| |
O momento primeiro é a reverência ao fundador da cadeira: Assis Chateaubriand, inquestionável mestre do jornalismo brasileiro.
O canto primeiro é um registro de respeito / admiração / carinho. Respeito ao seu fazer literário, à sua ação cultural. Admiração por seus atributos humanos e princípios éticos. Carinho porque dele só carinho recebíamos. Epitácio Soares – cronista da informalidade, jornalista ao calor da hora, pesquisador contumaz, produtor cultural apaixonado. Pita, nosso amigo. Um nome, uma legenda.
Sr. Presidente, Senhores Acadêmicos:
Aos estribilhos / extrabilhos de
Antonio Cadengue
Aos vãos / vagos / vagabundos pensamentos
de J.M.de Brito *
À “ecologia” de Sting.
Dedico eu.
*Advertência
Pirados todos na overdose de coca-cola e solidão. O consumo antropofágico e os auditórios narcotizados pelo son-risal. Os escombros e nós pedaços dessas ruínas. Bufão / Eros / Tanatos e o sentido dos abismos. O direcionismo da indústria cultural. Rei morto, rei posto...
É hora de contestação. Criar é palavra de ordem. Usar as próprias mãos. Alternativas novas vagando / navegando no íntimo da dor e do prazer cotidianos. A aura de não ter aura e o sacral dessacralizado. Nada de modelos aprisionadores porque o que vale é a emoção, o raciocínio corrido. Enredos múltiplos substituem a antologia do nada: o sexo, o homossexo, o circo, o clown, spleen, Godard, Glauber Rocha, a publicação fair-play, o poema-processo, os Beatles, educação mec / dusec, o diabo vestido de charlatão de aldeia, gagás com dor nas pernas, os políticos prometendo tudo, até a independência do Reino Unido da Sorveteria Flórida, a tropicália, o Chorus, Line, Lídia Batista cantando na rádio Borborema, Gil Gonçalves e Hilton Mota censuram o discurso moralizante, dandys pálidos como Carlos Agra adictos a xiliques, MR-8 vezes comício por dia, RM 80 favelas por ano, machadadas de assis, o banquete antropofágico, Jomard, Ipanema, Cadengue, a incomunicabilidade questionável, Leminski, anarquistas graças a Deus.
Ora direis ouvir... loucuras, dirá_ _ _ _ _. Novada! Todos nós nos ufamos desse país e temos nostalgia do último baile da ilha fiscal... São coisas passadas anatemizadas no deboche erudito da contemporaneidade. Europa / Brasil / Uiraúna. E foi sob o pluri-signo da transracionalidade escrachada e auto-gozadora que o fórceps do ginecologista Osvaldo Cascudo arrancaria a miopia simbólica de uma cabeça grande ( ).
“Ali mora o pai da mata”... Era uma vez uma bisavó chamada Laurinda, um avô chamado Chico Ferreira, uma avó chamada Quinou que, com João e Alexandre, formaram a pintainhada que produziu uma senhora chamada Dona Mundica que se casou com um bacana chamado Zé de Anchieta e que tiveram um filho lá nas terras do Rio do Peixe, nas horas da Ave Maria. Na solidão da casa-grande o menino “troncudo” cresceu ouvindo estórias da Mãe Inda, lendo as leituras do O CRUZEIRO / Luluzinha, Bolinha, escutando Orlando Silva na vitrola à corda, aprendendo o a – e – i – o – u – y com as “fessoras” Terezinha e Maria Claudino e sendo o primeiro da “tchurma” no Ginásio Afonso Pereira da “capital” uiraunense...
Universo de “causos” e duendes. O mandacaru ouriçado e o xique-xique sinistro. Mas, nada de realidades prontas ou acabadas. Expulsos da gramática alfabética, é certo. Livres, porém, dos cerimoniais hipócritas e dos mandarinatos improvisados.
Infância solitária. Infância-severina. Infância sem faroeste. Infância com luz de vela aumentando o diâmetro da lente grossa! Mas, infância oxigenada pela vontade unificadora de Seu Anchieta / Dona Mundica que, com o menino-grande, teceram sonhos na pureza da rede branca e cantigaram cantigas na cadeira que se balançava ao clarão do luar prenhe de esperanças.
Com força de cactus sertanejo e fé de Fabiano, JNP – mais campinense que muitos campinenses – desembarca em Campina Grande, sua primeira imagem mítica. Só poderemos captá-lo como ser histórico: Nêumanne é simultaneamente passado / presente / futuro!
Namorando Regina nas salas do Colégio de Damas, onde presidiu o Cineclube Glauber Rocha ou conversando com Borges no coração da Plaza San Martin. Aplaudindo as comédias de Oscarito no Babilônia ou relendo Picasso nos azuis do Prado. Tomando o sorvete da Brunella, curtindo a cartola do Cisne Lanches ou devorando chocolates e biscoitos dos free-shops internacionais... Gritando pelo “Mengo” no Maracanã ou acompanhando Tonho Zeca e Araponga no meio de campo do Campinense. Ouvindo Beethoven / Bob Dylan / João Gilberto ou Otacílio Batista e Diniz Vitorino – o sertanejo que hoje recebemos é a itinerância de sua própria atemporalidade.
