O SILÊNCIO DO DELATOR, DE JOSÉ NÊUMANNE PINTO, RECEBE O PRÊMIO SENADOR JOSÉ ERMÍRIO DE MORAIS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS 

                                 
Betty Vidigal


         Quando éramos crianças, queríamos ouvir a mesma estória dezenas de vezes. O Silêncio do Delator, de José Nêumanne Pinto, traz de volta ao leitor adulto aquele delicioso impulso de iniciar a releitura assim que chega ao surpreendente final. 
Inclusive porque, durante aquelas 541 páginas, tornamo-nos tão íntimos dos personagens que é preciso, mesmo, ler tudo de novo – agora sabendo desde o começo quem é quem. Ora, poderia alguém argumentar, todo livro é assim: os personagens são apresentados aos poucos. 
         O.k., mas aqui é diferente. Aqui eles não nos chegam à medida que o enredo se desenvolve, cronologicamente. Não: João Miguel, o protagonista, está morto desde a abertura da estória, e o criador desse enredo conhece tão bem os que comparecem ao velório que não se preocupa em explicá-los ao leitor: deixa que vivam, simplesmente. 
        É devagar que tomamos contato com os integrantes da “patota dos sovacões solidários do recruta Pepé”, título do primeiro capítulo do livro. Rings a bell? Claro: o nome do grupo de amigos de João Miguel foi criado après o título do álbum mais marcante dos Beatles, Sargent Pepper’s Lonely Heart’s Club Band. Penélope e Helena, respectivamente esposa e paixão de adolescência de João Miguel, contracenam, no velório e durante a vida do protagonista, com seus amigos e parentes. Se os nomes dessas duas mulheres soam arquetípicos e familiares, não é, evidentemente, por acaso.        Referências de toda espécie cruzam-se ao longo do relato, com tanta naturalidade que de vez em quando o leitor perde o fôlego. De verdade. 
       Com encantadora desfaçatez, Nêumanne permite-se o luxo de não ceder à tentação de uma única nota de rodapé, uma única explicação inserida no texto. Foge a qualquer didatismo. Ousando uma metáfora, eu diria que ele nos atira referências como um folião que, no Carnaval, jogasse confetes sem se preocupar com quantos deles vão cair dentro do decote da Colombina. Sabe que logo depois virá alguém que reunirá do chão os que se perderam, para jogá-los outra vez para a multidão. 
               Ainda metaforando, penso que o leitor sente-se como quem, deitado no alto de uma montanha em noite sem nuvens, vê milhares de estrelas, mas sabe que por trás delas há milhões de outras que ele não consegue ver. Quem terá identificado todas as referências do Zé Nêumanne? Tão sutilmente tecidas no texto, tão parte dele. Tão despreocupado o autor em parecer erudito ou ilustrado. Nem quando cita clássicos consagrados, nem quando brinca com a cultura popular. 
            Não resisto a um exemplo: logo no início, na página 19, ao descrever a brincadeira erótica de um casal de adolescentes no cinema – o “fluxo de consciência” do personagem Marlon – Zé Nêumanne salpica pelo texto, intercaladas, as frases: “Que maravilha estar aqui...”, “É, na certa, uma aventura...”, “Que bela platéia formam vocês...” “Nós gostaríamos de levá-los para casa...”, “Eu não gostaria de parar o espetáculo...”,“Mas eu pensei que vocês gostariam de saber que o cantor vai cantar uma canção e ele quer que vocês todos a cantem com ele...”, “Então deixem eu lhes apresentar o único e singular Billy Shears e a Banda dos corações solitários do sargento Pimenta...”. 
            Estas frases, no romance, não aparecem entre aspas, como estão aqui. Será pretensão minha acreditar que só quem foi jovem na década de 1965 a 1975 identificará, oculta (ou explícita?) no texto, a letra da música de abertura do álbum Sargent Pepper’s, dos Beatles? 
