| |
|
O SILÊNCIO DO DELATOR
Álvaro Alves de Faria
Ao concluir seu romance “O Silêncio do Delator” (Editora Girafa) José Nêumanne foi “aconselhado” por um amigo a diminuir pelo menos duzentas páginas do texto, como se um livro fosse medido em seu valor pelo número de páginas que contém. Felizmente Nêumanne não atendeu. E o romance ficou com suas 540 páginas, como devia ser. E devia ser assim porque nesse volume coube apenas uma fotografia, mas o retrato de um tempo que soa como documento de época, assim como o fizeram vários tantos outros romances em épocas diferentes. O projeto de José Nêumanne foi iniciado em 1984, uma espécie de rascunho que não foi adiante há 20 anos por uma razão simples: todo o material a ser utilizado por ele ainda estava por vir. Nélida Pinõn costuma dizer que o romance é um ato de viver a fábula e a realidade.
Ela diz também que a missão da arte é prolongar a vida. E assinala que o romance, particularmente, é um ato de inspiração, mas não sobre a inspiração. Em que estas afirmações da grande escritora brasileira situam o belo romance de Nêumanne ? Em tudo. Primeiro porque discorrem sobre a criação solitária de um escritor que se tranca por dentro e se abre ao mundo; segundo porque revelam o trabalho, esse exercício do dia-a-dia de quem tem um projeto a tocar em frente, fazendo dele o cajado para caminhar abismos.
Zélia Gattai, certa vez, discutiu com Jorge Amado, amado escritor brasileiro do povo. Estavam em Paris. Zélia escrevia um novo livro e andava inquieta e pensativa. Jorge então perguntou o que estava ocorrendo. Zélia disse-lhe a verdade, informando que ela não tinha mais controle sobre seus personagens, que faziam o que bem entendiam sem seu consentimento. A preocupação de Zélia era que um dos personagens ia “fazer mal” a uma moça e ela não queria que isso ocorresse. Jorge Amado afirmou apenas: “Zélia, não se meta na vida dos outros!”.
É assim. José Nêumanne passou por esse processo. O livro tomou rumos inesperados enquanto ele, operário de si mesmo, deixava correr os dedos no teclado do computador ao narrar cenas que tiveram vida própria e se desenvolveram sem interferência de seu autor. Isso dá ao “O Silêncio do Delator” uma narrativa exuberante que começa coma voz de um morto e passa pelo tempo a colher palavras e sentenças.
Ao abrir seu livro, Nêumanne abre também a própria história que vem a seguir, ao informar o leitor: Romance e inventário de amor e desamor, aventura e desventura, ilusões e desilusões, encantos e desencantos sobre sexo, política, drogas, moda, arte pop e rock and roll, em sete vozes que ressoam canções dos Beatles, Bob Dylan, Caetano Veloso, Belchior e mais um poema de Pedro Paulo de Sena Madureira.
A informação seria desnecessária, o próprio romance se encarregaria disso, envolvendo o leitor como envolve numa narrativa que apaixona e na qual o autor se deixa também falar na voz de seus personagens, confessando, ele mesmo, sua condição até mesmo de observador, como ocorre, por exemplo, na página 325: “Tudo o que procurei foi não ver a verdade de relance, mas encará-la, mesmo que ela me ofuscasse”. Ou ainda o rigor do escritor consigo mesmo, ao observar na página 195, na voz do personagem: “Você precisa melhorar a qualidade do texto, sob pena de perder o leitor para sempre...”. E a triste constatação de nossos dias infames: Não há prazer como o poder (página 434).
Nêumanne confessa que sua narrativa veio como um jorro. O texto nasceu dentro de uma sala trancada em períodos que ele mesmo se impôs de trabalho diário. Quando decidiu escrever o romance, estava lendo “Faz-me falta”, da escritora portuguesa Inês Pedrosa, em que uma morta fala com seu amante no próprio velório. Fora isso, tinha no inconsciente as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis. Outros livros e personagens povoavam o autor, como Esmé, do conto “Para Esmé, com amor e sordidez”, de J.D.Salinger. Não pára por aí. Há muitas outras passagens utilizadas pela emoção de Nêumanne, já que o romance se impôs a ele. Um confesso mais admirador de Joyce que de Borges - o que é de se lamentar - Nêumanne construiu um romance com a marca de seu tempo. “Tudo que estiver ao meu alcance será revelado neste velório”, diz o morto na primeira página. Assim ocorreu. O morto é morto, mas não onisciente. A palavra que às vezes adula também fere. E fere muito, especialmente quando retrata o caos interior, desses que são fotografias vivas na memória dos sobreviventes.
Álvaro Alves de Faria é jornalista, poeta e escritor. Autor de, entre outros, “Vinte poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra” e “Poemas portugueses”, livros lançados em Portugal.
|