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José Neumanne? Jornalista? Escritor? Sim – as duas coisas. Quem não o conhece?
Ele é talvez o único cara que eu conheço que realmente encarnou o lema de Guevara: "endurecer sem perder a ternura". Nele, esse lema, que virou até piada em outros lugares, se manteve como algo sério – seríssimo. Talvez Neumanne seja o único jornalista que conheço pessoalmente que se manteve como um guerrilheiro e um poeta ao
mesmo tempo. Isso já não diz muito?
Neumanne é um democrata. Como todo democrata, para a esquerda brasileira ele era um cara de direita. Para a direita, uma pedra no sapato – grande! Mas para um cara como eu, ele é um amigo – uma das poucas pessoas que veio para a minha vida e, como amigo, é amigo mesmo.
O que é ser amigo?
Entre alguns orientandos tive um que comia em casa e que me traiu na hora H. Dizia ser amigo. Entre todos os orientandos que ajudei para valer, aquele que me traiu era o que mais ajudei. É claro que tive outros pouco agradecidos. Mas aquele era um pequeno escorpião. Qual era o real defeito dele? Era medíocre. Nunca seria nada além de professorzinho da Unesp. Tem coisa pior?
Quem tem algum valor não deve ser relacionar com medíocres – eles mordem na calada da noite. Por isso, me relaciono com Neumanne. Ele é brilhante. Então, mesmo que não tivesse a boa índole e o bom caráter que tem, seria justo na amizade. Quando alguém é brilhante, sua estrela lhe dá satisfação o suficiente para que ele nunca pense em morder um amigo. É uma regra, aprendam isso.
Neumanne tem um coração grande. E uma arguta capacidade intelectual que lhe empurra para ser corajoso. Sei bem o que é isso. Sei bem o sentimento de quem tem a pena ágil (agora, a digitação ágil) e que se vê na condição de vingador do mundo. Esse tipo de gente, sendo corajoso ou não, acaba por levar adiante atos de coragem. Neumanne leva a frente o seu ato de coragem: ele se colocou como cavaleiro solitário que desafia o mundo dos corruptos e perigosos.
Neumanne, agora, está mais pessimista. Ele acha que o jornalismo (e a atividade de escrever em geral) confere poder e ao mesmo tempo é uma declarada impotência. Para ele, o grande jornalista ou escritor é ouvido por todos e, ao mesmo tempo, não muda nada. Isso é o que o meu amigo que está contra o mundo concluiu. Ele sente isso na pele. Sinto isso que ele sente, em um outro nível, dado que escrevo para um público um pouco diferente do dele e minha carreira de escritor ainda tem um pé nos que se preocupam com afazeres acadêmicos, embora eu mesmo já não seja mais professor. (Como já disse em outro lugar, precisei deixar de ser professor para ser filósofo – algo estranho, que só acontece no Brasil).
Tudo isso que eu disse é não só para contar das minhas relações com o Neumanne. É para que ninguém venha colocar picuinha onde não há. Pois vou escrever abaixo, aqui, alguns pontos de discordância (e concordância) com o o Neumanne, quanto ao artigo dele na Revista Pronto! ( www.revistapronto.com.br ), com o título "Wikipedia e o primado da versão". A idéia básica dele é a de que o mundo que inaugurou o Wikipedia, o da Internet, prima pela versão, talvez não pelo fato. Ora, para filósofos como eu, seguidores do pragmatismo americano, versão é a única coisa que temos. Por isso mesmo podemos dar valor a Neumanne, o homem das versões que fustigam os que querem mandar em todos nós. Bem, mas essa questão filosófica pode ficar suspensa? De certo modo, sim. Posso concordar com ele em um nível, como já concordei com Alberto Tosi Rodrigues, no passado, quando ele mostrou os alunos que não sabiam colocar uma referência bibliográfica real, pois acreditavam que podiam pegar textos apócrifos da Internet. De fato, por esse ângulo, temos realmente de combater gente que descaracteriza a função do autor, a responsabilidade do autor. Todavia, a Wikipedia não é dona da NET e muitos menos as teorias "desconstrucionistas" são favoráveis, ao falarem em "morte do autor", à eliminação das responsabilidades que todos possuem ao escrever, ler e citar. E nisso, acho que Neumanne coloca no mesmo saco um bocado de "des", que são realmente uma droga, junto com "desconstrução", que é uma noção filosófica e que agora já está no âmbito comum, e que é válida.
