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Nêumanne vive me surpreendendo. Quanto mais não fosse, pela sua extraordinária capacidade de escrever, e escrever bem, produzindo todos os dias artigos, editoriais, comentários. Muita coisa que, orgulhosamente, publicamos nas páginas do Imprensa Livre.
Demorei para ler o seu “O silêncio do delator”. Estava com a leitura atrasada, uma montanha de livros na fila e ele acabou ficando para o feriado de Corpus Christi.
Valeu a pena. Quem é da geração dos anos 60 vai se encontrar nas 544 páginas de “O silêncio do delator”. Nêumanne usa, se posso falar assim, a técnica de fragmentos. Quem narra é um morto muito simpático, mas muito crítico. Como diria uma moça que trabalhou aqui em casa, “tem de um tudo” no livro do Zé. Sobretudo, tem “Invasões bárbaras”, de Denys Arcand, um bocado de Bob Dylan, Beatles, filosofia política e análise sociológica.
No velório, Nêumanne reúne os "remanescentes dos anos 60". E ali, ele conta a história de uma geração, a sua geração.
"Vista aqui do caixão", diz "a voz do morto", narrador complementar e crítico do autor, "posta em contraste com os círculos espalhados pela sala [...] de viúvas de Elvis Presley e nostálgicos de John Lennon, de fãs de carteirinha de Mick Jagger e saudosos de Jim Morrison, ela tem um viço que salta aos olhos e atinge o plexo solar como um soco de Mike Tyson - nós, da geração de Cassius Marcellus Clay, ou melhor Muhammad Ali; nós, que vimos com um pouco de preconceito o filme de Hollywood com o trânsfuga Mikhail Barishnikov, meu outro xará russo, pensando que aquilo era sobretudo o desperdício de um talento, nós que gostávamos das tiras de Mafalda e Charlie Brown. Pois é: esse viço evidente, esse jeitinho de flor beijada pelo orvalho, esse ar de sereno de madrugada não combinam com este ambiente, nada têm a ver com a morte".
Insisto: vale a pena ler.
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