Mas... a buchada e o cafuné, o doce de leite e os mimos da genitora não seriam encontrados no Gigantão da Prata, sob a regência de Raimundo Gadelha ou Juracy Palhano. Ali, a nota zero cobria os teoremas do Dr.Gióia, enquanto o excelente provinha dos metaplasmos ministrados por Argentina Brasileira e das cesuras escandidas por Neuma Fechine.
Do lado de lá, a noite escura de Uiraúna: a rua Nova, iluminada tão só pelos poemas de Bandeira e Castro Alves na voz de sua mãe. Desse trinômio Bandeira / Mundica / Castro Alves resultariam os poemas da primeira adolescência. Do lado de cá, a exposição do poema / processo no Teatro Severino Cabral.
Agente de qualidade por destino e por desempenho, reconhecendo a cidade trepidante e assimétrica, JNP urde logo a aliança novo / velho. Chupa caju com lapada de cana. Reconhece as veias / vísceras e vertentes da Londres Nordestina. Identifica-se com o registro polissêmico de Campina – falas fugazes, festivas, fálicas, famintas, fatais, funâmbulas! Campina: água-furtada de paixões! O menino de Dona Mundica come tapioca e agiliza a informação. É Campina falando para o mundo como no país de Blaise Cendras. E depois de tudo isso? “teje preso, aqui fala o Major Wilson Raizer”...
A Nêumanne nada importa. Reconhece a “cultura dependente em um país depenado”. E o gênio de Uirauna sabia que “lutar com palavras é a luta mais vã guarda”... Segue firme porque para ele não basta saber que Prometeu foi libertado; é preciso ter o prazer de libertá-lo (B.Brecht).
Regina, Regina, Regina do Céu... A maga que o salvaria de dois suicídios. O primeiro foi o internato no Instituto Redentorista Santos Anjos, em Bodocongó, onde nosso enfant terrible – durante 3 anos – aprendera cinismo e descrença... No fundo, no fundo, era o jovem que, sentindo o apelo atraente da Serra, fugia do marasmo sertanejo. Regina o livrou também dos vestibulares em Recife. Ao seu lado, Zé Nêumanne recusaria a Geologia para assumir o Jornalismo.
Não seriam fáceis também os dias iniciais no Diário da Borborema, onde atuou na coluna G.M. ao lado de George de Mattos, enquanto Luis Aguiar o adotaria como foca de reportagem policial. Mergulhava assim nas salas de éter do velho Pronto Socorro. E para livrar-se daquelas entrevistas com “valentes baleados à morte”, só mesmo uns “golinhos” de cachaça acompanhado do Grupo Levante: Aderaldo Tavares Ribeiro, Willian, Arnaldo Xavier e a própria “rainha do Céu”.
DOS DIAS DIFÍCEIS À CONSAGRAÇÃO DEFINITIVA
Parto e ferro-fórceps. Sertão iletrado. O irmão como amigo. Histórias do “coroné”. Avoamentos da casa-grande. As lições da mestra Palmira Ferreira Lima e as lições de Campina Grande. O trabalho, em João Pessoa, com Carlos Aranha. O Recife e o Jornal do Comércio.
O Rio de Janeiro, paisagem de vitórias. Uma passagem pela Editorial Bruguera. Crítico Musical da Revista Somtrês e colaborador das Revistas Vozes e Senhor - Vogue. Crítico de TV no JB, com o pseudônimo de Paulo Maia. Aos 33 anos (1984) assume a Chefia de Redação do JB, o segundo cargo mais importante do jornal. Foi também redator-substituto do Informe JB. Viveu dessa forma a fase áurea do Jornal do Brasil, ao lado de Walter Fontoura, Elio Gaspari, Paulo Henrique Amorim e José Silveira. A decadência do JB falava mais alto que a queda profissional do jornalista já consagrado internacionalmente.
Se caiu? Claro que sim. Mas, prosseguiu. Vencer não é chegar, é continuar. Sem corporificar o intelectual do esquema me cita que te cito e me publica que te recito, JNP continuou / continuará transgressor que não fataliza o erro, nem canoniza o acerto.
Em São Paulo, 1976, foi a luminosa a estrela na Sucursal do JB, então dirigida por Mauro Guimarães. Nesta época, em parceria com Maria Inês Caravaggi, idealizou a série de reportagens PERFIL DO OPERARIADO BRASILEIRO HOJE, que revelaria Luiz Inácio da Silva (Lula) ao Brasil. O fecundo estágio, sob a tutela de J.B. Lemos e Jaime Negreiros, na Sucursal da Folha, ensinar-lhe-ia as “manhas da reportagem e muitas das mumunhas da vida”. São desse tempo (1976) o Prêmio Esso de Informação Econômica (com Maria Inês) e o Troféu Imprensa do Sílvio Santos (com Paulinho Mattiussi) por aquela magistral reportagem sobre Eder Jofre e a decadência do boxe brasileiro. Foi também crítico de TV e criador do Caderno Dois de ESTADÃO.
Em junho de 1986, convidado por Miguel Jorge, assume a Editoria Política do Estadão, e, precisamente em 16 de maio p/p ascende às categorias de editoralista e editor especial do maior Jornal brasileiro – ancoradouro das exuberantes reportagens que JNP vem assinando no agora de nossa contemporaneidade.
