo, estilo, gênero, ideologia e idiossincrasias, para
não criarmos conclusões equivocadas.
Toda a obra literária, independente de sua forma ou conteúdo,
percebe-se, do artista literário, uma ideologia, uma postura
diante da realidade e de seus desejos. A exemplo disso, temos
a Poesia, uma forma mais concentrada da expressão verbal,
ligada diretamente à transmissão de emoção.
Ao longo do tempo, os poetas e os filósofos preocuparam-se em
definir a poesia:
para o poeta espanhol García Lorca "Todas as coisas têm seu
mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas têm". O
poeta francês Mallarmé, defendendo uma outra concepção,
afirmou que "a poesia se faz com palavras, e não com idéias".
E, segundo T. S. Eliot, "aprendemos o que é poesia lendo
poesia".
Mas o que sabemos, a poesia está intrinsecamente ligada à
música. Ela é um gênero lírico cuja origem vem da “lira”, um
instrumento musical que acompanhava os cantos ditirâmbicos na
antiga Grécia. Este fato revela sua primeira fase na Cultura
Grega, na qual ela era apenas uma enunciação oral, cujas
frases curtas eram pronunciadas dentro de um ritmo e cujas
palavras soavam agradavelmente aos ouvidos. Contudo, nesta
fase inicial, já existia um objetivo muito claro, a
necessidade de preservar a cultura.
Para Nêumanne:
Poesia é tentação
(adjetivos, prazeres da
carne),
Pronomes, tempero e sabor,
Verbos, alívio à dor).
(NÊUMANNE, 2002:69)
A poesia é realmente um alívio à dor, onde o artista sente-se
desobrigado das imposições da prosa como contar história,
compor personagens, reproduzir ambientes, etc. É uma história
transfigurada na verdade do tempo não-datado.
Contemporaneamente, a poesia, por vários motivos, se
caracteriza por novos entornos. O que vale é um grau mais
alto de abstração e interação lógica com o intelecto. Tudo é
significado e, em cada estrofe, cada verso, cada palavra,
pode-se de tudo esperar. Ela retêm, entretanto, como qualquer
outro texto, três níveis: o textual, o contextual e o
intertextual. Este último reflete o lastro cultural de quem
escreve e de quem lê. Ele é resultado de leituras e vivências
valiosas e variadas.
O poema A Seara de Saramago, de José Nêumanne Pinto
apresenta um elevado nível intertextual. Os escritores
citados no poema têm suas obras representativas dos valores
nacionais, mas superam a dimensão de nacionalidade, assumindo
valores universais do homem e de sua capacidade de criação
artística, em qualquer tempo, em qualquer lugar.
Isto é, basicamente, a que se propõe este presente trabalho,
que sem sombra de dúvidas, servirá como apoio e
desenvolvimento de outros, por se tratar de um dos poemas mais
instigantes e bem-sucedidos de Nêumanne. Seguiremos orientados
por Adelaide Lessa:
Num dia de luz
mais forte que os outros,
inventou o poeta
a palavra mais clara.
E pôs-se a cantar,
afluente de tudo,
que tudo faz parte
de um único verso!
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2. NASCE NÊUMANNE... CAI UM PRECONCEITOSO PARADIGMA
A Literatura obedece às leis
inflexíveis: a da herança, a do meio, e do momento.
José Nêumanne Pinto é um paraibano nascido na pequenina cidade
de Uiraúna, em 18 de maio de 1951, no Vale do Rio do Peixe,
alto sertão paraibano, nos limites entre a Paraíba, o Rio
Grande do Norte e o Ceará. Primogênito de sete filhos de José
de Anchieta Pinto e Raimunda Ferreira Pinto, que muito devota
do cardeal inglês Newman, quis registrar o filho com este
nome, mas uma escrevente do cartório de registro civil
modificou o nome para Nêumanne.
Casou com Regina Coeli e com ela teve três filhos: Vladimir,
Clarice e Cecília, e um neto chamado Pedro e sua primeira neta
que está para nascer em março de 2008. Casou-se pela segunda
vez. Iniciou a carreira como jornalista em 1968, como crítico
de cinema e repórter de polícia no Diário da Borborema em
Campina Grande, Paraíba. Rompeu as fronteiras do seu Estado,
tornando-se um influente jornalista e, editorialista do Jornal
da Tarde, articulista de O Estado de São Paulo, comentarista
de rádio na Jovem Pan e televisão no Jornal do SBT.
Foi seminarista e, nessa fase, gostava de apreciar grandes
obras literárias, o que lhe deu base em sua carreira
profissional. Nêumanne é animado e cheio de humor. Atribui
sua paixão pelas Letras e Jornalismo às histórias que ouvia
nas noites de luar no sertão paraibano de Dona Mundica, sua
mãe, que nunca gostou de ser chamada pelo nome próprio
Raimunda. Ou também, quando ela dizia versos de Castro Alves,
ou quando ele mesmo lera Augusto dos Anjos no quarto dos
fundos da casa da Rua Rui Barbosa, em Campina Grande, e Manuel
Bandeira, comprados na livraria Pedrosa.
Herdou a miopia de seu avô, pobre camponês, porém muito
intelectual e apaixonado por poesia. Conforme já foi dito,
Nêumanne nasceu na Paraíba e foi educado em Campina Grande.
Nos primeiros anos da década de 70, mudou-se para São Paulo.
Essa sua origem nordestina é refletida em seus laços de
amizade, seu gosto e em sua forma de vida e sua certeza
íntima.
Em seus textos, aparecem sempre elementos próprios de sua
terra, seja na linguagem, seja no ritmo. Esta é a sua forma
pessoal de exaltar o seu amor por suas origens, fortalecendo
suas raízes históricas, tornando-se assim, homem de seu tempo.
Além disso, Nêumanne é um grande escritor, porém sua presença
tem sido pouco notada na Literatura Brasileira. Talvez isto
seja decorrente de um pré-conceito que permeia muitas mentes,
o de um jornalista não poder ser um bom escritor. Contudo,
sua literatura derruba por terra este preconceituoso
paradigma. Nêumanne, como jornalista sempre foi profissional,
rígido, até obsessivo na busca da verdade, e revela sua alma
numa literatura classificada por muitos como seca e
exuberante. Seca em relação a sua estrutura e linguagem, e
exuberante em temática e referências.
