UM MESTRE DO ROMANCE

Eustáquio Gomes

   


      
           José Nêumanne é a verve mais candente do jornalismo brasileiro. Sua capacidade de construir artefatos verbais na imprensa diária não tem paralelo entre nós. Agora Nêumanne coloca essa capacidade inusual a serviço da literatura de ficção. Poderia ter falhado e se afogado no discurso normativo das redações. Não só isso não aconteceu como Nêumanne escreveu um romance que deve marcar 2004 como “o ano de O silêncio do delator”, tal como Canaã marcou 1902 e Cabeça de Papel marcou 1977. O silêncio é o melhor romance de sátira desde Paulo Francis.
Romance-síntese, O silêncio consegue a proeza de juntar as pontas do último meio século lançando uma espécie de arco voltaico que se estende do fim da II Grande Guerra à queda das Torres Gêmeas. E com isso faz o inventário da estética e da política, da utopia e do desencanto desse conturbado e fascinante período, traçando um vivo retrato de uma geração que se queria iconoclasta e terminou conformista. Com a ação fixada no início do século XXI, os personagens recuam no tempo e purgam sobretudo o sonho político-cultural da década de 60, de onde muitos emergiram como “revolucionários” para se transformar nos “conservadores desenganados” de hoje; e, embora Nêumanne não o diga, alguns deles chegaram ao poder. 
Nada melhor que um morto para dizer as verdades que os vivos relutam em admitir. O protagonista do romance, tal como o Brás Cubas das machadianas memórias póstumas, é quem dita o andamento da narrativa. Outras seis vozes fazem contraponto a essa voz que já nada tem a esconder. Sem pretender inovar na frase, sempre fluente e rítmica,             Nêumanne inova entretanto na estrutura narrativa, que é circular. Tem-se então um romance de linguagem madura, que exige do leitor participação ativa e um nível de informação cultural que ultrapassa a mediania. 
            Nêumanne coloca-se na linha dos grandes narradores caudalosos, cujo estilo necessita de espaço e que, entretanto, nunca pecam por excesso de palavras. A isto se chama controle da linha narrativa, detalhe logo ressaltado por Wilson Martins, o principal crítico brasileiro há bem já trinta anos: “Dominando a complexidade da intriga e a estruturação cronológica, José Nêumanne assume o seu lugar entre os mestres do romance contemporâneo, tanto mais que tudo [em seu romance] resulta de rigorosa planificação”. (Eustáquio Gomes)



Eustáquio: Para o crítico Ipojuca Pontes, O silêncio do delator é o primeiro grande romance brasileiro do século XXI. Você tinha essa expectativa ao escrevê-lo? 

Nêumanne: Não tenho essa pretensão, é claro. Só teria se fosse mais cabotino ainda do que me permito ser. A visão de Ipojuca é generosa demais. Ele é um sujeito culto, leu muito e sabe das coisas, mas é meu amigo e a amizade influiu nesse juízo de valor. Sinval Medina, autor de A faca e o mandarim, romance também lançado pela Girafa, comparou meu romance com Encontro marcado, de Fernando Sabino, e Quarup, de Antônio Callado. O primeiro é a obra-prima dos romances de geração na literatura brasileiro. O segundo, um texto marcante em minha formação. É muita areia para meu caminhãozinho. Só com o tempo se saberá se houve exagero nessas avaliações. Mas não estou preocupado com comparações. Só quero que as pessoas gostem dele. 

Eustáquio: O romance faz o inventário de uma geração que, no último meio século, acreditou poder fazer a transformação social do Brasil. O tom pícaro dos personagens dá a entender que eles não chegaram lá, embora alguns deles tenham chegado ao poder. Essa geração fracassou ou apenas corre o risco de fracassar? 

Nêumanne: Desde 1984, quando escrevi a primeira versão malograda do texto, minha proposta era escrever sobre o fiasco de minha geração na revolução política, que terminou nos Gulags da esquerda e nos porões da direita. E do amor livre, que terminou na “galinhagem” generalizada. Ao escrever, me apareceu um raio de luz nos porões: a mulher. Ao escrever o livro, saquei que o saldo ético favorável da luta de minha geração foi a conquista da posse do corpo e do ofício pelo gênero: esperança e ética são substantivos femininos. 

