LITERATURA

                Hugo Pontes (*)

   


      
              O jornalista e poeta José Nêumane Pinto é natural da Paraíba. Antes do comentário sobre o autor, o romancista deve ser lembrado por sua participação no movimento do Poema/Processo, conduzido no final da década de 1960 e início dos anos de 1970 por Wlademir Dias-Pino. Nêumane, portanto, é parte do grupo que trabalhava a linguagem experimental no Brasil. 
               Seu trabalho esteve ligado a Arte Postal, quando usou o envelope e convidou os leitores “fazer o seu poema utilizando o envelope” como forma de o espectador participar e interferir na criação do texto.
              O envelope, assim como outros produtos enviados via Correios foram e são muito utilizados, ainda hoje em todo o mundo, para enviar poemas.
Situado, para mim, a origem literária de Nêumane, fica mais fácil entrar na obra “O Silêncio do Delator” e entender a sua linguagem; a sua postura como romancista-memorialista; a sua capacidade de explorar o branco do papel; a sua condição de narrador; de observador; de cronista conciso e do papel inovador que o seu livro traz para a Literatura Brasileira.
              Comentar O Silêncio do Delator tem sido tarefa de grandes nomes da crítica nacional e insistir com outro texto seria cometer redundância. Apenas como orientação para o leitor interessado, gostaria de enfocar que a obra mostra, em linguagem coloquial, todo o cotidiano de uma época cantada em prosa e verso por suas riquezas: social, política e econômica e também por ser um período em que - apesar de estarmos órfãos da democracia - lutávamos por uma causa justa, contra inúmeras injustas causas.
          A despeito desses anos, denominados “anos de chumbo”, o povo brasileiro unia-se em torno de um ideal comum: a liberdade.
         Todos que eram adolescentes nos anos de 1960, notadamente a geração de 1945, podem - no decorrer da leitura de “O Silêncio do Delator”- recordar momentos de uma época que jamais irá se apagar da memória e que jamais se repetirá. Isso porque foram momentos mágicos em que políticos progressistas acenavam com propostas de desenvolvimento social, político e econômico para o país. De uma hora para outra os brasileiros viram cerceadas a sua liberdade e as propostas de um futuro digno para todos. Era o início da pintura de um quadro negro, cuja imagem final estavam traduzidas em negros coturnos.
              E, naquilo que é possível avaliar, José Nêumane enfoca, com rara felicidade pois: “A História que sempre quis contar, e você me impediu, esta história tem vinte anos ou mais de vinte anos, tem, Oxalá, meio século, uma vida inteira, se é que há vidas inteiras” (JNP).
              A par de toda a estrutura narrativa, o romance tem a estrutura de uma peça teatral, cujo tema é o teatro real que o país viveu entre os anos de 1964 a 1984.
O romance, por sua estrutura e divisão em partes, pode ser lido como um livro de vinte e cinco contos e cada conto representa uma estação percorrida ao longo de toda uma era de encantamentos e decepções; de derrotas e vitórias; de música e ruídos; de esperança e indecisões; de Bossa Nova e Jovem Guarda, de Beatles e Rolling Stones; de Caetano e Chico Buarque; de Poema/Processo e Poemas Visuais; de TFP e Diretas Já; de 1964 e 1984... História, Literatura e Memória – tudo isso o livro encerra.

*Professor, poeta e jornalista

 

     © jornal Mantiqueira, página 1 do Caderno Variedades, 01.06.2005


   
   
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