Sem doutorado honoris causa. Diplomado nas escolas sem parede. Longe da “dedicação ô de casa”... Contra o vento e a favor dos movimentos, JNP é tensão nucleadora no jornalismo brasileiro.
A NOSTALGIA DESVAIRADA
Nêumanne está em São Paulo, sob a opulência da metrópole tão monopolística quanto autosuficiente. Desvairada e agressora. Sem o oxigênio comunitário da Serra em sua vocação transitiva. Sabe ele que a identidade se fortalece das diferenças.
Nêumanne está em São Paulo. Sem o toque da vida, sem relógios na madrugada temperada. Porém, em permanente diálogo com nossa cidade. Com a Escola de Constanza deverá ter aprendido que o diálogo é exercício de liberdade.
Como na durée bergsoniana, JNP está em Campina. Campina confluente e conflitiva. Multidisciplinar e ativa. Legionária e peregrina. Nêumanne contracena com nossa cidade e seus mitos. Faz a magia dos seus discursos e religa-se – ele, o homem e o poeta – à poesia de Biliu, aos teclados de Itamar e Geovaldo, aos clips da TV Paraíba, à retórica de Amauri, à tradição de Rubem Navarra, Figueiredo Agra, Paulo Pontes, ao cheirinho muito péssimo do Açude Velho, à pinga do Miúra II, ao sem gracíssima dos que zombam da Academia enquanto escondem o desejo de uma próxima vaga. Campina e suas contradições!
Nêumanne está em São Paulo trazendo os tempos para a festa do nosso tempo. No seu processo de desconstrução Epitácio Soares e Assis Chateaubriand estão mais vivos que o rei da vela e o arlequim desvairado. Na mesma mesa, Omega e Pedrosa. Na mesma praça, Cel.Salvino Antonio Silvino.
Sincronia e sinfonia de uma cidade. Campina, côncava e convexa. Fantástica e absurda como nos versos de Orlando Tejo. Campina pós-moderna resgatando a alegoria. Eis aí o non-sense do Maior São João do Mundo: Backtini e Joãozinho Trinta revisitados / repensados / recriados por Lucas Sales e Savini que, carnavalescos ou não, impulsionam os carros alegóricos do milho verde, das “virgens da seca”, do pé-de-moleque.
Desvairadamente. Com os desvios e desvãos da memória ou com os 300 eus de Otávio Paz, JNP funda o fragmento de uma cidade amorosa: sua / nossa Campina Grande!
A OBRA VALENDO POR SI
Crítico musical e crítico de cinema. Analista político dos mais festejados porque dos mais respeitados em nosso país. Acentuada inclinação para o romance-reportagem. Exímio manipulador de intertextos que desvelam, inquestionavelmente, seu sólido e vasto conhecimento. Entre os códigos que sabe trabalhar, destaque-se a beleza, a espontaneidade do discurso oral, interposto em sua obra com notabilíssima artisticidade.
Com esta acendrada vocação para a palavra, o homem-criança de Uirauna é autor de obras que engrandecem a bibliografia nacional:
- Mengele. A natureza do Mal. São Paulo, EMW, 1985. Por sugestão de Luis Fernando Emediato, seu grande e devotado amigo, José Nêumanne Pinto faz uma fusão de jornalismo, história e ficção para tematizar esteticamente o “caso Mengele” e fazê-lo romance-reportagem. É o repórter em harmônica convivência com o romancista. Parafraseando Benjamin e Adorno diríamos que em JNP jornal e ficção estão tão vivos quanto a própria dimensão fundadora do homem.
- O País que nós queremos. Elaborada antologia de depoimentos em torno da Constituinte: Lula, Antonio Ermírio de Moraes, Fernando Henrique Cardoso, José Mindlin.
- Itinerário Lírico de Campina Grande (Campina Grande, Epgraf, 1988). Foi a palestra de encerramento do VI Seminário Internacional de Literatura – nosso último evento à frente da Casa José Lopes de Andrade, depois de conduzi-la durante oito exaustivos anos. Uma conferência que coincide com a data em que deixamos a direção do antigo NELL para servirmos ao MEC através da FAE: 11/9/1987. Uma palestra transformada em livro pelo então Prefeito Ronaldo Cunha Lima que, a exemplo de JNP, sabe aprisionar emoções em palavras. O Itinerário é Campina / personagem, fluindo e refluindo nos teares do fantástico-maravilhoso, como se o poeta / sertanejo encontrasse na serra sua própria alteridade. Decerto, uma projeção especular.
- Erundina, a mulher que veio com a chuva. Lançado em várias capitais e hoje na Livraria do mestre Pedrosa, o novo livro também remete para nossa cidade, já que previamente comentado na varanda azul da Vila Nova da Rainha e parcialmente elaborado ali, no Ponto Cem Reis, em casa de Seu Aluízio e Dona Zezita – os pais de Regina. Um livro computadorizado no Olivetti M-15 trazido de Londres pelo autor...
- Co-autor do livro Partidos e Políticos, editado pela Editora JB, 1981.
- E já vem nascendo a obra Barcelona, Borborema, na qual, por supuesto, Campina é um duplo da cidade española e Joab é duplo de Gaudi ou Cornet...