Além de três livros de poesia, Nêumanne tem mais sete
publicados, sendo dois romances e quatro de reportagens e
ensaios políticos:
|
Mengele a Natureza do Mal |
Romance-reportagem |
1985 |
|
As Tábuas do Sol |
Poemas |
1986 |
|
Erundina, a mulher que veio com a chuva |
Perfil Biográfico |
1989 |
|
Atrás do Palanque
Bastidores da Eleição Presidencial de 1989 |
Reportagem |
1989 |
|
Reféns do Passado
Coletânea de Artigos e Ensaios Políticos |
Artigos e Ensaios |
1992 |
|
República na Lama
Uma tragédia Brasileira |
Reportagem |
1992 |
|
Barcelona, Borborema |
Poesia |
1992 |
|
Veneno na veia |
Romance Policial |
1995 |
|
Solos do Silêncio |
Poesia reunida |
1996 |
|
O Silêncio do Delator |
Romance |
2004 |
Esse último, o Silêncio do Delator, em 2005 foi considerado
pelos acadêmicos, como melhor livro de 2004, tendo por esse
motivo ganhado o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes da
Academia Brasileira de Letras. Segundo a observação do
próprio prêmio, esse livro inovou o romance contemporâneo,
tanto na temática quanto nas técnicas narrativas.
Nêumanne sempre sonhou em escrever este livro e publicá-lo.
Guardou por anos o delato desta geração, que se arriscou em
busca de seus ideais, embora com conseqüências desastrosas.
Em sua narrativa um morto, durante
todo o velório conta, canta, grita, denuncia, reivindica,
conclama, exorciza etc. Na
narrativa Nêumanne procura reconhecer todos os nomes, resgatar
todos que se destacaram, ou procuraram de alguma forma fazer
isto, mostrando-se às vezes ser um homem intratável, outras
cordial, outras com a doçura de um menino.
Contudo, apesar de seu caráter ficcional, o livro é também de
caráter enciclopédico, pois faz um panorama totalmente
coerente da década de 60, e mais do que isto, retrata a
caráter do homem nesta época em busca de sua identidade.
Também, é válido ressaltar, seu caráter autobiográfico, que se
mostra claro durante todo o entrelace da narrativa. Quando o
narrador-personagem toma voz e apresenta seu ponto de vista
apresentando grandes vestígios de contato com os pontos de
vista do escritor.
Assim, seus livros revelam a sua trajetória de vida, a
maturidade:
...a poesia que não se faz só
com palavras, como continua a supor tantos inocentes inúteis,
mas, sobretudo com vivências capazes de merecer e de gerar as
palavras certas.
Talvez nem todas as palavras
contidas neste livro tão pouco palavroso sejam as certas, mas
todas tiveram tempo suficiente para amadurecer antes da
colheita. (José Paulo Paes, in. Nêumanne, 2002:31)
Como vimos, Nêumanne, um sertanejo humilde, de vida simples,
não se acomodou, apesar de todas as adversidades. Logo ganha
espaço, como um talentoso filho do sertão, que deixou para
trás sua terra amada e venceu na cidade grande, mantendo
firmes seus valores, demonstrando assim, o seu caráter e sua
riqueza como ser humano. Cada vez mais se destaca como um
conceituado jornalista, escritor e um fenomenal poeta, como
outro que cantou:
Cá no sertão eu infrento
A fome, a dô e a misera.
P’ra sê poeta divera
Precisa tê sofrimento…
(Cante lá que eu canto cá).
Patativa do Assaré
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2.1 Nêumanne é Poeta!
Poética
I
Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados.
II
Quem é o Poeta?
um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
Que tem fome
Como qualquer
outro homem.
Cassiano Ricardo
José Nêumanne Pinto é um grande poeta. Como já foi dito, ele
publicou vários livros, sendo três de poesia: As Tábuas do Sol
(1986), Barcelona, Borborema (1992) e Solos do Silêncio (1996)
que apresenta toda a sua poesia reunida. Grande é o seu
conhecimento sobre a produção poética brasileira, isto fez com
que fosse por ele organizada uma antologia, Os Cem Melhores
Poetas Brasileiros do Século.
Como sabemos, um antologista, embora trabalhe com material
alheio, pode tornar-se um autêntico criador. Escrevendo de
modo indireto a história de uma literatura constrói uma obra
nova e original. A antologia preparada por Nêumanne recebeu
muitas críticas e elogios. Ela resultou em um trabalho
intencionalmente eclético e, com intuito mercadológico,
ofereceu um número plural de poetas e poemas, para satisfazer
todos os gostos.
Sua poesia resultou em um fruto midiático, lançamento de um CD
de poesia – As Fugas do Sol. Este CD é uma coletânea que
reúne 30 poemas de seus livros de poesias e alguns inéditos,
lidos pelo próprio Nêumanne, e com trilha sonora original
composta pelo maestro Marcus Vinícius de Andrade, um amigo de
infância. Desta forma, podemos perceber como ele, o poeta,
escolheu o ritmo de cada verso, de cada estrofe.
A poesia para Nêumanne não é uma opção, na qual uns podem
querer, ou não, ser poeta, mas sim uma vocação, um talento.
Ao escrever poemas Nêumanne diz que espanta todos os
tormentos, sustenta a sua lucidez. Já ao ler, ele também os
sente e se sintoniza como ser humano.
Além disso, a sua terra Paraíba, “pequenina e heróica”, como é
assim conhecida, é uma raiz que penetra fundo em sua poesia,
que, de acordo com seu livro Erundina, a mulher que veio com
a chuva (Nêumanne, 1989:82), é um vocábulo indígena de
significado controverso. Uns consideram que significa “rio
mau”, outros “rio caudaloso”, outros ainda “braço de mar” ou
“braço que vem do mar”.
Mas o mais interessante que relata este livro é uma afirmativa
consciente que o narrador faz e que ninguém poderá negar é
que, “... o Nordeste sempre foi e continuará sendo um
verdadeiro banco genético, fornecedor de cérebros para o
Brasil”.
Nêumanne é um poeta que possui características próprias. Sua
linguagem é pura, porém fatal. Revela sinais de sua
personalidade, fértil em imaginação e em intertextualidade. É
indiscutível seu talento e domínio da linguagem. Nêumanne é
um autêntico laboratorista da linguagem. Vejamos:
(...)
Entre o fazer e o ver,
ação e contemplação,
escolhi o ato de palavras:
fazê-las, habitá-las,
dar olhos à linguagem.
A poesia não é verdade:
é a ressurreição das
presenças,
a história
transfigurada na verdade do
tempo não datado.
(NÊUMANNE, 2002:225)
Nêumanne escolheu não somente o ato das palavras, mas também o
ato de poetar sobre aquilo que vive, que sabe, pensa e sente.
Prova disso, é o seu poema A Seara de Saramago – um
hino que glorifica a Língua Portuguesa, reverencia Saramago e
uma genealogia de escritores nela mencionados.
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3. A SEARA DE SARAMAGO
(...)
Chega mais perto e contempla
as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a
face neutra.
(...)
Carlos Drummond de Andrade
Os versos acima são do poema Procura da Poesia, de Carlos
Drummond de Andrade. Se encaixam perfeitamente na tipologia do
poema de Nêumanne A Seara de Saramago, que possui mil
faces secretas de significados, sob uma única face neutra, a
do significante.
Na Seara podemos encontrar o emprego de palavras com
significados diferentes do usual, o que é óbvio em se tratando
de uma característica fundamental da linguagem poética, que
usa da linguagem figurada, das metáforas, para com isso,
oferecer margens interpretativas várias.