Desconstruir não é destruir ou desfazer. Desconstruir tem a ver com ler de um modo que o próprio autor não autorizaria. Tudo que fazemos na leitura de textos, segundo a escola convencional de aprendiz de leitor, é tentar pegar a "essência do que o autor diz". Os desconstrucionistas, popularmente falando, quiseram mostrar que uma boa leitura não é necessariamente aquela que busca "o essencial do texto". Talvez o essencial do texto não exista! Talvez não exista a "chave de leitura" de um texto. Uma boa leitura pode ser, também, aquela que parte do princípio de que o texto pode ser lido nas fronteiras de uma racionalidade que o autor dele jamais admitiria. Isso levou os filósofos e teóricos da desconstrução a pegarem Foucault, um cara próximo, pelo calcanhar. Como? Eu explico abaixo.
Foucault, contra Derrida, disse que tínhamos de antes de olhar o texto, ver o local do texto. Foucault não fez como alguns marxistas acreditam que ele fez: ele não disse que para ler um texto é necessário trazer junto o contexto. Isso é uma bobagem de marxista tolo. Como trazer junto o contexto com o texto? Quase impossível. Texto e contexto são o mesmo, em muitos momentos. Pois como ficamos sabendo do contexto senão por aquilo que também é texto? Portanto, o que temos é texto com texto, e não texto com contexto (onde aqui o contexto estaria "dado", sem texto!). Foucault, portanto, não queria "contextualizar" textos para lhes dar significação. Ele queria mostrar que muitos textos têm penetração por causa de que eles são emitidos a partir determinados locais e espaços que de antemão encarnam o poder. Quem assistiu "Being There" (Muito além do jardim) sabe do que estou falando. O filme, grosseiramente, pode ser resumido no seguinte: um jardineiro débil mental foi ouvido por todos, inclusive citado pelo Presidente dos Estados Unidos, na medida em que um capitão de empresas muito rico o apresentou ao Presidente e conferiu ao débil mental alguma sabedoria. Era exatamente isso que Foucault queria mostrar: engolimos bobagens escritas e faladas exatamente por causa de que elas são faladas a partir de uma boca que tem autoridade.
Mas não é aqui o lugar de falar de onde veio a autoridade. Aqui, quero mostrar que os desconstrucionistas quiseram propor algo diferente do que Foucault propôs. Em vez de olhar para o local de poder que emite o que lemos, que tal ficarmos somente no texto, sem os outros textos que dão o contexto, e deliberadamente montarmos um outro texto, talvez aleatório mesmo, com o que temos no texto original? Que tal des-construirmos o texto? Um dos melhores exemplos disso foi o que Derrida fez com a obra de Lévi-Strauss.
O antropólogo não queria mostrar que Rousseau estava certo. Queria apenas mostrar quem era o nativo, o índio brasileiro que ele analisou, queria mostrar as estruturas lingüísticas e, digamos assim, humanas do homem. Mas Derrida pegou a obra de Lévi-Strauss e a desconstruiu. Que ele fez? Por exemplo, ele pegou o caso em que o antropólogo, aqui no Brasil, contou, a respeito de um truque usado por um chefe indígena. A história é célebre. Um chefe indígena recebeu vários presentes dos brancos. Os presentes seriam dados para todos na tribo. No entanto, o chefe indígena fingiu que havia uma lista para a entrega dos presentes. Então, com um papel na mão, foi "lendo" os nomes dos seus comandados e foi entregando os presentes para eles. Com esse truque, ficou ele mesmo com os melhores presentes. Ora, Derrida não foi pela leitura comum. Qual seria a leitura comum? A que seguia a pista do antropólogo: os índios, ao tomarem contato com a cultura, a usaram como ela é, ou seja, um engodo. A escrita foi tomada como uma forma de enganar o outro. E a escrita, sendo do âmbito da cultura, seria exatamente o instrumento de corrupção do homem natural. No fundo, a base filosófica de Lévi Strauss era a frase de Rousseau: "o homem é naturalmente bom, a sociedade o corrompe". Derrida desconstruiu isso na medida em que deixou de lado o caminho (tradicional) do texto, que era o de alimentar a antropologia, e o reconstruiu como um texto a favor de uma tese ocidental, vinda já de Platão, de privilégio da leitura sobre a escrita, pois essa última seria sempre enganadora. Com isso, Derrida mostrou (entre várias outras coisas) a filiação da antropologia de Lévi-Strauss a um eixo que não seria seu fio tradicional, o de ser uma doutrina tão ocidental e ocidentalizante quanto qualquer outra que poderia ter sido criticada pelo antropólogo. Essa "técnica" de Derrida é que deveria ser corretamente vista como "desconstrução". Ela não está tão distante do que o pragmatismo de Richard Rorty propõe muitas vezes como instrumento de leitura.
