O SILÊNCIO DO DELATOR

                José Alcides Pinto

   

 


               Achamos por bem transcrever, logo de saída, o trecho que segue, como inscrição ou advertência, ou o que mais for de O Silêncio do Delator (São Paulo, a Girafa Editora, 2004). Aqui, nestas breves palavras, está expresso o sentido do romance de José Nêumanne: Jornalismo literário? Na verdade, um romance pleno de conflitos e confissões, de vivências que se inscrevem, com muita propriedade, na História e na Memorialística: “Romance e inventário de amor e desamor, aventura e desventura, ilusões e desilusões, encantos e desencantos sobre sexo, política, drogas, moda, arte pop e rock and roll, em sete vozes que ressoam canções dos Beatles, Bob Dylan, Caetano Veloso, Belchior e mais “Um poema de Pedro Paulo de Sena Madureira”.

            José Nêumanne se propõe (e consegue) uma ruptura na linguagem, forma, estrutura, técnica da ficção tradicional. A profusão de elementos conflitantes que se digladiam tornou a obra polissêmica e substantiva. E é um desafio até mesmo para os leitores identificados com a modernidade literária da ficção de nossos dias. Mas como classificar O silêncio do delator, levando-se em consideração o realismo da narrativa? Tempestuoso, agressivo, prosaico, irônico, onde não falta nem mesmo um toque de permissividade, ao qual se juntam ambições políticas, delírios, frustrações, terror e medo desenhados num só painel, claro e confuso, pelos instintos humanos e pela angústia existencial de que nos falava Camus em suas conferências e ensaios críticos sobre o destino do homem e os mistérios da alma.

           A investida mais radical e audaciosa que tivemos na ficção, foi a do “noveau roman”, com Michel Butor, Alain Robbe-Griliet e Nathalie Sarraute. Não obstante, me parece que as experiências do autor solitário é o que mais conta, deixando de lado o modismo dos movimentos literários e das escolas. Nessa vertente podemos citar, entre pouquíssimos outros, Raduan Nassar, com seu belo romance Lavoura Arcaica. Mas esse é um autor raro, com uma obra sempre rara.

         O silêncio do delator é um livro que contesta, advoga, questiona problemas e princípios que nos tocam de perto nosso interesse pelo drama humano que levanta em nosso espírito. O que é a vida? O que é a morte? Serão duas coisas conjugadas? As duas faces da mesma moeda? O sim e o não, o que existe e o que não existe? Nesse sentido, seu romance deixa de ser direto, objetivo, linear, e ganha foros de profundidade, por vezes de natureza metafísica nas relembranças que ocorrem à memória.

           Estamos, queiramos ou não, atrelados ao caos que a todos atinge: pelo pecado, pelas circunstâncias, talvez pelo destino. São mais ou menos estes os temas, os assuntos mais dramáticos, das histórias deste romance em que há um pouco de tudo: assédio, vício, delicadeza, ironia, heroísmo e amor. É este um livro de intertextos que se aproximam da realidade vivida pela inquietude do dia-a-dia. Essa inquietude e essa avalanche nos toma de súbito como um furacão e nos atira ao nada que somos e subverte a ordem natural das coisas em seu clima quase profético.

            Mas nem tudo está perdido, fica em algumas passagens um saldo positivo na esperança e na alegria que apesar de tudo José Nêumanne passa virtuosamente para seus leitores. As fantasias não desertaram de todo do espectro do livro. O poeta, o bom poeta que ele é, frui e refrui na maré de bons augúrios. Assim também se apresenta sua ficção em toda a grandeza de seus lances ambíguos, desconcertantes e dramáticos.

           O silêncio do delator é um texto feliz, rico pela sutil plasticidade da linguagem, estilo muito pessoal do autor, de que se nutre em sua escritura em seus recursos éticos e estéticos sob os vários aspectos de sua criatividade. E por esses atributos José Nêumanne nos liberta das convenções sociais, das limitações e costumes que a tradição e a sociedade nos legou. Fica-nos, ainda, a lição de que o homem nunca é demais e que em qualquer parte é um pedaço do chão, e nunca perde sua identidade nem seu sentimento, pois a ele está confiado o destino do homem.

            Desse acerto e ambivalência é feita a natureza dos personagens de Nêumanne. O silêncio do delator por vezes lembra uma tese. Tem algo de profético na ordem e na desordem que regem os conflitos humanos. Não podemos dizer que ele se aproxima de Lins do Rego ou Graciliano Ramos, por exemplo, para citar apenas dois de nossos grandes escritores da atualidade. Não é um texto de natureza psicológica nem introspec-tiva. Podia lembrar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (o morto contando sua história) mas está tão distante deste como Canópus da Terra. Não há a menor aproximação. Tampouco se identifica com “Primo Basílio”, que Machado quase o copia por inteiro.

           A linguagem de Nêumanne é realista e direta. Um pouco de Lima Barreto, talvez de Cony, permeie sua obra. Cony é um profissional de imprensa e um grande escritor, ligado a pesquisa histórica e ao jornalismo. A experiência dos dois na literatura tira resultados os mais surpreendentes.

            Estamos chegando às últimas páginas do livro de Nêumanne. Atrás deixamos os movimentos de vanguarda na canção, os acontecimentos históricos mais marcantes e até mesmo os corriqueiros ditados pela voz do morto. Sua glória! Tudo e todos fazem parte do mural da vida.

            “Boa noite”. E foda-se. Nêumanne não tem a quem prestar contas e nem dar satisfações a ninguém. A voz do morto e sua “glória” é uma seqüência de significados significantes. A ironia aquece, neste romance agônico, o perfil do morto e sua visão onírica: “Liga não, mãe. Eu só morri.”

           Aqui temos a chave do livro, o disfarce, o enigma do texto. No capítulo que fecha esta obra de prêmio, o autor sai invicto e inteiro. Não resistimos a tentação de transcrever o que se segue:

            “Caía esse último dia, mas todos os presente viram muito bem o fulgor boreal da pele branca da moça, que se despiu rapidamente, jogando blusa, saia, sapatos e meias na grama. Quando tirou a calcinha preta e a lançou sobre o caixão meio coberto de terra, seus pêlos púbicos refletiram os últimos raios do sol, o fulgor rubro do dia extinto. Fazia-se tarde. Era o fim.”

            Ao longo do texto Nêumanne dialoga com os clássicos e os filósofos. E desse diálogo que é também de todos nós, fica a lembrança do tempo que elabora a vida de nosso cotidiano, nosso trabalho e nossos anseios de felicidade. A vitória é a “Escada de Jacó”, tristeza e dor de que nos fala Fagundes Varela em seu imortal poema. E a vitória não será outra senão o paroxismo das inúmeras vertentes do livro. Que caminho tomar agora? Como meditar sobre o sonho e a realidade? Tudo nesse livro se soma à inevitabilidade que nos atira ao encontro do nada.

            O epílogo é um pôr de sol de ouro, momento eterno e divino, que desperta o sono de Eros e a virilidade dos deuses.



 

     © Diário do Nordeste, Especial para o Caderno 3, Fortaleza, 19 de março de 2005 


   
   
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