Entretanto, nossas reflexões recairão sobre AS TÁBUAS DO SOL. E por uma razão muito simples. A gente louva a coragem de JNP. A isenção de sua crítica política. A feição documental, como se a verdade fosse mesmo a busca primeira de sua travessia jornalística. O Jornalismo do nosso homenageado não distorce a essência da verdade porque não abafa a liberdade. A gente enfatiza o discurso cáustico (viperino, não raro) de sua crítica d’arte (Lembrar a crítica aos Corais da FACMA...). Mas, a gente esquece que por trás do profissional, tão talentoso quanto independente, por trás do repórter tão observador quanto inflexível, nas rotundas desta ânsia de verdade, está o homem dengoso, está o poeta de rara sensibilidade.
Do homem mimado que fale Regina. Do poeta solar, falemos nós.
Nas “tábuas” o poeta é todos os textos para não ser nenhum. Sendo todos, ele é ele mesmo. O “sol” é conflito produtivo: o sentimento exige o raciocínio e a razão purifica o sentimento. O poeta sabe como ninguém colocar seriedade no jogo. Nada mais heterogêneo que a Modernidade! Sem alimentar os apetites vorazes do consumo, JNP recusa o gramaticalismo da língua e aceita a flexibilidade da linguagem. Seus poemas são antes estados de escrita. Em cada verso um silêncio de espera. Em cada estrofe o grito de uma busca.
JOSÉ NÊUMANNE PINTO – UM MALANDRO NO CONTRATEXTO (1987)
Demonstrando o caráter bivocal da palavra e seus variados contatos com outros discursos no interior de um mesmo texto, Backtin tratou o dialogismo como base do romance polifônico.
Kristeva, ao admitir que os enunciados estranhos se cruzam e se neutralizam, postula o texto como absorção e transformação de uma multiplicidade de outros textos. O diálogo poderá travaár-se externa e internamente. Utilizando-se das noções de contexto pressuposto, Kristeva considera o texto uma prática significante e os enunciados, um ato de pressuposição gerador de transformações.
Se a “pressuposição” opera enunciados de um texto e enunciados de discursos ausentes do texto, fica claro que a prática significante não é ato discursivo, ou seja, não pretendendo efeitos sobre o destinatário, o texto, enquanto pressuposto, é fundado por uma fábrica de sentidos (escritura). De acordo com esta ótica, já não se pode falar de “um sentido” que se exprime porque o sentido irrompe do processo de produção textual.
Roland Barthes, por sua vez, pensou o texto como tecido trabalhado através de um perpétuo entrelaçamento.
Para Sollers um texto escreve-se com textos, não somente com palavras ou frase. Desta lei fundamental da escritura, não obstante diferenças específicas, nascem os conceitos de intertextualidade geral, restrita, externa e intensa. Surgem a paronomásia, a amplificação, a hipérbole e as inversões como figuras intertextuais. Desenvolvem-se os processos intertextuais de Paul Zumthor: variação, duplicação e concussão. Aparecem as noções de texto e contratexto. Crescem os estudos sobre hipertextualidade, hipotextualidade, autotextualidade, etc. enquanto categorias centrais da transtextualidade.
A teoria transtextual enfraquece os enfoques que reduzem o texto a pura representação e permite levantar sentidos até então ilegíveis para a crítica mimética. E, ao procurar formular os diferentes tipos de discurso, a Teoria Literária estabeleceu, igualmente, as relações entre eles de acordo com a função significativa de cada um. Isto porque um texto poderá significar pela relação com seus referentes ou com contextos aos quais remete. Para Lotman, por exemplo, a repetição é o contato necessário e permanente entre os textos. Desde a palavra dialógica de Baktin, Kristeva enfatizou que “a palavra no texto está orientada para o corpus literário anterior ou sincrônico”.
Sem adesão aos métodos exaustivos, pretende-se examinar a transtextualidade em As Tábuas do Sol. E por duas razões não se tentará descobrir a procedência dos textos intercalados e assimilados: a) o entendimento do hipertexto independe dos hipotextos; b) este livro poderá ser lido em si mesmo de modo suficiente.
Em As Tábuas do Sol, os discursos intercalados não devem ser analisados como fios independentes: eles perdem a autonomia no momento em que condicionam o sentido global da poesia.
DA VARIAÇÃO AO CONTRATEXTO
Antepondo citações de Mane Caixa d’Água e Robert Bly, JNP abre e fecha seu livro com meta-epigramas: Departamento de Águas e Energia Elétrica e Poética. A obra divide-se em cinco partes: Atena, Apolo, Afrodite, Marte e Orfeu. A transposição icônica dos mitos desvela a identidade cultural do autor estabelecendo um forte relacionamento entre a onomástica e o texto poético, de sorte que cada subdivisão reenvia a uma mesma estrutura sígnica.
Possuindo um tema e emitindo uma mensagem fundamental, as unidades constitutivas (poemas, mitemas ou mitopoemas) não oferecem a lógica da continuidade: o significado será encontrado na combinação e transformação de elementos diversos. Entretanto, essa ausência de desenvolvimento temático não impede a similaridade que recorta as Tábuas do princípio ao fim. É que operando com códigos de significação diferentes, JNP acentua a construção dialógica dos seus poemas, transformando-se a obra num palimpsesto.