Eustáquio: Seus personagens, ao abandonar as “mitologias revolucionárias”, no dizer de Ipojuca Pontes, também desistem da ética igualitária e até adotam um certo cinismo pragmático. Ou seja, a utopia morre e seus crentes terminam acanalhados pela dinâmica da história. Isto é ficção ou faz parte da vida real observada pelo autor ao longo dos anos? Trata-se de um roman à clef? 

Nêumanne: Não, não se trata de um roman à clef. Não contém tipos retirados da realidade nem é autobiográfico. Só se eu fosse mais maluco do que já sou se me achasse parecido com um canalha como o protagonista João Miguel. Mas é claro que o texto resulta de observações e vivências do autor. E há coincidências engraçadíssimas: só lendo o simpaticíssimo texto de Walter Fontoura na Folha de S. Paulo sobre o livro reparei que Marco Antônio, o Coelho, remete a Marco Antônio Coelho, militante comunista e meu amigo dileto. E que Ricardo Azevedo, o militante comunista negro que vira ministro, é homônimo de um militante petista, filho de outro querido amigo, Clóvis Azevedo. Mistérios da criação! 

Eustáquio: Você tem sido um crítico feroz do governo Lula em seus artigos no Estadão. Suas críticas estão centradas sobretudo em questões éticas, refletindo um desapontamento parecido com o rastro de desencanto deixado pelos personagens de O silêncio do delator. Há relação entre o romance e o jornalismo de opinião praticado por José Nêumanne? 

Nêumanne: Deus queira que não. Ernest Hemingway dizia que o bom escritor deve passar por uma redação de jornal, mas tem de sair. Eu continuo numa redação, mas espero deixar nela os vícios de jornalista. Ruy Fabiano, que foi colunista de política em Brasília e saiu da imprensa para ser escritor, acha que os vícios de jornalista deslustraram meu romance anterior, Veneno na veia. Concordo com ele. Mas tenho fé de que eles não destruam este. Espero ter me livrado deles, ao escrevê-lo. 

Eustáquio: Entre editoriais para o Jornal da Tarde, artigos para o Estadão e outras ocupações em rádio, TV, como lhe sobrou tempo para escrever um romance de mais de 500 páginas? Qual foi a sua rotina durante a redação desse livro? 

Nêumanne: Em 1984, escrevi o primeiro rascunho do romance. Chamava-se O enigma do vôo 160 e o texto era tão ruim como o título, como atestou o poeta Álvaro Mendes, a quem submeti o sacrifício de lê-lo. Álvaro era meu subordinado no Jornal do Brasil e constatou o malogro de minha tentativa de ser o “James Joyce de Bodocongó” (bairro de Campina Grande, onde estudei no começo dos anos 60). Pouco depois, tive a idéia de incluir as letras de Sergeant Pepper’s lonely hearts club band para comemorar os 20 anos do lançamento desse álbum clássico dos Beatles. Só que a idéia continuou confusa e foi arquivada. No ano passado, ao ver As invasões bárbaras, o filme do canadense Denys Arcand, tive a impressão de que ele havia filmado o romance que eu não escrevera. Aí, parti para a luta: de segunda a sexta, das 8 ao meio dia, no computador da Girafa Editora, um capítulo por semana. Cumpri o pacto que firmei com meu analista, Humberto Mariotti, que me estimulou a escrever o livro como se fosse um “dever de casa” da terapia, e com meu amigo e editor Pedro Paulo de Sena Madureira, que ainda me presenteou com o belíssimo poema Inventário, que serviu de esqueleto ao texto. Eu sei que esta resposta está se alongando, mas para ser completa ela precisa conter ainda a constatação de que o pior de tudo não era a questão tempo. O problema é que a narrativa veio como um jorro e eu tinha de cuidar do meu dia. Como interromper a emoção no meio do dia, tratar do cotidiano e no dia seguinte voltar a domá-la – eis o busilis. Aconselhei-me com o cineasta Ipojuca Pontes, que lida com atores e sabe que truques eles usam para retomar a emoção de uma cena interrompida. Ele me sugeriu adotar técnicas proustianas (usar um perfume, comer um doce, etc.). Mas não deu certo, até porque já estou gordo demais. No fim, valeu a rotina. Acordava de madrugada, saía de casa cedíssimo, vinha para a editora, me trancava na sala e deixava o texto sair. Dava a hora, ia embora para o jornal cuidar de editoriais e comentários. Difícil era segurar a barra emocinal no trânsito. Ainda bem que o trânsito é sempre ruim em São Paulo e eu tive tempo para me sintonizar ora na emoção do livro, ora na lógica do cotidiano. Mas estive a pique de enlouquecer. Não foram poucos os dias em que chorei feito um bezerro desmamado ao volante. Já pensou que cena incrível?! 

