ANOTAÇÕES DE LEITURA

                Nei Leandro de Castro

   



            No Brasil, os últimos dez anos não têm sido marcados por grandes lançamentos literários. Nossos romancistas consagrados não estiveram à altura de suas obras anteriores. Rubem Fonseca continuou escrevendo primorosos contos (primorosos até quando trata de temas escatológicos) e parece que deixou de lado seus planos de romance. Ultimamente, por onde anda Milton Hatoum, o excelente autor amazonense de “Relato de um certo Oriente” e “Dois Irmãos”? Faz tempo que não escreve. João Ubaldo Ribeiro, em “A Casa dos Budas Ditosos”, pôs na boca de uma velha senhora – epa! – uma narrativa de causar chiliques em todos os congregados marianos do mundo. O mérito principal desse romance é o seu erotismo deslavado, sem comedimento, sem meias palavras, o que não é tradição na literatura brasileira. A regra estabelecida no país tem sido condenar por pornografia, escantear, não incluir na Idade Mídia, autores de poesia ou prosa com forte traço de erotismo. 


            Há pouco mais de dez anos, Chico Buarque estreava como romancista. Nossa! Seja dito o óbvio: Chico é um grande compositor. Muitas vezes, ultrapassa a condição de letrista e é, mesmo, um poeta. Suas canções serão cantadas pelo tempo afora, como as de Noel Rosa. O que nunca consegui entender foram as escapulidas do compositor pelos terrenos baldios da literatura, particularmente do romance. A primeiro experiência dele, “Estorvo” (1991), não foi promissora. Nem houve autocrítica, porque depois viria “Benjamin”, com o mesmo grau de dificuldade de leitura, com as mesmas falhas de narrativa. Como aprendiz de romancista, Chico causa perdas e danos principalmente a ele mesmo, à medida que larga as suas letras, a sua música, a sua poesia, e se enfurna para escrever mais uma obra não digna de sua extraordinária criatividade. Se “Budapeste” é um bom romance, não sei nem vou procurar saber. Prefiro continuar ouvindo obras-primas da MPB, como “Roda-viva”, “Vai trabalhar, vagabundo”, “Morena de Angola”, “Partido alto”, “Sabiá” e “Retrato em preto e branco” (com Tom Jobim) e tantas outras canções que têm a marca de um dos mais férteis e talentosos compositores brasileiros de todos os tempos. 


            De repente, não mais que de repente, surge um romance para sacudir a modorra, balançar o coreto, impor-se nessa entressafra como um grande acontecimento. Quem ainda não leu “O Silêncio do Delator”, de José Neumanne (editora A Girafa), largue tudo e vá comprar o seu exemplar na livraria mais próxima. Trata-se de um livro de leitura indispensável a todos aqueles que queiram conhecer os anos 60, ou voltar àquela época, e ver/rever de um ângulo privilegiado o que ocorreu de importante – na música, na literatura, na política brasileira, na política mundial – de lá até os dias atuais. É um romance ambicioso (no bom sentido), criativo, inteligente e, como se não bastasse, de uma leitura agradabilíssima. 

           A ação do “Silêncio do Delator” gira em torno de um velório. Sete vozes, inclusive a voz do morto, conduzem a ação por evocações que levam a tramas, paixões, amores frustrados, militância política, intenso erotismo, enganos e desenganos, tudo sublinhado pelas músicas de Bob Dylan e dos Beatles. Esse livro nos dá a impressão de ser resultado de anotações diárias, desde o início dos anos 60 até hoje. A massa de informações é compacta, impressiona. Às vezes, o autor se vale da auto-ironia, quando julga que está carregando nas tintas da erudição ou se desviando para um estilo pomposo. Esse romance, que surge como um dos mais criativos e bem escritos no Brasil, nos últimos dez anos, é um grande prazer de leitura ao longo de suas 541 páginas, divididas em 26 capítulos. Resta torcer para que José Nêumanne volte a ousar, volte a nos dar outros romances como esse. 


 

   
© Tribuna do Norte. Rio Grande do Norte, sexta-feira, 02 de fevereiro de 2005. 


   
   
    Fale com Nêumanne