A ciclicidade dos códigos, alternando permanentemente o metapoético, o humorístico, o onomástico e o oral, remete às noções de repetição e paralelismo postuladas pela Teoria da Literatura.
Apresentando diferentes modalidades, o procedimento intertextual de JNP segue a técnica do ocultamento: os hipotextos, inteiramente assimilados pelo relato, não oferecem nenhuma referência explícita, embora a semelhança com o corpus imitado seja evidente e perceptível. A manipulação dos discursos estranhos, ao invés de gerar meras reproduções, conduz a uma reelaboração dos textos que, agrupados ao ritmo poético, adquirem novos sentidos. Sem criar distanciamentos entre leitor e tecido poético, as unidades significativo-culturais de As Tábuas são assimiláveis e cumprem a função artística no plano geral da obra.
VARIAÇÃO. As epígrafes, as dedicatórias, a onomástica e as referências explícitas ou implícitas corporificam o código de citação onipresente nas cinco séries de As Tábuas do Sol.
Enquanto a memória ancestral esconde-se na cadeia mitológica (Atena, Marte, Orfeu, etc), as reminiscências são manifestas em poemas como Bumba (88), Jiqui (89). O ritmo nostálgico de Seresta Sertaneja (“E era assim blue meu sertão azul”) e o mergulho no passado perdido de Na Casa Avoenga (“Assim era o sertão / na Fazenda Rio do Peixe, / de onde fui vindo”) inserem o registro memorialista no contexto poético de JNP.
Já a paródia, depois de insinuar-se em poemas como Idade da Pedra, Lição de Casa (28), Xenofobia Oswaldiana (29), Fuga de Baque, A Seara de Saramago (44) etc instala-se definitivamente em Martelo (96):
As armas e os barões assinalados,
as almas e os pavões embriagados,
as palmas e os dragões assassinados,
as tramas e os poltrões enfileirados,
as camas e os portões sempre fechados,
os dólmãs e os galões abotoados.
Que da ocidental praia lusitana
e da original saia da baiana,
linha vertical da jóia africana,
traço oriental que a laia engalana,
pelo doce mel da cana caiana,
alma brasileira a ninguém engana.
Por mares nunca dante navegados,
alteres que garantem consagrados,
esgares, dor e espanto conjugados,
olhares, assim mansos, acanhados,
cantares, diamantes burilados,
por ares, luz e encanto já trilhados.
AUTOTEXTUALIDADE. Suprimindo, adicionado ou condensando, JNP obtém transformações semânticas e estilísticas que imprimem o caráter de autotextualidade ao seu livro: os poemas se remetem um aos outros dentro da mesma obra.
Dialogando consigo mesmo, o texto de JNP entrelaça-se permanentemente com invariantes que transformam a obra numa espécie de todo indissolúvel. A diversidade temático-formal da obra corporifica a intertextualidade intensa.
A figura do narrador, por exemplo, ora atua em foco extradiegético (“Sócrates tem manobras / de espadachim, / o quinto dos três mosqueteiros” - p.52) ora o eu assume a focalização (“Nesta noite estrangeira / aporto em teu leito / como quem chega de viagem...” – p.71).
Também autotextual é o jogo da linguagem. Há um cruzamento simultâneo do direto (“Esta língua é meu berço / esta língua me conhece, / esta língua é meu caixão” - p.47), do poético (“Sonda, / no silêncio, / as vozes do futuro” – p.47), do epigramático (“O preço da licenciosidade é a eterna militância” – p.32) e, primacialmente, do discurso oral (“Pára o andor que o santo quer mijar” – p.33).
A irregularidade dos poemas assentados em estrofes heterométricas e heterorrítmicas e o entrelaçamento função poética / função referencial consumam a oralidade de As Tábuas remetendo para a ambigüidade que a recorta.
Considerada como contratexto ou contraverdade a obra de JNP encontrará sua explicação mais definitiva já porque na sua variação e auto-textualidade, as Tábuas transgridem sentidos estabelecidos. A análise de sua relação com a mitologia pagã e com os outros textos que lhe são anteriores (cancioneiro brasileiro, ritmos da literatura popular, obras da literatura universal etc) caracteriza-a como diálogo polêmico que faz da expulsão de certas leis textuais a sua própria lei.
Se todo significado – de acordo com Kristeva – é a lei do discurso que o transporta, a obra edifica seu sentido recusando, implícita ou explicitamente, o sentido dos textos da série discursiva. Eis o contratexto.
Vale dizer que os sentidos de As Tábuas são produzidas a partir da coexistência dos discursos incluídos ou excluídos: JNP esconde e manifesta, recusa e aceita concomitantemente os textos transformados. Os discursos estranhos não são desqualificados, de sorte que o procedimento intertextual transforma-se numa relação intratextual onde tais discursos são implicitamente desvalorizados pela poesia instauradora do autor.