It's wonderful to be here / It's certainly a thrill / You're such a lovely audience / We'd like to take you home with us / We'd love to take you home/ I don't really want to stop the show / But I thought you might like to know / that the singer’s gonna sing a song / And he wants you all the sing along / So may I introduce to you / The one and only Billy Shears / Sgt. Pepper's Lonely Heart's Club Band. 
           Mas, no romance, tudo isso vem entretecido com os fios da descrição das sensações de Marlon e Carmem, enquanto, poucas fileiras à frente, João Miguel assiste embevecido a “Morangos Silvestres”, talvez o filme mais cultuado pelos jovens, naqueles anos. E tudo se ajusta, no texto, perfeitamente; o ritmo flui sem que as citações pareçam interromper a narrativa. O cinema continua a se fazer presente, passando por “Retratos da Vida”, de Lelouch, na década de 1980, que perpetuou o inacreditável bailado de Jorge Donn para o Bolero de Ravel e chegando aos dias de hoje, às “Invasões Bárbaras”. 
          Os títulos dos capítulos de O Silêncio do Delator alternam traduções de títulos das canções do álbum dos Beatles com as de Bringing it All Back Home, de Bob Dylan. Assim, o segundo capítulo chama-se “Trazendo tudo de volta para casa”. Outros têm nomes como “Com uma mãozinha dos meus amigos”, “Lúcia no céu com diamantes”, “A fazenda de Maggie” ou ainda “Em benefício do seu Quites”. Não há como não se divertir com essas traduções. O capítulo “Ela está saindo de casa” conta a juventude dos pais de Penélope usando, de ponta a ponta, a letra de She’s Leaving Home. Uns poucos capítulos fogem ao padrão, como “Para Esmé, com prazer e picardia” – que remete a Salinger, To Esmé – with Love and Squalor. Esmé, na estória, é filha de Elsa, o grande amor de João Miguel. 
          Pergunto-me quanta coragem terá sido necessária para retratar com músicas e livros em inglês essa geração de brasileiros que enfrentou a ditadura militar. Será que Nêumanne não teve medo dos resquícios do “patrulhamento ideológico” que atazanava os jovens naqueles anos, ostracizando quem declarasse amar os Beatles e os Rolling Stones e impondo que fossem amados somente Vandré e Caetano, Chico e Gil? 
           Mas Caetano não ficou fora da estrutura do romance: se os capítulos têm nomes de canções de Dylan e dos Beatles, as vozes que se alternam narrando a história foram retiradas de uma canção dele, “A Voz do Morro”. Assim, os versos da estrofe “A voz do morto/ Os pés do torto/ O cais do porto/ A vez do louco/ A paz do mundo/ Na Glória!” identificam as falas do protagonista, os relatos de suas transgressões e das dos amigos, as histórias paralelas, as passagens do personagem Coelho pela trajetória da patota, iniciando-os no pop rock, nas drogas e na política. E “Na Glória” conta o que se passa durante o velório, a sucessão de amigos chegando, cada um com a vida que desenvolveu durante as últimas décadas: o cantor de rock, o político, o publicitário, o mendigo. E o duelo silencioso entre a mãe e a esposa do morto. 
           O título do livro foi retirado de dois versos de um poema de Pedro Paulo de Sena Madureira, Inventário, dedicado a José Nêumanne e que está, na íntegra, no final do volume: “O silêncio é privilégio / de quem delata.”. Cada capítulo se encerra com uma estrofe desse poema.
          O Silêncio do Delator recebeu o prêmio Senador José Ermírio de Moraes, concedido pela Academia Brasileira de Letras para o livro mais importante entre os publicados no ano anterior ao da outorga. Merece uma nova edição comentada, com notas de rodapé, índice remissivo e analítico. É um livro para que as próximas gerações saibam quem somos e como éramos.
         O final traz duas surpresas, inquietantes e divertidas. Só lendo.

 


   

 

   
   
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