Eustáquio: Houve um certo burburinho sobre um incidente com a Rede Globo logo após a publicação do livro. Você gravou uma entrevista para o programa da Ana Maria Braga que acabou não indo ao ar. O que aconteceu de fato? 

Nêumanne: Sou amigo de Ana há mais de 30 anos e ela é uma pessoa muito generosa. Ela ficou entusiasmada com a idéia de me entrevistar no dia do lançamento ao vivo, mas tinha de viajar para Natal e gravou a entrevista dois dias antes. Ao ver a gravação, Alice Maria, responsável pelo jornalismo nos programas de show da Globo, proibiu sua veiculação, alegando que eu trabalho no SBT. Não acredito que o Jornal do SBT ameace o monopólio de audiência da Vênus Platinada. Portanto, atribuo a decisão estúpida à inimizade pessoal gratuita dessa senhora, que tomou as dores de seu protetor, Armando Nogueira. Quando eu era crítico de TV do Jornal do Brasil, lembrei que o general Médici usava o Jornal Nacional que ela e ele produziam como prova de que, enquanto o resto do mundo era conturbado, vivíamos aqui em plena ditadura militar num lugar paradisíaco. Mas isso não tem importância nenhuma, a não ser pela saia justa com minha amiga, que, aliás, num gesto de simpatia incrível, mostrou a capa do livro e noticiou o lançamento, me elogiando muito. 

Eustáquio: Ao colocar um defunto testemunhando o próprio velório e narrando sua vida pregressa, você estabelece um vínculo narrativo com o Brás Cubas de Machado de Assis. Quais são seus paredros na história da literatura? 

Nêumanne: Na verdade, quando resolvi escrever o romance, estava lendo Fazes-me falta, da portuguesa Inês Pedrosa, que narra um diálogo entre uma morta e seu amante no velório dela. Mas Machado estava no meu inconsciente, porque, para mim, fica o topo do pódio. É claro que adoro as Memórias póstumas..., mas tenho mesmo uma queda especial é por Esaú e Jacó e Memorial de Aires, seus romances da senectude. Considero O estrangeiro , de Albert Camus, e O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, os textos de ficção fundamentais do século XX. Mas acho que, em matéria de prosa, o texto que aponta para o século XXI, embora escrito no passado, é História universal da infâmia, de Jorge Luís Borges. 

Eustáquio: Numa entrevista, você disse que a única esperança da humanidade está no gênero feminino, e que O silêncio é um romance feminista. Pode explicar melhor isso? 

Nêumanne: Quando eu estava escrevendo o livro, meu analista reclamou do fato de que todos os seus personagens eram calhordas. Lembrei-me, então, de uma figurinha deslumbrante, a Esmé do conto Para Esmé, com amor e sordidez, uma das Nove estórias, de J. D. Salinger. Ela aparecia num capítulo de meu projeto original, o tal do Enigma do vôo 160, mas não estava escalada na nova composição. Resolvi incluí-la. E à medida que ela foi evoluindo no livro, me foi revelando a obviedade de que as conquistas da mulher foram os dados mais positivos da minha geração: a pílula que lhe permitiu a posse do próprio corpo e os avanços sociais que lhe definiram um papel mais justo e digno na política e nos negócios. Sou um devoto admirador do gênero feminino, apesar de estar apaixonado agora por um homem, meu neto, Pedro, de 2 anjos, a quem o livro é dedicado. 

Eustáquio: O futuro do romance pertence a Borges, não a Joyce. É uma afirmação sua. Por que acredita que será assim? 

Nêumanne: Acho que Joyce aposta no impasse e Borges abre portas. Na verdade, como escritor sou mais joyciano que borgista. Quando comecei o livro, pensei adotar o “texto zero”, mas a complicação formal terminou se impondo, me fazendo constatar na prática que o português Lobo Antunes tem razão ao afirmar que o bom livro se impõe ao autor (tomara que o meu seja bom, mas isso quem vai saber é você). Como leitor, contudo, percebo que a literatura do futuro vai na direção daquela mistura bem-humorada de erudição e mentira que Borges fazia, muito mais do que a complexa erudição lingüística joyciana. 


 

     © Correio Popular de Campinas, 23 de dezembro de 2004 http://jornaldaparaiba.globo.com/sabado/index.html



   
   
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