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UM BRÁS CUBAS MAIS MALANDRO
Carol Almeida
Um dos vários produtos do pop citados no livro O Silêncio do Delator, do escritor paraibano José Nêumanne, é o filme Invasões Bárbaras, do canadense Denys Arcand. A citação é rápida, quase sem importância dentro da trama, mas é necessário que se perceba como a estrutura narrativa do filme e do livro são semelhantes em sua premissa. Ambos têm na morte um elemento unificador. É pela morte que as pessoas terminam se encontrando, criando novas experiências em nome de um saudosismo de gerações. No filme, a reunião de amigos e parentes ocorre na eminência da morte. Já no livro recém-lançado de Nêumanne, a morte é em si tão concreta que termina ganhando um papel exclusivo, representado pelo narrador, durante seu próprio velório.
O delator do título é um tipo de Brás Cubas 'amalandrado', com a licença do neologismo. João Miguel, o morto em questão, se divide em pensamentos durante o próprio evento do enterro e em textos que ele elabora como que em um transe de lembranças separadas metodologicamente. Os trechos escritos, por exemplo, sob o subtítulo de Atrás do muro dizem respeito a "tudo relativo à alcova, ainda que dela ausente". Quando a narração surge após os trechos chamados de A Paz no mundo, fala-se das memórias políticas, da turma que viveu o fim dos anos 60, já sob a égide da ditadura militar.
O livro é todo dividido segundo esses cenários montados pelo autor. Em alguns momentos, a estrutura chega mesmo a lembrar uma peça de teatro, em que os personagens são recolocados em cena de acordo com o fundo em que eles contracenam. Aliás, uma possível adaptação de O Silêncio do Delator para o espaço cênico não seria tarefa difícil.
Nêumanne, que na ficção é mais conhecido pelo verso do que pela prosa (organizou a antologia
Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século), assume neste livro o lado mais ensaísta, atividade já bastante familiar ao escritor, que escreve semanalmente artigos para O Estado de S. Paulo. Além do filme supracitado, vários outros momentos da história do cinema, da política e principalmente da música co-estrelam entre as linhas. A capa é uma referência à um dos discos mais lembrados no livro: Sgt. Peppper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.
Como se estivesse fazendo um sampler de sua memória cultural, Nêumanne abre uma caixa de discos, filmes e heróis da geração para escrever um enredo bem-humorado e despretensioso sobre a comédia da vida privada. Tudo sob a perspectiva de um defunto que soube entender a cultura pop como o grande privilégio da humanidade moderna. E as citações não se resumem à uma faixa de tempo saudosista, algumas das referências são bem contemporâneas, como é o caso do filme Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola.
Esposa, amante, uma mulher misteriosa e amigos que haviam desaparecido tecem a biografia não-autorizada do narrador, enquanto o próprio tenta a todo instante consertar as 'falhas' narrativas dos interlocutores. São 528 páginas (número que certamente poderia ser mais enxuto) de diálogo entre as várias memórias, vivas, mortas, porém raramente silenciosas.
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