Veja-se portanto a tranetória contratextual na busca do seu próprio sentido, de sua própria lei:
a) Desvalorizando textos da série discursiva, a poesia de JNP define-se como transgressão: os versos de Eliot (cf. à Ludwig Von, p.31), a sintaxe “biomineral” (cf. Augusto dos Anjos, p.46) e o modelo do epigrama canônico (cf. Fuga de Baque, p.32) são desmistificados pela antilei em que se transformam As Tábuas.
b) Produzindo-se explícita (cf. Letra para Lennon e McCartney, p.92) ou implicitamente (cf. Picasso Andaluz, p.48), o diálogo polêmico de JNP institui o predomínio do texto reescrito sobre o texto escrito.
c) Utilizando-se da variação como suporte principal de sua (re)escritura, JNP nega a convenção mitológica e obtém o contratexto artisticamente superior. Atena, por exemplo, já não solta seus fortes gritos de guerra: da caixa de Pandora tanto pode saltar uma buzinada do Chacrinha (cf.Cosmogonal, p.19) como a lua do Açude Velho (cf. O astronauta de Campina Grande, p.34). Apolo não é atualizado como deus vingativo transportado por cisnes sagrados. Ao invés de jogos fúnebres, a cítara apolínica ídolos para fecundar jogos metapoéticos. Além de abrir-se e fechar-se metapoeticamente, os exercícios sobre a escritura presidem a harmonia estrutural de todas as séries, voltadas, não raro, para artistas consagrados e conceitos de arte poética.
Se o procedimento de alusão caracteriza poemas como A Serra de Saramago (p.44), Augusto dos Anjos (46), Picasso Andaluz (p.48), o fenômeno poético aparece claramente tematizado em Gerard Manley Hopkins & Octávio Paz ( ), Vida de Artista (p.56), Poesia e tentação (p.43) etc. Veja-se a título de exemplo, este Axioma Nordestino (p.87).
“poesia é semente?
poesia é fermento?
poema é fruto.”
A transcrição de versos (palavras ou frases) intercaladas nos poemas constitui outra modalidade intertextual de JNP: “You are / my sunshine” (in Vesperal, 35) ou “Vamos fumar o cacto da paz / a dois / because I do not hope to turn again”) (p.83).
Os “mitemas” de Afrodite não apresentam um grande distanciamento na versão individual do autor. Embora o mito seja constituído por todas as versões possíveis, a série “afrodisíaca” não desvia a norma: os poemas se identificam com sonhos de carne, desenham mapas de desejos, metaforizam o próprio corpo. Atualizada em Genitrix (cortesã), Anósia (ímpia) ou Regina (a musa maior), Afrodite engendra um perfeito relacionamento entre hipertextualidade e hipotextualidade. Daí, a ambientação estilística, com gosto de romã e cheiro de mirto, puxando pombas em conchas de nácar cor-de-rossa... Veja-se o êxtase do narrador entre o “caroço nu” e “o templo úmido”: “Deixa eu beber / teu vinho espesso, / morder o caroço nu / de tua voz no fogo, / penetrar o templo úmido / deste inteiro corpo / cru / e cantar salmos profanos, / uma oração sem regra / no ritmo dissoluto dos sentidos” (p.65).
O texto de JNP nega o pai das Amazonas ou de Rômulo e Remo e bane mantos e bastões de comando. Os mitologemas da coragem e da guerra, remetendo aos campos do cangaço e aos espaços do galope, corporificam pelejas travadas no clima rude dos sertões nordestinos, onde Lampião e outros heróis são legendas de amor à terra e ao sangue. O objeto mítico desempenha, pois, as funções de deus nordestino e ritmo popular. Tanto pode ser o punhal de Corisco, como a vida de Romão Batista: “O punhal mais fino de Corisco / e a palavra quente de Romão Batista” (Cangaceiros e Fanáticos, 78).
Orfeu já não atualiza o filho de Calíope descendo aos infernos em busca de Eurídice. Mitologemas de luz e felicidade intertextualizam músicas, parlendas, advinhas, cantigas. São os poemas-canção atenuando desgraças e anunciando paz.
“Todo som que me vier
do bojo da rabeca de Bié.
como chuva na telha
e sabor de leite coalhado
com rapadura rapada
- eta emoção!” (p.90)
Conclui-se que As Tábuas do Sol instituem a oposição escritura verossímil x escritura inverossímil, ou seja, o texto transformador (reescrito) é negativo, enquanto o texto transformado (aquele que reserva) é positivo.
No momento em que o autor desvaloriza a lingüística, a mitologia, os gêneros literários etc., sua obra passa a produzir significados que refutam estes significados anteriores.
Tem-se que os códigos desmistificados são inseridos literalmente no texto da As Tábuas põem tais inscrições em novo espaços axiológicos que desacredita suas convenções.
A POLIFONIA DO MALANDRO
Com Silviano Santiago “As palavras de outro têm a particularidade de se apresentarem como objetos que fascinam seus olhos, seus dedos, e a escritura do texto segundo é em parte a história de uma experiência sensual com o signo estrangeiro”.
As conexões intertextuais e intratextuais de As Tábuas são esse jogo “com os signos de outros escritores” e escrituras. Os textos importados são negativizados e a pluralidade advém do entrelaçamento.