Os novos significados que o poeta atribui às palavras e às
expressões revelam seu modo pessoal de ver o mundo e as
coisas. E os bons poetas conseguem manter uma linguagem
preenchida com grande significados, surpreendendo estudiosos
da língua, com as suas associações. Dessa forma, como já foi
dito, o poema A Seara de Saramago é um exemplo de tudo
isto.
Nela podemos encontrar um Nêumanne que sabe tirar do âmago os
mais plurais significados das palavras e das frases. Ele faz
associações perfeitas, criando associações densas e
provocativas. E as referências intertextuais se incorporam
sutilmente de modo que os sentidos originais se unem às novas
conotações poéticas. Estas são características marcantes de
seus poemas. No dizer de Ezra Pound:
A Literatura não existe no
vácuo. Os escritores, como tais, têm uma função social
definida, que se torna relevante ou não, dependendo de sua
competência como escritores.
(POUND,
1997)
Concluindo, a literatura de Nêumanne comprova sua competência
como poeta, e seu grande conhecimento de Língua e Literaturas
de Língua Portuguesa. Nêumanne mostra o seu amor pela Língua
Portuguesa, criando um poema que representa tudo aquilo que
acredita serem os grandes pilares da Língua, dedicando-a ao
escritor que propagou a nossa Língua Portuguesa no mundo, o
escritor luso José Saramago. Sentencia Nêumanne em uma poética
pessoal:
(...)
Boa poesia..., é aquela que
leva o leitor a identificar a própria emoção que o poeta
sentiu, ao criar um determinado verso ou estrofe ou poema.
(...)
(NÊUMANNE, 2004:388)
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3.1 O OUTRO JOSÉ
Assim como muitos, José Nêumanne Pinto reconhece a força da
literatura saramaguiana. Tanto é seu reconhecimento que ele
deixa registrado em um de seus mais fenomenais poemas A
Seara de Saramago uma verdadeira reverência ao grande
escritor luso.
José Saramago traduz a força e a vitalidade não só da
Literatura Portuguesa para além das fronteiras de seu país,
mas também da Língua Portuguesa. Primeiro escritor de Língua
Portuguesa a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura,
em 1998, pelo conjunto de sua obra que compreende prosa
(contos e romances), poesia e teatro, além de ensaios.
Saramago nasceu no dia 16 de novembro de 1922, na pequenina
cidade Azinhaga, Ribatejo, ao norte de Lisboa. Tem suas
origens no campo, mas com dois anos mudou-se com a família
para Lisboa. Com cinco anos, ao entrar para a escola,
descobriu um erro na sua certidão de nascimento. Segundo
consta a sua biografia, um funcionário acrescentou ao seu
registro, Saramago, logo virou seu apelido, principalmente por
sua família Meirinho Sousa.
Hoje Saramago é a sua marca e a identidade de um escritor que
espalhou a Língua Portuguesa pelos quatro cantos do mundo.
Muitos sabem que Saramago é um escritor autodidata, pois
abandonou os estudos precocemente em virtude de dificuldades
econômicas da família. Fez o curso profissional para
serralheiro mecânico. Na fase adulta, passou por várias
experiências profissionais. Foi funcionário público,
jornalista e editor. Em 1969, filiou-se ao Partido
Comunista Português, mas devido aos acontecimentos políticos
na época, abandonou o partido e os jornais, passando a viver
como tradutor de textos.
Somente a partir do lançamento do romance Memorial do
Convento, em 1982, é que passou a viver exclusivamente de
Literatura. A partir de 1992, passa a morar em Lanzarotte,
ilha do arquipélago das Canárias.
Tornou-se um escritor ganhador de diversos prêmios, inclusive
o Prêmio Camões em 1995. Mas, o mais importante foi no dia 8
de outubro de 1998, quando a Academia Sueca de Letras anunciou
o Prêmio Nobel de Literatura, que pela primeira vez foi
atribuído a um escritor de Língua Portuguesa. Este prêmio
veio quando seu mais famoso romance Memorial do Convento
completava dezesseis anos de lançamento. Saramago tinha na
época 76 anos, mas aos 60 já tinha alcançado a notoriedade.
Saramago é mundialmente lido, admirado e homenageado. Suas
obras encontram-se publicadas nos seguintes países: Espanha,
França, Itália, Reino Unido, Holanda, Alemanha, Grécia,
Bulgária, Polônia, Cuba, União Soviética, Checoslováquia,
Dinamarca, Israel, Noruega, Romênia, Suécia, Finlândia,
Estados Unidos, Japão, Hungria, Suíça, Argentina, Colômbia,
México, China, Turquia, Croácia e entre outros países. E como
não poderia deixar, foi publicado também, no Brasil.
Logo, a Língua Portuguesa agradece!
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3.2 A INTERTEXTUALIDADE
O significado de um novo texto
afasta, afeta e redimensiona o significado de todos os outros.
Marisa Lajolo
A intertextualidade é um elemento essencial e constitutivo do
processo de escrita e leitura. Abrange as diversas maneiras
pelas quais um dado texto depende do conhecimento de outros
textos para seu entendimento. Então, nomeia-se
intertextualidade os diversos tipos de relações que um texto
mantém com outros textos, e que segundo Bakhtin:
Cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de
outros significados (1992:291). Segundo Julia Kristeva,
criadora do termo:
... todo o texto é um mosaico de citações, de outros
dizeres que o antecederam e lhe deram origem.
(apud KOCH: 2006, 86).
Inferimos, então, que todo o texto, assim como a poesia:
“... toda a poesia que hoje é feita ou que virá a ser feita já
foi feita. Somos apenas herdeiros!”, conforme as palavras de
Ivan Junqueira.
Com isso, é o nosso dever perceber o efeito de sentido
provocado pelo deslocamento, ou transformação de “velhos”
textos e o propósito comunicacional dos novos textos
construídos. Apresentaremos, dessa forma, uma visão
esquematizada do poema A Seara de Saramago de José
Nêumanne Pinto para uma melhor percepção da intertextualidade
e em seguida um breve discorrer sobre a mesma.
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3.3 VISÃO ESQUEMATIZADA DAS REFERÊNCIAS DE LÍNGUA
PORTUGUESA NO POEMA
Os termos grifados e sublinhados encontram
correspondência nos termos e explicações entre os parênteses.
Esta ferramenta visa apontar os pontos intertextuais e
citacionais empregados pelo autor na confecção do poema.
A SEARA DE SARAMAGO (José Saramago)
Esta língua é minha semente,
machado de mulato do morro, (Machado de
Assis - Origem)
pátria de poeta lisboeta. (Fernando
Pessoa - Patriotismo)
Esta língua é minha visão,
o sol do soldado caolho, (André Peralta –
Personagem do livro Obras do Diabinho da mão furada, de
António José da Silva. Foi baseado no desenvolvimento do
Soldado maneta, personagem do Romance de José Saramago)
a mão do soldado maneta. (Baltasar
Mateus, o Sete-Sóis – Personagem do livro Memorial do Convento
– Romance de José Saramago).