Então, nesse sentido, a desconstrução não deve ser vista como um "desbunde", um ato de irresponsabilidade. Ao contrário, por invocar a imaginação, é um ato de suprema responsabilidade. Quem imagina é exatamente quem é cobrado pelo que imaginou, mais do quem copia de outros.
Quanto mais sabemos que há versões, e não fatos – como declarou Nietzsche – , e quanto mais entendemos que tal frase é auto-refutante (que ela faz sentido mesmo ferindo a lógica), mais temos a responsabilidade de criar melhores versões. Então, é neste ponto que surge a pergunta: mas se não temos "o fato" para comparar com "as versões", como podemos falar em melhor e pior versão? Simples: temos de criar o critério a cada versão. Temos de inventar cada critério. Então, dupla responsabilidade!
Neumanne, em uma palestra no Colégio Sabin, em São Paulo, deu o seguinte exemplo – a meu ver escorregadio – de como ele resolve o problema das versões. Ele pegou um bocado de versões sobre o local em que Stalin pronunciou determinada frase, e não conseguia saber corretamente onde ela fora pronunciada. Tudo que vinha do Google ele acabava vendo como conflitante como outra coisa que vinha do Google ou de outros mecanismos de informação. Então, ele largou a NET e foi consultar uma enciclopédia antiga, "confiável", que seria "o livro". Aí estaria o fato – a verdade. É estranho que não tenha ocorrido ao Neumanne a seguinte questão: mas o que garante que a Enciclopédia em livro traga o fato? Ah, posso dizer, ela tem autor, tem o cara que é responsável, enquanto que a NET não. E tendo autor, ao menos poderemos dizer, se errarmos, que o autor se enganou ou mentiu. Ora, mas a NET possui versões de enciclopédias que estiveram em livros e a NET possui enciclopédia até melhores já construídas em seu interior por grupos de bons schollars. A Wikipedia é apenas uma pobre sugestão da NET, e o Google apenas um mecanismo de busca.
O que quero dizer é que Neumanne, ele próprio jornalista, não se deu conta do poder que ele tem. Ele tem o poder de fazer a verdade . Nietzsche, justamente o homem que disse que "tudo é interpretação", condenava o jornal. Ele dizia que o jornal é mentiroso por princípio. A matemática das páginas mostraria isso: o jornal tem sempre mais ou menos o mesmo número de páginas, e isso pressuporia o mesmo número de fatos diários acontecendo, o que seria improvável. No tempo de Nietzsche, essa fala brincalhona era bem menos brincalhona, uma vez que o jornal factual era uma regra, sendo que o texto literário vinha em folhetins, revistas ou já discriminados, no próprio jornal, como "literatura" e não como "notícia".
O que quero dizer é que Neumanne, ao se colocar contra o mundo, como vingador solitário, acabou não percebendo que a impotência aparente dele é, na verdade, talvez fruto da sua extrema potência. Ele imagina que fala de fatos, e que embora seja ouvido por todos, as opiniões não mudam e o mundo não muda. Mas não é assim. Ele é ouvido por todos, mas todos já sabem, ao menos intuitivamente, que ele, Neumanne, não está falando de fatos, pois fatos não existem, o que existem são versões. Então, o público já sabe que Neumanne é um grande, talvez o maior, criador de verdades. Como todo bom escritor, como todo bom jornalista, ele inventa. Ele não mente, mas inventa.