Através da hipotextualidade, o poeta viaja para reordenar a palavra: o agrupamento de elementos da tradição e do presente refaz a obra a todo instante para que As Tábuas produzam um livro às avessas. Os cinco conjuntos guardam o conteúdo dos hipotextos, porém o desvio resta assegurado. O fio metaliterário, sustentáculo da semalhança entre seqüências contíguas, sugere a alegoria criador x criação.
Neste trabalho transformador desconvencionaliza-se o Olimpo e recria-se o contexto mítico no qual “Ainda há náufragos / agarrados à tábua do sol / e a este tédio todo” (p.21). Uma vez dessacralizados, Atena, Apolo, Afrodite. Marte, e Orfeu poderão ser duplos do autor. Não no sentido de passivos reflexos, mas naquela direção que distorce a imagem original e funda as diferenças: ao invés das redundâncias do mesmo, tem-se a tensão perquiridora do outro. As Tábuas deixam de ser espelho porque projetam luminosamente a reinvenção de JNP. É quando os mitos transformam-se em puro objeto estético e a consciência arquetípica do poeta enlaça-se à emoção nordestina e à comunicação poética.
Os amigos e autores citados, as leituras mencionadas, as referências não-nomeadas, dilatam a transtextualidade acelerando, dessa forma, o ritmo dialógico.
Outros modelos participam de As Tábuas por meio do epigrama. Gandhi, James Bond, o cão andaluz, Oswald de Andrade, o “leão da Metro”, Octavio Paz, o football, o cangaço, a odontologia etc., são tratados satiricamente prozindo a vertente histórico-cômica da obra.
Como se percebe nos poemas da série órfica, a música entra na tecelagem de JNP: o cancioneiro nacional é um dos pilares na arquitetura lírico-musical.
Se diversificadas as variantes de um mito, mais diversificados os poemas de JNP, em que pese o menor ou maior grau do desvio. Entretanto, ao reescrever mitos e/ou subverter avatares de múltiplas escrituras, o autor esconde na aventura paródica da linguagem a contigüidade estilística de sua obra. Vale dizer que os discursos consumidos corporificam o texto referencial que encaminha As Tábuas ao terreno da metapoesia.
Na metaliteratura As Tábuas encontram sua unidade. Através da ironia e da paródia, o autor despolitiza enunciados para contestar a retórica tradicional. E ao apropriar-se parodisticamente das séries exteriores obtém o lastro jocosamente contemporâneo de suas “Tábuas”. A dimensão paródico-referencial é mantida em cada um dos cinco conjuntos.
No jogo de referencialidade e identidade, o texto estranho é tão episódico quanto as máscaras da paródia. Tal qual um “baile de máscaras” onde escritores / personagens, seriedade / anti-seriedade, poesia / música, real / sonho, pessoas / personae, palavra / imagem falassem o diálogo subvertor. E, alterado pela operação paródica, o poético consuma uma polifonia em que o epigrama contém o discurso da seriedade.
É, pois, na direção do dialogismo, enquanto base da paródia, que As Tábuas carnavalizam verdades acabadas, autores-modelo, gênero consagrados. Sua investida contra automatismos lingüísticos e literários termina por anarquizar metáforas e fortalecer o desconvencional espaço do carnaval.
De “tábuas” o palco para a dinâmica da crispação. De malandragem os diálogos do poeta. Eis o lugar certo de As Tábuas do Sol. Aí, onde as vozes do malandro invertem a escrita e produzem uma berceuse para o futuro.
José Nêumanne Pinto – o malandro. As Tábuas do Sol – uma paródia da metáfora brasileira!
A CONTRA-IDEOLOGIA POR CONCLUSÃO
JNP reapropriou-se de discursos anteriores e contemporâneos não só para afirmá-los ou nega-los: há entre As Tábuas do Sol e o corpus que o precede um verdadeiro ato de posse. O texto vai se fazendo à medida que o autor vai possuindo os enunciados estranhos para que seu próprio texto se confirme como trabalho transformador.
Utilizando-se da liberdade por ele buscada e conquistada, o poeta recupera o projeto no qual ele – JNP – é o próprio modelo.
Para compor seus Fragmentos, Roland Barthes agarrou-se a pedaços de várias origens, inclusive aos pedaços de sua própria vida. As Tábuas do Sol são também um discurso amoroso. Um tableau de fantasias lingüísticas e literárias denunciando nostalgia da terra. Um amor que JNP quer disfarçar na mutabilidade da paródia e na referencialidade das obras por ele re-poetizadas.
Consciência arquetípica ou polifonia de malandro. Destronizamento de metáforas. Nada importa. O que conta é a oralidade do discurso, a substantivação da linguagem, a concisão epigramática unindo “as tábuas”, enquanto produção, enquanto poesia em si.
Posse, experimentalismo, amor: deste colóquio surge o novo sem nenhum enfraquecimento da ambigüidade que perpassa a obra. Descolando-se do real, o ideal impulsionará os quatro braços de Sol que, reanimando os campos selvagens da Trácia nordestina, oferecerá à alma brasileira “a jóia africana” e “o doce mel da cana caiana” (p.96)
Orfeu? não será um quinto braço... Apenas outra ruptura de JNP indiciando cítaras que não calam feras porque sopram “cantigas de ninar”. Neste futuro órfico já não é dado falar-se de “tédio” e tábuas de salvação. No próprio Sol o poeta encontra a energia que infunde vida ao poema: “poesia é semente? / poesia é fermento? / poema é fruto” (Axioma Nordestino, 87). Debaixo do Sol haverá sempre um espaço “para causticar o que mereça cautério ou para ironizar o próprio afã do causticador”:
“palavra
Mais dissoluta
e puta
e pura
o poema” (Poética, p.99)
Entre o sentido articulado e o sentido silenciado situam-se os deuses como guardiães do poema. Situa-se o Nordeste como mito no inconsciente do autor, situando-se As Tábuas como seu melhor arquétipo.