Esta língua é minha música,
na palavra do padre pregador, (Padre
Antônio Vieira)
no pássaro do padre voador. (Padre
Bartolomeu de Gusmão- Personagem também do livro Memorial do
Convento – Romance de José Saramago)
Esta língua é minha mulher
tem cuidados de mãe
no leito da amante.
Esta língua é minha rosa, (Guimarães
Rosa)
tem perfume dos sertões gerais, (Obra:
Grande Sertão Veredas)
tem sabor de vinhos do Porto. (Fernando
Pessoa – Vinho ligação com a festa de Santo Antônio)
Esta língua é meu cavalo
para subir cidades e serras, (Eça de
Queiroz, Obra: A Cidade e as Serras)
que a brisa do Brasil beija e balança.
(Castro Alves Poema O Navio Negreiro)
Esta língua é fel com mel,
cantigas a palo seco (João Cabral de Melo
Neto, Poema A Palo Seco
e Música de Belchior)
de ninar o futuro
Esta língua é meu coração,
na tortura, na paixão
e no sal amargo da purificação. (José
Saramago - Obras)
Esta língua é jóia africana, (Angola,
Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe)
ela caça a onça caetana, (Ariano Suassuna
– Obra Ao sol da onça caetana)
ela cruza a légua tirana. (Luiz Gonzaga)
Esta língua é fruto de meu ventre,
mata sede de amizade,
me arma nos bons combates. (Luís Vaz
Camões – Obra Os Lusíadas - Canto I , e Apóstolo Paulo)
Esta língua não é de viver, (Fernando
Pessoa – Fragmentos e Pompeu, general romano, 106-48 a.C.)
língua de navegar e de lamber
e de dançar o tango argentino. (Manuel
Bandeira – Poema Pneumotórax)
Esta língua é meu berço,
esta língua me conhece,
esta língua é meu caixão. (Augusto dos
Anjos – Poema O Caixão Fantástico)
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3.3.1 RELATO DOS TRAÇOS
INTERTEXTUAIS E CITACIONAIS NO POEMA
A intertextualidade no poema inicia-se logo no título A
Seara de Saramago, a palavra “Saramago” nos remete ao
escritor luso, a que chamamos “o outro José”, aquele ainda há
pouco citado neste trabalho, José Saramago. Assim prossegue o
poema apresentando todos aqueles que junto a Saramago, para o
escritor Nêumanne, fazem parte da seara de Língua Portuguesa.
Na primeira estrofe, no segundo verso, “machado de mulato do
morro”, faz uma referência a Joaquim Maria, mas conhecido como
Machado de Assis. Escritor considerado pelos críticos em
maioria, “o maior escritor brasileiro de todos os tempos”. Mas
não é isto que aqui vamos enfocar. Não é a sua vasta e
variada obra, que abrangem romances como Memórias Póstumas de
Brás Cubas, Quinca Borbas, Dom Casmurro, contos, crônicas,
poesia, teatro, critica literária e teatral, mas sim sua
origem.
Machado de Assis foi desde cedo um desafiador de seu tempo.
Nascido no Morro do Livramento, localizado no Cosme Velho,
Laranjeiras Rio de Janeiro, em 21 de julho de 1839, onde
morreu em 1908.
Seu pai era brasileiro, mulato e pintor de paredes
e sua mãe era portuguesa e lavadeira. Logo, era mulato e
nasceu no morro. Viveu no meio de muita gente pobre e estudou
apenas os primeiros anos em uma escola pública. Contudo,
apesar de sua origem humilde, foi um autoditada, com talentos
excepcionais. Por uma vontade firmemente determinada, teve
seus méritos reconhecidos em vida, e aos 58 anos veio a ser
eleito Presidente da recém-fundada Academia Brasileira de
Letras, a também conhecida como Casa de Machado de Assis.
“Estás sempre aí, bruxo
alusivo e zombadeiro, que revolves em mim tantos enigmas.”
(Carlos Drummond de Andrade,
no poema “A um bruxo, com amor” sobre a vida e a obra de
Machado.).
É este aí, Machado de Assis, bruxo do Cosme Velho,
autor de obras-primas, buscou sempre valores permanentes e
universais, por este motivo sua obra não se assemelha aos seus
primeiros anos, pobre e “mestiço”, nem a sua pátria, pois como
podemos ver em seu ensaio “Instinto de Nacionalidade” (1873):
(...) O que se deve exigir do
escritor,
antes de tudo, é certo
sentimento
íntimo, que o torne homem do
seu tempo e do seu país...
(...)
Machado de Assis era mesmo homem de seu tempo, por
este motivo seguia a tendência do seu tempo, mas o que não
devemos esquecer é que ele era um humilde “mulato” que
alcançou os mais elevados degraus da consideração social e
consagração artística.
Quanto ao 3° verso, “pátria do poeta lisboeta”, o poeta
lisboeta a qual o poema se refere é um dos maiores poetas de
Língua portuguesa, com valor comparado ao de Camões. Estamos
nos referindo a Fernando Pessoa.
Poeta enigmático, maior autor de heteronímia, por causa de sua
constante despersonificação. Assim, conseguiu, o artista
genial espelhar os múltiplos traços do homem de seu tempo:
espiritualista, materialista e nacionalista.
Quando ele disse “A minha Pátria é a minha Língua” quis dizer
que a sua pátria é a Língua Portuguesa, afirmando a
importância da Língua para a identidade e a afirmação como
homem social.
Na década de 20/30 do século XVIII, a pátria de Língua
Portuguesa estendia-se por
Ultramar. O Brasil e os territórios indianos, Timor, Macau
mais as colônias africanas, tudo já fazia parte da Pátria, da
nossa pátria Língua Portuguesa.
A 2ª estrofe traz em seu 2º verso “a mão do
soldado maneta”. Este verso faz referência a um personagem do
romance de Saramago Memorial do convento. Segundo Linda
Hutcheon (HUTCHEON, 1991:256) é um romance contemporâneo em
que a presença e as elaborações do tema histórico ocupam o
centro da narrativa, que convencionou chamar de metaficção
historiográfica.
O Memorial mescla ficção e história, buscando não
se afastar, nem negar ou construir a história, mas sim
revisitá-la de maneira consciente. O soldado maneta a que o
verso se refere é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, que tem a sua
marginalidade manifestada na sua condição de ex-soldado e na
sua limitação física, a mão esquerda perdida na guerra.
Esta limitação física, entretanto, não afetou a
sua força trabalhadora e criativa. Ajudou na construção do
convento e se integrou ao grupo na construção da passarola
(desta, iremos falar depois), desempenhando a função que lhe
fora atribuída.
