SILÊNCIO REVELADOR

        Luiz Augusto Crispim

   


     
          Ainda não deu para encontrar José Nêumanne Pinto neste seu vôo rasante por Tambaú. No Recife, mês passado, fui à livraria Cultura para abraçar o amigo, que lançava o Silêncio do Delator. Conversa de livraria não vale. Faz lembrar os tempos em que eu – quase menino – espreitava os encontros de Cavalcante Proença e Carlos Drummond de Andrade na rua São José, por entre as estantes do mercador Carlos Ribeiro. 

        Longa é a pauta acumulada e vai do cumprimento dos mandamentos poéticos insculpidos na Pedra do Sol à suave lembrança de Dona Mundica. Mas não exigirá nenhum esforço concentrado para vencê-la. Nas assembléias do coração as matérias são aprovadas por aclamação. 

         Na ordem das prioridades, porém, eu tinha de lhe falar desse imenso velório nacional, dos silêncios que delatam as esperanças deste Brasil insepulto e belo, governado por um nordestino igual a nós. Precisava dizer-lhe que o melhor do Brasil não são os brasileiros, como pretende a propaganda oficial. O melhor do Brasil é o silêncio da pátria. Somos vítimas de tudo isso aí, mas não dizemos nada, fiéis ao martirológio do Sagrado Coração de Jesus em quarto de rapariga. 

        Vou esperar pelo novo reencontro. Espero que traga os seus personagens consigo. Esse tal de Marlon eu conheço de algum lugar. Tanto quanto o ex-comunista Ricardo e o artista Pepé. Quanto à viúva, não direi nada – por mero dever de discrição. 

         Na verdade, eu tinha uma certa urgência de dizer a Neumanne quanto é importante esse seu romance para a literatura brasileira. Mas aí veio Wilson Martins, valor maior alevantando-se, e disse primeiro. Arrebatou-me o gosto de proclamar. 

         Mesmo assim, ainda há muito por estudar nesse Silêncio do Delator. Talvez seja a primeira obra da pós-modernidade brasileira. Se for verdade que a História hauriu o seu derradeiro suspiro, no sentido puramente hegeliano da expressão, o romance de Neumanne é a vela acesa refletindo o brilho do olhar moribundo. 

          A estética literária banha-se nas águas da contemporaneidade. É inevitável. Quando Raskólnikov desfecha aquela machadada contra a velha usurária que o extorquia miseravelmente, todos os valores da velha Rússia czarista sangram das veias daquela mulher. 

         Neumanne apropria-se de todas as perversões e quizilas que infestam a alma nacional para construir esse monumento que é O Silêncio do Delator. 

         Esse espaço da pós-modernidade é seu. 

        Um espaço povoado da magia de um poeta inveterado, “cuja linguagem obedece mais ao ritmo do que à melodia”, como disse um dia Nelly Novaes Coelho de usa poesia. [«]


    © Correio da Paraíba, sexta-feira, 7 de janeiro de 2005 


   
   
    Fale com Nêumanne