Do primeiro ao quinto estende-se o itinerário amoroso de JNP: seu reencontro com a vida, raízes míticas de sua própria nordestinidade. E só nesta perspectiva múltipla é que o texto de JNP poderá ser lido, o diálogo dos paradoxos, a tensão nunca desfeita”, de acordo com Maria do Carmo Lanna de Figueiredo em estudo sobre Osman Lins.
Com esta ótica pode-se perceber a recusa polêmica fazendo da reescritura o processo dominante do texto: sua matéria estabelece o diálogo entre o transformador e o transformado. Tal polêmica, por seus mecanismos de inclusão e exclusão simultâneas, confirma a antilei.
Realmente todo processo intertextual é transgressivo. A reescritura, entretanto, é transgressiva e crítica. Ao violar as leis de gênero, o autor constrói um novo gênero. Da sedimentação de textos e leituras ao entrecruzamento de escrituras, irrompe a força crítica de JNP na superioridade artística do seu palimpsesto.
Ao negar textos estabelecidos o poeta está praticando a escritura subertida. Instalando-se como escrita transformadora (reescritura) a obra é contra-verdade, é anti-significado. Uma contra-ideologia, dir-se-á. Logo, As Tábuas do Sol são as vozes contra-ideológicas do contratexto. E JNP um malandro neste colóquio de diferenças...
E agora, para encerrar, estamos falando diretamente dos studios da Rádio Borborema. Ao nosso lado a Prefeita Erundina, o vanguardista Antonio Cadengue, o pós-moderno Jormard M.de Brito, o clean Juarez Batista e o new-hippie Biu do Violão.
- Lembrança? Das noitadas em casa de Mane Barros, no bairro da Prata.
- Guru Jornalístico? Fernando Pedreira.
- Grandes paixões? Jorge Semprun, Vargas Llosa, Whitman, Yeats.
- Fixações? Trotski, O Grande Terror Stalinista, Victor Serge, Gaudi, Manuel Bandeira.
- Contemporaneidade portuguesa? Sophia de Mello B.Andresen.
- Poetas maiores? César Vallejo, Vicente Huidobro, Antonio Machado, Vicente Alessandro.
- Referências obrigatórias? Grande Sertão: Veredas, Antes que me esqueça, Os Sertões.
- Títulos que recomenda? Kyra Kyralina.
- Totens cinematográficos? Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, Sétimo Selo.
- Literatura Russa? Ossip Mandelstam
- Sonho? Ser Robert Bly ou Mane Caixa D’Água.
- O maior repórter? Mané Alexandrino Leite.
- Estilo? O do Epitácio Soares.
- Mestres? Moacir Japiassu, Gonzaga Rodrigues e Joel Silveira.
- Elitismo anti-nordestino? Paulo Francis.
- Música Brasileira? Zé Ramalho, Cazuza, Marines, Elbinha, João Gilberto, Gal Costa, Milton Nascimento.
- Instante? Dormir à beira mar ou sob chuva no telhado.
- Cardápio? Queijo do sertão e buchada.
- Um modelo de felicidade? Ver Benny Carter e Alberta Hunter. Conversar com Borges. Ser amigo de Saramago, Fagner, Amelinha, Juliano Tavares, Julinho Mesquita. Participar do lançamento inicial de Lula. Acompanhar a carreira de Zico e ver Pelé jogar no Maracanã. Tomar pinga com caldo de peixe no bar do Pilon. Ser filho de Anchieta e pai de Vladimir, Clarice, Cecília. Ter Mundica como mãe e Regina como esposa. Pertencer à Academia de Letras de Campina Grande.
- Sistema político? Sou um liberal.
- Pintura? Goya, El Greco, Picasso.
- Inveja? Dos casais campinenses em suas lindas evoluções coreográficas no forró do Spazzio.
- A grande saudade? Respondemos nós a última pergunta.
Nêumanne, amigo / irmão: há lugares vazios neste auditório... Espaços, Dona Mundica, que não serão preenchidos por ninguém. Mas, que fazer? Que fazer, se Seu Anchieta tomaria do texto e com ele riscaria o percurso inesperado... Sim, era teu pai, Nêumanne, reescrevendo o Itinerário Lírico de Campina Grande nas direções do Infinito!
Cá ficamos nós! Eu e você marcados pelo 88... Mas, “vivendo e fazendo por memória e em memória deles”. Assim, Nêumanne, tu mo ensinaste!
Com Julian Marias, sabes tu, Nêumanne, que “Hay manos que se juntam y al juntarse se agrandan”. Ao receber-te a Academia de Letras de Campina Grande nos tornamos maiores. E as luzes se re-acendem no Açude Velho! Muito obrigada.
|
|