O que nos interessa agora é relatar que este
personagem faz uma referência explícita a outro personagem, o
André Peralta “o sol do soldado caolho”, do 2º verso. Este
personagem é também um personagem marginal que faz parte da
novela Obras do Diabinho da mão furada, do António José da
Silva, o judeu. Como poderemos ver no estudo de Odil José de
Oliveira Filho, a semelhança de André com Baltasar, nos
fragmentos iniciais de cada uma de suas respectivas obras:
Retirou-se um soldado da
milícia de Flandes, em tempo de Felipe II, Chamado André
Peralta, aflito e maltratado da guerra, tão pobre como
soldado e tão desgraçado como pobre. Depois de entrar neste
reino, onde havia nascido, e caminhava para Lisboa (...)
Este que desafronta aparência,
sacudir da espada e desaparelhadas vestes, ainda que descalço,
parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado
embora do exército por já não ter serventia nele, depois de
lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso... Por ser pouco
o que pudera guardar de soldo, pedia esmola em Évora para
juntar as moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro
se queria ter o gancho de ferro que lhe havia de fazer às
vezes de mão... Sete-Sóis, mutilado, caminhava para
Lisboa...passou Montemor, não leva por companhia e ajuda frade
ou diabinho e para mão furada já lhe basta a sua. (Odil,
2003:79)
Saramago atualiza o texto de António José.
Podemos então inferir claramente de certa forma que Baltasar
é a continuação do também soldado Peralta. Pois o caminho de
ambos, novamente de acordo com Odil José foi o convento, um
para habitá-lo, o outro para construí-lo.
Assim, soldado caolho e soldado maneta, indivíduos
marginalizados, vindos das camadas populares, servem para
conferir forma e identidade à minoria registrada em nossas
letras, mas em maioria desde nossos primórdios.
Prosseguindo, ainda utilizando Baltasar e a obra
Memorial do Convento, de acordo com Kaufman (KAUFMAN, 1991:
129), Baltasar é um personagem típico. Mas há na obra os
classificados personagens autênticos da história, a exemplo
disso temos o Padre Bartolomeu de Gusmão. Na 3º estrofe, no
3º verso “no pássaro do padre voador”, faz referencia a ele.
Na obra de Saramago, Bartolomeu é um padre jesuíta
que inventou uma máquina capaz de subir ao céu e voar sem
outro combustível que não seja a vontade humana. Tirando esta
forma imaginativa de voar, tudo isto aconteceu. Gusmão foi um
padre nascido em Santos que escreveu alguns sermões.
Consagrou-se no estudo da Física e Matemática, mas abdicou de
tudo para se dedicar inteiramente ao estudo de balões. Seu
invento ficou conhecido como “passarola”, e em sua homenagem
foi erguido um monumento em sua cidade.
Na 3ª estrofe, no segundo verso, aparece a palavra
"pregador". Logo compreendemos que pregador é todo aquele que
propaga a fé, pois assim são conhecidos todos aqueles que
tinham uma missão de fé desde os tempos dos jesuítas.
Contudo, um grande exemplo de pregador é sem
dúvidas o Padre Antônio Vieira. Nascido em Portugal, mas
formou-se no Brasil como padre jesuíta, onde passou grande
parte de sua vida missionária de pregação. Conforme Fidelino
de Figueiredo (FIDELINO, HPL, 268): “Era constitucionalmente
um pregador, dos maiores de todos os tempos.”
Alinha-se entre os grandes oradores universais,
que maior não se produziu em Língua Portuguesa. Grande
pregador, político e escritor, Vieira foi, sobretudo, uma das
grandes figuras da cultura do século XVII. Sua obra
compreende 500 cartas, algumas obras de profecia e
aproximadamente 200 sermões, sendo que, muitos deles são
famosíssimos, confirmando sua qualidade como escritor e sua
vasta cultura.
Na época, os sermões possibilitavam que a palavra
do pregador falasse para todas as camadas. Seus sermões
abrangem não só a teologia, mas também as questões de
moralidade, filosóficas e políticas.
Segundo sua biografia, ele confessou modestamente
não ter nada de inteligente a princípio. Foi preciso um fato
extraordinário: um abalo cerebral, uma dor de cabeça muito
forte que se fez julgar à beira da morte, e de repente uma
grande claridade interior, que fez com que ele adquirisse uma
facilidade para memorizar tudo que lesse.
Fato este, lendário ou não, fez com que Vieira se
tornasse um excelente padre, escritor e pregador conforme
Hernani Cidade diz nas Obras Escolhidas vol. X, p. XXXV:
... a vivacidade permanente de
uma inteligência ao mesmo tempo lúdico e engenhoso, de uma
sensibilidade permeável a toda radiação de beleza das coisas e
das palavras e capaz de captar e transmitir pelo modo mais
sugestivo e aliciaste, e teremos uma imagem de qual seria a
sedução deste mago da palavra. (CIDADE, 1953:4).
Contudo, seus sermões não se dirigem apenas a um
homem barroco de seu tempo, mas também ao homem dos nossos
dias, pegando nos temas que continuam a ser atuais, um
fenômeno, uma figura única e genial, que exprimiu de forma
simples e clara a sua época.
A 5ª estrofe, o 1º e 2º versos fazem referências a um escritor
e a uma obra sua considerada a mais original e inovadora da
literatura brasileira de conteúdo universal. Estamos falando
de Guimarães Rosa, nascido em Minas Gerais em 1908, e de sua
obra Grande Sertão Veredas, romance de 1956.
Desde cedo, Guimarães procurou conhecer as regiões que
habitava e seus arredores. O povo e a vida do sertão mineiro o
inspiraram a produzir obras inovadoras. Diz Antonio Candido:
A experiência documentária de
Guimarães Rosa, a observação da vida sertaneja, a paixão pela
coisa e o nome da coisa, a capacidade de entrar na psicologia
do rústico – tudo se transformou em significado universal
graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional,
para fazê-lo exprimir os grandes lugares-comuns, sem os quais
a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, para
cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o
pitoresco é acessório e, na verdade, o Sertão é o Mundo.
(CANDIDO, 1968: 359)
Através da leitura deste livro viajamos para muitos lugares
sem sair do lugar, e como o próprio Nêumanne escreveu em um de
seus textos “O Grande Sertão Veredas é um texto encantados,
cheio de nuances”... Proporciona um passeio turístico pelas
cidades históricas de Minas Gerais, de Belo Horizonte, vai até
a Cordisburgo, cidade natal do autor (...).
