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Iniciamos, propositalmente, estas notas sobre O Silêncio do Delator, o nono livro, segundo romance, de José Nêumanne, com a epígrafe de Roberto Aguiar – fragmento de seu depoimento sobre a Geração 65, no livro de mesmo nome organizado por Jaci Bezerra – não só pela pertinência com o tema da obra aqui abordada e pela lucidez da análise desse grande sociólogo pernambucano, que já não está entre nós, mas também para registrar que a senda memorialista traçada por Nêumanne, sem geografias definidas, instiga-nos, mais insistentemente que em outras experiências de leitura do gênero, a acender inúmeros flashs recorrentes, uma espécie de filme paralelo, de nossas vivências, embora esfacelado, uma vez que destituído dos recursos que magistralmente Nêumanne utiliza, para a colagem dos fotogramas do ruidoso silêncio do seu romance.
É necessário registrar a pontualidade histórica com que esse Inventário (nome do poema de Pedro Paulo de Sena Madureira, cujas estrofes encerram cada capítulo) da geração 60 chega às livrarias, bastando para isso ter em mente o número considerável de matérias e documentários que a mídia vem publicando, inclusive a pernambucana Continente Multicultural (2004), com O carpinteiro do traço, sobre o genial
Quino, de outubro, além matéria de capa Rock. O som da fúria, de setembro, que vêm permitindo uma avaliação parcial e fragmentária dessa geração singularmente inquieta, extremamente crítica, causticantemente irreverente. O romance O Silêncio do Delator, no entanto, parece fazer convergir esses fragmentos avaliativos, fazendo um “Inventário moral, estético, político-ideológico, espiritual”, como registra Ruy Fabiano, no artigo Testamento de uma geração, publicado no Estadão. E Affonso Romano de Sant’Anna, no jornal O Globo, do dia seis de novembro, conclui que o livro de Nêumanne “realizou, de modo original, aquilo que tantos tentaram — ‘o romance de minha geração’”.
Nessa tarefa, José Nêumanne enveredou refratário a técnicas narrativas consagradas, imprimindo à obra uma coerência singular com a sua temática, uma rebelada inovação. Sobre esse aspecto, ressalta-se o ritmo imposto à narrativa. Deonísio da Silva, em matéria do Jornal do Brasil, refere-se coerentemente a um “Romance com Trilha Sonora”, mas, acreditamos, não só porque os títulos dos capítulos se referem às faixas dos discos Sergeant
Pepper’s lonely hearts club band, dos Beatles, e Bringing it all back
home, de Bob Dylan, mas também por incorporar à linguagem ágil e avessa a malabarismos verbais o som da guitarra de um
Hendrix, ou o ganir de Joplin, numa articulação vigorosa entre ritmo e melodia predominando sobre a harmonia, definição do rock que Daniel Piza descreve na matéria de capa da Continente de setembro, mas já com as características do encantar agredindo ou agredir encantando, expressão também dele, referindo-se à ascensão da guitarra enquanto instrumento mais que adequado a esse contexto histórico-musical. Nêumanne encanta e prende o leitor dando à narrativa esse vigor e quando nela o folk americano à Bob Dylan parece esvair-se paralisando as letras, especialmente no romance de tese paralelo incrustado pertinentemente na obra, pondo freios aos precipícios da metamorfose da verdadeira protagonista do romance, a Patota dos Socavões Solitários — , “uma tradução meio gozativa de Sergeant Pepper´s Lonely Hearts Club
Band”, como informa José Nêumanne em entrevista a Astier Basílio — um
pseudo-narrador-defundo, espécie de versão rascante e alucinada de Brás Cubas, tira-nos da letargia das letras esfriando na página para expressões como: “Peidaram no velório”. É assim, com um humor sarcástico, impiedoso, e uma irreverência agressiva levada às últimas conseqüências, até à morte, que João Miguel consegue arrebatar-nos de qualquer possibilidade de tédio durante a leitura das 541 páginas.