Duvidam? Olha, acreditamos no Livro Sagrado, a Bíblia, não? Muitos acreditam. Muitos acreditam mesmo sendo filósofos e teólogos e, enfim, sabendo que todo o Livro Sagrado é, na sua maior parte, apócrifo. Fulano contou para outro que contou para outro. Não estoau falando do Velho Testamento. Estou falando do Novo, que se pretende histórico. Assim é a Bíblia. E mesmo sob a égide do não factual, ainda assim, é o Livro da Verdade. Então, a própria educação popular não desconhece isso que Nietzsche nos contou, a de que não há fatos, só interpretações. Pois o livro de maior crédito já é um conjunto de versões, a maioria sem autor conhecido. Assim, o público sabe bem que Neumanne está criando verdades. O público popular do Neumanne não é deseducado a ponto de não saber (em certo sentido) que há muitas coisas nas quais botamos fé e que, no entanto, são o pico da montanha de "meras versões". Ou seja, nem toda "mera versão" deve ser lida como "mera". Aprendemos, já com a leitura da Bíblia (ou seja, com a educação popular "mínima"), que há versões que valem a pena serem consideradas como válidas.
Estou dizendo que Neumanne, ao criar verdades, está mentindo? Não! Estou dizendo que ele, ao criar verdades, está criando verdades. Ou seja, ele está fazendo uma versão. A verdade é mais ou menos isso: a versão que com critérios socializados, podemos confiar, segundo nossos interesses. Confiar em uma versão depende de muitas coisas. Acreditar que temos de mover algo no mundo hoje e não amanhã por causa do que ficamos sabendo pela leitura daquela versão, então, isso é bem diferente. Em determinados momentos, a versão do que Neumanne conta é levada em consideração imediatamente. Outras vezes, é somada a outras versões, até que cria uma "opinião coletiva", dependendo ou não de como o próprio Neumanne e outros apostam na versão e a alimentam com novos elementos e novos critérios de julgamentos. Neumanne tem muito mais poder efetivo do que imagina.
Todavia, o que Neumanne quer é impossível. Ele quer contar para todos o que todos, de certa maneira, já sabem, e quer que as pessoas façam algo: Lula é o chefe dos mensaleiros e pode estar acobertando uma ligação do crime organizado com o PT. Ora, essa é uma versão que todos que viveram 2005 possuem condições intelectuais e morais de vir a acreditar. (Eu sei de muitas pessoas que resolveram bancar os falsos ursos, fingiram que hibernaram no ano de 2005 e que só acordaram agora). No entanto, qual a utilidade dessa informação que Neumanne quer passar, agora? Ora, para o leitor que é eleitor, que é quem Neumanne quer atingir, nenhuma. Pois o eleitor não tem o que fazer com tal informação – não nesse momento. Ele, eleitor, pode "votar útil" contra Lula? Mas que bobagem! O eleitor está vendo que ele não perdeu o emprego, que o poder de compra dele não diminuiu, então, ele pondera que talvez não venha a ser a hora de não votar no Lula. O eleitor, inclusive, faz a dobradinha esperada: "Lula lá, Serra aqui". O eleitor, pressionado pelo tal "dever cívico de votar" (que eu não tenho, pois meu civismo é mais democrático) vai votar, vai escolher alguém. Qual a razão dele escolher quem está escolhendo? Ele vota no mais conhecido. Ele já viu Lula, já viu Serra. Então, ele vota.
Mais conhecido? Sim, é desse modo que o eleitor vota, principalmente no Terceiro Mundo. Pelé, Maradona, Fidel Castro, Silvio Santos, Bush – essas são as figuras que teriam voto no Brasil todo, pois seus nomes e seus rostos chegam até no interior do Acre. Ganhar uma eleição depende de sair já, no começo da campanha, com o rosto conhecido. Pois o mais difícil em um país como o Brasil é ter voto bem distribuído no Brasil todo, o que garante de fato a eleição. Lula e Neumanne sabem disso. Mas Lula aproveitou disso. Neumanne, no entanto, não se conforma, e atribui a si próprio um fracasso que ele não teve e não tem. Isso só vai lhe dar úlcera, por enquanto. Vocês verão mais tarde.
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