Guimarães Rosa foi apaixonado pela toponímia, a designação dos
lugares pelos nomes. O levantamento da toponímia é uma das
veredas na qual podemos nos embrenhar pelo grande sertão. Se
folhearmos a esmo, podemos encontrar nas páginas iniciais do
romance inúmeros nomes de localidades, rios, aldeias, pontes,
fazendas, retiros, montes, como: Terras de Urucúia,
Vereda-da-vaca Mansa de Santa-Rita, Cachoeira dos Bois,
Campo-Redondo, Vereda do Buriti Pardo, Passo do Pubo, Fazenda
O Limãozinho, Vau-Vau, Sete Lagoas, Serra - Nova distrito de
Rio Pardo, Ribeirão Traçadal, Serra do Cafundó, Campo Azulado,
Queimadão, Angical, Extrema-de-Santa-Maria, Cabeça de Negro,
Chapadão das Vertentes, Brejo Verde, Córrego das
Quebra-Quináus, paragem da Aroeirinha, Piratinga, Liso do
Sussuarão, Bambual do Boi, fazenda de Santa Catarina, lagoa
sussuarana, Vereda do Vitorino, córrego Genipapo, Rio
Pandeiros, Vereda do Alegre, rio Acari, Vila da pedra de
Amolar, Barreiro Novo, rio do Borá, etc.
Continuando com nosso trajeto, chegamos ao vinho que aparece
na 3ª estrofe “tem sabor de vinhos do Porto”, faz também
referência a Fernando Pessoa. Embora o vinho seja uma das
mais velhas tradições lusitanas, especula-se que a cultura
videira em Portugal tenha começado por volta de 282 a.C. O
vinho está presente na obra dos mais clássicos escritores, e é
natural que neste número se inclua Fernando Pessoa, que
apresenta um número bastante significativo em referência em
relação ao vinho:
“Boa é a vida, mas melhor é o
vinho”.
“Ao gozo segue a dor e o gozo
a esta.
ora o vinho bebemos porque é
festa,
ora o vinho bebemos porque há
dor.
Mas de um e de outro vinho
nada resta”.
“Afoga a alma em vinho”.
Como vimos nos versos acima, Fernando Pessoa vale-se da
metáfora do vinho para afogar seus dissabores e os amores da
alma pessoana.
A 6ª estrofe, no 2º verso, faz uma referência a um romance
póstumo de José Maria Eça de Queiroz, conhecido como Eça de
Queiroz, publicado em 1901, A cidade e as serras.
O enredo desta narrativa gira em torno de Jacinto, principal
personagem do romance, que mora há anos em Paris e
acostumou-se ao conforto que uma cidade pode proporcionar.
Após alguns anos volta a morar na pequenina Tormes, em
Portugal. E lá vive um grande conflito entre seu modo de vida
anterior e o que agora lhe é oferecido. É a tensão que vive o
homem urbano, refém do conflito proporcionado pela tecnologia
e pelas necessidades surgidas com a civilização que perdeu a
vitalidade e o apego às coisas simples, naturais e primitivas.
Nesse romance podemos ver Eça exalar um amor puro à terra da
sua pátria. A libertação do lado bucólico e saudosista de um
homem viajado e cosmopolita. Eça é o representante máximo do
Realismo/Naturalismo em Portugal, o maior prosador português
de todos os tempos. E sua bagagem cultural e de mundo fez com
que desse à língua sua fluidez, a sua maleabilidade e a sua
atualidade.
Agora no 3º verso “que a brisa do Brasil beija e balança” faz
referência a um poeta mais lido e mais admirado do Brasil, que
viveu intensamente os grandes episódios históricos do seu
tempo, embora tenha morrido aos 24 anos, é um poeta realizado,
estamos falando de Castro Alves.
Classificado como poeta romântico, social e “condoreiro”, foi
no Brasil o anunciador da Abolição da Escravatura e da
República. Por ter se dedicado à causa abolicionista recebeu
o título de “Poeta dos Escravos”.
“Que a brisa do Brasil beija e balança” é uma aliteração que
veio ecoar os valores absolutos e as causas que o escritor
defendeu. Sendo que estes versos fazem parte de seu poema
“Navio Negreiro”, declamado pela primeira vez na sessão
comemorativa do dia da Independência, no dia 7 de setembro.
Este poema exalta o povo africano e presta homenagem a Os
Lusíadas, de Camões.
Castro Alves reconheceu os negros como heróis e principalmente
como humanos, dedicando-lhes lugar de destaque em suas mais
famosas poesias. É o verde e amarelo da bandeira de nossa
terra fazem acordar e balançar o nosso Brasil, que após tantos
anos de batalhas vencidas, como o próprio “navio” refere: por
Andrada (referência a José Bonifácio de Andrada e Silva – o
patriarca da Independência) e a Colombo (Cristóvão Colombo –
descobridor da América). É isto que Castro Alves mais desejou,
e que todos nós desejamos.
A 7ª estrofe, 2º parágrafo “cantigas a palo seco” faz
referência a um poema e a uma música, ambas intituladas como
“A palo seco”. A primeira é um poema de João Cabral de Melo
Neto, filho de senhor de engenho, por isto tendo passado a
infância e a adolescência nos engenhos de cana-de-açúcar no
interior pernambucano.
Suas obras se caracterizam pela preocupação com a forma, na
tentativa de despir o poema do supérfluo, em busca do
essencial, por este motivo, sendo rotulado como poeta
antilírico, seco, cerebral, como ele fez questão de ser.
A partir da sua vivencia, o escritor pernambucano adota “a
seca” como tema para expressão de sua poesia. Seu
significado não consta nos dicionários, mas como o poeta mesmo
disse: O cante a palo seco / é um cante
desarmado.
Em segundo, A palo seco é também título de uma música Antônio
Carlos Gomes Belchior, nascido em Sobral, no Ceará mais
conhecido como Belchior. Durante a infância começou a cantar
em feira com versos de improviso. Logo, ligou-se a um grupo de
jovens compositores e músicos, como: Fagner, Ednardo e outros
e começou a apresentar-se em festivais de música no Nordeste.
Suas composições são marcadas pela suavidade da interpretação
o que dilui a força dramática, grande exemplo disso é a então
referida A palo seco.
A 8ª estrofe “e no sal amargo da purificação” faz referência
novamente ao tão ilustre José Saramago que no “sal amargo” de
suas letras, e de suas obras como: Os Poemas Possíveis,
Provavelmente Alegria, O Ano de 1993, Deste Mundo e do Outro,
A Bagagem do Viajante, As Opiniões que o DL teve, Os
Apontamentos, Cadernos de Lanzarote I, Cadernos de Lanzarote
II, Cadernos de Lanzarote III, Cadernos de Lanzarote IV,
Viagem a Portugal, A Noite, Que Farei Com Este Livro. A
Segunda Vida de Francisco de Assis, In Nomine Dei, Objecto
Quase, Poética dos Cinco Sentidos - O Ouvido, Manual de
Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento,
O Ano da Morte de Ricardo Reis, A Jangada de Pedra, História
do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Ensaio
sobre a Cegueira, Terra do Pecado e Todos os Nomes.
Lendo-as, você se tortura, se apaixona e assim purifica-se.
Na 9ª estrofe, no 1º verso “Esta língua é jóia africana”, faz
referência aos países africanos que falam a Língua Portuguesa:
Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo
Verde, onde se fala um português bastante puro, embora com
alguns traços próprios, em geral arcaísmo e dialetalismo
lusitanos semelhantes aos encontrados no Brasil.