Aético, mulherengo, escritor frustrado, o professor universitário João Miguel, em sua condição de morto, testemunha do seu próprio velório, é apenas um simulacro do narrador-autor Brás Cubas: “agora que sou pó, que voltei à cinza [...] me disponho a abrir o jogo, a mostrar as cartas, a peruar o baralho alheio. [...] Nada nem ninguém me calará, nem você que fui eu quando corpo. [...] A este velório comparecerão muitos amigos. Na certa, também muitos inimigos. E não adianta você, seu escribazinho de merda, ficar tolhendo minha linguagem...”. Percebe-se então, ao contrário das Memórias Póstumas de Brás Cubas, que o narrador-autor não cede as rédeas da fabulação ao defunto. Há momentos esclarecedores, como na página 34: ele “apenas age como se narrador fosse”. Embora impiedosamente retire o narrador-autor do conforto da terceira pessoa e das suas onisciência e onipresença para inseri-lo numa trama paralela de avaliação constante da própria construção da obra.
É possível entender a personagem João Miguel como uma espécie de corifeu das sete “vozes” que se revezam nos capítulos conforme o samba de Caetano Veloso: A Voz do Morto, Pés do Torto (as transgressões, como drogas) , Cais do Porto (parentes, ancestrais e descendentes do grupo), Vez do Louco (as iniciações promovidas pelo personagem Coelho), A Paz do Mundo (política), Atrás do Muro (as cenas de sexo) e Na Glória (cenas do próprio velório). Essas vozes, assim nomeadas, podem, inclusive, configurar as rubricas de um texto teatral conotando as anotações do narrador-autor para uma espécie de prévia da encenação, portanto é questionável atribuir ao “morto” essa regência das vozes.
Assim, João Miguel se nos apresenta mais adequadamente como uma espécie de sujeito da enunciação, ou seja, uma espécie de locutor particular que atualiza as frases de um enunciado e ainda o elemento impiedoso da avaliação, entendida aqui como parte essencial da narrativa de acordo com Labov
Waletzky. E se configura um delator delatado, mais do que os que se propunha delatar. Toda a sua ousadia, toda a sua irreverência, que lhe permite o mito do “morto” é inútil, porque a voz do morto é o silêncio.
Quando apontamos como protagonista do romance a Patota dos Sovações Solitários esperávamos apenas a oportunidade de ousar dizer que ela o é apenas por tratar-se de uma célula mãe onde cabem personagens a princípio estereotipados, se tomarmos o contexto revolucionário da época, e que, posteriormente são avaliados, em sua maioria, como fracassados em suas intenções
primevas. Em síntese: “O publicitário de sucesso que não consegue se afirmar como escritor; o guerrilheiro que enriqueceu especulando na bolsa; o militante comunista que chegou a ministro; o astro de rock; o artista plástico tornado mendigo; a esposa historiadora; a amante que nunca abandonou o marido e a adorável filha; a ex-paixão da adolescência com quem viveu um caso fugaz; o filho espiritualista; a filha pragmática; e a mãe possessiva giram em torno do morto com suas convicções, incertezas, falhas e virtudes”, tão bem resumidos na orelha do livro. E mais o Coelho, que, na definição iluminada de Ruy Fabiano, é a personificação do espírito da época: “um ser misterioso e intrigante, cujo enigma é decifrado apenas no final do livro”. Este personagem e o defunto pseudo-narrador, acentuam a fusão do humorismo filosófico e fantástico, e traduzem o gênero cômico-fantástico, que, conforme José Guilherme
Merquior, “tomou corpo na literatura ocidental, no fim da Antiguidade; sua realização mais perfeita são as sátiras em prosa de Luciano de Samósata (séc. II), autor dos Diálogos dos mortos.” A personagem João Miguel resume perfeitamente um dos atributos desse gênero narrativo, também chamado de literatura menipéia, pois desprovido de qualquer enobrecimento em suas ações.