Contudo, é também uma jóia a literatura desses países,
representados por: Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato da
Cruz, David Mestre, João Melo, João Maimona, Manuel Rui, Paula
Tavares, Ruy Duarte de Carvalho, João Luís Mendonça, Fernando
Kafukeno, Rui de Noronha, Noémia de Souza, Virgílio Lemos, Rui
Knopfli, Marcelino dos Santos, Luís Carlos Patraquim, Mia
Couto, Eduardo White, Nélson Saúte, Caetano da Costa Alegre,
Francisco José Tenreiro, Félix Siga, Pedro Monteiro Cardoso,
Eugênio Tavares, Jorge Pedro Barbosa, Amílcar Cabral, José
Craveirinha, entre outros que servem de “tambor”, para fazer
ecoar suas letras, considerada por muitos as, mais lindas e
puras poesias em Língua Portuguesa.
Continuando na 9ª estrofe, no 2º verso “ela caça a
onça caetana”. Essa “onça caetana” representa, na verdade, a
parte de um projeto de vida do também escritor paraibano
Ariano Suassuna.
Ele, um artista único e original, com uma visão
muito pessoal da vida e dos acontecimentos. Em seus romances,
peças de teatro e poemas desvenda o povo do sertão
nordestino. Mas tudo iniciou quando Suassuna, ao participar
da fundação do Teatro do Estudante do Recife, a partir da
experiência, compreendeu a necessidade de ser um autor
literário e não apenas um analista da vida nordestina.
Contudo, só entre 1958-79, Ariano Suassuna dedicou-se também a
prosa de ficção.
Em 1976 publica inicialmente sob a forma de
folhetim no Diário de Pernambuco Ao sol da onça caetana,
mas só em 77 foi editado e integrado ao volume de a
História d’o rei degolado nas caatingas do sertão.
Seu romance é brasileiro. E esta obra é
fundamentalmente uma epopéia, na qual os heróis não provêm
apenas de famílias ilustres, mas de todo o povo do sertão.
Neste livro, Ao sol da onça caetana, o autor narra
fatos de sua própria vida e de sua família, fala de
acontecimentos políticos que abalaram o seu Estado Natal.
Mistura realidade com lendas tradicionais de seu povo, num
clima épico bastante original.
O próprio animal que intitula o romance e a que o
poema se refere – a onça - simboliza um ser divinizado. Toma
forma de Deus e do Diabo, bem ao estilo suassuniano. Contudo,
esta obra manifesta o respeito do autor pelo sentimento
religioso do povo sertanejo, suas crenças pelos seus santos e
profetas e a transmissão de tudo isto para o nosso acervo de
Língua Portuguesa.
Ainda na 9ª estrofe, mas agora no 3º verso “ela cruza a légua
tirana”, podemos perceber uma referência direta à música
“Légua Tirana”, do compositor popular Luiz Gonzaga. Lançada
no ano de 1949, esta música é um clássico na voz de Gonzaga,
que segundo está em seu sítio na Internet, foi o primeiro
músico a assumir a nordestinidade, representada pela sanfona e
pelo chapéu de couro.
Luiz Gonzaga despertou interesse pela música ouvindo
apresentações de outros músicos nordestinos. A temática de
suas músicas assim como em Légua Tirana, é ecoar as dores e os
amores de seu povo do sertão:
Oh, que estrada mais comprida
Oh, que légua tão tirana
(...)
Quando o sol tostou as foia
E bebeu o riachão
Fui inté o juazeiro
Pra fazer a minha oração
Tô voltando estropiado
Mas alegre o coração
Padim Ciço ouviu a minha prece
Fez chover no meu sertão
(...)
Assim, Gonzaga, nordestino de berço, de raiz, dá voz a seu povo, cantando a essência de seu sertão.
Na 10ª estrofe, no 3º verso, há a referência às estrofes
iniciais do poema Os Lusíadas escritos por Luís
Vaz de Camões. Camões um soldado cego, pobre e português
nasceu provavelmente em Lisboa, em 1524, aonde veio a falecer,
em 1580. Começou a escrever Os Lusíadas por volta de 1545, que
é composta por 1102 estrofes e 8816 versos. O poema, porém,
só foi publicado em 1572, mas foi e continua a ser considerado
uma das mais significativas epopéias da literatura universal.
Os Lusíadas, palavra empregada em um poema em
latim, foi empregada pela primeira vez em português por
Camões. Precedida do artigo masculino no plural – os -,
significa os lusitanos, os portugueses.
A epopéia de Camões narrada a cunho pessoal, pois vivenciou
tudo aquilo que escreveu, os feitos heróicos dos portugueses
na descoberta do caminho marítimo às Índias. São os episódios
mais gloriosos da história de Portugal, por mares nunca antes
navegados. É um hino de louvor e glória humana, que vencera
uma de suas grandes batalhas, a conquista do mar, assim
combatendo “o bom combate”, pois como Fernando Pessoa mesmo
disse: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.
O eu do poeta foi substituído pelo Eu coletivo, pelo povo
português. O poeta escolheu para cantar não os seus feitos
pessoais, mas os feitos dos portugueses. As perigosas viagens
por mares nunca antes navegados e a descoberta de novas terras
davam ao mundo uma nova dimensão do poder do homem, como
centro do universo, capaz até mesmo de subjugar os deuses:
“Que eu canto o peito ilustre lusitano, / A quem Netuno e
Marte obedeceram”.
O herói do poema “os barões” que “passaram além de Taprobana”,
o maior deles foi Vasco da Gama, e os seus portugueses
que foram
dilatando a fé e o império. Logo, o sonho dos poetas
Quinhentistas de escrever um poema enaltecendo as glórias
lusitanas, só foi realizado por ele.
A partir da combinação de palavras com significados diferentes
do usual e da criação de palavras, Camões deu nova dimensão à
Língua Portuguesa como expressão artística. Mas estes versos
também fazem referência a uma passagem bíblica. De acordo com
a bíblia, São Paulo foi exilado por motivos religiosos da
época, assim prestes a sair dele escreveu uma carta a Timóteo
dizendo: “Combati o bom combate”, como podemos ver na pesquisa
em anexo a este trabalho.
Assim Camões também, conservou a sua fé para combater todas as
adversidades. Apesar do naufrágio que sua embarcação sofreu,
ele não largou o manuscrito de Os Lusíadas, que
não serviu para salvar o seu corpo, mas sim para eternizar a
sua alma:
Enfim acabarei a vida e verão
todos
que fui tão afeiçoado à minha
pátria,
que não me contentei de morrer
nela, mas com ela.
Já na 11ª estrofe, o 1º e 2º versos fazem referência ao poema
de Fernando Pessoa. Como o eu - lírico do poema diz
“...engrandecer a pátria e construir para a evolução da
humanidade”, logo navegar foi preciso, conforme também o
poema Mar Português:
Ó mar salgado, quanto do teu
sal.
São lágrimas de Portugal!
Por ter cruzarmos, quantas
mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por
casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do
Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o
abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(PESSOA, 1950:11)
Mas também foi uma frase dita por Pompeu, um general romano
(106-48 a.C.), dita aos marinheiros amedrontados que recusavam
a viajar durante a guerra, segundo Jornal da Poesia.
No último verso “e de dançar o tango argentino”, pode-se notar
a citação de uma parte do poema de Manuel Bandeira, o
Pneumotórax.
Este poema faz parte do livro Libertinagem, composto
por 38 poemas e publicado inicialmente em 1930. O título do
livro se refere à essência de toda a sua obra modernista –
Liberdade, seja no conteúdo, seja na forma. E é a Bandeira a
quem se deve a iniciação da utilização do verso livre.
De acordo com a sua biografia, Manuel Bandeira aos 18 anos
descobriu que tinha tuberculose, então, teve que interromper
seus estudos por motivos de grave enfermidade, desde então,
começou a compor versos. Então, toda a sua vida foi marcada
pela perda de seus pais e irmão. Sua obra confunde-se com sua
existência, levando-nos a identificar no eu - lírico de seus
poemas o próprio poeta.
Na esperança de uma recuperação mediante o tratamento médico
só resta uma canção trágica. E como ele mesmo diz: “Não fiz
versos por ser poeta. Fiz para desabafar os sentimentos
físicos”. Em Pneumotórax, o poeta transforma uma situação
perturbadora em algo sereno e até cômico. Por meio de uma
linguagem simples, utilizou o “prosaísmo poético”, que parte
dos sintomas, passa pelo diagnóstico da enfermidade e
desemboca em um desfecho aquela altura natural, em que a fala
do médico traduz que “a vida inteira podia ter sido e que não
foi”, e continua sendo o que é. E foi, tanto que Manuel viveu
até 96 anos esperando o que é os destinos de todos nós.
Manuel Bandeira é o poeta da ternura humilde e ao mesmo tempo
ardente, do amor à vida, das pequenas coisas de todo o dia.
Sabe humanizar os objetos mais prosaicos. Sua literatura é
leve, trágica, liberta:
A vida
Não vale a pena e a dor de ser
vivida.
Os corpos se entendem, mas as
almas não.
A única coisa a fazer é tocar
um tango argentino.
(Antologia, s.d.:168)
Na última estrofe, no último verso “esta língua é meu caixão”,
a última palavra “caixão” faz referência a um poema de um
poeta único da nossa literatura brasileira. Ele é um escritor
também conhecido como poeta macabro, paraibano e escritor de
apenas um livro de poesias, Eu, publicado em 1912,
considerado pelos críticos em maioria uma obra-prima e é por
isso que é o livro mais reeditado na Língua Portuguesa.
Estamos falando de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos,
conhecido como Augusto dos Anjos. Os críticos não conseguiram
classificá-lo em nenhuma escola literária pelo fato de suas
obras representarem a soma de todas as tendências de sua
época.
O seu poema é o Caixão Fantástico, que fala da “aceleração”
intrínseca dos tempos. O caixão representa a morte das
tendências que se prostraram e não acompanharam a mudança de
seu tempo, já que o tempo não pára, mas tudo que pára morre, e
lá se vão todos no caixão.
Assim, conseqüentemente pode acontecer com as
tendências que não evoluem com o tempo, com os estudos que não
progridem. Mas a língua não pára. Conforme foi dito na
introdução deste trabalho: “a Língua é um instrumento de
comunicação e expressão de sentimento que nos acompanha do
nascer até a morte”.
A Literatura ainda tenha este
poder de nos confrontar com a nossa própria língua, de nos
mostrar que, apesar de tudo o que aprendemos formalmente sobre
nosso idioma, suas possibilidades continuam ilimitadas nas
mãos e mentes de quem o sabem pensar.
José Paulo Paes (NÊUMANNE,
2002:31).
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Língua Portuguesa
Última flor do Lácio, inculta
e bela,
És, a um tempo, esplendor e
sepultura:
Ouro nativo, que na ganga
impura
A bruta mina entre os
cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e
obscura,
Tuba de alto clangor, lira
singela,
Que tens o trom e o silvo da
procela,
E o arrôlo da saudade e da
ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu
aroma
De virgens selvas e de oceano
largo!
Amo-te, ó rude e doloroso
idioma,
Em que da voz materna ouvi:
“Meu filho!”
E em que Camões chorou, no
exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor
sem brilho!
Olavo Bilac (Antologia, s.d.
110).
A Língua Portuguesa, assim é conhecida “última flor do Lácio”
no soneto de Olavo Bilac. Mas também é conhecida como a Língua
de Camões, por causa de Luiz Vaz de Camões, autor de Os
Lusíadas.
Como vimos, para Nêumanne em A Seara de Saramago, a
Língua é a semente, é a visão, é a música, é a mulher, é a
rosa, o cavalo, é fel com mel, é o coração, é a jóia africana,
é o fruto do seu ventre, que não é de viver, e sim de navegar
e de lamber e de dançar... Mas o mais significativo é que a
Língua é o seu caixão, na verdade é o meu, o seu, o nosso
caixão.
O Português é a língua que os portugueses, os brasileiros,
muitos africanos e alguns asiáticos aprenderam no berço e a
reconhecem como patrimônio nacional e utilizam-na como
instrumento de comunicação. Tem aproximadamente 230 milhões
de falantes e, segundo um levantamento feito pela Academia
Brasileira de Letras, ela tem atualmente 356 mil unidades
lexicais que estão dicionarizadas no vocabulário ortográfico
da Língua Portuguesa.
Uma Língua nada inculta como a nossa é portadora de longa
história, que ficam registrados principalmente nas obras de
muitos escritores. Como vimos Saramago, Machado, Pessoa,
Vieira, Gusmão, Guimarães Rosa, Eça, Castro Alves, João Cabral
de Melo Neto, Suassuna, Camões, Bandeira, Augusto dos Anjos,
Belchior, Luiz Gonzaga e todos aqueles que nas terras
africanas se dedicam às letras, podem ser considerados
porta-vozes de seus povos e intérpretes do ser humano, em
qualquer época, em qualquer país. E Nêumanne também, por ter
a consciência de que a Língua Portuguesa é apaixonante,
torturante, mas lendo bons escritores desta seara, você se
purifica. Ouçamos o poeta Nêumanne:
Venho de muito longe, e da
aldeia onde nasci trago notícias da preciosidade desta língua
cuja sobrevivência em liberdade decente nos cabe a todos
assegurar. E é este o requerimento que aqui subscrevo.
Valho-me desta ocasião única para fazer um apelo:
“Não deixamos esta nossa
Língua Portuguesa morrer”!
José Nêumanne Pinto
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