No entanto é ele que nos permite ousar dizer que a verdadeira protagonista dessa obra é a própria geração 60, que tem como esteio a célula-mãe da Patota dos Sovacões Solitários: “[...] Este não é o velório de um homem só. Mas o velório de uma geração inteira, o sepultamento do sonho desta turma de gente bem-intencionada, mas que não soube cuidar direito das próprias intenções, por melhores que elas fossem” (p. 335). Essa geração é avaliada nesse “Inventário” audacioso, e reflete a vontade cega, obscura e irracional de viver, num conflituoso querer, fatalmente doloroso, porque necessariamente insatisfeito, à medida da filosofia
schopenhaueriana. Mas não consegue deprimir, pois redunda em uma “comovida homenagem àquela década, na evocação de seus poetas, líderes, idéias e ideais” (Ruy Fabiano). Conforme o próprio autor: “No fundo, o leit motiv do romance é o conflito entre João Miguel e Penélope. Ele acha que a geração deles é a maior, trouxe uma imensa contribuição para a humanidade, citando Heráclito de Éfeso, para quem nunca ninguém se banha nas mesmas águas quando vai a um rio. Ela cita Hegel, segundo quem a história sempre se repete, é cíclica. Ou seja, o que a geração dos 60 fez foi repetir o que vem sendo feito desde Adão e Eva. O livro trata do fracasso da revolução política, que deu nas ditaduras comunistas; do fiasco da revolução dos costumes, que pregou o amor livre e terminou na
‘galinhagem’; do malogro das drogas que prometiam o céu químico e trouxeram o inferno da doença e da competitividade exacerbada; e, também, do sucesso da mulher, que liberou o corpo e dá uma aula de ética aos homens.”
Diante de tal esclarecimento, mais importante que tentar fundar uma teoria sobre essa obra, o que inclusive não caberia neste artigo, é lê-la, e tentar percebê-la como uma grande hipérbole de uma alma barroca em linguagem moderna, a descascar a aura de todo o romantismo e de todo idealismo da pretensa revolução social e de costumes promulgada pela geração dos anos 60. O desmonte do mito dentro do rito – o velório –: a impiedade até a morte, e a ousadia, a única aventura que tenta pateticamente sobreviver até a última cena, tão surpreendente quanto tola, como assim parece ser todo o exposto submetido à avaliação da impiedade e da insubmissão. “Caía aquele último dia, virando noite, mas todos os presentes puderam ver muito bem o fulgor boreal da pele branca da moça, que se despiu rapidamente, jogando a blusa, a saia, os sapatos e as meias na grama. Quando ela tirou a calcinha preta e a atirou sobre o caixão já meio coberto de terra, seus pêlos púbicos refletiram os últimos raios do sol, o fulgor rubro do dia extinto. Fazia-se tarde. Era apenas o fim.”
Ousar expor e expor o que ousa, ousando. Eis a fórmula que José Nêumanne utilizou para escalpelar a euforia dos anos 60, numa exasperante e paradoxalmente comovente narrativa, desesperada e terna. A obra convida a um velório que ressuscita carinhosamente, mesmo com todo ceticismo, o sonho, neste dia de finados em que concluímos este artigo e as personagens de papel parecem encarnar em nós, em tudo e todos a nossa volta. É corpo de um silêncio acordado que parece não tão cedo parar de ganir, de gritar, até que se decida: Valeu a pena? Quem ou o quê decidirá?
Sobre o autor: José Nêumanne Pinto nasceu em 1951, em Uiraúna, Paraíba, é casado e tem três filhos e um neto. Jornalista, escreve editoriais no Jornal da Tarde e artigos para O Estado de S. Paulo e apresenta comentários diários na Rádio Jovem Pan e na rede de televisão SBT. Escritor, tem, além deste, outros oito livros publicados: de poesia (As tábuas do sol, Barcelona, Borborema e Solos do silêncio), ficção (Veneno na veia), reportagem (Atrás do palanque e A República na lama), ensaios políticos (Reféns do passado) e perfil biográfico (Erundina, a mulher que veio com a chuva). Gravou poemas no CD As fugas do sol e organizou a antologia Os cem melhores poetas brasileiros do século.
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